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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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Leia para seus filhos: livros mudam pessoas. Pessoas mudam o mundo

19 de janeiro de 2018

É com este mantra que Cláudia Kubrusly, Joana Mello e Priscila Seixas empreendem a Editora Voo e a Vooinho (dedicada aos livros infantis) e é também com esta mesma lógica que eu e minha esposa temos incentivado a leitura em nossas duas filhas pequenas de oito e quatro anos.

Assim, nada me deixa mais feliz do que encontrar um livro incrível para ler junto com elas, principalmente quando o assunto tratado tem alguma relação com empreendedorismo, minha área de atuação. E a Editora Vooinho publica dois desses livros eternos que deixarei com minhas filhas.

O primeiro é “O que você faz com uma ideia?” (Editora Vooinho, 2016). O autor, Kobi Yamada, explica que “para as crianças, o livro toca naquilo que são apenas brotos de esperanças, sonhos e medos sobre criar algo novo. Para os adultos, pode lembrá-los das vezes em que eles desistiram de uma ideia ou do momento em que eles transformaram uma ideia em algo significativo.” Só isto já foi o suficiente para comprar dois exemplares para cada filha. Em inglês, quando não havia a versão traduzida, e depois em português. A sequência do mesmo autor foi “O que você faz com um problema?” (Editora Vooinho, 2017). Na estória, quanto mais a criança tenha esconder, ignorar ou fugir do problema, maior ele se torna. Até que um dia ele decide enfrenta-lo, entende-lo e resolvê-lo e tem um dos maiores aprendizados da sua vida. “Para que servem os problemas? Eles nos desafiam, nos moldam, nos empurram e nos ajudam a descobrir quão fortes, corajosos e capazes nós somos de verdade. Mesmo que nem sempre os desejemos, os problemas têm uma maneira de nos mudar de formas inesperadas. Então, o que você vai fazer com um problema?” é a reflexão proposta pelo autor.

Além da Voo, também sou fã do trabalho com livros infantis da Editora Cosac Naif, mesmo que já exista. Fiquei muito triste com o seu fechamento e um pouco mais feliz quando a Editora Cia. Das Letras com o selo Cia. Das Letrinhas começou a reeditar alguns, com destaque para o “A parte que falta” (Cia. Das Letrinhas, 2018). Neste livro escrito por Shel Silverstein, o personagem principal sai um busca da parte que lhe falta, mas no final “talvez perceba que a verdadeira felicidade não está no outro, mas dentro de nós mesmos” – como explica. A felicidade não está em um outro alguém ou alguma coisa, mas em nós mesmos. Descobrir isto mais cedo é celebrar mais a vida.

A Cosac também publicou “Caro Einstein” (Cosac Naif, 2007) e “Diferente como Chanel” (Cosac Naif, 2009). O primeiro narra uma inspiradora história real de uma menina de sete anos que envia uma carta ao Albert Einstein pedindo ajuda para resolver uma exercício da escola da sua irmã mais velha, de 15, que seria crucial para que ela passasse de ano. Einstein demonstra como a criatividade pode ser mais importante do que o conhecimento na resolução dos problemas. Mais do que uma lição de lógica, uma lição para a vida. O segundo livro traz a incrível trajetória de Coco Chanel em uma versão para crianças e explica de forma muito lúdica e inspiradora como é importante sermos o que quisermos ser, mesmo que sejamos “diferentes” dos outros. Mesmo fora de catálogos, os livros podem ser encontrados em sites de livros usados como o Estante Virtual. Mas torço para que sejam reeditados logo!

A Editora Salamandra é outra editora em que compro com muito prazer. É aqui que a escritora Ruth Rocha publica seus livros (vários deles nas estantes nos quartos das minhas filhas). É difícil destacar um livro da Ruth, mas no tema empreendedorismo, eu já decorei a estória de “O coelhinho que não era de Páscoa” (Ed. Salamandra, 2009). O título já diz muito sobre Vivinho, o coelhinho. Mas se não era de Páscoa, o que Vivinho será? Um grande ensinamento para que nossos filhos sigam a carreira profissional que os realizem de fato. A Salamandra também publica o instigante “A revolta dos gizes de cera” (Salamandra, 2013), que trata de forma muito lúdica a questão do trabalho em equipe e da importância das diferenças.

A lista de livros que amamos ler para nossas filhas é, com certeza, muito longa diante das mais de 300 unidades que lotam as estantes do chão ao teto, mas finalizo com um que ainda não foi publicado no Brasil, o “Rosie Revere, Engineer” (Abrams Book, 2013). Neste livro, a tia-avó de Rosie vem visitá-la e conta a única a coisa que não conseguiu fazer: voar. Rose então tem uma ideia e começa a projetar uma máquina voadora. Ao mostrá-la para seus familiares, o objeto de Rose se espatifa no chão, deixando a inconsolada. Para seu espanto, sua tia diz que sua invenção foi um sucesso. “Você fracassa mesmo, quando você desiste!” – explica.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Pausar em tempos de crise

15 de janeiro de 2018


Recebo um e-mail muito bacana e emocionante de José, empreendedor do ramo têxtil, que compartilhou comigo um pouco de sua jornada familiar, ao assumir há 5 anos o negócio que era dos pais. Ele me confidenciou que teve um 2017 difícil, passou por um teste de fé na própria capacidade de liderar a empresa, e que agora está avaliando se continua com o negócio ou vende tudo e volta a ser empregado.

O José (alterei o nome) tem uma decisão difícil pela frente, com a pressão da esposa e dos filhos, dos empregados, e dele mesmo em honrar o negócio da família. Impossível imaginar tudo o que ele está passando, e estou torcendo por ele, qualquer que seja a escolha.

Posso apenas indicar uma sugestão para ajudar o José tomar a melhor decisão: fazer uma pausa.

Pausar pode ser doloroso, mas às vezes é importante dar um tempo, tomar uma certa distância, acalmar, entender melhor o momento, reavaliar as forças, organizar e mensurar os recursos disponíveis, adaptar estratégia, e então decidir – ou não -  avançar novamente.

Seguir em frente, quando se está passando por dificuldades, sem entender os motivos, é extremamente perigoso para um negócio. É como dirigir com os olhos vendados – é questão de tempo até bater em alguma coisa. É claro que me refiro a negócios que estão passando por alguma dificuldade (aos que estão indo bem, parabéns, continuem em frente).

Uma pausa também ajuda a avaliar se precisam ser feitos ajustes no negócio em si, ou seja, se o negócio ainda tem relevância e valor. E não me refiro à tecnologia – essa selvagem em constante transformação. Mesmo mercados tradicionais, como o do José, têm mudado muito nos últimos anos.

Em alguns casos, a situação tem mudado várias vezes ao ano. Setores conservadores do varejo sofreram terremotos, nos últimos anos, que afetaram certezas até agora absolutas. Tudo é liquido no mundo atual: custos, produtos, mercado internacional, e até mesmo clientes que repentinamente mudam hábitos de consumo e desaparecem. Parafraseando alguém: a única certeza é que não dá para ter certeza de nada.

Mas o empreendedor é um bicho difícil de ser convencido a fazer uma pausa, pois tem uma conotação de perda, de derrota, ou de erro. Para o empreendedor é sempre difícil admitir que errou. Mas, em algum momento, o empreendedor inteligente vai perceber os sinais e fazer uma pausa, antes de seguir em frente.

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Cada vez mais, o medo das grandes marcas é serem apenas grandes

12 de janeiro de 2018

Só empresa incompetente ou mal intencionada não consegue oferecer uma solução de qualidade. Há muito tempo que esta característica deixou de ser algo excepcional para se transformar em processo e qualquer iniciativa, desde que o compromisso seja realmente sério, consegue sua certificação em qualidade atualmente.

Mas se no passado “Ser uma Brastemp” era uma vantagem competitiva, hoje, várias de suas concorrentes também são brastemps. Para muitos consumidores, ter um freezer, lava roupas ou secadora da marca “Sou a melhor” ou da sua concorrente “Não tem comparação” já não faz tanta diferença pois ambas são boas. A diferença da cerveja número 1 da número 2 ou 3 é polêmica para muitos, principalmente depois da garrafa número 2 ou 3.

O que está ocorrendo é que as grandes marcas atingiram níveis de qualidade semelhantes e se tornaram ainda mais assim ao copiarem-se insistentemente.  Se não é minuto, é express, se não é original é genuíno, autêntico ou ainda legítimo e o mercado se torna quase que uma competição de cuspe à distância.

Desta forma, alguns líderes executivos da empresas que conseguiram construir grandes marcas consagradas já notaram que seus negócios, diante da semelhança de proposta de valor e modelo de negócio ou de novos hábitos de consumo continuam relevantes mas estão se tornando utilities. No mercado de utilities, o produto ou serviço é sempre imprescindível e dificilmente substituível, mas o cliente não se interessa e até desconhece a marca da empresa que o fornece. O processo de unbranding, em que a marca importa menos (desde de que a qualidade atenda à expectativa), avança em praticamente em todos os segmentos competitivos como bancos, companhias aéreas, serviços de telecomunicações, prestadores de serviços para empresas, alimentos industrializados, bens de consumo e até veículos.

No caso de veículo, muitos, como eu, ainda são fiéis a uma marca quando decidem adquirir um. Mas esta fidelidade deixa de existir quando alugamos um carro e só definimos a categoria. E isto sequer é cogitado quando o automóvel é solicitado por meio de algum aplicativo. Esta constatação incomoda, que incomoda e incomoda muita gente, mas só as pessoas que menos precisam de um carro terão um já que as pessoas que mais o utilizam, se calcularem detalhadamente o custo de aquisição e manutenção deste bem começam a se incomodar ainda muito mais.

Quando o Uber define a sua missão como sendo “transporte tão confiável e disponível como a água da torneira assim que desejarem e para todos” e isto começa a fazer sentido para um número expressivo e crescente de usuários, as grandes montadoras começam a se mexer.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

A nova alma do negócio

11 de janeiro de 2018

Esqueça grandes investimentos em infraestrutura tecnológica, cronogramas de longo prazo e a obrigatoriedade de acertar. Também jogue fora a antiga máxima repetida por nossos avós de que é preciso guardar segredo para ter sucesso nos negócios. Com ela, descarte metodologias processuais ou ideias sobre produtos e serviços de capacidade e alcance limitados. E se tem receio de empreender na crise, repense.

O Brasil sempre foi reconhecido pela aptidão ao empreendedorismo muito pela característica criativa de seu povo e pelo poder de sedução que a possibilidade de ser seu próprio chefe exerce nas pessoas. Ter uma boa ideia, recursos para investir nela e um plano de negócio bem elaborado eram basicamente as condições necessárias para colocar o sonho em prática. Alguma coragem e ousadia davam o empurrão final para quem, por desejo ou necessidade, se lançava no caminho do empreendedorismo.

Tirando as características da personalidade e qualificação, todo o resto já ficou para trás. Vivemos um momento de transformação estimulado por provocações constantes e propósitos. O empreendedorismo digital está aí para nos ensinar sobre um novo jeito de tangibilizar ideias inovadoras, no qual o contexto econômico importa menos do que o potencial de escalabilidade de um produto ou a disposição de seus idealizadores para serem colaborativos.

No passado, a tecnologia era uma barreira de entrada para quem queria empreender, já que os custos para aquisição de servidores, softwares e licenças eram muito altos. Sem a tecnologia, era muito difícil atingir escala, o que limitava o crescimento das empresas. Para resolver essa questão, investia-se cada vez mais dinheiro em grandes estruturas internas, o que tornava a empreitada mais complexa se o ambiente econômico fosse desfavorável. Agora, a acessibilidade é facilitada e, mesmo que se tenha necessidade de máquinas superpotentes para fazer um processamento em inteligência artificial, por exemplo, o preço é customizado já que infraestrutura e serviços estão em nuvem.

É nesse ambiente que as startups se desenvolvem. São empresas que resolvem problemas reais, do mundo real, por meio da criação de uma solução com potencial de escala, usando a tecnologia como meio para atingir o maior número de clientes ao mesmo tempo. Para além do campo idealizador e da utilização de ferramentas tecnológicas para tocar seu projeto, esses empreendedores também se desobrigam de acertar. Eles testam hipóteses e as incrementam ao longo do tempo. Se erram, voltam a experimentar.

O planejamento continua sendo fundamental para negócios bem-sucedidos, mas os prazos encurtaram. A construção se dá ao longo do tempo justamente porque os testes aprimoram continuamente o plano inicial. Desse modo, o resultado de um projeto fica atrelado a um conjunto de sucessivas pequenas implementações que promovem um maior engajamento dos clientes. Como posso me tornar mais simples? Como posso otimizar o tempo do usuário e entregar mais e melhor? São as perguntas frequentes de um profissional cada vez mais dinâmico e realizador.

Mais do que uma simples ideia, os novos empreendedores também têm o desejo genuíno de mudar o patamar das entregas de produtos e serviços para a sociedade. Buscam agregar inovações que realmente ajudem as pessoas e estão plenamente disponíveis em colaborar uns com os outros. Querem contribuir com o ecossistema ao invés de competirem entre si. E fazem dessa mudança de paradigma o trampolim decisivo que ajuda o seu negócio e o restante da cadeia a crescer. Chegam ao ponto de combinarem soluções para produzir um terceiro produto ainda mais eficiente e completo, desprendidos daqueles segredos inconfessáveis que nossos avós acreditavam ser o diferencial para o sucesso.

É por isso que grandes empresas se aproximam desse novo modelo de se fazer e pensar negócios. É um ganha-ganha contínuo em uma quase simbiose entre o tradicional e o novo. Não por acaso, os espaços de coworking ou incubadoras de startups se multiplicam, o que é agregador para todos. Ambientes motivadores trazem inspiração para que haja transformações positivas em processos tradicionais. Alimentam o ecossistema, criam densidade e promovem ainda mais interações, tão necessárias para o desenvolvimento de novas soluções.

E se o contexto econômico é mais difícil, não há impedimento para que haja fluxo, já que a colaboração se sobrepõe à competição e a mentalidade de escassez, independentemente de o ambiente ser ou não de abundância, estimula a criatividade. Nesse sentido, o ideal é pensar soluções digitais do início ao fim do processo, o que certamente reduz os custos e torna desnecessário depender de um exército para fazê-las funcionar. Sendo assim, o valor agregado de novas ideias pode ser medido por sua capacidade de escala, quando uma mesma estrutura de suporte e operação pode multiplicar seu alcance.

Estamos falando de um ecossistema poderoso, de um novo modelo de empreendedorismo em que cada agente da cadeia tem o seu papel. Seja a incubadora, o investidor, a universidade ou quem disponibiliza o ambiente para que as interações aconteçam. Se parte de um ingrediente inesperado na receita ou de uma sacada genial, o que importa hoje é a colaboração, o investimento digital, ideias inovadoras e bons propósitos. Essa é a nova alma dos novos negócios.

Lineu Andrade é diretor de Tecnologia do Itaú Unibanco e responsável pelo Cubo Itaú, maior centro de empreendedorismo da América Latina.

Franquia é padrão, mas não é prisão

9 de janeiro de 2018

Volta e meia os benefícios de uma gestão padronizada, mix de produtos/serviços e área de atuação pré-definidos, fornecedores homologados, sistema informatizado integrado e uma possível intranet que disponibiliza templates para criar conteúdo para as redes sociais, manuais, treinamentos entre outras ferramentas, incluindo a cobrança de um DRE mensal pela equipe da franqueadora para analisar o movimento e rentabilidade da franquia entra em questionamento.

As regras do franchising existem para criar uma percepção de unicidade de uma marca na avaliação do consumidor e não para um empresário, dono de um sistema de gestão de um conceito de negócio sob uma determinada marca, banque o autoritário.

Um franqueador não nasceu para mandar, mas para criar um negócio que tem valor agregado na percepção de seu público-alvo e desenvolver mix, fornecedores, matéria-prima, sistemas, marketing e replicar seu modelo de negócio, através de franquias. Já, os franqueados não nasceram para serem empreendedores submissos! Mas empresários que precisam do padrão definido em todas as esferas do negócio para aprender a gerenciar algo que nunca fizeram ou estudaram antes, para tal.

Se for para cada um fazer o que bem entende, experimentar e assumir todos os riscos da inexperiência e pagar o preço dos erros e acertos até que o negócio dê certo, ou errado e fechar, não precisa ser franquia e pode ser que este empreendedor inovador ou dentro de uma parcela de conhecimento e sorte, venha a se tornar mais um empresário de sucesso e quem sabe, um franqueador no futuro.

Para a contribuição dos franqueados, nos processos decisórios, no que tange flexibilidade de mudança de produtos e/ou serviços, adequação de processos e procedimentos conforme regiões do País há de existir, também, uma maneira de organizar as demandas e aprová-las, pelo bem da própria rede franqueada. Uma delas é o Conselho de Franqueados, outra é a intranet com fóruns de discussões e para que ambas deem certo é fundamental a real participação dos franqueados.

Portanto, há maneiras de flexibilizar, conforme necessidades locais e regionais, o modelo de gestão das redes franqueadas com total participação dos franqueados, redefinindo estratégias de forma inteligente, aumentando competitividade e quem sabe até a rentabilidade. Mas há de ter, ainda assim, regras para esta participação, pois sem padrão não é franquia e sem organização, vira bagunça. Estes são os valores e benefícios do sistema de franchising.

Ana Vecchi é professora e pedagoga pela PUC-São Paulo, com especializações em administração de marketing pela Fundação Getúlio Vargas (SP), planejamento estratégico de marketing pela ESPM e MBA em varejo e franquias FIA/PROVAR. É professora universitária, instrutora e palestrante em associações e universidades. Co-autora do livro A Nova Era do Franchising.

Vem 2018!

8 de janeiro de 2018

 

Todo começo de ano, a esperança de um futuro melhor é renovada. Certamente, quem chegou vivo a 2018 fez por merecer. Parabéns, um brinde, um tapinha nas costas e ganhamos a chance de começar mais um ciclo. Mas é bom ter certeza, colega: nada está garantido! Apenas nasceu mais um dia, começamos mais um ano, e devemos seguir em frente como se nada, estoicos, cumprindo com os deveres assumidos com nossas famílias, equipe, clientes.

Para nós, pequenos empreendedores que batalhamos nas trincheiras do dia a dia do varejo, os últimos anos têm sido duros e de muitas perdas. Perdas materiais e emocionais. Perda de clientes, perda de funcionários qualificados, perda de rentabilidade, perda de anos de trabalho investido. E, para o Brasil, o pior: a perda de milhares de empreendedores que quebraram, demitindo, se endividando por longos anos à frente. E a perda de toda uma nova geração de empreendedores que não conseguiram nem começar – em alguns anos à frente vamos sentir falta deles.

Apesar de todas estas dificuldades, não podemos nos deixar intimidar. Por isso, cada um de nós precisa buscar – onde for – a inspiração para enfrentar estes momentos de incerteza.

E a melhor inspiração, para mim, vem do mar. Talvez seja minha origem Genovese, povo de marinheiros. Empreender sempre me fez imaginar um barco no mar, onde desistir não é uma opção. É preciso manter o foco. Mesmo que a viagem seja cheia de percalços, e demore 20 anos, qual Ulisses em seu caminho a Itaca. Como Colombo, desacreditado, antes de avistar as novas terras americanas. Como Shackleton e sua jornada em salvar todos os marinheiros. Ou Amyr Klink, na travessia solitária a remo. Manter o foco no futuro, nunca esquecendo do sonho que deu início a tudo.

Os marinheiros sempre foram conhecidos por fazerem tatuagens para celebrar feitos heroicos, guardar lembranças das aventuras, ou como amuleto de boa sorte. Uma das tatuagens mais clássicas de marinheiro é o “Homeward Bound”, figura de um veleiro enfrentando as ondas do Cabo Horn – no extremo sul da América do Sul – onde o Atlântico encontra o nada Pacífico. O marinheiro que enfrentava a travessia do Cabo Horn conquistava a honra de fazer a tatuagem do veleiro, pela coragem e sangue frio.

O Cabo Horn é um dos lugares mais perigosos do mundo, com ventos e tempestades constantes, ondas enormes, e inúmeros naufrágios. Mesmo assim, era rota obrigatória do comércio: antes do canal do Panamá, era a única forma de levar mercadorias de barco de Nova York a Los Angeles, ou de Santiago do Chile ao Rio de Janeiro, por exemplo.

Acho que esta virada de ano no Brasil representa o Cabo Horn para todos nós: estamos atravessando a tempestade perfeita. E quem está com o barco no mar, não tem volta atrás. Sangue frio e coragem para enfrentar as ondas, em busca de um porto seguro. Vem 2018! Vamos tatuar você!

Ivan Primo Bornes – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br

O brasileiro que fundou a Tesla, lacrou a marca de US$ 1 bilhão e cria o primeiro unicórnio brasileiro

5 de janeiro de 2018

Foto: Clayton Souza/Estadão – 11/5/2010

Em dezembro do ano passado, o artigo ‘No universo das startups, o Brasil não perde de 7 a 1. Perde de 90 a 0… para a China’ tinha sido escrito já pensando na mudança de placar. E ela veio com a confirmação de que a chinesa Didi comprou o controle acionário da 99, o aplicativo brasileiro de transporte de passageiros com mais de 300 mil taxistas e motoristas particulares cadastrados. Muitos celebraram o valor e o simbolismo que isto representa para o ecossistema brasileiro de empreendedorismo já que o País não tinha uma startup que valesse, de falto, algo sequer próximo a US$ 1 bilhão. Por isso, o marco histórico da 99 será lembrado, mesmo que o nome da empresa deixe de existir nos próximos anos.

# Paulo Veras foi eleito empreendedor do ano pelo ‘PME’ #

Porém, mais do que o valor em si, a trajetória de Paulo Veras, o empreendedor que liderou a 99 deve ser exaltada e mais conhecida pois poucos no Brasil conseguiram surfar tantas oportunidades (tomando uns caldos de vez em quando, é verdade) como ele. Quando conheci o Paulo no final da década de 1990, ele já era um empreendedor muito bem-sucedido surfando a primeira onda da internet. Formado em Engenharia Mecatrônica em 1994 pela Poli-USP, já tinha um comportamento muito comum nos jovens atualmente: queria empreender.

Por isso, assustou seus pais quando confirmou que largaria um ótimo emprego de engenheiro de automação na Asea Brown Boveri (ABB) para criar uma empresa de webdesign chamada Tesla em 1996. Nesta época Elon Musk ainda estava estudando e empreendendo sua primeira startup, a Zip2, um guia de informações de cidades. Enquanto isso, no Brasil, Veras ganhava muito dinheiro produzindo sites, portais, intranets e comércio eletrônico para negócios pioneiros como Mandic, Panrotas e Sé Supermercados. Curiosamente, foi a startup dele que fez a primeira página de internet de um certo João Dória que concorria às eleições em 1996.

Na Tesla, Veras empreendeu algo parecido com a Zip2, o GuiaSP, que se tornou um portal obrigatório para quem morava em São Paulo. Diante do sucesso, ele vendeu as duas empresas. Primeiro a Tesla para o JPMorgan Chase e o GuiaSP para o Starmedia, ambos em 2000. Com tempo e dinheiro, decidiu parar um pouco a rotina de empreendedor e fez um MBA na escola francesa de negócios INSEAD. De volta ao Brasil, foi trabalhar como consultor da Gradus, onde conheceu de perto as operações da AMBEV. Agora não só tinha conhecimento de empreendedorismo, tecnologia e inovação, mas também de estratégia, gestão e formação de pessoas. Tudo isso, atrelado ao fato de ser sempre muito discreto, o tornou o líder ideal para consolidar a Endeavor no Brasil em 2004. Mesmo substituindo Marília Rocca e Makoto Yokoo, a dupla pioneira que brilhantemente trouxe o conceito de empreendedorismo que conhecemos atualmente, foi Veras quem concretizou-o em todo o País, em especial, com o lançamento da Semana Global do Empreendedorismo e do livro ‘Como fazer uma empresa dar certo em um país incerto’.

Mas Veras é maestro em saber abrir e, principalmente, fechar ciclos. Sempre deixou muito claro isto. Tinha combinado permanecer apenas um período à frente da Endeavor e deixou a direção da entidade em 2008 para empreender novamente. Investiu seu próprio dinheiro para empreender em algumas ondas de oportunidades que se formavam naquele momento. A primeira foi a Pixit, uma produtora de vídeos curtos na internet. Criada em 2009, foi adquirida pelo grupo MZ em 2012. Mas os primeiros caldos vieram em seguida. Pensando nas tendências de guias locais como o Yelp e o Foursquare e compras coletivas como Groupon, Veras empreendeu o Guidu, um guia para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro e o Imperdível.com, um site de promoções rápidas. Ambos não deram certo. Mas no meio dos caldos, aparece a maior onda de todas. Em março de 2012, dois jovens também formados em Mecatrônica pela Poli-USP fizeram um convite para que Veras se juntasse ao time de empreendedores.

A dupla já tinha criado a Ebah, uma polêmica, mas muito popular startup que compartilhava conteúdo acadêmico e agora tinham lançado um aplicativo de chamada de táxi. Como eram da área de tecnologia, precisavam de alguém de negócio e principalmente, com competência para escalar o negócio. Depois de alguma hesitação diante do cenário competitivo da época (EasyTaxi, TaxiBeat, WayTaxi, além do Uber que ensaiava entrar no Brasil), Veras entrou de cabeça na onda dos aplicativos de táxi e o resto da história, cujo ciclo se finaliza agora, é conhecida. Esta é a breve trajetória do Veras. Mas o Paulo é um exemplo para todos os que o conhecem pessoalmente. Ele já foi comparado pelo Robert Wong, um dos principais mentores de grandes executivos do Brasil, ao Antônio Ermírio de Moraes, mas como eu só apertei a mão dele uma vez só na vida, só consigo falar do fundador da Tesla.

O Paulo é discreto, humilde e quase tímido. Não fala alto, não cria polêmicas e não se vangloria dos seus inúmeros feitos. Sabe formar grandes equipes. Tem ótima formação e valoriza isto nos times que forma. É metódico, trabalha muito, 10, 12 horas por dia e ainda consegue estar com a família, principalmente com suas filhas. De vez em quando, a saúde dá alguns sustos, por isso valoriza tanto a vida. É transparente e verdadeiro, por isso, muito querido e respeitado. Nestes aspectos, ele não é diferente de várias outras pessoas que se encaixam nesta descrição. Talvez só haja uma diferença: ele acredita no seu potencial! E em oportunidades que podem se transformar em grandes negócios, e quem sabe, algum dia, em unicórnios.

No livro ‘Alice Através do Espelho – E o Que Ela Encontrou Lá’, há uma passagem que ilustra a situação: “Você sabe, eu sempre achei que unicórnios fossem criaturas de contos de fadas? Eu nunca tinha visto um de verdade antes!” – disse Alice para o unicórnio. “Bem, agora que vimos um ao outro” – disse o unicórnio – “se você acreditar em mim, eu acreditarei em você. ” Mas os empreendedores atuais e futuros sabem que empreender no Brasil não é um conto de fadas. Por isso, vale ler o desabafo do Paulo Veras diante de tantas chifradas que recebeu até fechar este ciclo atual.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper