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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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A empreendedora dos azeites

31 de outubro de 2018

Vista interna da Rua do Alecrim, em Moema

Esta é a história de Iris Jönck, publicitária por formação, que decidiu empreender para fazer as coisas acontecerem pelas próprias mãos. Assim surgiu a Rua do Alecrim, uma loja online que oferece produtos de origem de diversos países e regiões diferentes do Brasil, e que virou ponto de encontro dos melhores azeites “de origem” do Brasil e do mundo. A Iris nos conta como foi sua evolução pessoal e profissional, como a ideia de uma loja online se transformou em loja física e os desafios e soluções encontrados nessa jornada.

Como tudo começou?
Sempre fui movida por desafios e sede de aprendizado, mas também sempre me deu muita satisfação ver os projetos acontecendo de verdade, saindo do planejamento e virando algo real. E acho que foram estes fatores que aos poucos foram me fazendo querer me dedicar mais a criar e fazer novas coisas acontecerem com minhas próprias mãos.Um momento importante, que me ajudou nessa guinada para o empreendedorismo, foi ter realizado um curso de pós-gradução em Tendências na Universidad Ramón Llul-Blanquerna, em Barcelona. Ali eu abri muito a cabeça, observando movimentos culturais e de comportamento que me ajudaram a enxergar um mundo com muito mais possibilidades de atuação do que as de um emprego tradicional em uma empresa ou ainda de uma agência de publicidade.A decisão de empreender, é claro, passou por uma conjunção de fatores e foi se desenhando a partir de inspirações e trocas entre mim e meu marido, que é meu sócio na vida e na empresa. O Arnaldo Comin é jornalista por profissão e sempre trabalhou como repórter e editor, sobretudo em jornais de economia e negócios. Nós dois sempre gostamos muito de viajar e sempre tivemos uma conexão muito forte com a cozinha e a gastronomia. Quando passamos nossa lua de mel na Turquia, a caixa de Pandora se abriu. O contato com aquele mundo de temperos e sabores caiu como uma bomba na nossa cabeça. Foi ali que tomou corpo a ideia de criar um negócio que resgatasse os valores gregários da cozinha, da gastronomia como elemento de união entre as pessoas e as culturas.

Primeiro apareceu a ideia ou a empreendedora?
Considerando o contexto, acho que a ideia precedeu a empreendedora. Nós queríamos trabalhar com um negócio que tivesse três elementos em comum: gastronomia, internet e o conteúdo forte para a construção da marca. Foi assim que nasceu a Rua do Alecrim. Alimentos com histórias para contar e um valor intrínseco para todas as pessoas que apreciam o que é especial. Nosso primeiro produto foram kits de presente temáticos por país: França, Itália, Espanha, Oriente Médio, assim por diante. Vinho, tempero e outros ingredientes típicos. Foi quando esbarramos logo de cara naquilo que seria a nossa marca registrada: os azeites. Vimos que era um produto super nobre, com uma riqueza cultural imensa, que não era muito bem trabalhado pelo varejo. Fomos conhecendo e nos apaixonando. Tanto que a nossa assinatura evoluiu para Rua do Alecrim Azeites e Gastronomia. Temos orgulho de oferecer em São Paulo uma das poucas lojas no mundo especializadas em azeites de origem. Mesmo em países produtores, como Espanha, Itália e Portugal, são raríssimas as lojas desse tipo. Do site, acrescemos para uma loja física no bairro de Moema, que se tornou uma “embaixada do azeite”. Fazemos um trabalho especial, e que muito nos orgulha, que é a promoção dos produtores artesanais brasileiros, uma nova geração que está começando a fincar raízes, literalmente, da olivicultura no País.

Iris em meio a oliveiras em Puglia, na Itália

Como é o estilo de vida de vocês, do pessoal ao profissional?
Nossa família é bem pequena. Somos só nós dois e, na verdade, a vida tão intensa do empreendedorismo adiou um pouco nossos planos de filhos. O desafio agora, por sinal, é conciliar as duas coisas: aumentar a família e os negócios ao mesmo tempo!  Depois de seis anos de negócios, a gente vai percebendo na prática um certo “paradoxo” do empreendedor: você fica muito imerso no seu mundo e vê que os seus amigos de sempre, principalmente aqueles que sempre viveram num esquema profissional mais tradicional, não acompanhar muito bem as suas opções de vida. E a agenda sempre tão carregada infelizmente te afasta um pouco da convivência. Por outro lado, ao empreender você agrega um monte de pessoas novas ao seu redor. Ainda mais quando o assunto é gastronomia. A gente trabalha muito, mas há a oportunidade de conhecer gente muito interessante e terminar um dia exaustivo de evento tomando um vinho feliz da vida com um degustador profissional ou um cozinheiro bacana. É a prova de como a boa comida aproxima as pessoas e expõe o nosso lado mais humano.

Quais são os planos de futuro do negócio?
Quem trabalhou com varejo nos últimos quatro ou cinco anos sabe como esse período foi difícil. No nosso caso, que trabalhamos predominantemente com produtores de origem do Mediterrâneo e alguns vinhos e azeites da América do Sul, o câmbio foi especialmente cruel. Isso nos levou a diversificar muito o negócio em busca de rentabilidade. Fomos do ecommerce puro com a ruadoalecrim.com.br para um híbrido com loja física, fora as vendas de brindes corporativos para empresas, que sempre foram muito importantes para o nosso resultado. Com o nosso crescimento muito grande no mercado de produtos italianos para pizzas e panificação, criamos em 2017 um segundo ecommerce, farinhasitalianas.com.br. Paralelamente criamos nossa marca própria de vinagres artesanais, azeite e temperos, além de ter iniciado no ano passado a importação direta de alguns rótulos de azeites de alto nível da Itália e da Espanha. Vale lembrar que sempre fizemos muitos cursos e workshops de azeites, pizzas, pães e vários outros temas de cozinha. É muita coisa!

Ao mesmo tempo, vemos que o nosso negócio precisa de escala para crescer: se trabalharmos com três ou quatro lojas, aumentando a importação direta e o investimento em marca própria, o negócio pode crescer bastante, tanto na revenda para o varejo quanto na comercialização direta ao cliente final. O objetivo para 2019, portanto, é estreitar o foco, priorizar as áreas de negócios com melhor potencial e conversar com gente do mercado que tenha interesse em investir conosco na expansão da empresa. Nosso desafio não difere de tantos bons empreendedores brasileiros: ter acesso a capital para crescer com o apoio de um parceiro estratégico que não aporte apenas dinheiro.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora
no seu setor, qual seria?
Pense leve. No ramo do varejo e da gastronomia é muito tentador ir aumentando o portfólio de produtos e serviços sem se dar conta. Assim como um restaurante que está sempre inventando pratos novos sofre com mais perdas de matéria-prima, tempo e pouco poder de negociação com ingredientes de baixo volume de uso ou de venda, no varejo acontece o mesmo. No caso do ecommerce, não menospreze os custos e o lado operacional. A tecnologia avançou muito desde que abrimos o negócio, há seis anos, mas vender pela internet é muito custoso, há muitos gargalos e pode levá-lo a muita perda, se os processos não estiverem muito bem montados e a equipe não for bem treinada. Além disso, o bom cliente de gastronomia dá valor à qualidade, à origem do produto e ao atendimento. Mas normalmente é bem informado e não abre mão do preço justo. É uma linha tênue. Por isso, a equipe precisa conhecer profundamente o seu produto e saber vender paixão. Comer e beber bem é um ato de indulgência. Com raríssimas exceções, nossos clientes são essencialmente pessoas que querem experimentar algo diferente e ser felizes. É uma compra por alegria e não por necessidade. Isso é o que dá mais prazer em ter um negócio como a Rua do Alecrim.

Qual o futuro do Brasil?
Pensar no futuro do Brasil não anima muito, para falar a verdade. Ao mesmo tempo em que me sinto muito preocupada com uma nova onda conservadora e de coação às nossas liberdades, não está muito claro se o País pretende realmente abraçar a causa do empreendedorismo e adotar uma agenda mais amigável ao investimento privado e ao livre mercado. Como empresária da gastronomia, acho que a melhor contribuição é ajudar no desenvolvimento dos produtores de origem, artesanais e orgânicos. O mundo está passando por uma revisão importante na forma como lida com a agricultura familiar e com a relação da alimentação com a vida em comunidade. O Brasil não pode ficar fora disso.

Conheça mais:
Rua do Alecrim Azeites e Gastronomia
Rua Normandia, 12 – Moema – São Paulo
eCommerce: www.ruadoalecrim.com.br e www.farinhasitalianas.com.br
Insta: @ruadoalecrim e @farinhasitalianas

 

Amazon.com x Livraria Cultura: Quando o sucesso de um não é construído sobre o insucesso da outra

26 de outubro de 2018

Vista da Livraria Cultura no Conjunto Nacional, em São Paulo. Foto: Amanda Perobelli / Estadão

Esta semana, a querida Livraria Cultura entrou com pedido de recuperação judicial. A livraria já havia fechado suas belas unidades de Recife e do Rio de Janeiro, além de todas as unidades da Fnac. Ainda na semana passada, visitei a unidade da Avenida Paulista em busca do livro “Measure What Matters” escrito pelo investidor John Doerr. Tinha visto o livro no site brasileiro da Amazon.com que custava R$ 89,41 e o prazo de entrega prometido era de dois dias.  Mas, como estava perto da Cultura, resolvi passar para tentar a sorte de, talvez, encontrá-lo. Depois de esperar um pouco pelo atendente, ele consulta no sistema e explica: Olha, não temos para pronta entrega, mas podemos encomendar. Vai custar R$ 148,00 e o prazo de entrega é de 6 semanas. Deixei a livraria triste e confuso, como se estivesse saindo da The Shop Around The Corner, a pequena livraria do filme Mensagem para Você (1998) em que a personagem da Meg Ryan, dona do negócio, enfrenta o personagem de Tom Hanks, proprietário da rede Fox Books, que instala uma das suas megastores, semelhante às da Cultura e Fnac, na mesma região.

No filme, apesar da tensão e rivalidade entre a pequena livraria e a grande rede, ambos tinham o mesmo objetivo: atender muito bem seus clientes. A primeira reação da dona da livraria foi desprezo, pois ela acreditava que a grande rede iria dar atendimento impessoal e descompromissado da grande rede, já que ela tinha uma pequena, mas dedicada equipe que conhecia todos os seus clientes há anos. Mas ela se surpreende ao perceber o alto nível de qualidade e atendimento que as crianças também recebiam na megastore quando visita a loja. No filme, ela não consegue competir e fecha as portas do seu negócio, mas seu final é feliz (spolier) com Joe Fox, o personagem de Tom Hanks.

Vinte anos depois do filme ter sido lançado, agora, curiosamente, são as megalojas que se tornam o The Shop Around The Corner em função da onipresença de uma rede maior ainda. Neste caso, a Amazon.com. Por isso, estava triste ao sair da Livraria Cultura, pois sempre fui bem atendido. A loja é ampla, linda e bem planejada. Mas também estava confuso, pois sempre tive um atendimento impecável da Amazon. Mas esta é a minha visão de cliente.

Como negócio, a relação entre a Livraria Cultura e Amazon.com é emblemática e muito didática, porque ilustra os novos e complexos desafios das empresas tradicionais quando lidam com concorrentes digitais que não jogam o mesmo jogo. Para piorar, as empresas tradicionais não apenas querem continuar jogando o mesmo jogo, como nem desconfiam qual é novo jogo do seu concorrente.

Fundada em 1994, a Amazon.com só se posicionou como uma livraria nos primeiros quatro anos, quando saltou de um faturamento de US$ 1 milhão no primeiro ano para US$ 610 milhões em 1998. Depois, se declarou como a loja de tudo e em seguida, como a empresa de tudo. Em 2017, a Amazon ofertava três bilhões de opções de produtos. Isso sem considerar os serviços digitais que empresa também oferece.

Este número parece e é megalomaníaco, por isso, quando iniciou o negócio, muitos riram da missão da empresa que Jeff Bezos, seu fundador, tinha estabelecido: “Ser a empresa mais centrada no cliente da Terra, onde podem encontrar e descobrir qualquer coisa que desejem comprar on-line, e se esforçar para oferecer a seus clientes os preços mais baixos possíveis”. E como se este propósito não fosse grande o bastante, Bezos, em 1998, foi um dos primeiros investidores de outro negócio, o Google, que tinha uma missão ainda mais delirante: “Organizar a informação do mundo e transformá-la em algo acessível e útil”.

Por isso, enquanto muitos entendem a Amazon como competidora das livrarias tradicionais, Bezos construiu sua empresa a partir de uma outra escolha: “Se é focado na competição, sempre precisa esperar que o competidor faça algo. Ser uma empresa focada no cliente permite ser sempre mais pioneiro.” Assim, “seja obcecado pelo cliente, não pela competição” – explica.

Não por acaso, o livro A Loja de Tudo: Jeff Bezos e a Era da Amazon (Ed. Intrínseca, 2014) começa com uma das suas frases mais inspiradoras e provocantes: “Quando você tiver oitenta anos, num momento tranquilo de reflexão e narrando para você mesmo a versão mais particular da sua história de vida, a parte mais compacta e significativa será a série de escolhas que você fez. No fim das contas, nós somos as nossas escolhas”. E complementa: “Trabalhe duro, divirta-se e faça história!

Sobre a querida Livraria Cultura, espero que escolha ser mais cultura! Este é um jogo em que o Brasil não pode continuar perdendo.

Marcelo Nakagawa é professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

De advogado a chef de cozinha e empreendedor

23 de outubro de 2018

Esta é a história de Thiago Benetton Gil, chef de cozinha e idealizador da Burger Happens, no bairro da Vila Mariana, uma hamburgueria que começou minúscula em 2016, na garagem do prédio da família, e que mesmo após uma ampliação, continua pequena – e lotada. O cardápio tem apenas três burgers fixos e um burger inédito a cada semana, o que significa que desde a abertura foram produzidas mais de 100 diferentes receitas. Este ano, o negócio dobrou de tamanho.  “De uma garagem, passamos agora para duas garagens” brinca o Thiago.

O que te levou a deixar a profissão de advogado e empreender na gastronomia?

Desde pequeno me imaginava em uma cozinha, sendo dono de um restaurante, mas sempre soube que seria um sonho muito difícil de realizar. Ninguém na minha família trabalhou em restaurante ou teve um negócio próprio no ramo alimentício e esse fato só contribuiu para dificultar a realização do meu sonho. Me formei em Direito, pós-graduei, passei na OAB e comecei a estudar para prestar concursos, mas sabia que não era aquilo que me faria feliz. Após a frustração com os resultados de alguns concursos, fui morar em Berlim, na Alemanha. Naquele país eu comecei a ver que um negócio pequeno poderia ser mais interessante do que um negócio grande e que algo pequeno funcionaria melhor, pois eu conseguiria ter maior controle administrativo. Porém, continuava sem dinheiro para tanto.

Na Europa, trabalhei em cozinhas e aprendi muito com minhas experiências. Voltei ao Brasil, não consegui me encaixar no ramo gastronômico e voltei às atividades jurídicas. Após um ano de trabalho eu consegui juntar dinheiro para investir em um negócio. Minha avó, de surpresa, me ofereceu uma pequena garagem no prédio construído pelo meu bisavô. Eu pensei muito, fiz muitas contas e decidi abrir minha hamburgueria. Todos me perguntaram por que hambúrguer e a resposta é simples: era o que o espaço me permitia fazer, era o que meu dinheiro podia pagar e era uma das técnicas culinárias que eu mais dominava. Então finalmente consegui realizar meu sonho.

Primeiro apareceu a hamburgueria que forçou você a virar empreendedor? Ou primeiro apareceu o empreendedor que saiu procurando um negócio?

Na verdade as duas coisas. Eu sempre quis empreender, mas não sabia direito como e não tinha condições financeiras. Depois, as oportunidades surgiram, coube no meu orçamento e eu me dediquei de corpo e alma pra fazer o negócio acontecer.

Como é que a família participa do empreendimento?

Minha família tem uma participação muito importante no meu negócio. Minha irmã hoje se tornou minha sócia, meus pais nos apoiam demais e sempre que podem nos ajudam aqui. Na verdade, eu só contei que ia abrir minha hamburgueria 15 dias antes de inaugurar, porque sabia que eles teriam medo por mim. Hoje em dia meus pais sonham meu sonho comigo, sempre me ajudam muito, dão conselhos e criticam quando necessário e sempre ficam muito felizes com nosso sucesso. Tenho certeza de que eles se orgulham demais de mim e, agora, da minha irmã.

Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do “normal” das pessoas. Como você vive isso?

Realmente essa é a parte mais complicada de empreender. Já tive diversos problemas por conta dos meus horários, normalmente as pessoas não entendem que não podemos deixar o negócio. Já deixei de ir a casamentos e aniversários, já deixei de confraternizar com amigos e família, já perdi um relacionamento por conta da falta de tempo, porém hoje em dia estou conseguindo me adaptar e me acostumar com essa vida. Tenho uma namorada maravilhosa que me entende e que me apoia, tenho minha família que sempre me ajuda e me incentiva, tenho amigos e familiares que fazem confraternizações aqui na hamburgueria pra que eu possa participar, enfim, infelizmente acabo abdicando um pouco da minha vida pessoal, mas faço isso porque amo meu trabalho e minha rotina. Mais pra frente, quando meu restaurante estiver andando sozinho, eu vou sentir falta da correria da operação e do calor da cozinha.

Quais são os planos de futuro do negócio?

Eu não abri o Happens pra fechar ou pra colocá-lo nas mãos de outras pessoas. Quero consolidar a base e quero abrir filiais em locais estratégicos, tenho vontade de vender o Happens como minha marca com roupas e acessórios, já pensei em abrir uma barbearia com o mesmo nome, tenho vontade de expandir o negócio com outras frentes como pizza, cozinha vegana, bistrô… Mas também tenho vontade de voltar à Europa… Isso não significa que eu teria que fechar meus empreendimentos, pelo contrário, quero mantê-los funcionando para que tenha condições de viajar pra estudar, pra aprimorar meus conhecimentos e para enobrecer meus cardápios.

Se você pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora no teu setor, qual seria?

Não tenham medo de empreender! Tudo e todos farão e falarão de tudo pra que você não abra seu negócio, mas se é seu sonho e se você tem condições de bancar seu empreendimento, faça! Sem medo! Você só vai saber se valeu a pena se você arriscar!

Qual o futuro do Brasil?

Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Espero que o Brasil se torne um país de menos impostos e mais oportunidades. Espero que diminuam as burocracias e que aumentem o respeito ao empreendedorismo. Espero que eu consiga prosperar mais e mais com meu negócio e com a minha marca. Espero poder empregar mais pessoas e poder fazer com que as pessoas que me visitam saiam sempre satisfeitas e felizes. Minha contribuição será sempre uma cozinha de qualidade pra que as pessoas esqueçam seus problemas na primeira mordida.

Burger Happens
Rua Alcindo Guanabara, 27, Vila Mariana
Fone: (11) 3578-2613
Insta: @burgerhappens
Facebook: /burgerhappens

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

 

Relação grande empresa e startups: 90 anos de modismos, erros e acertos

22 de outubro de 2018

Cresce exponencialmente o número de iniciativas de grandes corporações que buscam parcerias com startups. Nas reuniões de conselhos de administração e encontros informais de executivos de alto escalão, o assunto é tema recorrente. Quando sua empresa não tem algo neste sentido, você se sente meio deslocado – diz um amigo, vice-presidente de uma das maiores empresas brasileiras de commodities.

Anunciada como uma das maiores inovações corporativas dos últimos tempos por futuristas, consultores do apocalipse e oportunistas corporativos, a parceria entre grande empresa e startups já está na sua quinta onda mundial. Ainda em 1928, quando a Ford já era um imenso conglomerado industrial, dois jovens empreendedores, Paul e Joseph Galvin, que tinham fundado a Galvin Manufacturing Corporation, entraram em contato com a empresa para apresentar a inovação que tinham desenvolvido: um auto rádio. Vendo uma enorme oportunidade de se diferenciar, a Ford apoiou o negócio, que passou a crescer vertiginosamente. Percebendo o enorme mercado automobilístico, os irmãos Galvin mudaram o nome da empresa para Motorola.

Mas a excitação atual com a agilidade e capacidade de inovação das empresas de menor porte era a mesma na década de 1960. Cerca de 25% das maiores empresas citadas na Fortune 500 tinham iniciativas assim. Mas a animação de corporações como Boeing, Dow, Exxon, Heinz e Monsanto durou, até 1973, quando as bolsas sentiram a primeira crise do petróleo. O hype com as startups voltou depois na década de 1980, até o novo crash da Bolsa de Nova York em 1987, na década de 1990, com a bolha das startups pontocom e, novamente, na década de 2000, quando 20% da lista da Fortune 500 tinham iniciativas com startups. A paciência da alta direção das companhias com startups sempre durou muito pouco. O tempo médio de vida das iniciativas de grandes empresas com startups tem girado em torno de 12 meses, explica o Professor Josh Lerner da Universidade de Harvard em artigo publicado em 2013.

Agora, vivemos a quinta onda das parcerias entre grandes empresas e startups. Além da euforia que marcou as anteriores, há um novo elemento: o enorme impacto que a Quarta Revolução Industrial tem sobre qualquer tipo de negócio. Muitos executivos, em especial as principais lideranças de muitas organizações, ainda não perceberam que a revolução não é tecnológica, mas de novas dinâmicas organizacionais, novos modelos de negócio e novos hábitos de consumo que são alavancadas por essas novas tecnologias de impacto exponencial.

Assim como no passado, boa parte das iniciativas de grandes empresas com startups desaparecerá anonimamente, muitas serão reformuladas e muita gente ficará frustrada e, provavelmente, sem emprego.

Mas sempre há casos de acertos! De todas as iniciativas de relação grande empresa e startup, talvez a mais emblemática, mas curiosamente pouco conhecida, seja o da Naspers. Fundada em 1915 na África do Sul, a empresa se tornou o maior conglomerado de mídia tradicional do país e reinou absoluta no Século XX. Mas em 2001, a Naspers fez duas apostas em uma, internet e China: investiu U$ 60 milhões para adquirir cerca de 30% de uma pequena startup chinesa chamada Tencent, cujo objetivo inicial era criar um modelo de negócio para ganhar 10 centavos de cada chinês. Pouco menos de 20 anos depois, a Tencent vale US$ 360 bilhões e a participação da Naspers, cerca de US$ 110 bilhões. Mas, curiosamente, o valor da Naspers em si na bolsa sul-africana é de aproximadamente US$ 80 bilhões. Se seus negócios do Século XXI valem tanto, quanto vale os do século passado?

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

O empreendedorismo de impacto social combatendo a falta de acesso à alimentação equilibrada

16 de outubro de 2018

A alimentação é um tema crítico para o desenvolvimento socioeconômico do Brasil. Os desafios são encontrados em diferentes pontos da cadeia: da produção, logística, processamento, oferta até o consumo. Nesse cenário, o pequeno agricultor familiar e o consumidor de menor renda são os elos mais vulneráveis. No Brasil, apesar de o número de domicílios em situação de insegurança alimentar continuar caindo – de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) –, ainda existem cerca de 5 milhões de brasileiros sem acesso diário à comida de qualidade e na quantidade satisfatória. Em contrapartida, 41 mil toneladas de alimentos são desperdiçadas no País por dia. Com a quantidade de alimentos desperdiçados hoje, seria possível alimentar 25 milhões de brasileiros diariamente, ou seja, 13% da população. A problemática é ainda maior quando pensamos que fatores como a falta de alimentos saudáveis próximas e acessíveis de frutas, verduras e legumes combinada com o sedentarismo e os maus hábitos alimentares têm impacto direto na saúde populacional, resultando em doenças como diabetes, hipertensão, problemas cardiovasculares e obesidade.

É nesse panorama socioeconômico que surgem negócios de impacto social que têm respondido ao desafio de garantir o acesso à alimentação equilibrada a um preço justo para o consumidor e para o produtor. Com apoio da Fundação Cargill, a Artemisia desenvolveu a Tese de Impacto Social em Alimentação – estudo que reúne informações relevantes sobre os desafios enfrentados na temática pela população de baixa renda no Brasil e aponta quais são as oportunidades para o desenvolvimento de negócios de impacto social que possam contribuir de forma positiva à sociedade. Entre as oportunidades identificadas, destaco duas.

A primeira permite que as pessoas – que vivem em locais onde a venda de alguns alimentos é limitada – tenham meios para comprar frutas, verduras e legumes a um valor acessível, podendo incorporá-los à rotina alimentar. A oportunidade fala de pontos de venda mais próximos dos consumidores; assinatura de produtos saudáveis a baixo custo; e soluções que permitam otimizar as compras logisticamente, diversificando produtos ou possibilitando compras coletivas. Um case de comercialização de alimentos orgânicos por meio de um modelo de assinaturas oferecido por um canal de vendas diretas – similar ao modelo adotado por marcas de cosméticos como Natura – é a Nutriens.

A rede de empreendedores é ativada por embaixadores (ativistas comunitários) das comunidades de Parelheiros, Capão Redondo e Brasilândia. No modelo de negócio, o embaixador oferece a assinatura de cestas de produtos orgânicos – legumes e verduras – na comunidade na qual reside a um preço igual ao dos alimentos convencionais. Com as vendas, passa a ter renda e acesso a uma alimentação saudável, criando um círculo virtuoso de suporte financeiro e alimentação de qualidade. Para o produtor local, a vantagem reside na garantia da venda da produção total, sem percorrer grandes distâncias.

Um outro exemplo que ilustra bem essa oportunidade é a Enjoy. Trata-se de um delivery de alimentos orgânicos, previamente selecionados pelos consumidores. O negócio de impacto social comercializa a produção local e orgânica do bairro da zona sul de São Paulo, Parelheiros – que, antes, era destinada a bairros de elite de São Paulo. Atua para que a produção seja vendida no bairro e com trocas de mudas orgânicas, experiências gastronômicas, oficinas de compostagem e criação de hortas. A empresa amplia o alcance social da produção local e orgânica que antes abastecia somente as feiras especializadas de bairros nobres da cidade.

A segunda oportunidade que destaco é relacionada ao acesso a refeições saudáveis. Baseia-se em oferecer uma alternativa de refeição saudável para a população de menor renda – que seja acessível geográfica e financeiramente, evitando assim o consumo de substitutos. Entre os exemplos de soluções, assinaturas de refeições a preços acessíveis; restaurantes de baixo custo; e delivery de refeições rápidas e saudáveis a baixo custo. Esse é o caso da Eats For You – aplicativo de delivery que comercializa marmitas caseiras. A solução conecta pessoas que buscam uma renda extra ou principal por meio da culinária a pessoas que desejam ter acesso a refeições caseiras na hora do almoço.

Esses são apenas alguns dos negócios de impacto social que apoiamos recentemente em nosso programa; empresas que estão contribuindo para ampliar o acesso da população de menor renda à alimentação saudável e equilibrada. Para quem pensa em empreender com impacto no tema, vale conferir outras oportunidades e exemplos de negócios que as ilustram na Tese de Impacto Social em Alimentação. O download é gratuito e pode ser feito pelo site: artemisia.org.br/alimentacao.

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

5 pontos em comum a todo empreendedor na batalha do dia a dia

15 de outubro de 2018

Ao longo dos últimos meses, tenho entrevistado pequenos empreendedores em vários segmentos, perguntando sobre motivações, família, rotina e planos de futuro.  São histórias que ainda estão sendo construídas, com um recorte atual de quem está na luta do dia a dia e na linha de frente do pequeno negócio.

Estas perguntas e respostas com “gente que coloca a mão na massa” são passadas de forma direta por quem está fazendo acontecer e representam lições valiosas para quem quer empreender e aprender. Ou mesmo para quem já está empreendendo poder se reconhecer e compartilhar vivências semelhantes, sentindo-se acompanhado.

Não chega a surpreender como todas estas histórias têm muitos elementos em comum. Eu mesmo me emociono a cada relato, me identifico. É como uma fraternidade. Mesmo que a pessoa tenha trilhado uma jornada muito particular e única para chegar aonde chegou, algumas características são comuns a todos.

1. Um sonho – ou como dizem alguns, uma ideia. Tudo habitualmente começa nisso: um insight de algum produto ou serviço, a vontade de construir uma empresa ou, em muitos casos, o desejo de modernizar o negócio da família. Para empreender é preciso ter algo em mente que possa ser realizado, que possa fazer a diferença. É o que vai justificar tudo.

2. Coragem – todo empreendedor, em algum momento, quando decide iniciar o próprio negócio vai respirar fundo, fechar os olhos, visualizar mentalmente tudo o que planejou e decidir ir em frente. É nesse instante que nasce o empreendedor. Nos segundos que antecedem a assinatura do contrato de locação, ou do empréstimo no banco, ou da importação de uma máquina, ou da compra de um caminhão. Muitas vezes arriscando a segurança financeira de um emprego confortável, ou a poupança dos filhos, ou contradizendo amigos e familiares que duvidam. Sempre tem muito em risco, nunca é fácil: o estômago embrulha, o coração acelera. É preciso uma coragem inimaginável.

3. Resiliência – é começar o negócio e as coisas começam a dar errado – ou melhor, o trabalho do empreendedor é fazer as coisas que estão dando errado darem certo. Acordar todo dia de bom humor, cheio de energia, e como Sísifo levar a pedra montanha acima, é para poucos. E ao mesmo tempo, é muito comum encontrar esta capacidade, entre empreendedores, de se manter animado e confiante.

4. Valores – todos os empreendedores compartilham o respeito e orgulho da história que os fez ser o que são. E cada um tem suas particularidades. Alguns passaram por doenças que os fizeram ver a vida de forma diferente, outros são agradecidos aos filhos que lhe deram uma motivação a mais, outros lembram dos pais que os influenciaram. Ou de um professor, ou de um antigo patrão. Este respeito à sua própria história é um dos alicerces de todo empreendedor.

5. Vontade de fazer a diferença no mundo – é claro que o dinheiro é importante, é uma medida de sucesso e é necessário para recompensar o trabalho e trazer prosperidade. Mas é impressionante como nenhum dos empreendedores dá maior importância ao vil metal. Os olhos se enchem de emoção mesmo é quando falam do impacto que o negócio está trazendo para os clientes, para os colaboradores, para a família. O orgulho de fazer algo que é admirado.

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

 

Até quando uma startup é uma startup? E falando nisso, é start-up ou startup?

12 de outubro de 2018

É curioso o uso das palavras e seus contextos. Quando um jovem encontra outro, se cumprimentam: E aí véio!!!! E o outro responde: Fala, véio!!! Mas quando dois idosos se encontram, também se cumprimentam: E aí garoto!!! E o amigo responde: Fala garoto!!!

Assim, pela ordem, vamos tratar das empresas jovens. Mas já adianto que a discussão não é exatamente relevante, um pouco chata, mas é uma dúvida de muitas pessoas. O que é uma startup? Quando uma empresa deixa de ser uma? E se escreve startup ou start-up?

Historicamente, startups eram um tipo de… botas! Frederick Fairholt, em seu livro Costume in England, explica que na Inglaterra no final do Século XVI, homens e mulheres calçavam startups. Samuel Johnson, quando publica seu dicionário A Dictionary of the English Language em 1818, também aponta que startup também poderia se referir a um tipo de bota ou galocha, ou a alguém que é notado repentinamente.  Ainda no Século XIX, o termo start-up, agora com hífen, passa a ilustrar o fenômeno de alguém que cresce muito rapidamente, segundo o dicionário A Glossary: K-Z, organizado por Robert Nares em 1872. Seria algo como um estirão.

Depois disso, o termo startup praticamente não foi mais utilizado até o final do Século XX. Thomas Edison (GE), Henry Ford (Ford), Bill Hewlett t e Dave Packard (HP)… ninguém dos empreendedores inovadores do final do Século XIX e metade do Século XX criaram startups. Eles criaram new companies ou new enterprises. Em 1968, quando Robert Noyce e Gordon Moore saem da Fairchild Semicondutors para fundar a Intel, Arthur Rock, interessado em investir na nova empreitada pede para a dupla escrever um plano de negócio. O tal plano, hoje no museu da Intel em San Jose (Califórnia) tinha uma página e explicava que a Intel seria “uma companhia que se engajará na pesquisa, desenvolvimento, fabricação e vendas de estruturas de eletrônica integrada...”

Assim, todas as novas empresas que nasciam no Vale do Silício eram novas companhias, empresas ou empreendimentos.

Mas algumas pessoas perceberam que trajetória de crescimento exponencial de novas empresas como Compaq, Lotus, Citrix, Novell, McAfee, Cisco na década de 1980 não era observado em outras novas empresas que atuavam de forma mais tradicional. A Compaq, por exemplo, atingiu vendas de US$ 1,2 bilhão em seis anos de vida, mas nenhuma das empresas fabricantes de computadores da época tinha notado a presença da empresa que vendia computadores com qualidade compacta (Compact Quality). Havia algo de mágico naquele tipo de “nova companhia” que impulsionava crescimentos escaláveis admiráveis. Isto começou a ser chamado de startup.

Por isso, a partir da década de 1980, investidores começaram a viajar pelos Estados Unidos atrás das novas startups e empreendedores, mais perspicazes, começaram a dizer que estavam criando startups.

Assim, o uso seminal de termo startup no fenômeno do estirão do jovem ou do ser percebido repentinamente para novas companhias de rápido de crescimento e que só eram notadas depois, quando já tinham um grande porte combinou como se uma bota encontrasse o seu par.

O problema é que, principalmente a partir da década de 1990, qualquer novo negócio que utilizava alguma tecnologia, em especial, da informação, passou a ser comunicada e celebrada como startup. E o termo ganhou inúmeras, senão milhares de definições. Cada empreendedor, investidor ou especialista tinha a sua. “Startup é uma empresa que trabalha para resolver um problema em que a solução não é óbvia e o sucesso não é garantido” diz Neil Blumenthal, co-fundador da “startup” Warby Parker, que vende óculos pela internet.  E para complicar, o termo startup aparece em diversos dicionários como qualquer nova empresa.

O caos no uso do termo ganhou alguma lógica quando em 2013, Steve Blank, professor de Stanford e Berkeley começou a repetir dois mantras: “Startup não é uma versão pequena de uma grande empresa” e “Startup é uma organização em busca de um modelo de negócio estável e escalável”. Depois ele acrescentou “lucrativo”. Dada a sua grande influência, muitos começaram a perceber que startup tinha a questão da incerteza (daí a busca), da lógica padrão (estável) de ganhar dinheiro com sólidas vantagens competitivas (modelo de negócio) e que pudesse crescer em proporção muito maior do que seus custos, gastos e despesas (escalabilidade).

Nesta abordagem, uma startup continua nessa condição quando tem grandes ambições de crescimento mas ainda não conseguiu encontrar um modelo de negócio estável, escalável e lucrativo. Quando define e valida o modelo de negócio estável, escalável e lucrativo e continua com a ambição de crescimento, a startup se torna uma scaleup. Caso contrário, se torna um pequeno negócio ou simplesmente os empreendedores desistem e partem para outra. E não há nenhum demérito nisso. Há ótimas empresas bonsais e muitos maratonistas desistem da corrida quando percebem que já não ganharão a prova, poupando-se para a próxima.

A próxima figura ilustra o que é uma startup e até quando uma startup é uma startup.

E o hífen da start-up? Neste caso, as duas grafias estão corretas, mesmo nos Estados Unidos.

Mas e as outras pequenas empresas ou scaleups que continuam querendo ser chamadas de startups? Tudo bem! Eu mesmo adoro quando me chamam de garoto!

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

‘A gente não para de pensar no negócio um minuto sequer’, diz Adolpho Schaefer

8 de outubro de 2018

Esta é a história de Adolpho Guedes Schaefer, orgulhoso pai da Bruna, e dono de um dos mais famosos food trucks do Brasil, o Holy Pasta, especializado em massas – um sucesso de crítica e público.

Adolpho também é uma das estrelas do ‘reality show’ do GNT chamado “Food Truck” que está na quarta temporada. A seguir, trechos de um bate-papo que eu fiz com ele.

Adolpho, me conta um pouco da tua família?
Casei cedo, fiquei 10 anos casado e depois de me separar encontrei uma carioca linda que me dá ‘mó’ força. A minha filha Bruna vai fazer nove anos daqui a alguns dias, ela é a mascote do Holy. Meu pai, minha referência de pessoa de caráter, João Luiz Schaefer, entrou no mercado financeiro em uma das primeiras financeiras do País, vendendo letra de câmbio. Décadas depois tentou a vida de restauranter, mas não deu certo. Minha mãe Eliane Guedes é pura energia e essa ‘vibe’ infinita de trabalhar que eu tenho acho que puxei dela.

De onde surgiu a ideia de fundar o Holy Pasta?
A ideia do Holy acendeu na minha cabeça quando comecei a acompanhar o movimento de food trucks nos EUA  em 2013, o que me levou a querer resgatar o espírito do meu primeiro emprego – um restaurante de almoço executivo no meio do Itaim Bibi em 1999 chamado Truta Forte – a informalidade no atendimento e a qualidade da comida formavam uma dupla surpreendente e arrancavam sorrisos de todos que nos davam a chance de mostrar nosso trabalho. Em poucas palavras, o Holy é o Truta Forte de rodas (risos).

Primeiro apareceu a ideia ou o empreendedor?
A ideia veio primeiro! Apesar de eu já ter tentado ter meu próprio negócio em outras duas vezes (primeiro uma ‘Lanhouse’ com lanchonete e depois uma lanchonete em um lava-rápido na Faria Lima), com o Holy, primeiro veio a ideia de sair de onde eu estava, cuidando do negócio dos outros para cuidar do meu negócio, com a minha cara, a minha identidade. Para viabilizar não foi fácil, eu não tinha grana e é aí que entram os meus sócios (antigos patrões) e meu irmão por opção: Paulo Ribas Bixo. Eu tinha a ideia, o projeto, tudo na cabeça e esses caras articularam para juntos formarmos uma sociedade e tirar a ideia do papel.

Como é que a família participa no empreendimento?
A família não escapa de participar, todos acabam se envolvendo seja fisicamente (a Bruna fica comigo em nosso QG pelo menos duas vezes por semana, fora às vezes em que fica no truck), a namorada, além de frequentar sempre que consegue, me ajuda um monte me escutando e me aconselhando, minha mãe, meu pai, meus irmãos, estão sempre querendo saber como andam os negócios. Enfim, em família de empreendedor todo mundo ri e chora junto.

Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do “normal” das pessoas. Ainda mais num food truck. Como é isso?
Com certeza são fora do normal, a gente não para de pensar no negócio um minuto sequer, inclusive isso é um desafio diário, eu me policio direto para dar um jeito de desligar nos momentos que não são cruciais para tentar olhar e pensar do lado de fora do furacão. Empreender nesse ramo de alimentação é saber que na maioria dos dias você estará trabalhando enquanto seus amigos estão no churrasco, mas sempre que consigo, eu estaciono o truck e corro pra lá. Com a família a mesma coisa, só que rola um cuidado especial com a Holy Girl (Bruna) que tem um dia da semana reservado para ela. No truck é ‘mó’ doideira, carrega, descarrega, monta, desmonta, olha pro céu e torce para não chover e também para não fazer aquele sol do agreste. São tantas variáveis que você aprende que não adianta sofrer por antecipação, o negócio é estar sempre pronto para vender o máximo que conseguir.

Quais são os planos de futuro do negócio?
O futuro é crescer, expandir, gostaria de te falar hoje que meu plano é abrir 10 lojas nos próximos 2 anos, mas por enquanto a meta 01 é abrir uma loja – nos mesmos moldes do truck – pede, paga, pega e come. Isso no ano que vem.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando, qual seria?
Queira mais do que qualquer coisa! Tenha claro pra você que mesmo quando você não quiser o seu negócio irá precisar de você. Que a qualquer momento você irá precisar dar mais um pouco da sua energia para ele continuar girando. E não esqueça, não faça mais do mesmo, disso o mercado está lotado!

Na tua opinião, qual o futuro do Brasil?
Em um país onde todos os que estão abaixo da grande cúpula dos políticos e megaempresários milionários, não passam de escravos do capitalismo, vou lutar para fazer as pessoas sentirem que vale a pena ser feliz com um bela pratada de macarrão. Tá difícil engolir que a gente trabalha 16 horas por dia para pagar a regalia dessa corja.

Como o público encontra você na rua?
Nossas redes sócias são nosso canal com o público, entra lá: @holypastafoodtruck no Insta e no Face e veja qual é a próxima parada. Se quiser falar com a gente aproveita e manda uma mensagem.

Ivan Primo Bornes – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo

 

Desisti do Brasil… E eu vou falar o quê?

5 de outubro de 2018

Eu já sabia que ele tinha se mudado para os Estados Unidos. Tinha me avisado que estava criando uma empresa lá. Ele fora meu aluno e tinha criado uma empresa muito bem-sucedida no Brasil. Por acaso, duas semanas atrás, eu tinha conversado com um funcionário de uma empresa que revendia seus produtos: Esse produto é muito bom! Vende muito aqui! – disse o rapaz.

Fiquei muito feliz com este depoimento espontâneo.

Então, quando ele me enviou um WhatsApp dizendo que estava no Brasil e queria tomar um café comigo, arranjei um espaço na agenda e o encontrei no mesmo dia.

Gostaria de receber algumas dicas suas sobre como empreender nos Estados Unidos? – disse ele.

Como assim? – perguntei. Sou que aprendo com você! Eu só organizo e repasso para outras pessoas o que aprendo com empreendedores como você… – continuei.

Não, é que estou começando do zero lá e gostaria de receber algumas dicas. – explica.

Depois de ter discutido alguns aspectos do seu mercado nos Estados Unidos, conversado sobre algumas startups que estão fazendo muito sucesso e ficado de repassar alguns contatos na sua área, noto que não aparentava estar tão feliz indo para os Estados Unidos, o maior mercado do mundo.

E ele explica que decidiu repassar sua empresa no Brasil após inúmeras decepções, humilhações e insegurança física no país. E ele começou a listar…

Certa vez, enviei uma carga para o Rio Grande do Sul, e como é obrigatório arcar com o imposto antes, paguei cerca de 10 mil reais. Mas chegando lá, a empresa não quis receber a carga porque o pedido ainda não havia sido processado pelo sistema deles. O caminhão teve que voltar. Mas depois, na segunda tentativa, tive que pagar um novo imposto antecipado porque a data havia sido alterada. Pedi o estorno dos 10 mil reais iniciais, mas dois anos depois, nada foi depositado ainda.

Em outro caso, o comprador de um grande cliente me chamou para uma reunião às sete da manhã. Os funcionários nem haviam chegado, e ele, muito agressivamente, disse que precisava bater a meta de redução de custos e já tinha tirado o nosso produto do mercado e só recolocaria se reduzíssemos drasticamente nossos preços.

Essa mesma empresa (que agora diz que ajuda empreendedores) pagava só uma parte das vendas que tínhamos feito. Se vendêssemos um milhão de reais, ela pagava 700 ou 800 mil. Poderíamos processá-la e aí, além de ter a chance de não receber os 200 ou 300 mil devidos, ainda perderíamos mais de um milhão em vendas.

E isso acontece toda a semana… Certa vez, enviei uma pequena carga de uns mil reais para uma distribuidora. No dia e horário combinado, havia várias outras entregas atrasadas e o motorista teve que esperar três dias e dormir na cidade. Gastei quase quatro mil reais para, depois, tentar receber mil reais.

E se não bastasse o governo, os clientes, ainda tem os funcionários. Um antigo funcionário desviou mais de 300 mil reais. Ele descobriu a senha do banco e fazia pequenas transferências para um laranja, mas forjava extratos e controles. Como você nunca sabe quanto o cliente está, de fato, depositando, quanto e quais impostos estão sendo pagos, ou pior, sendo pagos novamente, o controle financeiro da empresa é sempre uma grande dor de cabeça. Por isso, tínhamos contratado o melhor profissionais entre os mais de 40 que entrevistamos. Mas um dia, o gerente do banco ligou dizendo que a conta estava negativa. Como assim negativa, se tínhamos dinheiro lá. Quando descobri, liguei para o advogado que alertou que, em nenhum momento, era para acusar o funcionário. Em casos assim, além de, talvez, não conseguir reaver o dinheiro, ainda seria processado pelo funcionário e teria que indenizá-lo. Naquela noite, o funcionário entrou no escritório, limpou sua mesa e todos os dados do seu computador e nunca mais apareceu para trabalhar… Ele sabe tudo da minha vida. Eu tenho família, filhos pequenos…

Mas e nos Estados Unidos? – pergunto.

Lá a palavra vale. O que combinado é cumprido. Se digo que falei com tal pessoa no dia anterior e vim para fazer uma entrega, eles acreditam. Todos os pagamentos são eletrônicos e o que está na nota fiscal é pago integralmente. Se há algum problema no valor, é possível enviar uma nota fiscal com valor negativo e o ajuste é feito instantemente.  E se faz alguma coisa errada, você é preso. A lei funciona…

Despeço-me dele, combinando de visitá-lo logo!

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação

 

 

 

 

As máquinas de macarrão de Tatuí

1 de outubro de 2018

Esta é a história de Giovanni Visciglia, dono da Italvisa – a mais importante fábrica de máquinas para massas artesanais do Brasil. Filho de italianos, casado com Sybelle e pai de Giovanna e Enzo, ele conta como foi assumir a empresa familiar e os desafios do Brasil.

Como foi o começo da Italvisa?

Meu pai Vincenzo e seu irmão Giovanni vieram da Calábria, eram filhos de ferreiro e trouxeram o oficio com eles. Montaram uma oficina mecânica em Tatuí (interior de São Paulo, próximo a Sorocaba) que fazia serviço de torno, solda e desenvolvia equipamentos. Um desses equipamentos foi uma extrusora de massas. A primeira máquina foi vendida para um amigo da cidade. O equipamento ficava exposto e chamou a atenção do Toninho do Jardim di Napoli, que tem propriedades em Tatuí, e com isso iniciaram as vendas baseado no boca a boca.

Você escolheu trabalhar no negócio da família?

Sempre acompanhei meu pai dentro da oficina. Era uma maneira que ele tinha de estar perto e nos ensinar um oficio. Então o envolvimento com o negócio foi natural. Aprendi a soldar, tornear e montar. Todo o conhecimento que meu pai tinha, ele me passou. Em um determinado momento resolvi levar os equipamentos para a feira, apoiado e incentivado pela minha namorada e atual esposa. Ideia que no início não foi aceita pelo meu pai porque o custo era significativo. Então comecei a assumir os desafios e responsabilidades do negócio. A feira me mostrou que havia um mercado e um caminho e, com a ajuda do Sebrae, fomos trilhando. A cada feira novos clientes e novos parceiros foram surgindo.

Como a família participa no empreendimento?

Hoje divido a administração do negócio com minha esposa, que roubei da área artística, ela é musicista.  Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do “normal”  das pessoas.

Como é isso?

Acho que a vida do empreendedor é como a de um caçador, que fareja as oportunidades, vai atrás do seu sustento e segue seu instinto. Pois nos mantemos sempre em estado de alerta. Claro que depois de um tempo aprendemos a curtir um pouco da vida e saímos com a família para passear!

Quais são os planos de futuro do negócio?

Estamos comprometidos em fabricar equipamentos com qualidade e durabilidade, o que tem favorecido o crescimento no mercado interno e externo.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando no teu setor, qual seria?

A burocracia está cada vez mais consumindo o tempo do empreendedor e não são todos que têm tempo e disposição para se preocupar com tantos detalhes. Empreender é colocar em prática ideias e sonhos que acabam sendo descontinuados com tantas dificuldades que encontramos pela estrada. Então, não desanime.

Qual o futuro do Brasil?

O Brasil, como uma empresa, tem o resultado da maneira que é gerenciada. Não é possível crescer e roubar ao mesmo tempo. É necessário colocar metas, governança, ordem e acima de tudo, respeito pelo Brasil. Se o País voltar a ordem, teremos um bom crescimento, pois o mercado da massa fresca se firmou nesses últimos anos.

Conheça mais:

Site: www.italvisa.com.br

E-mail: contato@italvisa.com.br

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)