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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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O impacto de gerar inclusão financeira para microempreendedores

20 de fevereiro de 2019

 

* Por Maure Pessanha

A despeito da série de desafios, o empreendedor brasileiro sempre foi movido por sonhos. Entretanto, nos últimos três anos, temos visto a demanda de voltar ao mercado de trabalho permear o ímpeto de empreender. No país de mais de 12 milhões de desempregados, ganha relevância o fenômeno do “empreendedorismo por necessidade”.

De acordo com levantamento da Serasa Experian, como resposta à crise econômica houve um avanço significativo na formação de empresas e na formalização de microempreendedores; o primeiro semestre de 2018 registrou um crescimento de 38% em relação ao mesmo período em 2015. O Brasil já conta, hoje, com 7,7 milhões de microempreendedores individuais (MEIs), categoria criada pelo governo para formalizar empresas que faturam até R$ 81 mil por ano.

A análise do perfil desses brasileiros mostra que setores como alimentação, entrega, beleza e vestuário são os preferidos desses microempreendedores que transformam talentos pessoais em negócios. A renda familiar média é de aproximadamente R$ 4 mil, 73% não têm nível superior e reportam a insegurança em relação aos pontos burocráticos e jurídicos.

Marcelo Moraes, Gislaine Zaramella e Rodrigo Salem (da esq. à dir.). FOTO: Marco Torelli

Entre os desafios enfrentados, está a falta de acesso a serviços financeiros adequados e de apoio para lidar com a burocracia que envolve a formalização. Para os não formalizados, soma-se a isso a ausência de benefícios como a cobertura previdenciária (auxílio doença e aposentadoria, por exemplo).

Ou seja, há um número grande de microempreendedores não formalizados que estão deixando de recolher impostos, ter oportunidades de crescimento via investimentos e garantia de seguridade social porque não conseguem lidar com os trâmites burocráticos.

É nesse contexto que entra um negócio de impacto social fundado por Gislaine Zaramella, Rodrigo Salem e Marcelo Moraes. O trio, a partir do sonho de desenvolver o maior programa de inclusão financeira para empreendedores brasileiros, criou a MEI Fácil, uma plataforma de serviços financeiros – que também conta com um aplicativo – destinada aos microempreendedores. O negócio apoia o empreendedor no processo de formalização, além de atuar para educar e oferecer acesso a apoios financeiros essenciais para o crescimento e a consolidação dos negócios.

“Setores como alimentação e beleza são os preferidos desses microempreendedores que transformam talentos pessoais em negócios”

Um dos pontos interessantes no modelo desse negócio de impacto social é o pacote de serviços iniciais oferecidos tanto na modalidade gratuita quanto na paga. Em apenas quatro minutos, o empreendedor solicita o CNPJ de forma gratuita. Esse microempreendedor recebe informações sobre emissão de notas fiscais, pagamento de impostos e declarações. Pelo Whatsapp (ZAP MEI) e tevê digital (TV MEI Fácil) tem acesso a conteúdos produzidos por especialistas com dicas sobre empreendedorismo.

Após passar por um processo intensivo de aceleração na Estação Hack por seis meses, a MEI Fácil conta com mais de 400 mil usuários, mais 160 mil empresas foram formalizadas pelo negócio e mais de 50 mil microempreendedores utilizam as dicas do ZAP MEI.

Com impacto na economia nacional, o empreendedorismo no Brasil tem sido a grande força da transformação social. E, por isso, os negócios de impacto social mostram a relevância de uma ideia empreendedora associada a um sonho empático, no qual a força coletiva altera os contornos da paisagem social, política e econômica de um país.

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.


Empreendedores têm mais chance de ter doenças como depressão, diz pesquisa

18 de fevereiro de 2019

 

Por Ivan Bornes *

Não é segredo que a vida do empreendedor é dureza e que eles precisam estar sempre prontos para encarar os altos e baixos dos problemas diários, especialmente quando falamos do Brasil e suas peculiaridades.

Hoje em dia os negócios precisam de atenção 24 horas por dia e, se é o olho do dono que engorda o gado, também é o olho do empreendedor que precisa estar sempre atento para não perder oportunidades e/ou não perder dinheiro. Estar sempre em estado de alerta contínuo não é algo saudável para a maioria das pessoas, mas a grande maioria dos pequenos empreendedores não tem muita opção, pois a construção de um negócio é quase feita de muito sacrifício.

Nos Brasil, não temos muitos números nem pesquisas a respeito, mas um artigo publicado nos Estados Unidos em 2015 chamado Are Entrepreneurs “Touched with Fire”? me chegou às mãos e me fez refletir e escrever este texto de alerta.

Depressão é uma das doenças que podem ser mais frequentes em empreendedores. FOTO: Celso Júnior/Estadão

O professor Michael Freeman, da Universidade da Califórnia, e mais outros colegas de Stanford e Berkeley realizaram um extenso estudo dos problemas e dificuldades que os empreendedores sofrem. Me parece, numa opinião totalmente empírica, que os números no Brasil, onde as condições são mais desafiadoras, devem ser muito, muito piores.

Conforme a pesquisa norte-americana, os empreendedores têm:

- 50% mais chances de ter problemas mentais
- 2 vezes mais chances de sofrer de depressão
- 6 vezes mais chances de ter TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade)
- 3 vezes mais chances de fazer abuso de álcool e drogas
- 10 vezes mais chances de desenvolver bipolaridade
- 2 vezes mais chances de experimentar pensamentos suicidas
- 2 vezes mais chances de ser internado num hospital psiquiátrico

Estes números são realmente assustadores. E são números dos Estados Unidos, onde o ambiente de empreendedorismo é notoriamente amigável. Parou para pensar no Brasil?

Um efeito secundário da crise que vivemos no País é que muitas pessoas estão sendo empurradas ao empreendedorismo por pura necessidade, sem os devidos preparos técnico, financeiro e emocional. Fica o chamado de socorro.

* Ivan Primo Bornes é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo


Poucos fracassaram mais do que ele. Agora, lidera uma escola de empreendedorismo baseada em fracasso

15 de fevereiro de 2019

 

Por Marcelo Nakagawa *

Seus fracassos já são conhecidos. Candidatou-se a mais de 30 vagas de emprego e não foi aceito em nenhuma. Uma lanchonete na sua cidade procurava funcionários. Vinte e quatro pessoas se apresentaram. Vinte e três foram aceitas. Só ele não conseguiu a vaga. Tentou, por quatro anos seguidos, até conseguir passar na faculdade. Depois, aplicou dez vezes para a uma vaga na Harvard Business School e foi rejeitado em todas. Sem muitas opções, tornou-se professor de inglês em seu país natal, a China.

Em 1995, fascinado com a internet, criou uma empresa para fazer websites para pequenos negócios chineses. Após quatro anos, ele lançou uma plataforma para intermediar negócios entre empresas. Vinte anos depois, Jack Ma é a pessoa mais rica da China (20ª no mundo) com uma fortuna pessoal de US$ 37,4 bilhões. A empresa que fundou, o Alibaba, faturou US$ 40 bilhões em 2018, com um lucro de US$ 10 bilhões e valor de mercado de US$ 440 bilhões, posicionando-a com a sétima mais valiosa do mundo, à frente de gigantes tradicionais como Walmart, Toyota ou Unilever.

Jack Ma no Fórum Econômico de Davos, em janeiro deste ano. FOTO: Arnd Wiegmann/Reuters

O que mais poderia fazer um professor elevado à estrela mundial do mundo dos negócios? Criar uma escola. E foi isso que Jack Ma fez em 2015, ao se juntar a outros grandes empreendedores da China e fundar a Hupan University, uma instituição que visa formar a nova geração de grandes empreendedores do país a partir de uma base de aprendizado comum: o fracasso.

Enquanto as escolas de negócio ao redor do mundo se concentram no sucesso, Hupan, nas palavras do próprio Jack Ma, é um “espaço para desconstruir o sucesso e aprender tudo sobre fracassos”.

“Em vez de aprender com o sucesso de outras pessoas, aprenda com seus fracassos. Muitas pessoas que fracassam compartilham razões semelhantes para fracassar, enquanto o sucesso pode ser atribuído a diversos fatores”

E, paradoxalmente, a escola de fracassos tem sido um sucesso, mesmo tendo um dos processos mais concorridos e exigentes do mundo. Em geral, cerca de mil pessoas se candidatam todos os anos para, aproximadamente, 40 vagas. Para se candidatar é preciso liderar um negócio com mais de 30 funcionários, ter receita anual superior a 30 milhões de yuans (US$ 4,4 milhões) e ter, no mínimo, três anos desde a fundação. Além disso, o interessado precisa apresentar três cartas de recomendação e atestar que seu negócio está sem nenhum tipo de pendência.  O objetivo é formar empreendedores com grande responsabilidade social e com o mais alto padrão moral.

Mas estas condições são apenas pré-requisitos para o processo seletivo, que é feito presencialmente perante uma banca de avaliação (composta por alguns dos principais empreendedores da China) que fará quatro grandes questionamentos ao candidato:

1)      Qual a diferença que você faz nesse mundo?

2)      O que você tem?

3)      O que você quer?

Os quarenta selecionados passam a frequentar a escola quatro dias por semana a cada dois meses, durante três anos até obter todos os créditos. Neste período, seus professores serão os principais empreendedores da China e exigirão o mais alto nível de desempenho de cada aluno que faça por merecer seus esforços. “Nós chegamos onde estamos hoje porque acordamos cedo, trabalhamos até muito tarde, não dormimos muito e tivemos poucos períodos de descanso. Nós lutamos dia e noite e nos recuperamos de desapontamentos e frustrações de novo, de novo e de novo”, diz Jack Ma.

Todos sabem que criar um negócio não é fácil, mas poucos têm a oportunidade de ver e compreender como pode ser humilhante e dolorido o processo de criar, desenvolver e manter um negócio. “Assim, ao aprender com os fracassos dos outros, nós ajudaremos a próxima geração de empreendedores não apenas a crescer, mas a tornar os negócios mais prósperos, longevos e saudáveis”, explica o ex-professor.

Mas em 2018, Jack Ma comunicou ao mercado que deixaria a direção do Alibaba no ano seguinte. “Eu quero retornar à educação, algo que me motiva mais, pois é isso que realmente amo fazer. O mundo é grande e ainda sou jovem. Assim, vou tentar novas coisas porque tenho sonhos que ainda podem ser realizados!”, conta, explicando o motivo da sua desistência da liderança do maior conglomerado chinês.

Desta forma, Jack Ma não só deu respostas para as primeiras três perguntas da sua banca, mas também para o quarto, último e mais importante questionamento: “O que faria você desistir do que você quer?”

“Se você não desistir, ainda tem uma chance. Desistir é o maior fracasso de todos”

* Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e agora colega de profissão do Jack Ma.

Potência empreendedora faz periferia criar soluções, não ser só beneficiária

13 de fevereiro de 2019

 

Por Maure Pessanha *

Marcelo Rocha, conhecido como DJ Bola, costuma dizer que nas periferias brasileiras existe uma enorme potência de inovação, impacto e superação. Uma força transformadora que vem de pessoas que vivem as dores reais produzidas pela falta de oportunidade e acesso. São cidadãos que sobrevivem e desafiam, cotidianamente, a desigualdade socioeconômica que assola o País.

Bola defende que essa inovação nasce de uma experiência concreta que – ao transformar a realidade de escassez em abundância criativa e de resistência – fortalece o empreendedorismo social na quebrada, alimenta o sonho e a luta em busca de dignidade na base da pirâmide. Concordo plenamente, em especial porque tenho acompanhado bem de perto essa revolução empreendedora na última década.

Presidente-fundador da produtora cultural de impacto A Banca e um dos idealizadores da Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip), Bola tem apoiado uma nova geração de negócios de impacto social que surge e atua nas periferias de São Paulo. A iniciativa nasceu da crença de que o empreendedorismo com propósito somente será efetivo se a população das periferias for protagonista na criação de empresas que solucionem os problemas sociais e ambientais da quebrada.

E esse é um ponto importantíssimo. A periferia não deve ser apenas cliente, usuária ou beneficiária – antes, deve ser criadora das melhores soluções. Nas diversas periferias do Brasil há empreendedores e empreendedoras com ideias e soluções com alto potencial de inovação.

Marcelo Rocha, conhecido como DJ Bola, empreendedor e acelerador na periferia de SP. FOTO: Acervo Pessoal

Como sabemos, empreender é enfrentar diariamente desafios de toda natureza. Empreender na quebrada, então, torna esses percalços ainda maiores. Por trás de cada história de superação, existem pessoas encarando as mais diversas barreiras em suas trajetórias – seja na solução, no modelo de negócio, no acesso a financiamento etc. Mas, com apoio e suporte adequados e foco em suas reais necessidades, esses negócios podem crescer e impactar positivamente a vida de muitas pessoas.

“A periferia não deve ser apenas cliente, usuária ou beneficiária – antes, deve ser criadora das melhores soluções”

Nas duas primeiras edições de 2018, a Anip apoiou empreendedores da zona sul de São Paulo, dos distritos do Jardim Ângela (M’Boi Mirim), Capela do Socorro e Campo Limpo (Capão Redondo). Nesse contexto, acelerou 10 startups de impacto social. Os empreendedores da Boutique de Krioula, Empreende Aí, Ecoativa, Jovens Hackers, Editora Selo Povo, Periferia em Movimento, Bora Lá, Nutrir-Si, Bio Afetiva e Gastronomia Periférica tiveram acesso a uma rede incrível formada por pessoas de negócios, seres humanos talentosos que juntos trocaram conhecimento, gerando um grande aprendizado para todos os envolvidos.

Vista do Capão Redondo, onde projetos foram acelerados. FOTO: Gabriela Biló/Estadão

Os dois lados da ponte – como Bola gosta de dizer em referência às pontes que separam a cidade de São Paulo – promoveram conexões transformadoras. A ponte se tornou um caminho de troca, porque não é possível transformar a vida das pessoas sem conexão. É o pensamento da abundância de saberes, oportunidades e união de capacidades para gerar negócios lucrativos e que resolvam os problemas não apenas da periferia, mas de toda a cidade.

Em 2019, a zona sul ficou pequena para a iniciativa. Hoje, a Anip está com as inscrições abertas, até 24 de fevereiro, para empreendedores de todos os bairros periféricos do município de São Paulo. Mais gente, mais soluções inovadoras e com impacto social e ambiental positivos. Assim como no empreendedorismo geral, existem uma série de desafios para os empreendedores da quebrada. Mas seguimos aprendendo.

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

Por que é importante visitar a Summer Fancy Food (se você é da gastronomia)

11 de fevereiro de 2019

 

Por Ivan Bornes *

Vai acontecer de 21 a 28 de junho a 65ª edição desta que é a maior feira de alimentos e bebidas do mundo, a Summer Fancy Food, realizada sempre no meio do ano em Nova York (EUA). Com mais de 2.600 expositores de mais de 54 países, é um lugar ideal para conhecer e degustar (sim, a gente come demais!) todo tipo de alimento e matéria-prima que está sendo lançado no mundo.

Eu já fui duas vezes nos últimos quatro anos e posso afirmar que é de brilhar os olhos. Tudo o que vai acontecer no Brasil daqui a dois anos você vai ver primeiro em Nova York. Não é um investimento barato, mas vale cada centavo para aqueles que estão procurando se manter relevantes na gastronomia. Portanto, se você é empresário e empreendedor de restaurantes, bares, padarias, cafés, empórios, varejo alimentício e food service em geral, recomendo começar a juntar as moedinhas.

Estandes da Summer Fancy Food, nos Estados Unidos. FOTO: Gustavo Carrer

O participante, além da possibilidade de ver, cheirar, tocar e comer (sim!) uma enormidade de alimentos, vai poder também se aproximar das últimas tendências, de matérias-primas diferentes e de produtos de todas as regiões do mundo. Não menos importante, vai poder interagir e conversar com pessoas do mundo todo, assim como assistir a palestras que abordam questões de mercado, ética animal, biodiversidade, produtos fresh to table, embalagens e muitas previsões de como será a alimentação das pessoas nos próximos anos.

Neste ano fui convidado por Gustavo Carrer – que está organizando uma missão de empresários para visitar a feira – a colaborar na curadoria de atividades e visitas técnicas em Nova York, que acontece em paralelo às atividades da exposição. Gustavo atuou muitos anos no Sebrae, onde eu o conheci, e agora lidera a própria empreitada, que contempla visitas técnicas exclusivas, selecionadas e acompanhadas por profissionais conceituados (nomes como o Rogério Shimura), seminários no Brasil e Nova York, jantares e visitas específicas para o foco de trabalho de cada participante.

“Além da possibilidade de ver, cheirar, tocar e comer (sim!) uma enormidade de alimentos, o participante vai poder também se aproximar das últimas tendências de todo o mundo”

“O grande diferencial da nossa missão está na consultoria individualizada que oferecemos para o participante, em que preparamos um roteiro de visitas adicionais, levando em conta o porte, o segmento, o estágio de desenvolvimento e as necessidades de aprendizado”, reforça Carrer, consultor que já coordenou 11 missões internacionais para Nova York.

A primeira atividade do grupo de viagem é um seminário preparatório com os especialistas que ocorre ainda no Brasil, semanas antes do embarque. No dia 22 de junho, já em Nova York, ocorre o jantar de abertura e, nos dias seguintes, as participações na feira e visitas técnicas. No site oficial da missão já estão disponíveis detalhes sobre a agenda e o valor do pacote, que inclui hotel, ingressos, visitas, entre outros serviços.

Quando: 21 a 28 de junho
Contato: Gustavo Carrer, tel. (16) 99962-8155, contato@gustavocarrer.com

* Ivan Primo Bornes é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo

Empreendedor, quando vê uma cobra, mata a cobra; grande empresa cria comitê de cobras

8 de fevereiro de 2019

 

Por Marcelo Nakagawa *

“Velocidade é a nova moeda no mundo dos negócios!”, disse Marc Benioff, empreendedor da Salesforce, durante o encontro de líderes no World Economic Forum há alguns anos. Mas Romeo Busarello, diretor de marketing da Tecnisa, diz exatamente a mesma coisa, mas com o poder de expor corporações burocráticas e entrincheiradas com sua frase inteligentemente sarcástica sobre os cobras e as cobras do ambiente empreendedor em relação ao empresarial.

Mas como ser grande, ágil e eficiente ao mesmo tempo? Praticamente todas as grandes corporações ao redor do mundo lidam com esta pergunta diariamente. E a resposta é dada por outrora startups que se tornaram gigantes, mas que conseguiram se manter ágeis, inovadoras e muito eficientes. Cada uma delas conseguiu criar sua própria receita de grandeza, agilidade e eficiência.

O fundador da Netflix, Reed Hastings. FOTO: Steve Marcus/Reuters

Liberdade e responsabilidade: Este é o nome da receita da Netflix. Do aluguel de DVDs ao Oscar (com o filme Roma), a startup fundada por Reed Hastings assombra as empresas tradicionais de mídia e entretenimento e tem se emparelhado com a Disney em valor de mercado desde 2018. “Pessoas responsáveis ​​prosperam na liberdade e são dignas de liberdade. Na Netflix, achamos que você precisa criar um senso de responsabilidade em que as pessoas se importem com a empresa. Trabalho duro, como longas horas no escritório, não importa tanto para nós. Nós nos preocupamos com um ótimo trabalho”, diz Hasting. Sua apresentação (veja aqui) sobre como funciona a receita de liberdade e responsabilidade na Netflix tem servido de inspiração para milhares de startups e empresas de todos os portes ao redor do mundo.

Regra das duas pizzas: Curiosa, mas esta é a receita peculiar de celeridade e eficiência que tornou a Amazon uma empresa trilionária. Para Jeff Bezos, fundador da companhia, sua empresa deve funcionar sempre por meio de pequenos times para ganhar agilidade. “Se não puder alimentar uma equipe com duas pizzas, então está muito grande”, explica. Este ensinamento também tem sido um dos principais mantras de vários empreendedores e um número cada vez maior de grandes empresas, afinal, se funciona para Bezos, tende a funcionar para grandes corporações menores do que a Amazon.

OKR: Mais do que a sigla de Objectives and Key Results, é o método de gestão de objetivos e resultados que explica o sucesso do Google e objeto de estudo de dez entre dez empreendedores que lideram startups de alto crescimento e que tem atraído a atenção de um número crescente de grandes empreas. “OKR nos ajudou a conduzir um crescimento de 10x, durante muitos anos”, explica Larry Page, cofundador, no prefácio do livro sobre o assunto escrito pelo investidor John Doerr. Se tiver interesse em compreender o que é OKR e como o Google utiliza esta abordagem, veja este vídeo.

Squads: E não é possível falar de gestão ágil sem mencionar como a Spotify, que conseguiu integrar diferentes técnicas de gestão ágil e integrá-las por meio de squads, tribos e produtização da organização. Visitar a sede da startup para entender como funcionam seus esquadrões se tornou obrigação para as organizações tradicionais que querem ou precisam se reinventar para inovar ou, em casos mais graves, sobreviver. Mas não é preciso ir até Estocolmo, na Suécia. É possível entender este método por meio da explicação da própria empresa neste treinamento sobre a sua cultura organizacional.

Assim, se atua em uma grande corporação, quando vir uma cobra e precisar matá-la, forme squads!

* Marcelo Nakagawa é professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper e também professor de Inovação do Instituto Butantan, onde ficar matando cobras não tem a mínima graça.

Soluções inovadoras minimizam problemas de moradia da população de baixa renda

6 de fevereiro de 2019

 

Por Maure Pessanha *

Neste exato minuto, um terço da população mundial está morando em favelas e assentamentos informais, em áreas urbanas. De 2000 para 2012, o número de moradores nessa situação saltou, no mundo, de 760 milhões para 863 milhões, segundo o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat).

As projeções mostram que o cenário deve se agravar e, em 2050, teremos 3 bilhões de pessoas vivendo em habitações precárias. Embora as políticas públicas habitacionais priorizem a construção de novas unidades, o problema da insalubridade das moradias existentes é duas vezes maior – e mais urgente.

No Brasil, 40% dos domicílios brasileiros são considerados inadequados (sem acesso a água, rede de esgoto ou coleta adequada de lixo) e merecem atenção. É preciso olhar para esse contingente de pessoas vivendo em condições inadequadas; situação que atinge milhares de famílias em questões como autoestima, segurança, absenteísmo e frequência escolar, por exemplo.

Moradia precária na zona norte de São Paulo. FOTO: Werther Santana/Estadão

Transformar uma casa insalubre ou irregular em um ambiente seguro, confortável e saudável representa uma faísca de transformação, que impacta positivamente pessoas, famílias e o bairro como um todo. No Brasil, empreendedores de impacto social têm desenvolvido soluções inovadoras e viáveis, relacionadas diretamente às dores de moradia que afligem a população de baixa renda.

Uma dessas iniciativas é a Digna Engenharia, fundada em Campo Grande (MS), pelos engenheiros civis Evelin Mello e Alex da Silva Oliveira. O negócio de impacto social faz reformas em habitações localizadas em regiões periféricas da cidade. Com a atuação, reduz condições de insalubridade, promove saúde e amplia o acesso da população de menor renda a reformas profissionais.

Segundo a empreendedora, a motivação veio da própria experiência. Por ser moradora de periferia e estudar a adoção de técnicas alternativas para a restauração de habitações de pessoas em situação de risco social, Evelin desenvolveu uma solução de reforma estrutural, cujo orçamento do serviço é flexibilizado de acordo com a realidade do cliente. Em seis meses de atuação, a Digna já contabiliza 10 contratos firmados e já possui fila de espera.

“Transformar uma casa insalubre em um ambiente seguro e saudável representa uma faísca de transformação, que impacta pessoas, famílias e o bairro como um todo”

Em Porto Alegre (RS), a startup Diosa endereça dois desafios: empregabilidade feminina e a transformação de moradias insalubres. Fundada há dois anos por Maíra Peres e Larissa Blessmann, a empresa é um marketplace online que conduz a intermediação de serviços de reformas residenciais e consertos feitos por mulheres. Na prática, amplia as possibilidades de aumento de renda feminina, promove possibilidades de desenvolvimento para prestadoras de serviços, além de trazer mais opções para contratação desse tipo de serviço.

Maíra conta que a motivação para desenvolver o negócio de impacto social veio de uma experiência ruim ao contratar um profissional homem. As mulheres conhecem de perto o desafio e o risco de receber um desconhecido dentro de casa. No Brasil, 94% delas já sofreram assédio verbal e 77%, assédio sexual. Com a Diosa, as mulheres podem acessar uma série de profissionais para manutenções gerais em suas residências e se sentirem seguras. Além disso, o impacto social da empregabilidade é incrível. Na construção civil há 250 mil mulheres, sendo 70 mil autônomas. Desde o início, o negócio já atendeu mais de 440 solicitações.

Por último, destaco uma empresa fundada em São Paulo por Fernando Teles. A Ecolar atua com a construção de casas ecológicas de baixo custo. Voltada à população de menor renda – que vive a indignidade de habitar residências insalubres –, a casa desenvolvida pelo negócio de impacto social usa como matéria prima material reciclado e sustentável: as tecnologias Wood Frame e Modular, pouco difundidas no Brasil. As placas usadas nas casas são feitas a partir de embalagens “longa vida” e plásticos reciclados. As casas têm 20, 30 e 40 metros quadrados e saem a um custo de R$ 14 mil, R$ 20 mil e R$ 26 mil, respectivamente.

“No país, milhões de pessoas sentem diariamente a falta de dignidade, segurança, saúde, perspectiva de futuro. Do outro lado, o problema ambiental é igualmente preocupante”

Os resultados iniciais contabilizados estão na ordem de 1 milhão de embalagens recicladas e 25 ecolares construídos. No país, milhões de pessoas sentem diariamente a falta de dignidade, segurança, saúde, perspectiva de futuro. Do outro lado, o problema ambiental é igualmente preocupante. Nesse cenário, a Ecolar criou como solução de baixo custo, que apresenta agilidade na montagem, durabilidade, segurança, além do impacto ambiental positivo.

Cabe lembrar que, como centro das principais agendas sociais globais, a moradia é um tema essencial para a erradicação da pobreza. Pelo caráter transversal – influencia a qualidade de vida, saúde, segurança, educação e condições para o desenvolvimento humano – tornou-se uma temática essencial para a conquista dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas (ONU). Os empreendedores de negócios de impacto social estão olhando para esses desafios e trazendo grandes transformações positivas.

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

 

Saiu a lista dos países com mais empresas individuais – e o Brasil é o primeiro

4 de fevereiro de 2019

 

Por Ivan Bornes *

Os negócios individuais, ou seja, empresas de apenas uma pessoa, estão crescendo no mundo todo e já representam 9% do empreendedorismo global. A notícia interessante é que o Brasil está no número um da lista, com 53% do total de empresas nacionais em atividade operando sem sócios ou empregados. Estes são os números do último relatório do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) publicado semana passada, e que pode ser baixado aqui.

Não é segredo que o Brasil está tentando se recuperar de uma crise de tamanho colossal, e me parece claro que estes números – que se destacaram no cenário econômico mundial – não são necessariamente um símbolo de sucesso econômico, senão mais bem um desespero generalizado de muitos desempregados em busca de oportunidades. O segundo lugar – bem longe – ficou com Madagascar, onde 30% dos negócios são empresas individuais.

Uber, fonte de 'empresas' de um funcionário só. FOTO: Hannah McKay/Reuters

Um outro detalhe importante deste relatório é destacar a importância de diferenciar – pela primeira vez – os empreendedores das pessoas que empreendem através de aplicativos (como Uber, por exemplo). É um assunto ainda complexo de mensurar, conforme os pesquisadores do GEM, mas que está despertando cada vez mais interesse.

Um dos focos da pesquisa foi especificamente os “empreendedores via aplicativos” em 27 países, mostrando que um número expressivo desses trabalhadores independentes pretende abrir uma empresa própria em breve, o que poderia ser um sinal positivo de que os aplicativos estariam estimulando o empreendedorismo. Essas informações são muito importantes se o governo quiser implementar políticas públicas de estímulo ao empreendedor – e na geração de empregos.

O relatório da GEM é a mais respeitada fonte de informação e pesquisa sobre empreendedorismo mundial, fundado há 20 anos pela London Business School (Inglaterra) em parceria com o Babson College (EUA). Espero que o novo governo perceba que o Brasil tem enorme potencial de geração de empregos e crescimento econômico por meio do empreendedorismo.

* Ivan Primo Bornes é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo

Só sendo empreendedor de si mesmo, responderá a terceira pergunta!

1 de fevereiro de 2019

 

Marcelo Nakagawa *

Muitos associam o empreendedor àquele que lança um novo negócio. Essa é uma definição parcial e bastante recente, levando-se em consideração que o termo empreendedor aparece inicialmente no trabalho do economista irlandês Richard Cantillon, que, por volta de 1.710 associa o empreendedor à pessoa que tem a iniciativa de correr riscos.

Mas apenas no início do século XX que o termo empreendedor passou a assumir o conceito que se consolidou ao longo das décadas seguintes, muito em função das publicações do economista austríaco Joseph Schumpeter. Para Schumpeter, o empreendedor é aquele que sonha, é proativo, que conquista e tem prazer em inovar. No final de cada dia, o empreendedor é a pessoa que buscou viver a sua essência pessoal e verdadeira.

Neste contexto, empreendedor é um visionário que pode identificar as oportunidades e fazer de suas ideias uma realidade bem-sucedida. Ser um empreendedor não se limita às pessoas que começam os seus próprios negócios. O espírito empreendedor existe em todos os setores, em todos os níveis de carreira.

Mas os empreendedores mais notáveis são sempre aqueles que ousaram ser felizes, indo muito além do horizonte das suas razões.

Luiza Trajano, criadora do Magazine Luiza. Foto: Werther Santana/Estadão

Ainda lembro de uma palestra em que Luiza Trajano, criadora do Magazine Luiza, contou não apenas a sua história, mas sua saga como empreendedora. “Você quer ser feliz ou ter razão?” – perguntou logo no início. Se fosse para ter razão, ela não teria ido tão longe.

Liderar uma grande empresa sendo mulher em um país machista? Loucura. Iniciar o negócio em uma cidade pequena quando tudo gira em torno das grandes? Estupidez. Continuar priorizando o crescimento em cidades menores? Burrice. Ser mãe e executiva de um negócio em franco crescimento ao mesmo tempo? Não vai dar certo. Mas deu! Porque a Luiza decidiu por ser… ela mesma. Não à toa, o slogan mais conhecido do Magazine Luiza é o “Vem ser Feliz!”.

“Quando tentamos ser felizes, somos nós mesmos. Assumimos riscos, sonhamos, somos proativos, fracassamos, conquistamos e inovamos. Somos empreendedores de nós mesmos”

Mas quando procuramos ter razão, somos o que os outros querem que sejamos e passamos a ser empregados de sistemas externos. E, em muitos casos, isso se distancia daquilo que acreditamos ser a nossa felicidade intrínseca.

A médica geriatra especializada em cuidados paliativos, Ana Cláudia Arantes explica que é a terceira pergunta que será a última e mais importante em nossas vidas. Em uma palestra realizada na The School of Life ela contextualiza a terceira pergunta.

O rabino Sússia estava em seus últimos momentos, na agonia da morte, acompanhado pelo seu discípulo mais jovem e mais corajoso, que quis ficar ao lado do seu mestre neste momento. Na alta madrugada, o discípulo pergunta: Por que estás tão inquieto? Sússia se vira, olha a janela, alta da noite, a lua. Ele diz, com uma voz que tinha, mas que há muito tempo não tinha tanta força: tenho medo do Tribunal Celeste.

E aí o discípulo contra argumenta: Você? Medo do Tribunal Celeste? Um homem tão justo, honesto, cumpridor de tudo que se propôs na vida, sempre tão bondoso, sempre teve uma palavra amiga para todos que chegaram perto de você… Como você tem medo do Tribunal Celeste?

Sússia responde: Tenho medo que me perguntem por que não fui como Moisés. Mas eu posso responder que não fui como Moisés porque não sou Moisés. Podem perguntar por que não fui como Maimônides. Mas eu posso responder que não fui como Maimônides porque não sou Maimônides. O que mais me atormenta é se eles me perguntarem: Sússia, por que você não foi Sússia?

Esse é o maior medo que um ser humano pode ter no final da sua vida, explica Ana Cláudia Arantes. Os outros arrependimentos fazem parte dos momentos em que você ficou pensando se devia, se queria, se podia fazer, finaliza.

* Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.