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Blog do Empreendedor
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A escova de dente do Google e outras ideias para tornar sua empresa melhor

27 de outubro de 2017

“O empreendedor quando vê uma cobra, vai lá e a mata!” – explica Romeo Busarello, um grande amigo de longa data e colega de trabalho. “Mas a grande empresa, quando vê uma cobra, cria um comitê de cobra…” – finaliza seu irônico raciocínio sobre como as grandes organizações operam atualmente.

Em algum momento, as grandes empresas se perderam em reuniões (ou nas várias mensagens apenas para agendar uma), títulos e cargos, processos e KPIs e outras idiossincrasias corporativas e desaprenderam a fazer o que precisa ser feito de forma eficaz.

Neste sentido, boa parte dos empreendedores mais bem sucedidos acaba inventando soluções simples que parecem toscas em uma primeira análise, mas que guardam uma profunda sabedoria quando os resultados chegam. Empreendedores e executivos de organizações de qualquer porte podem aprender muito com quem “mata a cobra e mostra o pau”, por mais polêmico que possa parecer agora esta expressão popular do passado.

Se reuniões ineficazes se tornaram uma praga na sua organização, considere as práticas de Steve Jobs, da Apple, e Michael Bloomberg, da Bloomberg News. Jobs costumava fazer suas reuniões mais importantes caminhando. Alguns estudos apontam que isto pode ser uma boa solução, pois ativa os dois lados do cérebro, acentuando a capacidade de resolução criativa de problemas. Bloomberg, por sua vez, fazia as reuniões da sua equipe com todos de pé. Este incômodo incentivava a objetividade dos presentes e inibia os que falavam mais do que o necessário.

E nestas reuniões, cada um sai com uma meta para cumprir. Bloomberg pedia para que os que estavam nesta situação que trocassem o relógio para o pulso da outra mão, até que entregassem o que tinha sido combinado. Experiente trocar seu relógio de braço só para entender a eficácia deste método. Mas como as pessoas trabalham em equipes, Jeff Bezos, da Amazon, criou a Regra das duas pizzas. O tamanho ideal para uma equipe realmente funcionar é aquela que pode ser alimentada com duas pizzas. Mais do que isso, a improdutividade começa a aumentar, acredita.

Mas é preciso achar as pessoas certas para o time. Todos os empreendedores bem sucedidos acabam criando sua própria receita para isto, caso contrário não seriam o que são. Isto vai desde Tomas Edison, fundador da General Electric, que não empregava ninguém que colocasse sal na comida antes de experimentá-la, pois queria pessoa que testassem suas criações antes de coloca-las em prática, passando pelo Comandante Rolim Amaro, que não contratava ninguém que comesse devagar, pois entendia que pessoas assim não pensavam rápido, até chegarmos à fórmula PSD – Poor, Smart, Deep desire to get rich (“pobres, espertos, com muita vontade de ficar rico”), utilizada pelo Jorge Paulo Lemann na identificação de talentos para as diversas empresas das quais é acionista.

Sam Walton, do Walmart, também tinha suas manias. Em um caderno anotava todas as noites algum exemplo de por que sua empresa tinha sido melhor do que ontem. Um dia poderia ser um excelente atendimento que fez a um cliente, no outro, uma boa negociação de preço de um item com o fornecedor. No final do ano, tinha anotado mais de 300 melhorias. Com isto, sua empresa se destacava mais do que qualquer outra.

Mark Zuckerberg, do Facebook, também é sempre muito autêntico nas suas abordagens. Uma das mais conhecidas e copiadas pelo seu time é impor-se uma única e grande meta pessoal anual. Em vez de fazer diversas promessas, que já serão esquecidas no dia 2 de janeiro, Zuckerberg mira uma só por ano. A deste, é visitar todos os estados norte-americanos para conhecer as pessoas pessoalmente. Combustível para discussões para quem faz isto digitalmente.

E entre todas as soluções práticas inventadas pelos empreendedores, a de Laércio Cosentino, da Totvs, é a mais gostosa. Na sede da empresa,  mantém uma cozinha na qual ele mesmo pilota as panelas enquanto recebe clientes e parceiros. É uma das formas mais inteligentes e saborosas de criar vínculos com as pessoas.

Mas depois de um bom almoço ou jantar, em algum momento, virá a necessidade de escovar os dentes. É aqui que entra o teste da escova de dentes defendida por Larry Page, co-fundador do Google. Para se tornar um produto da empresa, a ideia precisa ser uma solução “escova de dentes”, ou seja, algo que se precisa usar uma ou duas vezes por dia, pelo menos, e que torna a sua vida melhor.

Por isso, se você criou um comitê achando que iria resolver o problema facilmente e agora coisa está ficando russa, vale o ensinamento de uma amiga minha de lá: Нет ничего на свете проще, чем взять и усложнить себе жизнь. Ou não há nada no mundo que seja mais fácil do que tornar a vida mais difícil.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Coordenador de área – Pesquisa para Inovação – da FAPESP