Blog


Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
Twitter Facebook Orkut
Aumentar texto Diminuir texto

Minha veneração aos que empreenderam o empreendedorismo no Brasil

31 de agosto de 2018

Ainda no século passado, minhas primeiras transparências sobre empreendedorismo explicavam o que era isso. Era preciso citar Richard Cantillon, Jean-Baptiste Say até chegar ao pai do empreendedorismo moderno, Joseph Schumpeter e seu conceito de destruição criativa e o papel da inovação na evolução de negócios e da sociedade. Curiosamente, o termo empreendedorismo só entrou em boa parte dos dicionários brasileiros depois. Em um dos livros de Peter Drucker, entrepreneurship foi traduzido como “empresarização”.

Mas décadas depois, se o empreendedorismo se tornou tema comum em muitas rodas de conversa entre os brasileiros, isto se deve a muitos pioneiros que ficaram falando sozinhos durante muito tempo, pregando o evangelho no meio de um deserto de interessados.

Quem viveu a década de 1980, sabe porque este período é chamado de Década Perdida. Crise do Petróleo, estagnação econômica e inflação crescente. Foi Cruzado, Cruzado 2, Bresser e Verão. Talvez uma das poucas boas lembranças desta época tenha sido a Seleção Brasileira de 1982, de Valdir Perez, Leandro, Oscar, Luizinho e Junior- que mesmo assim, também perdeu. É neste período que devemos agradecer o trabalho de três malucos que fincaram as primeiras bases do empreendedorismo como o conhecemos atualmente. Em 1980, o Professor Ronald Degen criou a primeira disciplina de criação de novos negócios na FGV. Naquele momento, a ideia não era ruim, era insana e assim permaneceu por mais de 14 anos até a chegada do Plano Real, quando empreender um negócio próprio começou a se tornar não apenas viável como também algo desejado entre os alunos. No ano seguinte, em 1981, Clovis Meurer, outro pioneiro mais maluco ainda, fundou a CRP, a mais antiga operação de venture capital do Brasil. Se atualmente os VCs são venerados, naquele momento quase nenhuma empresa nascente prosperava, mesmo que vendesse abajures cor de carne. Mas Meurer se tornou o grande e querido pai do capital de risco brasileiro.

E se agora estamos vivenciando a era das startups, é preciso dar os créditos iniciais ao Professor Sylvio Rosa. Em 1984, ele liderou a fundação do ParqTec em São Carlos, a primeira incubadora de negócios de base tecnológica do Brasil. Pela primeira vez, alunos, recém-formados, professores e pesquisadores poderiam transformar suas pesquisas e tecnologias em soluções para o mercado.

A “década” perdida não acaba e avança até 1994, quando o País ganha estabilidade econômica. No que restou da década 1990, outras bases foram construídas. Em 1996, o Professor Silvio Meira com outros colegas da Universidade Federal de Pernambuco fundam o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR). O CESAR é um dos melhores exemplos mundiais sobre como o empreendedorismo pode mudar uma região ao criar um polo de inovação como o Porto Digital em uma região degradada. O apoio ao empreendedorismo de alta tecnologia também ganha mais uma frente quando, em 1997, sob a liderança do Professor José Fernando Perez, a FAPESP lança o PIPE, o mais antigo e perene programa de capital semente do País. Na mesma época, outro professor, Fernando Dolabela começa a disseminar cursos de empreendedorismo em todo o País, culminando com o livro O Segredo de Luísa, um dos mais importantes best-sellers dos vinte últimos anos, lançado em 1999.

Na virada do século, três pioneiros começam a abrir novas frentes do empreendedorismo. Em 1999, Bob Wollheim assume a Starmedia no Brasil e desde então ele se reinventa a cada três ou quatro anos, empreendendo negócios e inovações diferentes. Um inquieto otimista criativo, Bob representa uma nova geração de empreendedores seriais que surgia no Brasil. Naquele mesmo momento, Marilia Rocca planejava algo que iria mudar definitivamente o jeito de empreender no País. Lançado em 2000, a Endeavor Brasil começou a transmutar empresários em empreendedores e empreendedores em exemplos a serem seguidos, replicados e multiplicados.

E termino a minha lista de pessoas que venero, não pela falta de exemplos, mas pelo tamanho do texto, com uma grande saudade do amigo Eduardo Bom Angelo. Mais do que presidente de grandes empresas, Bom Angelo foi um dos primeiros CEOs do País a incentivar o empreendedorismo e a inovação dentro das organizações. Seu livro, Empreendedor corporativo: a nova postura de quem faz a diferença, lançado em 2003, não é apenas atual, é cada vez mais imprescindível para o momento vivido atualmente pelas corporações.

E justamente agora que vemos tantos, mas tantos empreendedores de palco, é preciso também agradecer quem ajudou a construí-lo. Muito obrigado!

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

O missionário empreendedor

27 de agosto de 2018

Loja do Coletivo Emaús, marca de moda urbana que destina parte do seu faturamento para projetos assistenciais

Esta é a história de Tom Dias, designer, empreendedor e fundador da marca de moda jovem Coletivo Emaús, com forte pegada de street wear, rap, skate e … bíblias! Tom e sua mulher, Cibele, estão empreendendo de forma a realizar não apenas a vontade de serem donos do próprio negócio, mas também de compartilhar e doar. “Somos uma marca de moda urbana que segue os preceitos bíblicos e achamos importante praticar essa relação humanitária, que consiste em devolver ao universo uma parte do que conquistamos.” E Tom fala sério e compartilha pesado: 30% do lucro obtido é doado para projetos assistenciais e auxílio a missionários espalhados pelo mundo, como em Juazeiro do Norte – CE (Brasil), Arequipa (Peru), Moçambique e Sudão.

O que é o Emaús?
O Coletivo Emaús mostra a força da criatividade e amor através de camisetas que falam sobre um caminho, uma verdade e uma vida que começa aqui, mas não acaba aqui! Somos uma marca que promete um lifestyle com qualidade, esperança e muito amor! Esse é nosso intuito! A pessoa quando veste um produto Emaús sente algo diferente. É muito mais do que uma camiseta. É algo diferente, é algo que surpreende.

De onde surgiu a ideia de fundar o Coletivo?
A necessidade de apoiar projetos e pessoas que deixam seus lares, suas vidas para prestar serviços de assistencialismo a famílias, crianças, adolescentes. Muitos desses são chamados de “Missionários” porque entenderam que existe uma necessidade maior, um anseio maior para que outras vidas possam ser apoiadas, conhecendo um amor, uma graça, que pode mudar suas condições.

Primeiro apareceu a ideia do negócio ou primeiro surgiu o empreendedor?
Desde pequeno sempre fui avesso a ideia de trabalhar com carteira assinada. Sempre perguntava aos meus pais porque eles não poderiam ser livres para fazer suas coisas que sempre sonharam. E a resposta que sempre ouvia era “estude para arrumar um emprego decente”. Eu sempre fui ouvinte, obediente (salvos muitas exceções) e muito teimoso com meus pais. No princípio, aos 17 anos, arrumei meu primeiro emprego como designer de estampas, isso foi em 2004. Mas sempre questionando o motivo  de acordar super cedo, ter uma hora de almoço e ter hora para ir embora. Nunca entendi muito porque as pessoas adoram a sexta-feira. enfim…. De lá pra cá, passei por agências de comunicação, escritórios de moda, cenografia, publicidade entre outros. Minha teimosia foi o gatilho para abrir o próprio negócio. A princípio prestando serviços de design e querendo tocar ao mesmo tempo o Emaús confeccionando camisetas. Percebi que era muito perfeccionista e decidi abandonar a área de serviços e aprendi a amar o Emaús fazendo a melhor camiseta da vida de qualquer pessoa!

Como é que a família participa no empreendimento? No estilo de vida?
Eu e minha esposa somos sócios nesta empreitada! Preciso confessar: não é nada fácil, mas sempre conseguimos entrar num acordo. As coisas, querendo ou não, se misturam muito. O legal é que as crianças já crescem percebendo que a vida não é um mar de rosas e acredito que eles adoram ter o pai e a mãe sempre por perto. Nossa rotina é muito dinâmica e bem cansativa, acordamos, levamos as crianças pra escola, voltamos, conversamos sobre o dia, vamos a loja/escritório, trabalhamos com as agendas do dia, como criação, produção, vendas estratégias etc. Nos fins de semana, fazemos eventos em igrejas, levando nossas camisetas para apresentar a marca aos irmãos.

Tom Dias, criador do Coletivo Emaús, em seu ateliê

Como é o seu dia de trabalho?
Já houve quarta-feira que foi meu domingo e já houve domingo que acordei na empresa. Não existe nem dia e nem hora para quem quer conquistar um sonho, seja ele material, espiritual ou pessoal. Não existe! Nosso tempo com a família é super-importante, pelo menos uma refeição do dia fazemos juntos. E procuramos passar um ou dois dias da semana juntos, passeamos, comendo ou apenas deitados na cama assistindo Netflix durante um dia inteiro! Família é primordial para que tudo dê certo. Sem família, nada do que fazemos faria sentindo. Amo muito nossa família, e tudo que faço, as horas e dias investidos, são por eles e para eles!

Quais são os planos de futuro do Emaús?
A internet é um ser a ser explorado durante vidas e vidas! Nossa intenção é descobrir cada vez mais como ela funciona, pois nosso Cliente (com maiúscula) está ali! Queremos sempre criar camisetas novas, expandir os negócios na internet. Automatizar processos cada vez mais sem perder o contato humano do atendimento. Sonhamos em expandir fisicamente o nosso negócio, mas cremos que ainda não é o tempo. Acredito numa frase de Salomão: “Há tempo para tudo estabelecido abaixo dos céus”. Um dia de cada vez, vivendo, aprendendo, vendendo e expandindo conforme Deus quer.

Se pudesse dar uma dica aos jovens empreendedores que estão chegando, qual seria?
Encontre um propósito para seu negócio, não uma necessidade para ganhar dinheiro. Encontre um propósito e o dinheiro virá como consequência para alimentar o negócio e o propósito. Sei lá, pense em ajudar asilo, orfanato, ONGs, comunidades, igrejas com parte do seu faturamento. A generosidade gera renda! Quando mais dou, mais eu tenho para dar! Aquela máxima, “Quem tem para pagar a conta, tem sempre”… Seu diferencial não seja atendimento ou um produto/serviço bacana! Que isso seja obrigação. Encontre seu diferencial nos detalhes que só o cliente e você percebam, talvez uma aproximação mais pessoal, algo que lembre as pessoas de algo nostálgico que traga lembranças positivas, pense nos detalhes como diferencial. Não tenha limites para trabalhar! Trabalhe, estude com diligência e muita força! O mundo e as pessoas estão cada vez mais profissionais e se você quer bater de frente, precisa ser profissional ao extremo! Agora se você quer ser mais um, é só cair toda hora em campo e fingir que está machucado…

Qual o futuro do Brasil?
Vejo um futuro de pessoas cada vez mais empreendendo no Brasil. A internet é o lugar das oportunidades. Os mais novos já nascem com um smartphone acoplado em suas mãos. O que precisa é guiar essa garotada que está vindo a querer ser cada vez mais técnicos, profissionais, porque talento muitos deles já tem! Não vejo carteiras assinadas, não vejo mais empregados. Mas vejo pessoas trabalhando em acordos montados com seus chefes e tendo a possibilidade de escolher o que fazer cada vez mais. Vejo pessoas sendo preparadas cada vez mais! E pessoas com multitalentos ora são cozinheiros, ora são profissionais de TI ou produtores musicais. Não vejo pessoas com profissões padronizadas, mas vejo cada vez mais jovens super talentosos, graças à bendita da internet!

Onde encontrar:

www.coletivoemaus.com (Loja online)

Facebook: www.facebook.com/coletivoemaus

Instagram: www.instagram.com/coletivo_emaus

Endereço Coletivo Emaús:  Av. Brasil, 361A – Vila Correa, Ferraz de Vasconcelos – SP; telefone: (11) 3425-7299; horário de funcionamento: das 10h às 18h.

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Não entendeu a piada? Pergunta o chefe. Entendi, eu só não trabalho aqui…

24 de agosto de 2018

Estamos fazendo várias coisas de inovação… – diz um amigo sobre sua nova função na empresa. Estamos fazendo isso, isso e aquilo… – continua. OK, mas como sua empresa define inovação? – questiono. Depois de alguns segundos bastante incômodos ele responde: Isto é algo muito complexo. Então sua empresa não tem uma definição de inovação e quer ser inovadora? – pergunto sem dar muito tempo para ele pensar. O silêncio a seguir constrange… Eu acho que você será demitido em pouco tempo… – aviso. Ele sai atordoado da reunião, mas no dia seguinte, ele agradece pelas minhas duras e sinceras palavras.

Em conversa com outro amigo, um vice-presidente executivo de uma grande empresa, explico que a minha função tem sido fazer análises críticas sobre temas associados à inovação. Boa parte destas perspectivas são colocações que criam desconfortos para os executivos, mas que seus próprios funcionários não se arriscam a fazê-las. Narro uma alegoria corporativa que em certa reunião de trabalho, o chefe conta uma piada e todos na sala riem menos uma pessoa no canto da sala. Não entendeu a piada? – pergunta o chefe. Entendi, eu só não trabalho aqui. – responde. Meu amigo, sempre muito sério e comedido, dá uma sonora gargalhada, dessas de lavar a alma. É um circo corporativo, meu amigo!

Dizer a sua verdade para o chefe é uma atitude mais comum em outros países. Estou pensando em chamar minha startup de Cadabra, de abracadabra, entende, e daí o produto escolhido buscado no site aparece… – explica o empreendedor norte-americano radiante para o funcionário. Achei o nome muito ruim. – interrompe o colaborador. Mas por que? – o empreendedor se surpreende. Cadabra tem uma pronúncia (em inglês) que remete à cadáver…. – esclarece o funcionário.

Nos últimos anos, muitas grandes corporações estão criando diversas iniciativas de inovação e solicitando, quando não exigindo, que seus funcionários sejam mais empreendedores e participativos, dando ideias, propondo inovações e (lá vem o jargão) pensando fora da caixa. Iniciativas assim são muito construtivas tanto para a empresa como para o colaborador, mas são inócuas, quase sempre inúteis e deprimentes quando os chefes continuam contando sempre as melhores piadas e pior, com os funcionários rindo por mera burocracia corporativa ou temor profissional.

Mas há algo ainda pior do que rir da piada sem graça do chefe. Em um antigo comercial da Fedex, um funcionário em reunião de trabalho apresenta uma ideia. Todos os presentes ficam em silêncio e alguns até esboçam algumas pequenas reações contrárias. Segundos depois, o chefe anuncia que teve uma grande ideia e a apresenta. A ideia é exatamente a mesma do funcionário, mas agora todos da reunião vibram, apoiam e exaltam a capacidade visionária do chefe. O funcionário tenta argumentar que a ideia do chefe era a mesma que a sua, mas o chefe explica que há uma pequena grande diferença e o restante do grupo concorda com o chefe.

Empresas em que só os chefes contam as melhores piadas e têm as melhores ideias criam circos corporativos em que a inovação não prospera. Empresas assim adoram contratar consultores “que pensam fora da caixa” e terceirizar a inovação. Estas organizações, definitivamente, não querem inovar. Elas querem ser inovadas. Buscam um rivotril da inovação, quase sempre embrulhado em post-its e ministrados por jovens hipsters.

Mas há uma pequena parcela de corporações que já foi ludibriada pelo canto e conto das sereias da inovação ou que realmente querem inovar junto com seu time de colaboradores. Os líderes de empresas assim sabem que todos os colaboradores podem ser mais empreendedores e inovadores, riem das boas piadas contadas por qualquer um e não só aceitam como pedem que suas iniciativas sejam questionadas ou criticadas desde que acompanhadas de justificativas e, se possível, de boas ideias de inovação. Os melhores líderes de inovação ajudam todos na empresa a baterem suas metas e assim constrói legitimidade para projetos mais audaciosos.

Para empresas que inovam verdadeiramente com seu time, abracadabra. Para as demais, ronda a referência a um potencial cadáver no mundo dos negócios.

Ah… o empreendedor ouviu as críticas e mudou o nome da sua empresa de Cadabra para… Amazon. Daquele momento em diante, ele não queria criar apenas a maior empresa do seu ramo do mundo, mas algo muito, muito maior do que seu concorrente mais próximo.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

Porque o franchising americano é melhor do que o nosso!

21 de agosto de 2018

Em mais uma viagem aos Estados Unidos, visitando operações franqueadas, ou não, de redes pequenas a enormes, analisando o comportamento do varejo americano, assim como a forma de se tratar os assuntos por lá, me parece fácil concluir que a base de tudo é cultural.

Há regras claras, onde quer que você vá, são simples – no mais das vezes e, acredite, as pessoas seguem as regras!

Quem as criou, a gente nem conhece, mas que todos os funcionários as aplicam e colocam os consumidores a seguir as regras do PDV, do teatro, do outlet, da locadora de carros, do fast food, do fluxo das escadas: o lado em que você sobe ou desce, a velocidade dos passos na calçada e ai de quem para perdido no meio da rua e atrapalha quem está a pouco passos deste ser.

Há momentos em que o consumidor estrangeiro, que não sabe o cardápio, as regras da fila ou o valor de tantos tamanhos de moedas, é tratado com um olhar “Como assim? Como não sabe?” Parece que o mundo já deveria nascer sabendo as regras criadas por eles e que não existe outra forma de ser ou pensar – o que dirá de agir…

O importante aqui é enfatizar a cultura de execução que existe nos EUA. Impressionante ver uma fila enorme desaparecer em minutos após a abertura da porta (do museu, teatro, mercado, qualquer porta), seu casaco ou bolsa ser entregue em 1 minuto após você dar seu número de telefone – este é o controle na chapelaria, qualquer loja de uma mesma marca o processo é idêntico, assim como a antipatia ou grosseria dos atendentes com os clientes. O “como assim” é implantado com preciosismo, por algumas marcas.

Tudo é processo, procedimentos minuciosamente implantados, treinados e quase que robotizados por humanos. Não existe mimimi – é assim que é e ponto final.

A humanização na relação com os clientes na Nova Iorque, cosmopolita e alucinada, não existe. Não dá tempo, sai do programado e o cliente também não está esperando por isso. Ele também não olha para quem o atende e palavras como please, thank you e sorry estão sempre na ponta da língua para saírem na hora certa e conforme situação. Só não interessa a quem serão direcionadas. Estão no automático também.

Lógico que na 5ª Avenida e algumas ruas ao redor, o mundo é outro. Mas, há uns exageros que tornam difícil o controle do riso. Verdadeiros personagens vêm ao nosso encontro, à sua moda, na tentativa da experiência da compra tão discutida ou divulgada.

A preocupação em atender o cliente vem em segundo plano, realizar os procedimentos cronometrados e na ordem correta é a prioridade. E quando algo sai errado como um copo com refrigerante cair no chão, a atendente grita “SHIT!!” para todos ouvirem, no fast food reconhecido, e põe o novo copo com líquido sobre o balcão para o cliente de forma a ele se sentir culpado por ter ido lá e pedido o refrigerante… ☹

São tantos exemplos de experiências ruins de atendimento e forma de tratar clientes, que você deve estar se perguntado porque coloquei o título Porque o Franchising americano é melhor que o nosso.

Porque os números mostram isso, também para enfatizar que eles lidam com processos de maneira “assustadora” e perfeccionista, o que faz as coisas acontecerem conforme foram definidas e que o modelo é reproduzido independente da distância e da língua mãe de quem opera o negócio, em território americano. Não existe a desculpa de mão de obra não qualificada – eles treinam, treinam e …treinam! E para mostrar, também, que a cultura é o maior patrimônio e facilitador de tudo, porque clientes e quem os atende querem as mesmas coisas como agilidade, simplicidade e padronizado. As regras do jogo já estão combinadas por todos os envolvidos nos processos. Por isso que dá certo. Na maioria das vezes.

Quando não dá certo, os motivos são outros que podemos conversar outra hora.

Ana Vecchi é professora e pedagoga pela PUC-São Paulo, com especializações em administração de marketing pela Fundação Getúlio Vargas (SP), planejamento estratégico de marketing pela ESPM e MBA em varejo e franquias FIA/PROVAR. É professora universitária, instrutora e palestrante em associações e universidades. Co-autora do livro A Nova Era do Franchising.

 

Burger com sotaque italiano

20 de agosto de 2018

Esta é a história de Massimiliano Galise, o Max, italiano aventureiro que chegou ao Brasil em 2006, atrás do amor da vida, Luciana. Quando apareceu a oportunidade de empreender, decidiu realizar um antigo sonho familiar e, no começo do ano, abriu as portas do Galise Burger, no bairro Paraíso. Com estilo slow food, ele mesmo comanda a cozinha todos os dias, cuidando de cada detalhe, do compromisso “ultrafresh” e, claro, influência de sua família italiana nas receitas.

Aqui ele nos conta a sua jornada de vida e de empreendedor. “Os italianos são românticos e dramáticos ao mesmo tempo. Quero me despedir deste mundo cozinhando, como dizia aquela minha tia-avó napolitana que cozinhava tão bem e que tinha passado fome durante as duas grandes guerras. Se eu morrer, vou morrer cozinhando. Mas, antes disso, tenho caminho pela frente.”

Qual é sua história?
Sou nascido, criado e crescido na Itália até a tenra idade de 32 anos. Venho de um povoado de 17 mil pessoas, Saluzzo, no noroeste da Itália, no meio dos Alpes, bem na divisa com a França. Praticava muito alpinismo nos arredores do meu povoadinho. Montanhas, natureza… Em 2005 fui à Bolívia escalar um vulcão de 6 mil metros e lá conheci minha mulher, Luciana, que é brasileira.

Foi amor à primeira vista?
Bom…posso dizer que rapidamente voltei para a Itália para arrumar as malas e vender tudo porque depois daquele encontro tinha que seguir a Luciana! Hoje nossas filhas Teodora e Carmela tem 9 e 7 anos. Estou muito feliz…só me faltam os Alpes.

E a chegada ao Brasil?
Fiz de tudo nestes 12 anos de Brasil. Por exemplo, fui taxista por três anos, nesta cidade um milhão de vezes maior que a minha. Experiência boa e inesquecível. Um dia vou escrever um livro destas aventuras.

Desde quando você tem interesse pela gastronomia?
A minha família italiana (no caso eu, Mamma e Papá) não tinha incríveis condições econômicas. Não chorávamos, mas nunca fomos ricos. E sempre fizemos o que tinha que se fazer para “tirare avanti”, para irmos em frente de forma mais que digna. O sonho dos meus pais era, um dia, antes de morrer, abrir um pequeno restaurante. Os italianos são românticos e dramáticos ao mesmo tempo: antes de morrer… eu queria ter um restaurante e realizar este sonho da família. O restaurante tinha que ter 11 mesas, um número recorrente na cabalística de casa. E em casa cozinhávamos sempre. Sempre. Meu pai, minha mãe, eu. Viajávamos para o sul (o meu pai era de Pompei) e lá também todos cozinhavam e comiam. Existe um percurso culinário para ser desvendado na Itália, do norte ao sul. Sabores, temperos, mesclas, jeitos diferentes de preparar o mesmo prato que mudam em poucos quilômetros. E eu, desde criança, sempre em uma cozinha, entre norte e sul, querendo ajudar, querendo fazer…ou simplesmente roubando um gnocchi que tinha acabado de ser feito ou dando uma escapada na horta do tio para roubar um tomate direto do pé…E com aquela mordida,  descobrindo sabores maravilhosos. Não existia “não gosto disso ou daquilo”. Comia de tudo.

Quando apareceu o momento de empreender?
Bom, infelizmente em 11 de abril de 2011 minha mãe faleceu. Poucos anos depois o meu pai se juntou a ela. Era um dia 11 também. Como único filho herdei uma casa na Itália. Vendi a casa e decidi realizar o sonho dos meus pais: abrir o tal do restaurante de 11 mesas. Galise Burger é, portanto, o resultado do dinheiro que herdei, junto a vontade de investir o mesmo em algo que tivesse o sobrenome da família e que vingasse aquele sonho que meus pais não realizaram. O slogan da casa é “cucinando tutta la vita”, cozinhando a vida inteira.

Por que uma hamburgueria e não um restaurante mais italiano?
Apesar de uma vida de intensa prática em cozinhas caseiras, achei que não tinha suficiente experiência para abrir um restaurante, sabe…tipo de culinária italiana. E não tinha muuuito dinheiro para investir. Muitos pensam em burger como algo simples e básico. Talvez por alguns momentos também pensei isso, pelo menos antes de abrir. Creio sim que acreditei um pouco nisso. Hoje julgo o meu burger como algo que não faz parte da mesmice de muitos, e que porta a marca dos tempos e dos conhecimentos de vida e de viagens que fiz pela Itália e pelo mundo. O fato de procurar produtos orgânicos, de nunca congelar a carne que uso e de trabalhar exclusivamente com produtos de primeira, complica as coisas, ainda mais para quem abre pela primeira vez ao público e faz questão de estar na cozinha, na sala e no escritório da contadora. Tudo ao mesmo tempo, claro. Uma logística que poucos conseguem entrelaçar. Estou no começo: sete meses de porta aberta.

Como é a vida de um empreendedor?
O lado primata do empreendedor está no coração, claro, mas creio que esteja evoluindo conforme vejo crescer o meu espaço. Digamos que estamos caminhando de mãos dadas. Claro que não inventei o Galise sem pensar e sem ter convicção do produto que queria criar. Foi como um coquetel de ideias, sonhos, oportunidade e um pouco de loucura. Não escondo que o momento do Brasil, a casa muito nova e a primeira viagem no setor deixa tudo um pouco mais complicado: falo da minha vida  que mudou e também  do perfil econômico do negócio. Mas de verdade, penso que é isso que quero fazer até talvez um dia me aposentar..ou até morrer (rsrs).
Nestes dias, com a casa muito cheia e os pedidos que não paravam de chegar na minha cozinha, vivi um sentimento que talvez não saiba explicar: queria uma trégua, só um instante! Para tudo que estou me perdendo aqui! Mas ao mesmo tempo uma voz falasse assim “está tudo sob controle, você manda bem pra caramba, olha que linda a apresentação deste burger, já já acabam estes pedidos e você vai dar uma volta no salão, perguntando para os clientes se estão satisfeitos.” E eu adoro esta voltinha no salão, vendo as cabeças se mexendo em sinal de aprovação antes de eu perguntar qualquer coisa. Acho que é indispensável um pouco de loucura ou insensatez lógica e controlada para trabalhar na cozinha de um restaurante. Pelo menos é necessário ter a vozinha que fala com você mesmo. Como disse, os horários mudaram, e quando não estou cozinhando, penso. Penso nas novas receitas e (trabalho com um cardápio enxuto e que muda a cada 15 dias) nas possibilidades de modificar o espaço atendendo novas exigências que surgiram depois do primeiro semestre, e claro, nas finanças do empreendimento. A parte que gosto menos. Se você anda comigo na rua, eu estou sempre com pressa, vejo produtos novos, imagino, crio, não te escuto enquanto você fala de futebol e agora que percebo, estou a 10 metros pra frente de você. Os amigos se acostumaram. Acho. E gostam de como descrevo um prato que poderia ser feito por exemplo com aquela abóbora. Aliás, deixe eu anotar “abóbora” como um ingrediente de um futuro burger.

Como é a relação da família no empreendimento?
Inevitavelmente a família está envolvida: os meus horários malucos são o primeiro aspecto que mais revolucionaram a nossa rotina. As minhas filhas enlouquecem me vendo numa cozinha como profissional, e claro, queriam ajudar todas as vezes que jantam no Galise. Talvez sintam falta de cozinhar comigo, em casa, de domingo, assim como acontecia antes de abrir, quando juntos preparávamos gnocchi. Eu e minha mulher nos complementamos. Eu sou o sonhador, o impulsivo, aquele que não para. A Luciana é a parte lógica, o lado responsável do negócio. Eu me vejo hoje em uma deliciosa posição no ranking do Trip Advisor (8° lugar entre todos os restaurantes com 5* de SP) e quero subir mais e mais e mais… Ela fica mais de olho nas contas, ainda bem! De alguma forma, agradeço as minhas três mulheres pela paciência comigo!

Quais são os planos de futuro do negócio?
Para ser honesto, depois de sete meses de abertura, preciso recuperar o meu capital investido. Depois disso vou focar em um futuro mais longe. Não quero mais Galises. Talvez pense sim em um Galise com um espaço maior do que o atual, mas não estou pensando em franquias. Este negócio pertence a um sonho. E quero que permaneça, de alguma forma, ligado àquele sonho primordial. Mas poderia pensar em outra linha de produto. Um outro restaurante. Sei que tenho muitas coisas pra dizer e fazer para que as pessoas provem uma verdadeira cozinha italiana. Eu não frequento restaurantes italianos de São Paulo. Me perdoem, mas para um italiano o melhor restaurante é a casa da mamãe.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão iniciando, qual seria?
Siga os sonhos, seja ousado, saia da mesmice, não crie um produto que já existe, seja único, e tenha ao seu lado alguém que te ama….e que de vez em quando te traz a realidade daquele boleto que está quase para vencer rsrsrs. Precisamos dos dois lados (o prático e o genial) para ter sucesso. Tenho certeza disso, e tenho certeza que preciso daquela minha Luciana pra me trazer, muitas vezes, de volta pro chão. E tenham respeito e paciência com a equipe: somos nós os malucos. Eles ajudam a realizar o que temos na cabeça e no coração. Se alguém um dia tem a receita para criar o dia de 28 horas eu topo uma sociedade para fazermos juntos. A todo sabor.

Qual o futuro do Brasil?
Venho de um país que viveu duas guerras mundiais (e não se saiu bem em nenhuma das duas) e que sempre acreditou na política do “ir pra frente”. “Avanti c’é posto” dizia meu pai: lá na frente sempre tem lugar. Mesmo que a situação econômica atual não seja a mesma da época de quando cheguei aqui, estou confiante no futuro do Brasil. Há muita coisa para ser criada e com certeza os jovens empreendedores podem ter muitas coisas para falar, demonstrando a criatividade, a força de vontade e muita atitude naquilo que criam. Os políticos deveriam ser cozinheiros, criando sempre algo de gostoso e que todos possam saborear, não? Se cada um se colocar como exemplo de renovação e criação de coisas boas e novas, o futuro estará se abrindo como uma flor de abobrinha. Aliás, boa ideia esta flor, para o meu burger vegetariano.

Serviço
Galise Burger
Fone: (11) 2372-0735
Rua Carlos Steinen 270, Paraíso, SP
Instagram: galise.galise
Facebook: Galiseburger

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

Mais de 20 milhões de brasileiros estão desempregados e isto vai crescer. Como tentar não fazer (mais) parte deste número

17 de agosto de 2018

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, no final de junho de 2018, cerca de 13 milhões de brasileiros estavam sem emprego e outros 8 milhões tinham desistido de procurar um. Por mais que a economia volte a crescer, e que estes números caiam no curto prazo, há uma crescente e invisível onda de automação de processos que está extinguindo milhões de postos e funções de trabalho em todo o mundo, em todos os setores. Em funções como as de call center, back-office ou corretagem, as novas soluções de automação de processo, inteligência artificial e machine learning não são ondas, mas tsunamis de destruição de empregos. Startups como a UIPath, uma das novas líderes em automação de processos robóticos, conseguem realizar milhões de processos diferentes que antes eram conduzidos por analistas e verificado por supervisores e gerentes. Mas a hecatombe tecnológica também avança em funções analíticas especializadas como médicos, advogados e professores. Recentemente, a inteligência artificial desenvolvida pela startup inglesa Babylon Health superou a média de acerto dos médicos daquele país: 81% de precisão do aplicativo contra 72% de acuracidade humana. Tudo isso gera não uma era de mudanças, mas uma mudança de era naquilo que foi chamado emprego no século passado.

Mas o que quem está sem emprego, ou com receio de perder o seu, pode fazer diante destas forças da natureza tecnológica?

A primeira iniciativa é se engajar para que tenhamos melhores condições de crescimento econômico e geração de renda para a população. Isto começa pela escolha das lideranças políticas que conciliarão estabilidade institucional com evolução social e econômica do Brasil nos próximos anos. Isto já abre a perspectiva de novas vagas de trabalho. Em paralelo, é preciso pensar cada vez mais em trabalho e menos em empregos. A lógica do emprego formal, consolidado no século 20 como um dos pilares da sociedade patronal, está mudando drasticamente em diversas partes do mundo. No Brasil, dados mais recentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho indicam que uma a cada quatro ocupações profissionais já utiliza o modelo de trabalho intermitente. Levada ao extremo, isto cria uma situação nefasta em que funções mais operacionais são substituídas por máquinas e robôs e as mais criativas e estratégicas por trabalho intermitente.

Mas dando três toques na madeira, o mais sensato neste momento é descobrir como você pode se tornar um melhor profissional para as opções de trabalho disponíveis agora já se preparando para as novas profissões e dinâmicas de trabalho. Por isso, caso nunca tenha feito, realize um teste do seu perfil cognitivo. Há vários disponíveis na internet, mas sugiro começar por este (link) preparado por uma amiga, a Jamile Coelho. Neste teste, você pode descobrir como você aprende melhor. Esta noção será vital para a escolha do melhor método de aprendizagem tanto para a sua atualização como para se preparar para as novas demandas profissionais. Também reflete como você pensa e sente para agir e resolver problemas. Isto é importante para entender quais são as melhores dinâmicas de trabalho que pode exercer. E por fim, analisa quais são suas principais inteligências e habilidades. Há, pelo menos, nove tipos de inteligências e quando você descobre qual ou quais são as suas principais, tudo fica naturalmente mais fácil. Ao compreender melhor seu perfil cognitivo, terá a chance de definir as funções que executa com muito mais habilidade e talento natural. Naturalmente, terá um melhor desempenho nos processos seletivos (se buscar um vaga) e mais chance de realizar seu trabalho com maestria.

Além de definir as funções que pode executar com mais excelência, é muito provável que tenha que se atualizar profissionalmente para já surfar as ondas das novas profissões. Há milhares de vagas em novas demandas e profissionais. Conheça algumas delas neste link. Assim, além das opções que já conhece de cursos e faculdades, há inúmeras plataformas de educação online como Coursera, Udemy, edX, Udacity ou Lynda. Entre as brasileiras, boa parte das universidades e faculdades também oferece soluções de educação à distância como SENAC e FIAP.

Além de se conhecer e conhecer novos assuntos e oportunidades de trabalho, é preciso conhecer novas pessoas. Os cursos são sempre uma ótima oportunidade para ampliar sua rede de relacionamentos, mas varie e amplie sua rede por meio de trabalhos voluntários em atividades que guardem alguma relação com as funções profissionais que deseja realizar. Iniciativas como Centro de Voluntariado e Atados, entre outros, oferecem diversas oportunidades para quem deseja fazer o bem. Em algum momento descobrirá que quanto mais ajuda, mais será ajudado!

Por fim, torne-se empreendedor de si mesmo. Andy Grove, que durante muito tempo foi o presidente da Intel, costumava dizer a todos os seus funcionários: ”Não importa onde trabalhe, você não é um empregado, você é um negócio com um funcionário: você. Ninguém lhe deve uma carreira. Você é o dono do seu negócio, seu único proprietárioe único responsável pelo seu sucesso.

Por fim, vale uma reflexão feita por Walt Disney com relação ao trabalho. Quando você não consegue um emprego, deveria pensar em criar o seu próprio negócio aproveitando o seu talento. Ele mesmo não conseguia se empregar pois muitos achavam seu traço muito infantil. “Todas as adversidades que tive na vida, todos os problemas e obstáculos me fortaleceram. Você não entende quando isso acontece, mas um chute no dente pode ser a melhor coisa do mundo”, disse.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

A importância da reinvenção aos 110 anos de existência

13 de agosto de 2018

Fachada do centenário Empório Chiapetta no Mercado Municipal de São Paulo

Esta é a história de Renato Galgiardi Chiapetta, de 38 anos, quarta geração de uma família de comerciantes de alimentos. Ele é bisneto do fundador do Empório Chiapetta, Carlo, calabrês chegado a São Paulo em 1908 e que se instalou numa pequena banca no antigo Mercado São João. Em 1933, Carlo mudou a banca para o atual endereço, no então recém-inaugurado Mercadão Municipal de São Paulo.

Renato está hoje na linha de frente da renovação da operação, com novas marcas e novas frentes de negócios. “Temos 110 anos de história e estamos passando por mais um período de renascimento, fazendo os ajustes necessários para o negócio durar mais 110 anos.”

Como é trabalhar com a família?
Na nossa família, a empresa é um assunto que está presente todo o tempo, é uma extensão natural de casa. Foi assim desde pequeno: comigo, meus irmãos, meus primos. Nós, assim como nossos pais e antepassados, começamos a ajudar desde cedo, então, essa ligação fica muito forte e natural. Isso é um traço muito forte da nossa origem italiana, igual a tantas outras famílias de imigrantes. Quando se trabalha em família e com muita paixão, tudo envolve muita energia e muita emoção, e esse é o nosso combustível. A vida da nossa família pode ser vista em muitos filmes italianos e sobre italianos. Desde de O Poderoso Chefão, Concorrência Desleal, Rocco e Seus Irmãos, Estômago, A Grande Noite, entre outros.

Você trabalhou em outras atividades além do Empório?
Eu estudei Publicidade e Administração de Empresas e segui minha vida, trabalhei bastante tempo como fotógrafo e diretor de filmes para comerciais e programas de TV. Durante esse tempo, sempre estive presente e acompanhando a trajetória da empresa. Isso foi muito bom por vários motivos. O principal deles foi a oportunidade de poder olhar o Empório Chiappetta de fora — foi um ponto de vista novo e muito surpreendente para mim. Compreender o negócio, o valor dele e a percepção do público de uma posição neutra são coisas fundamentais para qualquer empreendedor, numa empresa de 110 anos isso pode ser mais difícil do que se imagina, por mais que seja óbvio.

Aos 110 anos, qual é o momento atual da empresa?
O Empório Chiappetta mudou de negócio muitas vezes na sua trajetória. Começamos como feirantes, praticamente antes de existir o próprio mercadão. Depois fomos atacadistas de alimentos básicos, depois importadores de produtos especiais, depois distribuidores de food service , depois lojas de varejo. Em mais de um século de história acredito que a capacidade de adaptação e o espírito de luta do meu bisavô, meu avô, meus pais, meus tios, meus primos e meus irmãos foram essenciais para irmos tão longe. Hoje, estamos mudando de “business” novamente, uma vez que estamos produzindo produtos de alta qualidade aqui no Brasil, em vez de importar, que era a atividade principal da empresa nos últimos 30 anos. Não é fácil fazer isso e esse é o nosso desafio neste momento.

Produtos da marca Gastronomia Chiapetta, braço dos negócios da família

São vários negócios?
Hoje, temos a loja histórica no mercadão, na rua G box 8, onde ficam meus tios Leonardo e Eduardo, que é maravilhosa, está a pleno vapor e tem esses dois personagens extremamente carismáticos. E na parte de food service nós temos duas marcas em dois campos de atuação muito claros, que são a Gastronomia Chiapetta e a Fiumefreddo. A Gastronomia Chiappetta é uma linha de produtos gourmet e saudáveis ao mesmo tempo, como mix de frutas secas, temperos especiais e pastas espalmáveis naturais, como um creme de avelã e cacau vegano e uma pasta pura de pistache. São produtos destinados a lojas de produtos saudáveis, naturais, empórios e supermercados. Já a Fiumefreddo é voltada para o público profissional de gelateria e confeitaria, com insumos totalmente naturais para produção artesanal de sorvetes, sobremesas geladas e confeitaria em geral. Foi um mercado muito interessante que identificamos e é carente de produtos de alta qualidade. A gelateria de artesanal chegou ao mercado brasileiro para ficar. São esses dois projetos o nosso foco e grande desafio neste momento.

Como é a sua rotina de empreendedor?
Eu sou completamente apaixonado pelo meu ofício, uma das primeiras implicações disso é não ter horário para nada. Nós fazemos um trabalho ao lado dos grandes chefs de uma forma invisível, criando e pesquisando ingredientes, formatando produtos e soluções, mas sempre sem aparecer, afinal quem tem de brilhar é o chef. Isso vale para o nosso trabalho em gastronomia e em gelateria também, faz parte do mundo do sorveteiro essa alquimia, esses segredos misteriosos.

Quais os planos de futuro?
Nós estamos passando por mais um período de renascimento, fazendo os ajustes necessários para o negócio durar mais 110 anos. Nós acreditamos na nossa marca, temos uma visão de qualidade e estamos vendo o mundo da alimentação passar por uma grande revolução como um todo, o que gera uma série de oportunidades. Hoje, as pessoas leem as etiquetas, sabem que matérias-primas devem evitar e quais valorizar, têm preferência pelo produto local, evitam corantes, conservantes, estão muito mais informadas sobre processos, responsabilidade, sustentabilidade e outros assuntos super-importantes, sem dúvida é uma grande evolução. Existem as tendências e os nichos que se formaram e estão cada vez mais identificáveis, como os veganos, vegetarianos, o público fitness, os que evitam glúten, lactose, orgânicos, os que procuram o low carb entre tantos outros. Isso tudo gera novos negócios, novas empresas e novas marcas. Se nós do Empório Chiappetta queremos continuar nossa trajetória, devemos acompanhar tudo que está acontecendo e ainda agregar a nossa longa experiência no mundo da alimentação.

Se pudesse dar uma dica aos jovens empreendedores que estão chegando no seu setor, qual seria?
Eu não sou ninguém para dar dica. Posso falar das coisas que aconteceram conosco e que nos fizeram chegar até aqui e evoluir: nós sempre optamos pelo produto e pelo nicho de qualidade e não de preço; tivemos capacidade de adaptação para mudar de mercado e de segmento para sobreviver e trabalhamos com muita paixão, que nunca é demais. Estamos vivendo tempos em que as pessoas se reúnem em casa para cozinhar com os amigos, fazer pão, cerveja… tudo em casa. Isso é fantástico. Estamos vendo diversas novas marcas inovadoras, com produtos inovadores nos mais diferentes mercados do mundo da alimentação, nos sucos, nos produtos naturais, no próprio sorvete, nas cervejas, nos chocolates, nas massas… é um novo mercado praticamente.

Qual o futuro do Brasil?
Os empresários são uma parte muito importante do processo para a engrenagem funcionar. Nós devemos ajudar a sociedade dentro do nosso campo de habilidade, acreditar no terceiro setor e cumprir nossa função de empresário pensando no social e em um país melhor para todos.

Serviço:
www.chiappetta.com.br
www.fiumefreddo.com.br

Instagram: gastronomiachiappetta / fiumefreddogelato
E-mail: renato@chiappetta.com.br

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Organizações que precisam inovar: quando a vaca sagrada foi ou está indo para o brejo…

10 de agosto de 2018

Nesta semana, vimos mais uma empresa tradicional, icônica e referência de mercado anunciar a demissão de centenas de funcionários e descontinuar diversos produtos. Isto está longe de ser uma novidade e ela pode se juntar à Kodak, Nokia, Polaroid, Blockbuster, Barnes & Noble e tantas outras.

Para organizações que precisam inovar radicalmente, das muitas opções do início acaba restando apenas uma e a menos óbvia, a princípio: matar a sua vaca sagrada. Pelo menos é o que sugere uma parábola contada em vários países.

Esta é a minha versão: conta-se que certa vez, o mestre e seu discípulo foram recebidos com muita hospitalidade por uma família que vivia em um sítio e que só empobrecia. “Tiramos todo o nosso sustento desta vaca”, explicou o pai apontando para um velho animal. “Seu leite é a nossa fonte de proteína e quando sobra, vendemos o excedente na cidade…”disse.

Assim que a visita terminou e saíram do sítio, o mestre ordenou ao seu discípulo que voltasse, e na calada da noite, levasse a frágil vaca da pobre família para o brejo. “Mas Mestre, além de criarmos uma nova gíria, a vaca irá morrer, pois não terá forças para sair de lá!”, avisou o discípulo. Mas o Mestre estava irredutível. Muito contrariado e triste, o discípulo cumpriu a ordem.

Anos depois, como o peso na consciência não passava, o discípulo voltou para se retratar. Mas ao chegar tomou um susto. Viu uma residência confortável, bons carros na garagem e uma família saudável e feliz. “O que aconteceu?”, perguntou ao mesmo sitiante.

Há alguns anos nossa vaca foi para o brejo e, infelizmente, a perdemos. Sem opções, tivemos que aprender novas habilidades para o nosso sustento e descobrimos que tínhamos oportunidades muito maiores no nosso terreno. Passamos a tirar leite de pedra e isto deu muito certo!”, explicou. “Mais uma nova gíria…”, pensou o discípulo, mas entendeu a lição do seu Mestre.

Esta parábola representa a trajetória de organizações que ousaram aniquilar seus principais produtos antes que o mercado cuidasse, certamente, disso.

A IBM, muito provavelmente, faria parte da lista das empresas apresentadas no início deste artigo se não fosse a coragem, a capacidade visionária e a liderança de Louis Gerstner Jr. No início da década de 1990, a Big Blue definhava tentando vender mainframes e outros computadores de grande porte. Muitos apostavam que a gigante da tecnologia iria quebrar. Foi Gerstner que percebeu que o mercado migrava para compra de serviço e não aquisição de ativo e pivotou o modelo de negócio da organização para esta nova lógica. Recentemente, a IBM pivotou novamente, posicionando-se no mercado de inteligência artificial e outras novas tecnologias disruptivas.

Outra virada histórica, quase do mesmo porte da feita pela IBM, foi conduzida por Antonie Roux ao transformar a Naspers, um grupo que, apesar de ser líder de mercado em mídia tradicional na África do Sul, era pequeno internacionalmente em 2001, em um dos principais grupos internacionais, com valor superior a US$ 100 milhões atualmente, ao apostar no crescimento da importância das mídias digitais em países emergentes, notadamente a China.

Enquanto as empresas tradicionais têm dificuldade em mudar, isto quando são incapazes de eliminar suas vacas sagradas, novas startups que passam a líderes de mercado já nascido na condição de empresas líquidas, que conseguem se reinventar a cada cinco ou dez anos. A Netflix que começou alugando DVDs pelo correio, migrou para streaming e agora criou um sistema integrado de geração de conteúdo baseado em análise de dados, tem conseguido sair mais forte quando decide abandonar sua vaca leiteira anterior. “As empresas dificilmente morrem por moverem-se muito rápido, mas frequentemente desaparecem por serem muito lentas…” – lembra Reed Hasting, fundador da Netflix.

Andy Grove, que foi o grande responsável por inúmeras reinvenções da Intel durante mais de duas décadas, tendo a coragem de matar inúmeras vezes o seu produto anterior com um novo muito melhor, sempre dizia que “companhias ruins são destruídas pelas crises, boas empresas sobrevivem, mas as grandiosas saem muito melhores!

E a Editora Abril sempre foi uma empresa grandiosa para mim!

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

Nem sempre a solução é o Franchising

8 de agosto de 2018

Eu diria que, 80% das consultas que recebo têm por objetivo comprar uma franquia ou montar uma franqueadora, como opção de investimento ou expansão de negócios. A atração pela ideia de Franchising está vinculada à ideia de que franquia soluciona problemas, quase como garantia de sucesso e, na dúvida sobre o que e como fazer, vamos de Franchising.

Coincidência, ou não, no último mês tratei do assunto com sete profissionais, executivos recém desligados das empresas e empresários que, depois de muito pensar, optaram pelo sistema que traz, de forma geral, números mais positivos que o PIB e outras métricas da economia.

Na insegurança da não recolocação, os executivos pensam em empreender, muitas vezes sem nunca ter pensado nisso antes e a compra de uma franquia surge como uma boia salva vidas. E a angústia vem com a quantidade de opções de negócios, com investimentos que vão de R$ 5.000 a milhões de reais, tipos e portes de empresas nos quais eles não se enxergam e não fazem ideia de por onde começar. É quando nos conhecemos.

O processo de análise desses executivos, pessoas com larga experiência profissional, tem que ser profundo, abrangente e, acima de tudo, muito responsável, porque, neste momento, o mais fácil é indicar uma franquia no setor que eles têm maior conhecimento e dentro do valor que têm para investir. #sqn! São estes os futuros franqueados que não dão certo, que se frustram, enlouquecem seus franqueadores e, no mais das vezes, fecham as portas de suas franquias.

A minha forma de ver e conduzir este processo, traz várias técnicas e práticas de mercado mas, conhecer todos os aspectos que envolvem o Sistema de Franchising, os envolvidos, o que pode significar para aquela pessoa à minha frente que está acostumada a ter uma estrutura empresarial, um crachá, o sobrenome corporativo, o ônus e o bônus de estar empregado, ter metas e contas a prestar a um superior, a mudança de ir para um PDV sozinho, abrir a porta e esperar poucos funcionários e alguns clientes chegar, sentindo-se uma ilha no meio de um corredor de shopping center e, mais isolado ainda, em uma rua comercial onde ninguém é de ninguém, não sabem que ele existe, como se chama e ele nem tem mais um crachá com seu nome e foto para fácil identificação.

Seu maior patrimônio é seu network e eles não lembram disso nem como usá-lo profissionalmente. Nestas horas serve só para marcar com os mais próximos, para desabafar.

No nosso trabalho, dos últimos 30 dias, três deles já se resolveram com o conhecimento que têm de mercado e que vai agregar demais em empresas que precisam de profissionais como eles. Um deles entrou empreendendo, outro se recolocou e o terceiro se tornou um credenciado. Nenhum deles precisou usar o capital reservado para investir. O quarto executivo está com duas opções de empresas para trabalhar e a forma de contratá-lo está sendo estudada por todos. Em breve ele vai escolher o que mais lhe agrada e atende suas expectativas e necessidade para viver, confortavelmente.

O que valeu nestes processos foi o olho no olho em nossas conversas, a fragilidade demonstrada e minha “gana” em acertar a melhor proposta, feita sob medida a cada um deles. Somado ao meu network, entender que cada um é único e há oportunidades para todos, que podemos ser o elo de uma corrente, que se abriu e precisa de uma ferramenta para unir novos elos que vão escolher fazer uma nova corrente.

No caso das empresas, os Planejamentos Estratégicos que desenvolvi, mostraram que a estrutura de duas delas, poderia escalar tendo as Franqueadoras como clientes delas e não definindo franquias como canal de vendas ou abertura de negócios. E, ontem, quando fiz a entrega de um dos projetos, o olhar de surpresa e os comentários de alívio, de “como não pensei nisso antes”, me fazem ter, cada vez mais, a certeza da responsabilidade que, nós, consultores de empresas, temos com as pessoas, com suas vidas e isto é muito mais que planilhas, CTR C / CTR V que tanto vejo, promessas mirabolantes, que o amor que tenho pelo que faço, me estimula a elaboração de projetos autorais únicos, de sucesso e clientes se tornam amigos, pra vida inteira. A cada mudança, estamos juntos novamente.

Ah! Não falei do 7º case, ainda não terminei, é uma startup que, do jeito que vinha estava mais para uma ONG, pois há uma preocupação social muito grande, mas precisamos fazer a engrenagem funcionar e faturamento conta nestas horas.

O idealismo não pode abafar a máquina e o capitalismo não pode destruir o ideal daqueles jovens. E, de novo, vamos criar uma franquia…Nada disso, vamos criar uma empresa sustentável e depois, daqui uns dois anos, decidiremos. Se é que eles vão aguentar esperar até lá, se um fundo de investimentos já não tiver comprado a startup. Falar em dois anos hoje, parece que estamos falando em dois séculos.

Vale, então, a reflexão: por melhor estratégia que seja para muitos e eu seja especialista no sistema, nem tudo é Franchising, sempre.

Ana Vecchi é professora e pedagoga pela PUC-São Paulo, com especializações em administração de marketing pela Fundação Getúlio Vargas (SP), planejamento estratégico de marketing pela ESPM e MBA em varejo e franquias FIA/PROVAR. É professora universitária, instrutora e palestrante em associações e universidades. Co-autora do livro A Nova Era do Franchising.

Alta gastronomia com tradição familiar

7 de agosto de 2018

Esta é a história de Silvana e de seu filho Cristiano, duas gerações de empreendedores da alta gastronomia. Eles vêm mostrando a força e a capacidade de manter o empreendimento atualizado num setor extremamente competitivo e difícil.

Há 20 anos, Silvana Borella atendia A&B (alimentos e bebidas) de grandes eventos em São Paulo (F1, Salão do Automóvel), até que um dia encontrou uma antiga fábrica de pães abandonada, no bairro do Brooklin, e teve uma visão muito clara do que queria fazer: um restaurante italiano de alta gastronomia, porém sem as afetações esnobes tão comuns em restaurantes deste nível. Assim nasceu o Vicolo Nostro, que desde o surgimento frequenta todas as listas dos melhores restaurantes de São Paulo, sendo precursor do que agora se chama de “comfort food”, ou seja, ambiente e comida que remetem aos sabores caseiros, das afetividades familiares, do bem-estar.

Cristiano Panizza, de 35 anos, foi criado nesse ambiente e decidiu seguir os passos da matriarca, cursando gastronomia na Anhembi Morumbi. Faz 10 anos que assumiu o comando da cozinha do Vicolo. É ele quem nos conta a história e a trajetória familiar: “trabalhar com a mãe é diferente do que trabalhar com um tio ou com um irmão. Até que acabamos discutindo um pouco, mas sendo mãe, eu respeito, pois é preciso escutar a voz da experiência.”

Como foi crescer no meio da cozinha?
A família já trabalhava com restaurantes há tempos. Eu comecei ainda criança a ajudar uma tia que tinha lanchonetes em colégios. Eu estudava pela manhã e trabalhava no período da tarde desde uns 12 anos de idade. Também acompanhava minha mãe nos eventos. Até hoje eu não curto muito Formula 1, por conta das incontáveis vezes em que tive de acompanhá-la. Ela chegou a tocar 16 eventos ao mesmo tempo. Sempre deu certo, mas a operação deixava qualquer um maluco.

Para o empreendedor da gastronomia, chef de cozinha, os dias e noites são bem diferentes do “normal” das pessoas. Como é isso?
Realmente é muito diferente. Enquanto os outros estão se divertindo, você está trabalhando. Está trabalhando para que os outros se divirtam. É complicado ter vida social. Você acaba recebendo seus amigos no restaurante que acaba meio que virando a sala da sua casa. Recebo todos como se fosse na minha casa mesmo e o pessoal já está acostumado com isso. Os amigos é que vem até nós, não costumamos nos encontrar com eles em outros lugares.

Percebo no Vicolo uma extrema qualidade e atenção aos detalhes, várias camadas de história pessoal, tudo muito verdadeiro…
A decoração é feita com itens de família. De viagens. De amigos que sabem do que gostamos e acabam trazendo algo de mercados de pulgas na Itália ou em outros países da Europa. É construída assim, com pequenos detalhes e cada um tem uma história diferente. A decoração do novo salão é um pouco diferente, com uma pegada meio que rococó, rustica, mineira. Minha mãe é apaixonada por artistas mineiros, principalmente de Bichinho (Tiradentes), onde garimpa diretamente com os artesãos boa parte das obras que enfeitam o restaurante. Uma vez minha mãe voltou da Itália com uma caixa enorme com um casal de marionetes antigos (Othelo e Desdêmona) que percorreu a Europa durante cerca de três décadas com uma companhia teatral. Ela se hospedou em frente a um antiquário, e da janela do quarto se encantou pelas marionetes que estavam na vitrine. Todos os dias tentava negociar, mas o proprietário não queria vender. Até que no dia anterior à sua partida deu um ultimato no dono da loja que acabou vendendo. Assim é nossa decoração.

O novo salão que você mencionou é uma ampliação?
A gente chamou de Sala dos Espelhos, é um espaço para eventos. Duas pessoas não atrapalham 100 pessoas, mas 100 pessoas atrapalham duas. Justamente para poder separar os grupos mais festivos dos casais que querem mais intimidade e silêncio investimos neste salão, que comporta até 150 pessoas, focando principalmente em eventos sociais, tais como mini wedding e batizados, além dos já tradicionais eventos corporativos.

Quais são os planos de futuro do Vicolo? Expansão, filiais?
Por conta da decoração garimpada e histórica, nosso restaurante não é facilmente replicável. Na verdade, ele também não foi criado com esta intenção. Ficaria algo meio que artificial se o fosse. Preferimos algo realmente autêntico, uma casa com este carinho familiar. Temos planos de expansão sim, mas em negócios mais simples e enxutos. Acredito que até o próximo ano montaremos uma panineria-, um lugar mais descontraído para tomar uma taça de vinho, comer uma tábua de frios. Será um espaço anexo ao Vicolo, até mesmo para utilizar a mesma cozinha e estrutura, e claro, tornando-o muito mais fácil para administrar. Também apostamos bastante nos eventos

Se pudesse dar uma dica aos jovens empreendedores que estão chegando na gastronomia, qual seria?
Se optarem pelo curso de gastronomia, recomendo que estagiem desde o primeiro semestre para que vejam se além de gostar da área, se realmente estão dispostos a trabalhar muito. Perder finais de semana e férias. Além, é claro, de estudar bastante. Muita gente acha que é glamoroso, que vai aparecer em revista. Essa imagem é superficial. Em geral esquecem que vai queimar a mão, que vai cozinhar por horas na frente do fogão. A vida é de batalha. Estude bastante, pois você nunca vai saber tudo. Sempre você vai aprender algo novo.

Qual o futuro do Brasil?
A perspectiva talvez não seja boa, mas espero que melhore. Como empreendedor estamos fazendo a nossa parte. Gerando empregos e ajudando a girar a economia. Acredito sim que melhorará. Acho o pessoal da gastronomia ainda muito desunido. Deveríamos nos unir mais para brigar por benefícios para o setor.

Serviço:
Vicolo Nostro
Rua Jataituba, 29 – Brooklin, SP
Contato: (11) 5561-5287
Instagram: @vicolonostro
Facebook: facebook.com/vicolonostroSite
www.vicolonostro.com.br

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)