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A história de uma família. Parte 1

14 de abril de 2016

Desta vez não vou falar de empreender – pelo menos, não de forma direta – pois quero contar um pouco da história de meus pais, uruguaios, e que voltaram a morar em Montevidéu há 3 anos, depois de quase 33 anos no Brasil.

Pois nesta semana recebi de meu pai uma caixa com um monte de documentos, super antigos, desses cheios de selos descoloridos e carimbos, certidões, contratos de empresas, certidões de casamentos, nascimentos, compras de casas, títulos eleitorais, e outros tantos papéis que contam de uma forma singela, através de registros burocráticos, a história da nossa família até a nossa chegada ao Brasil.

Mas tudo começa bem antes disso, com meus bisavôs que vieram da Espanha e Itália entre os anos 1896 e 1925 e chegaram nos portos de Montevidéu e Buenos Aires. A família de minha mãe é mais espanhola, não sabemos bem de onde, e a de meu pai é mais italiana, de Genova.

Da esquerda para a direita estão Wladimir, Mirta, Ivan, Monica e Alexandra, 1971

Naquela época, a escória das cidades americanas eram os imigrantes europeus, que chegavam aos montes e eram vistos com desprezo e preconceito pela sociedade local estabelecida. Cheios de fome com o novo mundo, os navios traziam os porões atrolhados de camponeses, artesãos, marginais, artistas, oportunistas, foragidos, escritores, artistas, anarquistas, sapateiros, e qualquer um em busca do sonho de uma nova vida, longe das guerras e em busca de qualquer trabalho.

Seja como for a história de cada um, esses imigrantes, ao longo dos anos, foram batalhando, prosperando e se integrando na comunidade nas mais diversas atividades. Aqui no Brasil, por exemplo, é notória a presença de portugueses nas padarias. No Uruguai, as padarias foram dominadas pelos espanhóis, e o comércio por italianos.

Um avô de minha mãe nasceu na Argentina, e uma avó de meu pai também, mas em algum momento foram ao Uruguai e se estabeleceram por lá, alguns no interior e outros na capital. Minha mãe, Mirta, nasceu em Montevidéu e meu pai, Wladimir, em Punta del Este.

Eles se casaram em 1956, e na certidão está documentada uma miríade de nacionalidades, tanto nos pais e mães dos noivos quanto nas testemunhas. Uma verdadeira “internacional”, e imagino o quanto isso representa de quem eram meus pais, e onde moravam e quem eram seus amigos. Me encheu de orgulho ver as profissões descritas nas testemunhas: um pedreiro, outro marceneiro, colega de trabalho de meu pai – que era carpinteiro, assim como o pai dele também tinha sido. Minha avó materna, enfermeira e meu avô, motorista de ônibus.

Meus pais recém-casados trabalharam duro por dois anos até juntar dinheiro para viajar à Europa, onde ficaram um ano inteiro. Me contaram que foi inspiração de um professor de meu pai, que o estimulou a investir nessa viagem. Atravessaram o Atlântico de navio e percorreram uma boa parte do velho continente, visitaram museus, conheceram pessoas, floresceram, se cultivaram e voltaram com a cabeça cheia de ideias ao Uruguai para trabalhar em ideias e negócios.

Minha mãe vendia os móveis que meu pai construía no porão da casa onde moravam. Depois, meu pai participou da fundação de uma cooperativa anarquista de marcenaria, desenhando móveis que participaram em algumas exposições bacanas na Europa. Minha mãe dirigia caminhão entregando leite, pois estavam empreendendo e ganharam uma licitação com apenas um caminhão, então era bem difícil.

Diz a lenda familiar que, no dia de meu nascimento, ela entregou leite de manhã cedo, e depois estacionou o caminhão no pátio do hospital, me teve às 9 da manhã, e de noite já estava em casa resolvendo as entregas do dia seguinte. Assim era a vida deles.

A vida familiar sempre esteve muito ligada aos negócios de meus pais, e os negócios sempre estiveram ligados a um estilo de vida com participação ativa na opinião política. Acho que era bastante comum nos anos 70 este engajamento, pois meus pais, além das atividades diárias, eventualmente escreviam artigos em jornais de esquerda sobre questões do trabalho artesanal, de método de trabalho, da necessidade de organização em cooperativas ou empresas. Me lembro em especial de um texto de minha mãe num jornal chamado Marcha, no qual ela defende a dignidade de trabalho das lavandeiras. Minhas irmãs mais velhas, Alexandra e Monica, também começaram a trabalhar muito jovens, independizaram, casaram, tiveram filhos e alçaram voo.

Quando o regime militar engoliu o Uruguai, parentes e amigos desapareciam ou eram presos, e as atividades de meus pais os colocaram na linha de perigo. E assim decidiram migrar, como os pais deles e os avós deles um dia, quando estavam no auge de sua capacidade e criatividade. Eu tinha 10 anos.

Chegaram no Brasil em 1980, uma escolha talvez improvisada, decidida pela proximidade geográfica. Já nos seus quarenta e tantos anos, e tendo que começar tudo de novo, agora que penso nisso, imagino a carga de tristeza e desânimo de chegar num lugar estranho e abrir as malas, deixando tanta coisa para atrás. A chegada ao Brasil foi tão urgente que durante uns meses moramos num hotel em Porto Alegre até que meus pais conseguiram uma casa.

Meu pai voltou a fazer móveis e arte, e minha mãe os vendia a vizinhos. Eu cresci nessa casa atelier, onde eu tinha uma agenda cheia de pequenas tarefas como podar a grama, varrer a marcenaria, juntar ferramentas e lixar – que eu odiava, pelo tédio. E aliás, ainda odeio.

Continua….

Ivan Primo Bornes, masseiro do Pastifício Primo, uruguaio de nascimento, brasileiro de coração.