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A montanha dentro de cada um

1 de outubro de 2015

Por essas coisas da vida, aos 21 anos eu estava morando na Argentina, num povoadinho nos Andes com apenas 40 habitantes a 2.000 metros de altura chamado Piedras Blancas, em Mendoza, rodeado pelo Cordón del Plata, uma série de montanhas entre 4 e 5 mil metros.

Foi ali que me apaixonei irreversivelmente pelo montanhismo.

Não sei até hoje definir se é um esporte ou uma obsessão.

Como muitos dizem por ali: “não precisa ser divertido para ser divertido”

É radical, perigoso e doloroso, subir montanhas beira o inexplicável.

A convivência com profissionais de alta montanha também me ensinou muito, e até hoje guardo lições e histórias valiosas de valor, sangue frio em situações de vida ou morte, resiliência extrema e capacidade de sobrevivência.

Mais de 15 anos se passaram e, em 2007, voltei aos Andes para executar um projeto que ficou guardado daquela época: minha vez de escalar o Aconcágua. Seguindo o caminho dos que me inspiraram, em busca de um desafio único e pessoal.

Com 6,962 metros de altura, o Aconcágua é também a montanha mais alta fora da Ásia, e costuma ser preparativo para quem quer encarar o famoso e temido Everest.

Na época escrevi um diário da jornada de 30 dias (leia aqui http://aconcagua2007.blogspot.com.br/) que resultou no cume em 4 de janeiro de 2007. Ufa!

Desde esta experiência, eu penso muito no montanhismo como referência em empreendedorismo radical, do “tudo ou nada”. Até hoje tenho insights de autoconhecimento, disciplina, resistência e inspira o meu trabalho de equipe.

O montanhismo está agora em evidência no filme Everest, que relata a tragédia de 1996 no Nepal, quando morreram oito montanhistas na escalada de 8.848 metros de altura, entre eles alguns dos mais bem preparados do mundo. Fui ao cinema esta semana e saí de lá emocionado.

Hoje minhas dicas de empreendedorismo são inspiradas na alta montanha, no ar rarefeito e seus desafios:

PREPARO E PLANEJAMENTO – Muito se fala da sorte, mas eu também acredito que a sorte ajuda a quem trabalha e se prepara. Antes de enfrentar o Aconcágua, fiz um ano de preparo físico (em segredo, para evitar pressões desnecessárias) para a escalada. Foi um projeto de longo prazo e o principal desafio foi não perder o foco. E foi preciso planejar cada detalhe.

FERRAMENTAS – Para enfrentar uma aventura radical e extrema , devemos estudar o uso e encontrar as melhores ferramentas possíveis. No caso de alta montanha, com temperaturas abaixo de 40 graus negativos na noite, são roupas leves, mas de extrema qualidade, botas com proteção térmica, por exemplo.

TRABALHO EM EQUIPE – Seja pela necessidade de sobrevivência em situações extremas, onde todos dependemos muito uns dos outros, seja pelo objetivo em comum de alcançar o cume, a “química” da equipe é fundamental para o sucesso. Uma equipe desunida certamente reduz muito as já poucas chances de alguns chegarem.

ACEITAR A DERROTA – Atenção: nem todos chegam lá. Cada um vai ter um momento da verdade e vai, eventualmente, precisar encarar a sua limitação física ou emocional, e eventualmente desistir do cume mesmo quase chegando lá. No caso do Aconcágua, apenas 30% dos montanhistas chegam no cume. Algumas vezes por fatores alheios à pessoa, como tempestades ou ventos fortes, nevascas. Aceitar voltar para casa, estando “quase lá”, é algo para poucos.

RESILIÊNCIA – CAPACIDADE DE SUPORTAR CONDIÇÕES HOSTIS – Requisito básico em aventuras extremas e nos negócios. O sucesso daquilo que realmente vale a pena e que tem valor, nunca será sem esforço, muito esforço! Em inglês uma frase dia: “no pain, no gain” (sem dor, sem ganho)

CAPACIDADE DE TOMAR DECISÕES RÁPIDAS – A jornada é feita de muitos dias subindo e subindo, passo a passo. Mas é preciso estar atento ao caminho, cheio de armadilhas e riscos. E de imprevistos. Sempre há coisas que desafiam o planejamento.

O AR RAREFEITO É PARA POUCOS – Acima de 5 mil metros o aproveitamento de oxigênio é de 50% e tudo fica muito, muito mais difícil. A cada metro de subida a coisa fica pior. A radiação ultravioleta cresce 4% a cada 300 metros de altura. Não é um lugar para ficar. O negócio é subir e descer rápido, aproveitar a janela de oportunidade e sair antes de morrer.

A CHEGADA AO PICO É APENAS METADE DA JORNADA – Sim, meu amigo, é preciso descer vivo. É preciso sempre guardar um pouco de energia para o retorno, que geralmente é muito mais perigoso (o maior número de mortes acontece no retorno), devido ao cansaço, à desorientação causada pelo pouco oxigênio, à desidratação e ao frio.

Assim também é quando se encara a escalada de um negócio: atingir o sucesso, o cume, é apenas uma parte da jornada. Mantê-lo é outra metade do caminho.

Ivan Primo Bornes – acredita que é importante chegar lá em cima, mas a diversão acontece no caminho.