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A empreendedora dos azeites

31 de outubro de 2018

Vista interna da Rua do Alecrim, em Moema

Esta é a história de Iris Jönck, publicitária por formação, que decidiu empreender para fazer as coisas acontecerem pelas próprias mãos. Assim surgiu a Rua do Alecrim, uma loja online que oferece produtos de origem de diversos países e regiões diferentes do Brasil, e que virou ponto de encontro dos melhores azeites “de origem” do Brasil e do mundo. A Iris nos conta como foi sua evolução pessoal e profissional, como a ideia de uma loja online se transformou em loja física e os desafios e soluções encontrados nessa jornada.

Como tudo começou?
Sempre fui movida por desafios e sede de aprendizado, mas também sempre me deu muita satisfação ver os projetos acontecendo de verdade, saindo do planejamento e virando algo real. E acho que foram estes fatores que aos poucos foram me fazendo querer me dedicar mais a criar e fazer novas coisas acontecerem com minhas próprias mãos.Um momento importante, que me ajudou nessa guinada para o empreendedorismo, foi ter realizado um curso de pós-gradução em Tendências na Universidad Ramón Llul-Blanquerna, em Barcelona. Ali eu abri muito a cabeça, observando movimentos culturais e de comportamento que me ajudaram a enxergar um mundo com muito mais possibilidades de atuação do que as de um emprego tradicional em uma empresa ou ainda de uma agência de publicidade.A decisão de empreender, é claro, passou por uma conjunção de fatores e foi se desenhando a partir de inspirações e trocas entre mim e meu marido, que é meu sócio na vida e na empresa. O Arnaldo Comin é jornalista por profissão e sempre trabalhou como repórter e editor, sobretudo em jornais de economia e negócios. Nós dois sempre gostamos muito de viajar e sempre tivemos uma conexão muito forte com a cozinha e a gastronomia. Quando passamos nossa lua de mel na Turquia, a caixa de Pandora se abriu. O contato com aquele mundo de temperos e sabores caiu como uma bomba na nossa cabeça. Foi ali que tomou corpo a ideia de criar um negócio que resgatasse os valores gregários da cozinha, da gastronomia como elemento de união entre as pessoas e as culturas.

Primeiro apareceu a ideia ou a empreendedora?
Considerando o contexto, acho que a ideia precedeu a empreendedora. Nós queríamos trabalhar com um negócio que tivesse três elementos em comum: gastronomia, internet e o conteúdo forte para a construção da marca. Foi assim que nasceu a Rua do Alecrim. Alimentos com histórias para contar e um valor intrínseco para todas as pessoas que apreciam o que é especial. Nosso primeiro produto foram kits de presente temáticos por país: França, Itália, Espanha, Oriente Médio, assim por diante. Vinho, tempero e outros ingredientes típicos. Foi quando esbarramos logo de cara naquilo que seria a nossa marca registrada: os azeites. Vimos que era um produto super nobre, com uma riqueza cultural imensa, que não era muito bem trabalhado pelo varejo. Fomos conhecendo e nos apaixonando. Tanto que a nossa assinatura evoluiu para Rua do Alecrim Azeites e Gastronomia. Temos orgulho de oferecer em São Paulo uma das poucas lojas no mundo especializadas em azeites de origem. Mesmo em países produtores, como Espanha, Itália e Portugal, são raríssimas as lojas desse tipo. Do site, acrescemos para uma loja física no bairro de Moema, que se tornou uma “embaixada do azeite”. Fazemos um trabalho especial, e que muito nos orgulha, que é a promoção dos produtores artesanais brasileiros, uma nova geração que está começando a fincar raízes, literalmente, da olivicultura no País.

Iris em meio a oliveiras em Puglia, na Itália

Como é o estilo de vida de vocês, do pessoal ao profissional?
Nossa família é bem pequena. Somos só nós dois e, na verdade, a vida tão intensa do empreendedorismo adiou um pouco nossos planos de filhos. O desafio agora, por sinal, é conciliar as duas coisas: aumentar a família e os negócios ao mesmo tempo!  Depois de seis anos de negócios, a gente vai percebendo na prática um certo “paradoxo” do empreendedor: você fica muito imerso no seu mundo e vê que os seus amigos de sempre, principalmente aqueles que sempre viveram num esquema profissional mais tradicional, não acompanhar muito bem as suas opções de vida. E a agenda sempre tão carregada infelizmente te afasta um pouco da convivência. Por outro lado, ao empreender você agrega um monte de pessoas novas ao seu redor. Ainda mais quando o assunto é gastronomia. A gente trabalha muito, mas há a oportunidade de conhecer gente muito interessante e terminar um dia exaustivo de evento tomando um vinho feliz da vida com um degustador profissional ou um cozinheiro bacana. É a prova de como a boa comida aproxima as pessoas e expõe o nosso lado mais humano.

Quais são os planos de futuro do negócio?
Quem trabalhou com varejo nos últimos quatro ou cinco anos sabe como esse período foi difícil. No nosso caso, que trabalhamos predominantemente com produtores de origem do Mediterrâneo e alguns vinhos e azeites da América do Sul, o câmbio foi especialmente cruel. Isso nos levou a diversificar muito o negócio em busca de rentabilidade. Fomos do ecommerce puro com a ruadoalecrim.com.br para um híbrido com loja física, fora as vendas de brindes corporativos para empresas, que sempre foram muito importantes para o nosso resultado. Com o nosso crescimento muito grande no mercado de produtos italianos para pizzas e panificação, criamos em 2017 um segundo ecommerce, farinhasitalianas.com.br. Paralelamente criamos nossa marca própria de vinagres artesanais, azeite e temperos, além de ter iniciado no ano passado a importação direta de alguns rótulos de azeites de alto nível da Itália e da Espanha. Vale lembrar que sempre fizemos muitos cursos e workshops de azeites, pizzas, pães e vários outros temas de cozinha. É muita coisa!

Ao mesmo tempo, vemos que o nosso negócio precisa de escala para crescer: se trabalharmos com três ou quatro lojas, aumentando a importação direta e o investimento em marca própria, o negócio pode crescer bastante, tanto na revenda para o varejo quanto na comercialização direta ao cliente final. O objetivo para 2019, portanto, é estreitar o foco, priorizar as áreas de negócios com melhor potencial e conversar com gente do mercado que tenha interesse em investir conosco na expansão da empresa. Nosso desafio não difere de tantos bons empreendedores brasileiros: ter acesso a capital para crescer com o apoio de um parceiro estratégico que não aporte apenas dinheiro.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora
no seu setor, qual seria?
Pense leve. No ramo do varejo e da gastronomia é muito tentador ir aumentando o portfólio de produtos e serviços sem se dar conta. Assim como um restaurante que está sempre inventando pratos novos sofre com mais perdas de matéria-prima, tempo e pouco poder de negociação com ingredientes de baixo volume de uso ou de venda, no varejo acontece o mesmo. No caso do ecommerce, não menospreze os custos e o lado operacional. A tecnologia avançou muito desde que abrimos o negócio, há seis anos, mas vender pela internet é muito custoso, há muitos gargalos e pode levá-lo a muita perda, se os processos não estiverem muito bem montados e a equipe não for bem treinada. Além disso, o bom cliente de gastronomia dá valor à qualidade, à origem do produto e ao atendimento. Mas normalmente é bem informado e não abre mão do preço justo. É uma linha tênue. Por isso, a equipe precisa conhecer profundamente o seu produto e saber vender paixão. Comer e beber bem é um ato de indulgência. Com raríssimas exceções, nossos clientes são essencialmente pessoas que querem experimentar algo diferente e ser felizes. É uma compra por alegria e não por necessidade. Isso é o que dá mais prazer em ter um negócio como a Rua do Alecrim.

Qual o futuro do Brasil?
Pensar no futuro do Brasil não anima muito, para falar a verdade. Ao mesmo tempo em que me sinto muito preocupada com uma nova onda conservadora e de coação às nossas liberdades, não está muito claro se o País pretende realmente abraçar a causa do empreendedorismo e adotar uma agenda mais amigável ao investimento privado e ao livre mercado. Como empresária da gastronomia, acho que a melhor contribuição é ajudar no desenvolvimento dos produtores de origem, artesanais e orgânicos. O mundo está passando por uma revisão importante na forma como lida com a agricultura familiar e com a relação da alimentação com a vida em comunidade. O Brasil não pode ficar fora disso.

Conheça mais:
Rua do Alecrim Azeites e Gastronomia
Rua Normandia, 12 – Moema – São Paulo
eCommerce: www.ruadoalecrim.com.br e www.farinhasitalianas.com.br
Insta: @ruadoalecrim e @farinhasitalianas