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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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Como o empreendedorismo pode responder aos desafios da saúde pública

28 de dezembro de 2018

 

Maure Pessanha *

No País, o Sistema Único de Saúde (SUS) é a principal porta de entrada para cuidados médicos de quase 70% da população. Entre a baixa renda, esse porcentual sobe para 77%. Embora seja reconhecido como referência internacional, o sistema possui uma série de gargalos. Entre os usuários, é alto o grau de insatisfação com as longas filas, a demora para o atendimento e o agendamento de exames, problemas no acesso a medicamentos, falta de acompanhamento adequado a grupos de risco e portadores de doenças crônicas, falta de apoio à qualificação de profissionais que atuam na área, ineficiência no uso de dados e na integração de sistemas, dificuldades na prevenção e promoção da saúde básica, entre outros entraves.

Nesse contexto, os negócios de impacto social podem complementar e qualificar a oferta governamental. Têm potencial ainda de facilitar o acesso ao serviço público. O desafio de melhoria da qualidade do serviço prestado, sob o olhar dos empreendedores de impacto social, representam oportunidades de criar negócios que tragam inovação e tecnologia para o setor.

Um exemplo desse desafio-oportunidade são as doenças crônicas, que correspondem a 72% das causas de morte no Brasil e são responsáveis por 75% dos gastos com atenção à saúde pública. Essas são enfermidades que podem ser prevenidas ou controladas com diagnóstico precoce, hábitos saudáveis e monitoramento constante. Soluções focadas em endereçar desafios do setor podem apoiar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS) – em especial, o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), que trata de: “assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades”.

Quando pensamos na qualificação da utilização de recursos públicos, por exemplo, a startup Savelivez representa essa oportunidade. Fundada por Rafael Yassushi Oki, em Florianópolis (SC), o negócio auxilia bancos de sangue e hospitais a conseguirem doadores sob demanda por meio de uma plataforma que lança mão de recursos estatísticos e de inteligência artificial para fazer previsões dessas demandas por tipos sanguíneos e de hemocomponentes. A solução conta ainda com um mecanismo que avisa os doadores cadastrados quando o banco de sangue precisa do tipo sanguíneo do doador.

Em Itajubá (MG), o empreendedor e médico Francisco Sales de Almeida criou um negócio que desenvolve equipamentos eletromédicos. A Sensymed atua para resolver o problema de hipotermia, um desafio no pós-operatório que pode levar o paciente a um quadro severo neurológico, metabólico, hematológico e cardiovascular.

A startup desenvolveu o SensyWarming (SW01), um equipamento microcontrolado que proporciona um fluxo contínuo de ar aquecido, transferindo uma quantidade de calor variável com a temperatura ambiente e com a necessidade de cada paciente, até uma manta SensyBlanket que cobre o usuário, reduzindo os riscos de hipotermia. A solução reduz a permanência do paciente nos leitos, aumenta a rotatividade e, consequentemente, o número de pessoas atendidas. Reduz custos dos hospitais com um equipamento nacional e a um custo acessível.

 

“Essa nova geração de empreendedores tem encontrado o apoio para impulsionar seus negócios em organizações e institutos do setor. Essa forma de pensar pode mudar a realidade da saúde pública no Brasil”

 

Um terceiro exemplo desse tipo de empreendedorismo é a Pulsares. Criada pelo médico Rogério Malveira, o negócio oferece um software online que pode ser manuseado por médicos ou farmacêuticos. A solução gera um novo modelo de receita médica que facilita a compreensão do paciente por juntar pictogramas com design de informação. O programa gera uma receita organizada em horários se baseando na rotina do paciente, mostrando quando, como e o que tomar.

Estamos falando de gerar, para os pacientes, acesso à informação em uma linguagem de fácil compreensão que resulta em maior engajamento no uso de medicamentos. Consequentemente, há tratamentos mais eficazes e sem recorrência que impacta nos custos do SUS.

Esses são apenas três casos de empreendedores que respondem de forma inovadora aos desafios de saúde com que se depararam. Essa nova geração de empreendedores tem encontrado o apoio para impulsionar seus negócios em organizações e institutos do setor. Um deles, o Instituto Sabin, tem atuado com a crença de que modelos de negócios são a chave para transformar positivamente a saúde do País. Essa forma de pensar pode mudar a realidade da saúde pública no Brasil.

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil

 

Faça o teste: o quanto você é – ou não é – empreendedor?

24 de dezembro de 2018

 

Ivan Bornes *

Essa é a história do inquieto Thiago de Carvalho, de 35 anos, mestre em Ensino de Negócios pela New York University, country manager da Clinton Education e professor de empreendedorismo do Insper. Quando criança, foi diagnosticado com DDA (distúrbio de déficit de atenção) e o que poderia ter sido uma dificuldade se transformou num aprendizado de como lidar com a hiperatividade nos estudos e nos negócios.

Durante a estadia em Nova York, Thiago começou a pensar numa forma de organizar as diversas características do empreendedor. Assim surgiu a metodologia Quociente Empreendedor – ou Qemp (faça o teste gratuito clicando no link). Com a validação de especialistas em educação, ensino superior e empreendedores, hoje é uma startup que apoia o ensino de novos negócios, empreendedorismo e inovação. Confira abaixo a entrevista com Thiago.

Thiago, qual foi sua primeira experiência como empreendedor?

Quando eu estava na 7a série, em 1993, abriu uma loja que vendia computadores, perto de onde eu morava. Passei a fazer um bico lá, ajudando a montar PCs e depois eu mesmo passei a montar computadores em casa a pedido de amigos. Era uma época em que a internet tinha uns 500 sites – no mundo todo! – e a conexão era discada, com uns modens barulhentos. Eu ia de ônibus até a Santa Ifigênia e comprava as peças. Eu tinha 12 ou 13 anos, não imaginava isso como um negócio, era mais um hobby remunerado.

Agora você também é professor de empreendedorismo. Foi natural para você fazer essa escolha de carreira?

Sim e não! Eu era muito festeiro, perdi um ano da faculdade, o que me obrigou a mudar totalmente meu estilo de vida. Passei a ser um nerd, adorar bibliotecas e leitura, caso contrário não conseguiria terminar a faculdade de comunicação. Esse engajamento forçado me fez gostar tanto de aprender que depois da graduação fiz um mestrado em educação, em que pesquisei o processo de aprendizagem de empreendedores que receberam investimento de capital de risco. Também me tornei professor de empreendedorismo na mesma faculdade em que fiz uma pós-graduação em administração. Aliás, eu trabalho na Insper desde 2006, onde entrei como voluntário do centro de empreendedorismo.

E o seu lado empreendedor convive bem com o lado acadêmico?

Atualmente empreendo em uma área que me parece como um chamado. Eu me sinto extremamente confortável lidando com os desafios de quem quer abrir um negócio. É como se fosse um xadrez super sofisticado, mas não só com a matemática e a lógica desse jogo. Existe algo sem muita estrutura, que precisa ser descoberto conforme o negócio se desenvolve, especialmente algo que nasce do capital dos próprios empreendedores. Empreender hoje é diferente de empreender há 15 anos. Hoje é uma carreira. As pessoas se preparam, escolhem seguir esse caminho, hoje é possível ser empreendedor de forma organizada. Pesquisas mostram que os negócios seguintes de empreendedores tendem a durar mais que os negócios anteriores, pois empreendedores aprendem com os erros do passado.

“Para quem quer empreender no setor de educação, eu recomendo que só faça isso ao se associar com alguém da área”

Me fale do Qemp.

Em resumo, os empreendedores fazem uma avaliação online, e a ferramenta retorna uma avaliação científica dos pontos fortes e a melhorar do negócio. Não conheço nada parecido nos mercados nacional e internacional. Em cerca de 20 minutos, empreendedores recebem feedback personalizado, conseguem aprender sobre seus desafios e recebem um curso personalizado. Utilizamos esse método em startups, aceleradoras e grandes empresas interessadas em desenvolver o empreendedorismo corporativo.

São seis pilares no teste Qemp: controle e planejamento, dinâmica do mercado, aderência, perfil empreendedor, recursos e experiência. Por exemplo: é possível medir o quanto alguém controla e planeja, comparado com sua habilidade de identificar recursos ou o quanto entende da dinâmica do mercado em que atua ou planeja atuar. Além dos pilares, o teste também mede as dimensões pessoais. Ou seja, o que é dominante em relação ao projeto: inovação, análise, processos ou relacionamento.

A partir da avaliação, apresentamos objetivos de ação, adaptados conforme as respostas.

Para o empreendedor, os dias e as noites são bem diferentes do normal das pessoas. Como que você vive isso no dia a dia?

Durante uma época, cheguei a trabalhar por diversos dias das 4h às 23h. Era um trabalho intelectual pesado – montar um negócio em um setor ainda em construção -, isso significou um peso maior do que consegui carregar. Na virada de 2017 para 2018, tive diversos sintomas relacionados à síndrome do burnout. Após cerca de 10 meses de trabalho mais leve, vou lançar uma versão 2.0 do produto, o que significa que seremos, sem dúvida, a melhor ferramenta do mercado para o que ela se propõe.

Quais seriam tuas dicas aos empreendedores que estão chegando agora no teu setor?

Primeiro, gostaria de passar uma dica para quem quer empreender de forma geral: se está muito difícil vender ou construir um produto ou serviço, você está no caminho errado. Pare e repense tudo o que está fazendo, inclusive se deve continuar fazendo isso. Para quem quer empreender no setor de educação, eu recomendo que só faça isso ao se associar com alguém da área. Diferentemente de setores como varejo ou alimentação, por exemplo, o setor de educação é uma área em que poucas pessoas têm experiência.

Vejo muitos empreendedores engajados nessa área, mas que não fazem ideia do que estão fazendo. A vontade e a motivação de atuar na área da educação, que é fascinante, atrapalha a percepção sobre o que sabem ou não sabem desse setor. Outra dica para quem está começando é: se você gastou cerca de R$ 50 mil ou mais para começar um negócio e sua receita ainda não paga várias contas da empresa, considere que você também pode estar no caminho errado.

“Em diversas áreas, o Brasil está atrasado cerca de 30 a 40 anos em relação aos países considerados desenvolvidos. Em outros setores, está até mais atrasado”

Qual o futuro do Brasil?

Em diversas áreas, o Brasil está atrasado cerca de 30 a 40 anos em relação aos países considerados desenvolvidos. Em outros setores, está até mais atrasado. Dessa forma, será necessária uma ou duas gerações para que tenhamos alguns indicadores de primeiro mundo. O que me preocupa é que existem carreiras que não são ensinadas em faculdades, mas ganharam uma sofisticação imensa. Por exemplo, as carreiras do crime organizado e corrupção. Por mais que em diversos outros indicadores o Brasil venha a melhorar, como renda média, mortalidade infantil, alfabetização etc., em outros setores haverá pessoas em que a única razão de existir seja a de fazer mal aos demais.

O Brasil é atrasado da forma que é por causa de 200, 300 mil pessoas. Entre eles estão os principais líderes de quadrilhas, sejam quais forem, promotores de desigualdade e insegurança. Ainda assim, o Brasil é 99,9% bom. Meu papel está em fornecer ferramentas e oportunidades para quem quer seguir a carreira de empreendedor. Faço isso há 10 anos e continuarei por mais algumas décadas, no mínimo.

Acompanhe o trabalho de Thiago (thiago@qemp.com.br) e faça o teste do empreendedorismo no site do Qemp.

* Ivan Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Startup de conteúdo ao vivo, ClapMe mostra caminho de reinvenção

17 de dezembro de 2018

 

Ivan Bornes *

Esta é a história do empreendedor, sonhador e jornalista Filipe Callil, 29 anos, casado com Maria (de quem ele foi colega na faculdade de jornalismo), neto de libaneses e um dos fundadores da startup ClapMe, plataforma de vídeos – live e vod – para agências de publicidade e marcas, focada na criação, produção e execução de conteúdo transmitido ao vivo (streaming).

A ClapMe, como nos conta Filipe na entrevista a seguir, surgiu com a ambição de ser a “Netflix dos shows ao vivo”, mas após dificuldades no meio do caminho, em 2016 eles deram uma virada de mesa e se transformaram numa das maiores – senão na maior – empresa no Brasil que atende o mercado publicitário com conteúdo ao vivo.

Instalada na nova sede na Rua Fidalga – na badalada Vila Madalena – a ClapMe já transmitiu ao vivo mais de 2 mil eventos, tem mais de 250 mil usuários e 12 mil artistas cadastrados, além de uma grade de programas de humor, shows e entretenimento com interação ao vivo entre público, artistas e marcas.

Filipe Callil, Diego Yamaguti, Celso Augusto Forster e Felipe Imperio, sócios da ClapMe em espaço em reforma na sede na Vila Madalena. Foto: Giovani Cavalcanti

Como foi sua jornada de aprendizado antes do surgimento da ClapMe?

Cresci numa família de classe média e, desde pequeno, tive que aprender a me virar. Meus pais tiveram muitos momentos de crises financeiras. Tive que ver meu pai quebrar e recomeçar inúmeras vezes ao longo da vida. O meu primeiro “emprego” foi aos 13 anos de idade. Eu cuidava de uma lojinha de roupas e acessórios fitness que meu pai tinha na época dentro de uma academia de São Paulo. No primeiro ano de faculdade, voltei a trabalhar com meu pai em uma confecção. Ele era o gerente comercial da fábrica e eu trabalhava na estamparia.

Ainda no primeiro ano de faculdade, eu consegui arrumar o meu primeiro estágio como jornalista em uma assessoria de comunicação, a X Comunicação. Foi lá que conheci o Celso Augusto Forster, com quem anos depois fundei a ClapMe. Ele era o meu melhor amigo no trabalho, além de um “chefinho” mentor com quem eu tinha liberdade para falar sobre tudo, principalmente sobre rock’n roll. A paixão por música é o que nos uniu logo de cara.

E depois consegui finalmente meu estágio na TV Record – meu sonho era ser repórter de TV. Trabalhei na Record de 2009 a 2013, quando pedi demissão para focar 100% na ClapMe. Sou muito grato a tudo o que pude aprender na Record. Muito do que hoje aplico na minha empresa aprendi lá com os meus colegas de trabalho e ex-chefes.

 

“Ao escolher que você quer empreender, você irá privar a sua família de algumas escolhas. É uma decisão difícil e, nesse aspecto, muitas vezes egoísta também.”

 

Você sempre destaca a importância da família e, sobretudo, de sua mulher, Maria, no empreendimento. Como você avalia a importância do apoio familiar no sucesso do empreendedor?

Mais do que uma namorada e amiga, Maria foi a pessoa que, apesar de todas as incertezas, apostou comigo no sonho. Até 2016, ela pagava todas as contas praticamente sozinha. Até hoje ela paga muito mais conta do que eu (risos). Atualmente, a Maria trabalha na área de comunicação de uma grande multinacional. Quando eu contei para os meus pais que iria pedir demissão da Record para me dedicar a um projeto pessoal, eles acharam que eu não estava muito bem da cabeça – até pouco tempo atrás eles ainda achavam isso (risos). Mas sempre respeitaram minha decisão e tentaram me dar o suporte necessário dentro do que podiam. Com a Maria também não foi muito diferente. Mas ela ainda teve que sofrer mais as dores comigo.

Depois que fomos morar juntos, quando a empresa ainda não podia me pagar um pró-labore, era ela quem me dava todos os subsídios para que eu pudesse sobreviver. Desde o dinheiro para ônibus, roupas, comida, viagens etc. Com tudo isso, eu aprendi que empreender é uma decisão que, cedo ou tarde, irá influenciar na vida das pessoas que estão ao seu redor. Ao escolher que você quer empreender, você irá privar a sua família de algumas escolhas. É uma decisão difícil e, nesse aspecto, muitas vezes egoísta também. Mas sou muito grato à Maria por toda paciência e confiança que ela depositou em mim. Sem o apoio dela, com certeza a história teria sido muito pior.

Você estava com emprego bom, num grande grupo de mídia, já se encaminhando para ser repórter de TV. De onde veio essa vontade de empreender, que deixou todo mundo de cabelo em pé?

Eu já devo ter nascido empreendedor. Desde criança eu gostava de inventar coisas, eu preferia construir os meus brinquedos do que brincar com um pronto, compor músicas e fazer “rolos”. O meu primeiro violão foi fruto de um rolo que fiz, aos 11 anos de idade, com um vizinho: eu dei um patins que não me servia mais e ele me deu o violão. Essa era a época em que meus pais estavam mais apertados de dinheiro, então eu construía coisas ou fazias rolos para poder ter as coisas que eu queria.

Um pouco antes dessa época, quando eu tinha uns oito anos de idade, eu montei uma vara de pescar com ímã para pegar as moedas que caíam no ralo que tinha em frente à cantina do colégio. Era um fosso de uns 5 metros de altura. E eu ficava no recreio ou no final da aula pescando as moedas que caíam lá. Enfim, cresci querendo montar coisas, fazer coisas… Tive banda de rock na adolescência. Acredito que tudo isso fez com que a minha veia empreendedora florescesse.

E como surgiu a ClapMe?

Ainda na época da faculdade, eu dizia para os meus amigos de classe – inclusive para Maria – que um dia montaria um negócio. Não tinha ideia exatamente do que seria. Mas dizia que iria montar um negócio no mercado da música. O pessoal me achava meio doido, inclusive Maria. Até tentei arrumar uns sócios na faculdade, mas ninguém levou muito a sério. Quando eu estava no final da faculdade, já estagiando na Record, eu tentei montar a ClapMe com alguns amigos da Record. Não foi muito para a frente e acabei guardando a ideia na cabeça.

No final de 2011, quando estava em Ribeirão Preto prestes a voltar para São Paulo, conheci o Diego Yamaguti da Silva e o Felipe Imperio. Na época, eles estavam encerrando as operações da AdBees, uma plataforma de compras coletivas. Comentei com eles que tinha uma ideia ainda da época da faculdade: um palco virtual para artistas se apresentarem. Eles gostaram da ideia e começaram a me ajudar a tirá-la do papel. Decidimos virar sócios. Pouco tempo depois, ligamos pro Celso e convidamos ele para ser nosso sócio também.

 

“Para mim, ser empreendedor não é ter um bom diploma. Está mais ligado à personalidade da pessoa e ao modo como enxerga o mundo. Conhecimento qualquer um pode adquirir. Resiliência, não. E, para mim, resiliência é a principal virtude que um empreendedor precisa ter”

 

Como é o dia a dia da empresa?

Eu tendo a dizer que empreendedor não se constrói. Ou você é ou você não é. Toda empresa precisa ter pelo menos um sócio que seja realmente empreendedor. Tem gente que cria um negócio sem ter a veia empreendedora e, para o projeto evoluir, precisa encontrar um sócio que assuma esse protagonismo empreendedor. No caso da ClapMe, acredito que os quatro sócios tenham essa veia empreendedora. Dependendo do momento ou da situação, um dos quatro assume o protagonismo – e isso é muito bom para dividir o peso e as responsabilidades do negócio.

Na tua opinião, qual a principal característica de um bom empreendedor?

Para mim, ser empreendedor não é ter um bom diploma, conhecimento, bagagem, experiência – apesar de que tudo isso agrega valor e, muito provavelmente, fará com que você economize tempo na sua jornada empreendedora. Para mim, ser empreendedor está mais ligado à personalidade da pessoa e ao modo como enxerga o mundo. Conhecimento qualquer um pode adquirir. Resiliência, não. E, para mim, resiliência é a principal virtude que um empreendedor precisa ter.

Falando particularmente de mim, acho que o meu lado empreendedor nasceu muito antes da ideia – por mais que eu tenha começado a ClapMe sem ter a menor ideia prática ou teórica do que era empreender (risos). Se não tivesse sido a ClapMe, cedo ou tarde, teria sido outro negócio, outra ideia. Até hoje muito dos nossos acertos são com base nos erros que a gente cometeu lá atrás e que ainda cometemos.

Não somos empreendedores acadêmicos ou de “palco” (aqueles que vendem mais livros e palestras do que desenvolvem negócios). Eu e meus sócios somos empreendedores “graxa”, como costumamos dizer. Estamos construindo nossa empresa em cima de cada erro e acerto que cometemos. E isso dá um tesão danado, pois o desafio é constante.

 

“Investidor gosta disso: empreendedor que não desiste mesmo quando todo mundo já desistiu”

 

Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do normal das pessoas. Como é a tua rotina?

Eu não consigo mais separar trabalho de vida pessoal. Sei que isso pode até ser considerado errado. Mas é o modo como vivo a vida. E acaba tendo bônus e ônus. Ao mesmo tempo em que trabalho praticamente todas as horas/dias em que estou acordado, por outro outro lado tenho a flexibilidade de organizar a minha agenda da forma que melhor me convém. Posso fazer jiu-jítsu na hora do almoço, à tarde, à noite, o horário que quiser. Posso viajar no meio da semana. Posso fazer home-office quando quiser. Se acordo com dor de cabeça, posso cancelar todas as minhas reuniões do dia e dormir – não que alguma vez eu tenha conseguido de fato fazer isso (risos).

No começo era bem difícil. Porque eu não tinha dinheiro para poder fazer coisas com a Maria (jantares, cinema, viagens etc) nem tempo, pois tinha que trabalhar o máximo que aguentasse para mudar a situação. Mas, de fato, esse equilíbrio só vem com o tempo e com dinheiro. Hoje, eu e meus sócios já conseguimos nos organizar melhor para aproveitar também nossas famílias. Por exemplo: eu tenho um acordo com Maria de não usar o celular para trabalhar em viagens de férias. E tenho conseguido respeitar o acordo. Eu vou trabalhar todos os dias de bike elétrica – são 7 km entre Moema, onde moro, e a Vila Madalena, onde fica o escritório. Gosto de aproveitar o trajeto para pensar em novas ideias, observar a movimentação da cidade.

Quais são os planos de futuro para a ClapMe?

Estamos negociando mais um round de investimento – este será o nosso 4º round – para ampliar algumas linhas de negócio. Estamos inseridos dentro de um mercado (mídia/economia criativa) extremamente competitivo e com poucas barreiras de entrada. Então, acaba ganhando quem tem mais velocidade e melhor execução. Vale lembrar que a ClapMe precisou dar uma pivotada em 2016 para sobreviver.

No começo, queríamos ser uma plataforma de assinatura de conteúdos artísticos (peças, shows, etc)… uma espécie de “Netflix de shows ao vivo”. Por várias razões, o modelo acabou não tracionando. Decidimos guardar o modelo numa gaveta imaginária e decidimos ir atrás de onde estava o dinheiro desse mercado.

Acabamos nos tornando uma espécie de plataforma de conteúdos para agências de publicidade e marcas. Só em 2018, nós realizamos mais de 100 projetos com transmissões ao vivo com marcas. Indiscutivelmente, somos hoje a principal empresa que atende o mercado publicitário na criação, na produção e na execução de ativações com transmissão ao vivo.

Mas, há alguns meses, nós decidimos retomar o nosso modelo de negócios “raiz” – a assinatura de conteúdos – e estamos desenhando novas estratégias para conseguir colocar o modelo de pé.

 

“Dinheiro bom é o dinheiro dos clientes e não o dinheiro de investidor”

 

Muitos empreendedores que acompanham esta coluna tem curiosidade sobre a captação de investimentos. Como foi para vocês?

O curioso dessa história é que não estávamos buscando investimento quando começamos a negociar com eles. Havíamos acabado de ganhar o InovAtiva Brasil (um programa brasileiro de startups público e privado) e parte da premiação resumia-se a mentorias dessas alumnis de Harvard. Com isso, pudemos ser 100% transparentes com eles, contando sobre nossas dificuldades, falhas… E, depois de alguns meses, a proposta surgiu deles.

Foi um aprendizado muito legal: é muito melhor quando o investidor quer vocês do que o contrário. E de novo bato na tecla da resiliência. Tendo a acreditar que foi a nossa persistência – mesmo frente a diversos fracassos e incertezas – que chamou a atenção deles. Investidor gosta disso: empreendedor que não desiste mesmo quando todo mundo já desistiu.

Quero destacar quem são nossos investidores: Jump Brasil (aceleradora do Porto Digital, Recife), Triple Seven (fundo privado de investimento aqui de São Paulo) e HBS Brasil (Harvard Business School Brasil, comitê formado por alumnis de Harvard que investem em empresas de inovações). O investimento de HBS foi muito produtivo, pois trouxe pra dentro do negócio mais de 20 executivos de alto escalão. Diretores, VPs, Presidentes das maiores corporações globais (ambev, Itaú, IBM, Cielo etc). Só de ter a agenda de pessoas com esse gabarito para tomar um café e falar de negócios, o investimento já se justifica.

Que dicas pode dar aos empreendedores que estão chegando agora?

Vá atrás do dinheiro. Às vezes a ideia pode ser brilhante, escalável, sexy e ultra-inovadora. Mas ela não valerá de nada se você não tiver clientes. Dinheiro bom é o dinheiro dos clientes e não o dinheiro de investidor. Ache um modelo rápido de colocar de pé, mesmo que não seja o mais brilhante, escalável, sexy e ultra-inovador. Mas vai ser o modelo para fazer com que você, no futuro, possa desenvolver o outro modelo mais brilhante, escalável, sexy e ultra-inovador. Eu vi muita startup morrer porque os sócios ficaram insistindo em um modelo que não gerava receita. No começo você até se vira para manter a operação. Mas depois de dois, três anos… fica inviável.

Outra dica: não decida empreender por falta de opção e sim o contrário. Empreender é uma escolha! Tenho visto muitas pessoas que estão montando negócio porque perderam o emprego, por exemplo, e sem alternativa estão montando startups. Isso é ruim para a pessoa e também para o ecossistema. O mercado satura com um monte de startups mal administradas e sem visão de futuro.

Na tua opinião, qual o futuro do Brasil?

Ainda temos muito o que evoluir em relação a empreendedorismo no Brasil. A mudança talvez precise começar nas escolas. Como jornalista posso dizer que não aprendi nada na universidade sobre empreendedorismo. É importante fomentar o assunto nas universidades e gerar debates entre os alunos. Eu gosto muito de contribuir com o mercado de empreendedorismo. Sempre que posso, dou mentorias para novos empreendedores, participo de eventos de setor e afins. Em breve, espero ter condições para me tornar investidor.

Ivan Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Estimulada pela ONU, pesquisa deve ajudar na construção de cidades mais humanas

12 de dezembro de 2018

Maure Pessanha *


Na trilogia Homo Faber, o sociólogo norte-americano Richard Sennett defende que o planejamento urbano e a arquitetura podem ser mais do que ferramentas para que uma cidade funcione corretamente; podem ser, na realidade, elementos para torná-la mais aberta, receptiva a misturas e transformações. Mais do que uma decisão técnica, está em jogo uma escolha ética que define o modo como vivemos e nos relacionamos com a cidade. Uma escolha, sobretudo, decisiva em tempos de questionamento de como podemos construir cidades mais humanas – que tenham o cidadão no centro de um processo socioeconômico e cultural transformador.

 

Nesse contexto, penso que oportunidades para empreender negócios de impacto social são muitas e, quando associadas à Agenda 2030 e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas (ONU), representam a possibilidade de um avanço exponencial na qualidade de vida da população – sobretudo na de menor renda. No entanto, as decisões e prioridades devem ser estabelecidas a partir de um processo de escuta responsável e genuíno.

Rocinha, no Rio, onde a percepção da população para o aumento de favelas é de 97%. Foto: Wilton Junior/Estadão-30/4/2018

 

Na prática, é preciso inserir todos os brasileiros e brasileiras, que vivenciam os problemas em suas cidades, para a construção de soluções coletivas. É dentro dessa seara que se insere a consulta Cidades e Comunidades Sustentáveis. O Colab – negócio de impacto social dedicado a questões urbanas e manifestações de cidadania – está liderando essa enquete popular. Acelerada pela Artemisia, a startup propicia ao cidadão a oportunidade de ser ouvido pelo poder público.

 

A consulta Cidades e Comunidades Sustentáveis é uma iniciativa do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Urbanos, via ONU-Habitat. A proposta é que os brasileiros e brasileiras comparem a vida urbana de hoje à de dois anos atrás. As questões estão relacionadas ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 11 – que busca tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. Hoje, mais de metade da população mundial vive em áreas urbanas; no Brasil, essa parcela é de quase 85%. O objetivo da agência é cruzar as respostas dos brasileiros com os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e órgãos internacionais para monitorar esse desempenho perante o desafio da ODS 11.

 

Com o apoio da Artemisia, o ONU-Habitat e o Colab estão conduzindo essa consulta pública para diagnosticar o avanço do Brasil perante aspectos da vida urbana. Com a participação dos cidadãos brasileiros será possível ter um diagnóstico completo sobre a percepção popular em temas como transporte, inclusão, serviços básicos e transparência. Em curso desde 1º de outubro de 2018, já temos dados preliminares, que apontam a percepção do aumento do número de favelas e assentamentos informais para 78% dos brasileiros que responderam ao questionário; no Rio de Janeiro, o índice é de 97%. Já em relação ao acesso a serviços básicos – água potável, saneamento, eletricidade e coleta de resíduos – 45% dos brasileiros têm a percepção de que melhorou nos últimos dois anos; em Brasília, esse índice é de 50%; em Campinas e Niterói, 47%.

 

A consulta abrirá espaço para a atuação de tantas outras iniciativas de empreendedorismo social, pois trará insumos importantes para o desenvolvimento de produtos e serviços voltados à construção dessa cidade inteligente e inclusiva para todos. Para a produção de um diagnóstico transformador, a participação de todos é fundamental. Colabore com a iniciativa, respondendo as 29 questões de múltipla escolha até 24 de dezembro. O questionário está disponível no www.colab.re ou pelo aplicativo Colab. Podemos, juntos, construir um novo Brasil.

 

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil

 

 

|Por Maure Pessanha

Na trilogia Homo Faber,o sociólogo norte-americano Richard Sennett defende que o planejamento urbano e arquitetura podem ser mais do que ferramentas para que uma cidade funcione corretamente; podem ser, na realidade, elementos para torná-la mais aberta, receptiva a misturas e transformações. Mais do que uma decisão técnica, está em jogo uma escolha ética que define o modo como vivemos e nos relacionamos com a cidade; uma escolha, sobretudo, decisiva em tempos de questionamento de como podemos construir cidades mais humanas – que tenham o cidadão no centro de um processo socioeconômico e cultural transformador.

Nesse contexto, penso que oportunidades para empreender negócios de impacto social são muitas e, quando associadas à Agenda 2030 e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas (ONU), representam a possibilidade de um avanço exponencial na qualidade de vida da população – sobretudo na de menor renda. No entanto, as decisões e prioridades devem ser estabelecidas a partir de um processo de escuta responsável e genuíno. Na prática, é preciso inserir todos os brasileiros e brasileiras, que vivenciam os problemas em suas cidades, para a construção de soluções coletivas. É dentro dessa seara que se insere a iniciativa Consulta Cidades e Comunidades Sustentáveis. O Colab – negócio de impacto social dedicado a questões urbanas e manifestações de cidadania – está liderando essa enquete popular. Acelerada pela Artemisia, a startuppropicia ao cidadão a oportunidade de ser ouvido pelo poder público.

A consulta Cidades e Comunidades Sustentáveisé uma iniciativa do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Urbanos, via ONU-Habitat. A proposta é que os brasileiros e brasileiras comparem a vida urbana de hoje à de dois anos atrás. As questões estão relacionadas ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 11 – que busca tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. Hoje, mais de metade da população mundial vive em áreas urbanas; no Brasil, essa parcela é de quase 85%. O objetivo da agência é cruzar as respostas dos brasileiros com os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e órgãos internacionais para monitorar esse desempenho perante o desafio da ODS 11.

Com o apoio da Artemisia, o ONU-Habitat e o Colab estão conduzindo essa consulta pública para diagnosticar o avanço do Brasil perante aspectos da vida urbana. Com a participação dos cidadãos brasileiros será possível ter um diagnóstico completo sobre a percepção popular em temas como transporte, inclusão, serviços básicos e transparência. Em curso desde 1º de outubro de 2018, já temos dados preliminares, que apontam a percepção do aumento do número de favelas e assentamentos informais para 78% dos brasileiros que responderam ao questionário; no Rio de Janeiro, o índice é de 97%. Já em relação ao acesso a serviços básicos – água potável, saneamento, eletricidade e coleta de resíduos – 45% dos brasileiros têm a percepção que melhorou nos últimos dois anos; em Brasília, esse índice é de 50%; em Campinas e Niterói, 47%.

A consulta abrirá espaço para a atuação de tantas outras iniciativas de empreendedorismo social, pois trará insumos importantes para o desenvolvimento de produtos e serviços voltados à construção dessa cidade inteligente e inclusiva para todos. Para a produção de um diagnóstico transformador, a participação de todos é fundamental. Colabore com a iniciativa, respondendo as 29 questões de múltipla escolha até 24 de dezembro. O questionário está disponível no www.colab.reou pelo aplicativo Colab. Podemos, juntos, construir um novo Brasil.

|Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

A criatividade como estratégia de desenvolvimento sustentável

10 de dezembro de 2018

 

Ivan Bornes *

Lucas Foster é psicólogo especialista em criatividade. Em 2011, fundou a ProjectHub, empresa de tecnologia que acelera e simplifica o investimento em projetos criativos com foco na experiência de vida das pessoas, na inovação e no desenvolvimento sustentável. Atende clientes como Google, Mercado Livre, YouTube, entre outros gigantes.

Para ele, é difícil fazer planos de futuro para os negócios no Brasil, por isso prefere ver os negócios em “ciclos de amadurecimento”. “Penso que (fazer negócio no Brasil) é como plantar uma semente saudável em um solo instável. Por mais que tenha potencial, os fatores externos podem destruir uma safra”, diz ele, que na entrevista abaixo conta mais de sua experiência como empreendedor.

O empreendedor Lucas Foster, do ProjectHub. Foto: Rafael Arbex/Estadão

Como é ser empreendedor com um pé na psicologia?

Me formei em psicologia, mas sempre me interessei pelo empreendedorismo. Meus avós eram empreendedores, assim como meus pais. Nasci e vivi a maior parte da minha vida na região da Avenida Paulista. Sou filho de pais que vieram do interior nos anos 1960, cresceram na periferia da cidade e conquistaram muitas coisas por uma extrema dedicação aos estudos e ao trabalho.

Como surgiu o empreendedor em você?

Meus pais assinavam as revistas em quadrinhos da Turma da Mônica, que chegavam todo mês, desde os meus 6 anos de idade. Um dia, decidi pegar todas elas e levar na calçada da rua onde a gente morava. Junto com meus amigos, vendemos tudo e, ao final do mês, tínhamos dinheiro suficiente para comprar alguns brinquedos e ir a uma lanchonete da Rua Augusta. Tenho na minha recordação que essa foi a minha primeira experiência empreendedora. Só não continuei fazendo isso porque tinha acabado o estoque (risos).

Já na vida adulta, decidi empreender porque não enxergava outra alternativa para o desenvolvimento da minha vida profissional. Eu tinha começado minha carreira no setor público, pois acreditava na missão de qualificar a experiência de vida das pessoas de maneira direta e efetiva. No entanto, a burocracia e a cultura do setor público no Brasil dificultam bastante a realização deste propósito. Com isso, tentei buscar emprego no setor privado, mas não conseguia me encaixar nas vagas que me interessavam. Assim, fiquei com duas alternativas: ou voltava para a faculdade ou empreendia. Decidi empreender.

E a ProjectHub?

Após realizar um período de estudos em liderança internacional fora do país, retornei ao Brasil, em 2010, com o desejo de empreender para qualificar a experiência de vida das pessoas, um propósito que me acompanhou durante toda a vida e que se tornou realidade em 2011.

No início, quando registrei o domínio do site e fiz minha primeira apresentação comercial, a única coisa que tinha certeza era que minha empresa iria trabalhar para qualificar a experiência de vida das pessoas. O resto foi consequência do meu entusiasmo em trabalhar por este objetivo.

A família participa do empreendimento, do estilo de vida?

Minha família foi determinante para minha decisão de iniciar um negócio e continuar persistindo até ele dar certo. O investimento financeiro que eles fizeram no início foi: não me expulsar de casa e oferecer um teto, roupa, comida, um computador e acesso à internet até que eu começasse a ganhar dinheiro por conta própria, o que levou quase um ano.

No entanto, o verdadeiro e principal apoio que eles me deram foi afetivo e emocional. Tinham a paciência de me ouvir e conversar comigo sobre as coisas que tinham acontecido naquele dia, incentivar e valorizar minha coragem e meu empenho. Sem dúvida alguma, o acolhimento emocional dos meus pais foi o melhor investimento que eles poderiam ter feito, pois o custo financeiro era baixo, mas o retorno em dedicação, persistência e equilíbrio emocional eram muito altos.

Com isso, foi questão de tempo até encontrar o modelo de negócios certo que equilibrasse o propósito de trabalhar para qualificar a experiência de vida das pessoas e a necessidade de ganhar dinheiro com isso.

Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do “normal” das pessoas. Como é isso com você?

Existe uma grande diferença entre o tempo do empreendedor e o tempo do colaborador. Ambos são essenciais e interdependentes. A convenção de um período fixo do dia dedicado para o trabalho permite ao colaborador a possibilidade de estabelecer uma rotina um pouco mais estruturada, mas não é uma realidade comum ao empreendedor.

Ao mesmo tempo em que o empreendedor precisa ser responsável por liderar o negócio e gerar oportunidades que tragam o faturamento necessário para preservar essa rotina aos colaboradores, essa condição permite ao empreendedor ter uma flexibilidade maior no seu dia a dia, inclusive para assumir compromissos e responsabilidades afetivas que não dizem respeito ao conjunto de deveres dos colaboradores, como a ansiedade com o futuro, as incertezas do mercado, as mudanças no relacionamento com fornecedores, parceiros e governo e, principalmente, a necessidade de manter seu negócio competitivo e relevante para seus clientes.

Aos poucos, portanto, fui perdendo o contato com meus amigos que escolheram uma trajetória corporativa e fui me identificando, cada vez mais, com outros empreendedores e empreendedoras considerando que os desafios e a realidade são mais parecidos. Hoje, faço parte de vários grupos e comunidades empreendedoras no Brasil e em outros países sempre com a intenção de construir uma rede de apoio que ajude cada um de nós a ser melhor um dia após o outro.

Quais são os planos para os próximos anos?

É muito difícil fazer planos de futuro para os negócios no Brasil. Penso que é como plantar uma semente saudável em um solo instável. Por mais que tenha potencial, os fatores externos podem destruir uma safra. Por isso, prefiro olhar para a evolução dos nossos negócios em ciclos de amadurecimento.

Desde a fundação da ProjectHub, vivemos três ciclos de amadurecimento com resultados expressivos. Agora, estamos iniciando nosso quarto ciclo de amadurecimento. Em 2019, vamos anunciar a criação de duas novas empresas, o LabCriativo (empresa de mídia e educação) e a Originals Media House, nossa empresa produção audiovisual.

Ao mesmo tempo, continuaremos investindo para trazer novos talentos e mais inovação para a ProjectHub, nossa empresa de tecnologia que fornece software para grandes empresas fazerem a transformação digital de seus investimentos de marca, reduzindo custos e desperdícios de tempo e energia de seus colaboradores.

Se você pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora, qual seria?

Os setores ligados à criatividade e à inovação estão em forte expansão. Com a evolução das novas tecnologias e cada vez mais pessoas conectadas, novos modelos de negócios surgem diariamente e, portanto, mais oportunidades para novos empreendedores. A melhor maneira de começar nesta área é pesquisando o mercado, participando de grupos e comunidades ligadas ao tema e testando sua ideia antes de realizar grandes investimentos.

Compartilhe suas ideias de maneira saudável com pessoas próximas e confiáveis. Teste o seu discurso e crie um MVP (minimum viable product, ou produto mínimo viável) antes de contratar pessoas ou assumir custos fixos robustos. Ou seja, minha principal dica é que os entrantes sigam um conceito usado pelas startups chamado “bootstrapping”.

Fazer bootstrapping significa começar um negócio a partir de recursos limitados, sem o apoio de investidores. Ou seja, nessa forma de iniciar startups, o empreendedor geralmente utiliza recursos próprios para lançar o negócio sem o apoio de fundos de investimento e prioriza o faturamento com clientes em vez de ir em busca de grandes investidores.

Qual o futuro do Brasil?

O futuro do Brasil é promissor. Temos um mercado consumidor em potencial gigantesco, somos o maior país da América do Sul e uma das maiores economias do mundo. O brasileiro gosta de novas tecnologias e é um grande consumidor de diferentes tipos de conteúdo. O contexto mostra que estamos em um momento de transição e que o Brasil precisa se conectar mais com a Ásia e ampliar seus investimentos em educação, redução da burocracia e diminuição das despesas públicas, incluindo a Previdência e folha de pagamento com servidores.

Se essas medidas forem feitas de maneira eficaz, o Brasil passa a ser um solo fértil para o desenvolvimento de novos negócios, atraindo investimentos e gerando emprego. Me vejo contribuindo com o desenvolvimento do Brasil, mas entendendo que minha parte é muito pequena diante do todo.

No entanto, qualquer organização comprometida em incentivar a criatividade e a inovação como estratégias de desenvolvimento sustentável, para qualificar a experiência de vida das pessoas no Brasil e que atue para conectar nossa economia criativa com o mundo, para ampliar oportunidades aos nossos empreendedores e acelerar a internacionalização de startups brasileiras ao redor do mundo, deve ser estimulada e apoiada. Vamos em frente.

 

* Ivan Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br)

2018, o melhor ano da história das startups no Brasil

7 de dezembro de 2018

 

Marcelo Nakagawa*

Os boatos já circulavam no final de dezembro de 2017, mas no dia 2 de janeiro de 2018 o Brasil tinha, oficialmente, seu primeiro unicórnio. A chinesa Didi assumiu o controle do aplicativo de transporte urbano 99 por R$ 1 bilhão. Somado aos outros investimentos da empresa (criada em 2012 por Ariel Lambrecht, Renato Freitas e Paulo Veras), esse valor definia a primeira startup criada no Brasil avaliada em US$ 1 bilhão. A 99 foi apenas a primeira de vários outros unicórnios que vieram depois, como Nubank, Stone, Movile, iFood e Arco. Excluindo China e Estados Unidos, nenhum outro país conseguiu criar tantos cavalinhos com um único chifre como o Brasil.

Janeiro não havia acabado quando o IPO da PagSeguro na Bolsa de Nova York deixou o mercado internacional incrédulo. “NYSE’s Biggest IPO Since Snap Is $2.3 Billion for Brazil Fintech” foi o título da reportagem publicada na Bloomberg. Aquela startup corporativa que vendia maquininhas de pagamento havia levantado US$ 2,3 bilhões e chegou a valer quase US$ 9 bilhões no primeiro dia de negociação, caindo depois. A PagSeguro abriu caminho para outras ofertas públicas iniciais de ações nos Estados Unidos como o da Stone e da Arco Educação

Funcionários na sede da 99 em São Paulo. Foto: Amanda Perobelli/Estadão

Em fevereiro, o Bradesco inaugurou o inovaBra Habitat, um prédio de 10 andares e 22 mil metros quadrados quase na esquina da Av. Paulista com a Rua da Consolação, na cidade de São Paulo. Posicionando-se como um centro de co-inovação, o Bradesco convidou dezenas de grandes corporações e quase duas centenas de startups, além de parceiros tecnológicos, universidades, investidores, consultores e mentores, para habitarem o espaço e co-criarem inovações entre si.

Seguindo a mesma lógica, o Cubo, iniciativa do Banco Itaú com o fundo de investimento Redpoint eVentures, mudou de prédio e inaugurou o novo Cubo (carinhosamente chamado de Cubão), em agosto. Neste novo espaço de 14 andares e 20 mil metros quadrados, grandes corporações lideram andares temáticos como educação (Kroton), varejo (BR Malls), saúde (DASA), indústria (Schneider) ou fintech (Itaú e Rede) e mantêm-se próximas de startups do setor.

Considerando apenas Habitat e Cubo, o País ganhou espaços para hospedar cerca de 400 startups que interagem diariamente com grandes corporações, investidores e mentores Em junho de 2018, outra novidade que terá grandes impactos para as startups nos próximos anos foi lançada. A Lei de Informática foi atualizada, e as empresas beneficiárias como Samsung, Lenovo ou Positivo Informática poderão investir até 2,7% da sua receita bruta em fundos de investimentos de venture capital, aceleradoras ou diretamente em startups.

Mais de R$ 500 milhões poderão estar disponíveis para startups todos os anos. Mas este volume é apenas o começo, já que outras leis que determinam investimento compulsório em pesquisa e desenvolvimento (como ocorre no setor de energia elétrica, petróleo e gás) ou optativo, como a Lei do Bem, poderão em breve seguir lógica semelhante, incentivando o investimento de grandes corporações em startups

Sede da Loggi em Alphaville, em SP. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O Brasil ficou parado entre a Copa na Rússia e as eleições, mas em outubro o mercado brasileiro de startups ficou de queixo caído com a chegada do mais poderoso de todos os fundos de venture capital do mundo. O Softbank, que administra o Vision Fund e inacreditáveis US$ 100 bilhões, aportou R$ 400 milhões na Loggi, uma das principais startups de entregas expressas do Brasil. Em seguida, o mercado ficou admirado com outro aporte gigantesco em novembro. A General Atlantic, um dos maiores investidores internacionais, liderou o investimento de R$ 250 milhões na QuintoAndar, startup de aluguel de imóveis.

E o mês de novembro ainda surpreende pois o iFood, principal aplicativo de pedido de comida do País, recebeu um aporte de quase R$ 2 bilhões de investidores como o Innova e a Naspers. Com o investimento, tanto o iFood como a Movile, sua controladora, atingiram publicamente o status de unicórnios.

O ano ainda não acabou, mas os boatos sugerem que o próximo ano será ainda melhor para as startups brasileiras.

* Marcelo Nakagawa é professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Black Friday 2018 dispara e supera vendas do ano passado

3 de dezembro de 2018

 

Por Ivan Bornes *

A Black Friday definitivamente foi incorporada na cultura de compras do brasileiro. A data surgiu nos Estados Unidos nos anos 1990 e inaugura oficialmente a temporada de compras de Natal com grandes promoções e descontos. Rapidamente se espalhou pelo mundo.

Segundo Javier Goilenberg, CEO e cofundador da Real Trends, plataforma de análise e gestão para vendedores do Mercado Livre: “O mercado brasileiro já incorporou a Black Friday como uma data importante no calendário, e a expectativa é que as vendas continuem crescendo à medida que os consumidores confiem mais nos descontos oferecidos”.

Dia de Black Friday em hipermercado de São Paulo. Foto: Suamy Beydoun/Agif-23/11/2018

As expectativas dos varejistas brasileiros eram altas, mas se viram superadas. Depois de tantos anos de crise, os consumidores não decepcionaram neste ano. De acordo com a Ebit/Nielsen, por volta das 17h da sexta-feira dia 23 as vendas já tinham quase alcançado a meta esperada para este ano, de R$ 2,4 bilhões em vendas, atingindo a incrível cifra de R$2,1 bilhões – valor total arrecadado na edição de 2017 do evento. Comparando com o mesmo horário do ano passado, o crescimento foi de 26%.

A sexta-feira representou para o e-commerce cerca de 4,5% do faturamento anual desta modalidade. Como referência, os 10 dias que antecedem o Natal representam juntos 18% do faturamento, segundo relatório da XP Investimentos.

As compras feitas pelo celular, o chamado mobile commerce, também tiveram grande destaque neste ano. Segundo pesquisa do Rankmyapp, foi registrado um crescimento no número de visitas orgânicas em aplicativos à medida que a Black Friday se aproximava. Destaque para a semana do dia 12 a 18 de novembro, que registrou aumento de 15,68% no volume de visitas. Além disso, o número de instalações orgânicas de aplicativos também aumentou com a proximidade da data, registrando um aumento de 25,91% na semana do dia 19 a 25 de novembro.

Grandes sites de vendas on-line, chamados “marketplaces“, como Mercado Livre, B2W, Submarino e Lojas Americanas, registraram um pico de crescimento de 20,85% no número de pedidos durante no dia 23/11. Sendo os que mais registraram vendas entre os dias 23 e 26 de novembro foram B2W, com representatividade de 44%, e Mercado Livre, com 31,64% do volume total de vendas geradas. Quando observado isoladamente o dia 23, B2W e Mercado Livre também registraram maior volume de vendas, com 49,33% e 24,12%, respectivamente.

Javier Goilenberg define o funcionamento dos marketplaces “como quando um shopping funciona 24 horas em datas especiais para aumentar as vendas: é feita uma grande publicidade e durante esses dias o shopping recebe uma alta quantidade de clientes. Por fim, acaba concretizando um maior volume de vendas, grande parte impulsionadas pelas promoções e descontos vigentes durante a ação. Se o vendedor toma as decisões adequadas antes, durante e depois da ação, pode ter uma grande diferença no seu faturamento”.

De todas as vendas geradas no segundo semestre deste ano, 31% se concentraram no mês da Black Friday, totalizando quase o dobro do que foi alcançado no mês de setembro, tendo o estado de São Paulo liderado as vendas da data (36,43%), seguido por Rio de Janeiro (11,51%) e Minas Gerais (10,77%), valores que ultrapassam 50% das conversões.

* Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br)