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A história do homem que não necessariamente criou a lâmpada

16 de maio de 2018

A história empresarial recente está repleta de heróis e figuras inspiradoras quando se pensa na conjunção entre espírito empreendedor e inovação tecnológica. Elon Musk, Steve Jobs e Steve Wozniak, Jeff Bezos, Bill Gates e Paul Allen, Pierre Omydiar (Ebay), Reid Hoffman (LinkedIn), Reed Hastings (Netflix) ou Brian Acton (WhatsApp), por exemplo, são nomes que certamente merecem ser reverenciados e terem suas vitórias e percalços conhecidos e extraídas lições de suas trajetórias. Entretanto, uma das histórias mais ricas e fascinantes que amalgamam empreendedorismo e inovação vem de um personagem que ajudou a moldar a vida contemporânea com realizações que datam de 120 anos atrás: Thomas Alva Edison.

Nascido em 1847, o mais novo de sete irmãos, sem nenhuma educação formal e com problemas auditivos, teve boa parte da infância passada vendendo doces e jornais nos trens que iam e voltavam entre a pequena cidade onde morava e Detroit. Na adolescência, tornou-se operador de telégrafo e dedicou-se aos seus passatempos preferidos: leitura e experiências. Morou alguns anos em New Jersey no porão da casa de um telegrafista e inventor chamado Franklin Pope. As primeiras invenções de Edison foram relacionadas ao telégrafo e sua primeira patente foi obtida aos 22 anos (a 1.093º e última foi obtida aos 83 anos de idade). Em 1877, um ano após fundar um laboratório de pesquisa em Menlo Park, New Jersey – com o dinheiro proveniente de suas primeiras invenções, inventou o fonógrafo e foi pela primeira vez chamado de “gênio”.

Menlo Park foi o primeiro laboratório voltado a criação e aplicação sistemática de conhecimento, viés perseguido por Edison ao longo de toda sua carreira. Como dito por ele mesmo: “na maior parte de minha vida me recusei a trabalhar em qualquer problema a menos que sua solução parecesse capaz de ser posta em uso comercial”. Além disso, desde o início de funcionamento de seu laboratório, o autodidata sempre se fez rodear por mentes brilhantes e com ótima formação, como por exemplo o engenheiro elétrico William Hammer e o matemático Joseph Sprague, ou até mesmo o também genial Nikola Tesla.

Apesar de ter inventado o fonógrafo, a câmera cinematográfica, a pilha alcalina, a urna “elétrica”, o telégrafo automático, o microfone para aparelhos telefônicos e inúmeras outras criações, Thomas Edison é primeiramente reconhecido por algo que ele não exatamente criou, mas que buscou à exaustão aprimorar: a lâmpada elétrica incandescente, cujas primeiras versões datam de 40 anos antes dos experimentos de Edison. A procura de um filamento – durável para operar no interior de um bulbo de vidro no qual foi feito vácuo – chegou ao fim depois dele experimentar mais de 3.000 alternativas, o que ilustra modelarmente sua frase mais famosa: “Genialidade é 1% de inspiração e 99% de transpiração”.

Na verdade, por trás da intensa busca por uma lâmpada incandescente comercialmente viável estava a ideia de um sistema completo de iluminação para as cidades e as residências. Para isso, em 1878, Edison formou a Edison Electric Light Company com a participação do venture capitalist Spencer Trask, membros da rica família Vanderbilt e do banqueiro J. P. Morgan. Depois de chegar a um filamento satisfatório cerca de um ano depois, ele patenteou um sistema de distribuição de energia e fundou a Edison Illuminating Company. Em menos de dez anos, a empresa de Edison já havia construído mais de 100 estações de distribuição de energia elétrica.

Curiosamente, nessa que foi uma de suas empreitadas mais arrojadas e na qual devotou muitos anos e muito esforço, Thomas Edison não foi exatamente bem-sucedido. Seu sistema de distribuição, que operava com corrente contínua de baixa voltagem, apresentava limitações para transmissão a distâncias maiores que uma milha e acabou por se mostrar inferior ao sistema que operava em corrente alternada e que era utilizado pela Westinghouse Electric (sob a orientação do mesmo Nikola Tesla que já havia trabalhado para Edison) e pela Thomson-Houston Electric. Sua insistência pela solução de corrente contínua fez J. P. Morgan provocar uma fusão da já então chamada Edison General Electric com a Thomson-Houston, formando a General Electric – GE, sob a gestão dos executivos da Thomson, afastando Edison da diretoria.

Percebemos assim que nem mesmo mentes geniais são capazes de acertar 100% do tempo.Entretanto, para Thomas Edison não havia fracassos, apenas o aprendizado de como uma coisa não deveria ser feita. Passados 86 anos desde sua morte, ele segue justamente considerado como um dos mais brilhantes personagens da história da humanidade. Sua postura analítica, incansável, pragmática e empreendedora será sempre uma excelente referência para quem quer conciliar inovação e empreendedorismo. Finalizando com palavras do próprio Thomas Edison, “estarmos ocupados não necessariamente significa fazermos um trabalho real. O objeto de todo trabalho é a produção e a realização e, para que ambos sejam alcançados, deve haver preparação mental e antecipação, método, planejamento, inteligência, um propósito honesto e muito esforço”.

Fabio De Biazzi é doutor em Engenharia de Produção pela POLI-USP, conselheiro, consultor, diretor da Brain Business School, professor do Insper e autor do livro ‘Lições Essenciais Sobre Liderança e Comportamento Organizacional’