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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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Marido, pai e empreendedor

29 de maio de 2017

Estive refletindo bastante sobre a combinação destas várias responsabilidades do dia a dia: ser empreendedor num negócio pequeno (um trabalho de altíssima demanda de tempo), ser pai de um casal de gêmeos super-ativos de 4 anos, e marido de uma mulher com intensa atividade profissional. Não vou pretender ser um especialista. De fato, o aprendizado e a adaptação são constantes, e a pressão de todos os lados, imensa.

Vou compartilhar o que tenho aprendido, mas com um aviso: não tenho ideia se é bom ou ruim, apenas que é assim que está funcionando para mim, agora. É provável que em alguns anos, eu tenha mudado, aprendido mais e talvez até me arrependido de algumas coisas. Mas no momento, é mais ou menos assim que faço:

Não separar o trabalho e a vida pessoal
Pode parecer contraditório, mas eu acredito que separar as atividades não faz nenhum sentido. Demanda muito mais energia e trabalho cuidar de coisas separadas. Acho que é muito mais fácil integrar tudo. Isso significa que levo trabalho para casa, para trabalhar perto da família, em vez de ficar mais horas no escritório. E também significa que minha família está sempre perto do trabalho. Com minha mulher, sempre fizemos questão de morar muito perto do trabalho (mesmo que o aluguel seja mais caro), e que a escolinha seja perto também. Antes das crianças nascerem, quando eu estava em obras para montar nossa primeira loja, a minha mulher saía do trabalho, já tarde da noite, e vinha me fazer companhia enquanto eu terminava de organizar alguma questão. Quando os gêmeos nasceram, eles se integraram a esse estilo de vida com bastante facilidade e nós nos adaptamos ao novo momento sem perder o pique. Não foi fácil, mas, no final do dia, achamos nossa vida bastante interessante do jeito que é.

Assuma suas paixões
Eu amo minha família, e amo o que faço, amo meu trabalho e a equipe. Não há necessidade de ficar envergonhado por isso. E nunca me faço a pergunta de “quem amo mais”. Não há competição. Eu não comparo. Eu acho que sou uma pessoa melhor e um pai melhor justamente porque sou uma pessoa realizada com meu trabalho. Eu realmente espero que meus filhos tenham uma vida melhor se eles me virem aproveitando bem a minha vida, e a usem de exemplo para perseguir seus próprios sonhos e vontades.

Estar presente
Vou contar um caso real. Um dia eu estava com meus filhos na pracinha numa terça-feira de tarde, e enquanto eles brincavam eu respondia alguns e-mails no celular e fazia um par de ligações com negociações complicadas. Uma moça se aproximou e me recriminou dizendo que deveria estar dando atenção as crianças e deixar o estúpido celular de lado.

Eu pensei: Eu sou o único pai na pracinha nesta tarde linda, e o motivo de eu estar aqui com as crianças, em vez de estar no escritório é porque consigo comandar meu negócio através deste estúpido celular! Além do mais, todas as mães e babás também estão com seus celulares ou conversando sobre algum assunto desinteressante. E as crianças estão se divertindo maravilhosamente bem brincando com outras crianças e não precisam de um adulto atrapalhando. É claro que não falei nada disso que pensei na hora.

O ponto onde quero chegar é que é importante aproveitar de todo momento possível para dar atenção aos filhos, mas sem se sentir culpado de não poder estar presente o tempo todo. Ás vezes o bom mesmo é estar junto, dando risadas, brincar, e poder interromper por 5 minutos e depois voltar à construção do fantástico castelo de travesseiros, com o mesmo interesse. Curtir cada momento com a mesma intensidade. E, de vez em quando, até curtir não fazer nada.

Mostrar na prática o que o pai – ou mãe – faz
Uma das coisas mais importantes que meus filhos recebem como aprendizado e valores é acompanhar o dia a dia, me acompanhar ao trabalho, comer a comida que eu faço. Eles conhecem as lojas, conversam com as pessoas, me perguntam coisas do tipo: “Papai, é você quem fez esse nhoque? Está delicioso”. Vez ou outra, num domingo de manhã, quando vou trabalhar, me desejam bom trabalho.

Expliquei uma vez que papai trabalha porque gosta de trabalhar, assim como eles gostam de brincar (que é oficialmente o “trabalho” deles). Para eles e para mim, a separação de trabalho e lazer não existe. Isso me permite ser mais focado e livre.

Me dou conta que pratico muito do que aprendi com meus pais – eu já contei um pouco sobre eles na História de uma Família. O mundo mudou bastante: a família “tradicional”, em que o “homem” sustentava a casa e a “mulher” cuidava dos filhos, já era algo que meus pais nunca aceitaram, e hoje em dia é arcaico. Da mesma forma, acredito que a divisão entre vida pessoal por um lado e profissional por outro, não apenas é pouco prática, como disfuncional para os tempos atuais.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo escreve no Blog do Empreendedor. ivan.primo@pastificioprimo.com.br

Ei, grande empresa, há uma startup que quer (e vai) torná-la obsoleta

26 de maio de 2017

Por definição, todas as grandes empresas são os blockbusters dos seus setores. E só com este spoiler, você sabe como essa história vai acabar.

Nem todos conhecem o impacto que o filme Apolo 13 teve para a indústria cinematográfica, por isso vale a pena contá-lo. Em 1997, Reed tinha 37 anos e morava em Scotts Valley, uma pequena cidade no estado da Califórnia, quando ficou estarrecido com a multa que teve que pagar para a locadora de vídeos Blockbuster: quarenta dólares só porque tinha se esquecido de devolver a fita VHS do filme Apolo 13, protagonizado por Tom Hanks e que todos que o assistiram só se lembram da sua mítica frase: Houston, we have a problem.

Quarenta dólares era um valor abusivo. Daria para comprar diversas fitas novinhas de Apolo 13, pensou Reed. Eles só faziam isso porque eram a Blockbuster e dominavam o mercado. Não havia outra opção senão pagar o valor ou ficar sem os lançamentos e seus filmes preferidos.

Mas em 1997, uma nova tecnologia de armazenamento de vídeos estava sendo lançada nos Estados Unidos. Era cara, mas trazia uma qualidade jamais vista pelas pessoas em suas residências: o DVD. Reed começou a conversar com seu amigo Marc Randolph sobre a possibilidade de criar um negócio de aluguel de DVD pelo correio em que o cliente poderia ficar muito tempo com o filme ou mesmo tê-lo para sempre caso quisesse ou se esquecesse de devolvê-lo. E, assim, alguns meses depois, em abril de 1998, Reed Hastings e Marc lançaram o Netflix.com, cobrando míseros quatro dólares de aluguel de um DVD que poderia ficar com o cliente durante sete dias. Além de receber em casa, bastava o cliente deixar o DVD no envelope original (que já vinha selado) na caixa de correios da sua residência, que o serviço postal cuidava da devolução. Depois de 48 horas do serviço ter sido lançado, o site travou diante de tantos acessos. E o resto da história do Netflix todos conhecem.

Mas o fato da Blockbuster ter sido responsável pela criação do Netflix não é o mais irônico. Em 2000, Hasting contatou John Antioco, na época CEO da maior rede de locação de fitas de vídeos do mundo, para tentar vender a Netflix por US$ 50 milhões. Naquele ano, a Blockbuster iria alcançar um faturamento recorde de US$ 5 bilhões, o que tornava Antioco um dos mais respeitados executivos do mundo. Antioco declinou a proposta de Hasting alegando que o nicho de mercado que a Neflix atuava era pequeno demais e que a Blockbuster poderia entrar neste mercado no momento que quisesse.

Mas dizer que o mercado do Netflix era insignificante não foi sua frase mais importante naquele ano. “Por qualquer indicador, 2000 foi o melhor ano da Blockbuster. A partir da força do ano 2000, nós estamos confiantes de que continuaremos a gerar um crescimento sólido em 2001 e nos próximos anos liderados pelo sucesso contínuo da nossa rede de lojas físicas”, disse Antioco. Dez anos depois, enfrentando prejuízos em vários anos seguidos, a empresa arrasa-quarteirão estava arrasada, pedindo concordata e finalizando suas atividades em quatro anos. E mesmo nos anos finais, Antioco ainda não entendia a surra que estava levando: “Nós temos tudo que a Netflix tem…”, bradava em 2007.

E agora, o filme Blockbuster é refilmado com diferentes personagens em diferentes setores e indústrias com o mesmo enredo já definido pelo Prof. Clayton Christensen em seu livro Dilema do Inovador publicado, curiosamente, também em 1997. Para Christensen, grandes empresas deixam as grandes inovações passarem porque:

- Ouvem seus clientes! E clientes nunca pedem inovações que nem sabem que poderiam existir.
- Calculam detalhadamente o tamanho do mercado e seu crescimento! E o mercado para inovações é sempre obscuro no início.
- Investem onde o retorno é mais alto! E inovações sempre implicam em grandes riscos e incertezas que impactam negativamente nas estimativas de retorno.
- Dominam grandes mercados! E se a empresa já é líder no seu setor, o que mais ela quer ser?

Por isso, “a maioria das ideias dos empreendedores parecerá maluca, estúpida e inviável financeiralmente… até que eles a transformam em realidade”, diz Reed Hastings. Mas, aí, já pode ser tarde para a blockbuster daquele setor…

Marcelo Nakagawa é professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Brasil, o pais do futuro

22 de maio de 2017

A questão que realmente ocupa meus pensamentos agora é como recuperar o rumo DEPOIS da crise – isso considerando que a crise passe ANTES de quebrar a todos, né? Acredito que vale a pena abrir esta discussão franca e iniciar a troca de ideias convergentes. Não existe, no Brasil, um plano e nem exemplos a serem seguidos, nos indicando o que fazer numa situação assim. Vamos ter que inventar.

Sem dúvida que não é mais questão de empresários ou trabalhadores, isolados, falarem sobre emprego ou economia. Tampouco vejo sentido em seguir diretrizes dos políticos, se eles continuarem separados do resto de nós, apenas pensando no próprio benefício. E acredito que, acima de tudo, não é momento para recriminações.

Seria o momento, agora, de toda a sociedade conversar sobre como encontrar um caminho razoável para todos – sem dúvida com muita austeridade – e com uma visão de curto e médio prazo que seja efetivamente realizável. Fugir das promessas fáceis de esquerdas e direitas será o primeiro grande desafio. O Chapolin Colorado não vai vir nos salvar.

Veja bem, já não somos colônia há um bom tempo. Já estamos integrados num mundo interconectado e livre. Somos bastante esclarecidos – e quando não, temos o GOOGLE pra consultar. Então não podemos mais apelar para a velha desculpa de sermos vítimas ou ignorantes de nossos males. Temos que assumir definitivamente que nossos políticos nos defraudaram, e voltarão a nos defraudar se pensarmos neles pelo que não são: salvadores. Os políticos são apenas a média perfeita de todos nós. Ou seja, se a gente não mudar, nossos políticos não mudarão.

Individualmente eu e você podemos pensar que os erros não são nossos, são dos outros, e todo esse papo que muita gente fala para se sentir melhor. Mas o fato é que, como sociedade, nossa opinião individual é subordinada à grande média. Vamos avançar e prosperar na velocidade que nossa parte mais lenta conseguir. E não vejo muito eficiência em ficar sentado e reclamando disso.

Eu, que acredito basicamente no trabalho, no Estado mínimo, e na maioridade do Brasil, penso que é urgente encarar nossos erros e recomeçar pragmaticamente a partir do que temos em mãos. O que não é pouca coisa, se juntarmos todos os cacos e tudo o que temos espalhado e desperdiçado por aí. Um pouco de boa vontade de todos seria um bom começo.

Mas o que fazer? Talvez buscar inspiração no Japão pós-guerra, na Alemanha pós-guerra. Ou até mesmo na Irlanda e na Espanha pós-crise de 2008. O que os cidadãos desses países, em sua grande maioria, fizeram? Começaram a trabalhar. Em qualquer coisa – pois qualquer coisa é um avanço melhor que nada. E os políticos foram mudando também, foram sendo trocados, acompanhando as motivações da sociedade. Então acho que devemos trabalhar pensando não mais em nós mesmos (pois talvez nossos melhores anos já foram perdidos). Acho que devemos trabalhar para que a geração que virá depois tenha uma chance melhor que a nossa. Será nosso legado. Humilde, simples, pobre. Mas que seja honesto.

Porque de desonestidade estamos fartos.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo escreve no Blog do Empreendedor. ivan.primo@pastificioprimo.com.br

Aliste-se na Quarta Revolução Industrial: empregue-se em uma startup!

19 de maio de 2017

Monty Python. Escrevo para quem conhece ou pelo menos tem uma noção de quem foi esse grupo inglês. O terceiro filme dessa trupe de comediantes, O Sentido da Vida (1983), começa com uma cena que não faz nenhum sentido atualmente: um escritório em que trabalham diversos velhinhos, provavelmente contadores, fazendo cálculos em suas calculadoras de mesa (daquelas em que os números eram impressos em um rolo de papel) e sendo vigiados por um chefe dominador. Os velhinhos se rebelam, prendem seus chefes e os expulsam do prédio centenário, que se transforma em barco que sai do centro histórico de Londres e ruma para um centro financeiro fictício repleto de prédios modernos e envidraçados. O objetivo deles era destruir as empresas modernas, mas em algum momento, o prédio-barco dos velhinhos despenca de um precipício. Fim da história.

Essa era uma crítica ácida do Monty Python às grandes empresas tradicionais que exploravam seus funcionários com trabalhos repetitivos até ficarem velhos. Mas 34 anos depois, os diversos contadores que as empresas tinham foram substituídos por softwares de gestão, não há salas repletas de velhinhos nas organizações e o chefe tenta ser solidários com seus funcionários juniores mimados. Se a cena do Monty Python fosse atualizada, seria algo próximo do episódio Gerente Junior do Porta dos Fundos.

Mas se naquele momento as empresas modernas eram aquelas dos prédios modernos e envidraçados, agora as empresas do futuro são as startups. São elas que estão liderando as disrupções em web, mobile, robótica, automação, computação em nuvem, inteligência artificial, internet das coisas, big data, impressão de 3D. Também são as startups que não estão tendo medo de criar soluções desmaterializadas, desintermediadas, cocriadas, baseadas em reputação e na economia do acesso. Da mesma forma, são as startups que estão reinventando a gestão por meio da adoção de ferramentas e métodos como AARRR, Aceleradora Corporativa, Agile, Analytics, Bootcamp, Bounce Rate, Business Model Canvas, CAC, CDO, Coinovação, Content Marketing, Corporate Venture, Coworking, Customer Development, Daily Meeting, Deck (Pitch Deck), Design Sprint, Design Thinking, Double Diamond, Dynamic Pricing, Empreendedorismo Exponencial, Fab Lab, Full Stack, Funil de Conversão, Growth Hacking, Hackathon, Inbound Marketing, Inovação Aberta, Iteração (não é interação), Job to be Done (Customer Job), Lean Startup,  LTV, Mapa de Empatia, Makerthon, MVP, O2O, OKR, Pivotar, Rapid Prototyping, Scrum, Startup, Teste A/B, UI/UX, Value Proposition Canvas, só para citar algumas.

Nesse contexto, se conhece Monty Python, mas não utiliza quase nenhuma das abordagens citadas no parágrafo acima, olhe a sua volta! Talvez o seu precipício profissional esteja mais próximo do que imagina.

Por isso, considere a oportunidade de trabalhar em uma startup. É muito mais arriscado do que atuar em uma grande empresa, terá que exercer diversas funções e ainda aprender a aplicar diversas novas técnicas sozinho(a), mas fará parte da construção de algo novo e este conhecimento será muito útil em outras organizações.

Talvez não tenha todos os conhecidos exigidos pela startup, mas muito brilhos nos olhos, uma boa atualização dos seus conhecimentos técnicos oferecidos por diversas plataformas de educação, várias inclusive online e gratuitas (Coursera, Udemy, Skillshare, edX, Udacity, AcademyEarth, entre vários) e proatividade profissional para também se comportar como empreendedor são aspectos que aumentam (e muito) as chances para se juntar às pessoas que estão construindo, literalmente, os negócios do futuro.

Quer conhecer centenas de vagas abertas em startups? Visite o site https://cubo.network/jobs.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Temer e os empregos

15 de maio de 2017

Um ano atrás, em maio de 2016, o então vice-presidente Michel Temer – já se preparando para assumir a chefia do executivo – manifestava o objetivo de criar empregos como parte fundamental de sua política econômica para retomar o crescimento e combater a crise. A chamativa manchete do Estadão foi “Temer quer fechar 2016 criando empregos”.Como nada de bom aconteceu de fato em 2016, fiquei preocupado quando li, na semana passada, nova matéria do Estadão em que o presidente Temer afirma que o seu principal objetivo de governo é “combater o desemprego” em 2017, e ainda complementa: “o sucesso do governo dependerá da criação de vagas”. Se a promessa for cumprida como em 2016, estamos realmente lascados.

Não sei o que está sendo feito pelo governo, mas é óbvio que não está funcionando. Lamentavelmente, o que vimos até agora foi uma tragédia. Os números do desemprego estão aí para provar que nada deu certo nesse sentido. Tomara que a equipe econômica esteja matutando um plano maravilhoso para nos salvar – e tomara que seja rápido!

Eu, que não sou economista, quero indicar um caminho que é comprovadamente eficaz, rápido e relativamente simples: apoiar a pequena empresa.

Em dados de outubro de 2016, a pequena empresa bancava mais de 50% dos empregos formais e 27% do PIB brasileiro. Me parece óbvio que dar suporte a esse segmento importante da economia é uma excelente estratégia para começar a combater qualquer crise e desemprego.

Porém, em vez de apoiar os pequenos, o que vimos foram cortes e congelamentos no crédito de baixo custo, aumentos generalizados de custos de matérias-primas, energia elétrica, água, combustíveis, índices de reajustes de aluguéis, e tudo o que compõe a base de custos de qualquer pequena empresa.

E, ao mesmo tempo, no último ano – e com grande desgosto de todos os que pagamos duramente os impostos – acompanhamos pelos jornais que as grandes empresas tiveram, nos últimos 15 anos, luxos e benefícios, isenções e carências, renúncias fiscais e mil mordomias que nenhuma pequena empresa jamais sonhou nem chegou perto. Valores que foram pelo ralo com corrupção, concorrência desleal e outras questões dúbias que ainda não sabemos, mas desconfiamos que existam. De novo, insisto: em vez de ajudar duas ou três empresas grandes, que quando quebram levam para o buraco a economia de um país inteiro, a aposta deveria ser fortalecer a rede pulverizada de pequenos empreendedores.

Estas preocupações que tenho em defesa do pequeno empreendedor e da pequena empresa, não são coisa nova, e já foram abordadas em postagens anteriores: regime tributáriolei trabalhista, fuga de empreendedores, combate a corrupção. Mesmo porque o empreendedorismo não é só, comprovadamente, um dos principais caminhos para criar vagas de emprego. Ele também pode ser um auto emprego – pra esse exército de desempregados que as políticas econômicas dos últimos anos colocaram nas ruas.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo escreve no Blog do Empreendedor. ivan.primo@pastificioprimo.com.br

 

A startup que poucos conhecem deve ser a maior empresa do mundo

12 de maio de 2017

Para quem não a conhece, algumas informações impressionam.

1. Ela tem o mesmo valor de mercado do Airbnb, Dropbox, GoPro, Netflix, Palantir, Pinterest, Snapchat, SpaceX, Spotify, Tesla, Uber… somados!
2. Para atender seus quase 40 mil funcionários, construiu uma linha de trem exclusiva!
3. Sua aplicativo de pagamento online tem mais de 600 milhões de usuários, tornando a maior do mundo, passando o Paypal. Só como comparação, o Banco Itaú tem 2 milhões de usuários do seu aplicativo!
4. Sua plataforma de games faturou US$ 12,5 bilhões no ano passado, posicionando-a na primeira posição mundial. É quase três vezes maior do que a Nintendo!
5. Ainda na sua atuação em jogos, essa empresa é dona do League of Legends, Clash of Clans e Clash Royale que, juntas, atraem mais de 200 milhões de usuários diariamente!
6. Está investindo US$ 599 milhões na sua nova sede que ficará pronta neste ano. Este é o valor aproximado das vendas anuais da Totvs em 2015!
7. Comprou 5% da Tesla Motors, a fabricante de carros elétricos de Elon Musk por US$ 1,8 bilhão. Mas já havia liderado o investimento de US$ 8,6 bilhões na aquisição da Supercell, o fabricante dos games Clash of Clans e Clash Royale!
8. Didi Chuxing, seu aplicativo de transporte, realiza cerca de 20 milhões de corridas diariamente e tem mais de 400 milhões usuários, conseguindo, inclusive, inviabilizar a operação do Uber no seu país. O Didi é cerca de 10 vezes maior do que o Uber.
9. Essa empresa se tornou a nona mais valiosa do mundo neste ano. Na frente dela, apenas Apple, Google (Alphabet), Microsoft, Amazon, Johnson & Johnson, Exxon Mobil, Berkshire Hathaway e J.P. Morgan. E muitos analistas apontam que, pelos investimentos que está fazendo, será a maior do mundo em até dez anos!
10. E tudo começou com a ideia de criar um negócio para ganhar dez centavos de cada… chinês.

Estas são algumas conquistas da desconhecida Tencent, fundada pelo discretíssimo empreendedor chinês Ma Huateng. Com uma fortuna avaliada em US$ 29,7 bilhões, é a terceira pessoa mais rica da China e a 31ª do mundo.

Não só pelo que já conquistou, mas principalmente, para onde a Tencent está indo, é preciso que mais pessoas conheçam Pony Ma, como é chamado, o jeito chinês de empreender e prestar (muito) mais atenção do que vem de Shenzhen do que do Vale do Silício.

Curiosamente, muitos empreendedores chineses começaram de forma humilde, mas trabalhando muito. Jack Ma, fundador do Alibaba (valor de mercado de US$ 300 bilhões) começou a carreira como professor de inglês. Pony Ma chegou a trabalhar como zelador de prédio e, junto com seus amigos de faculdade, começou a pensar em ideias que poderiam copiar e trazer para a China. Como sabiam programar, fundaram em 1998 a Tencent com o objetivo de criar um negócio qualquer que pudesse ganhar dez centavos de cada chinês. Se conseguissem essa proeza, ficariam milionários – pensavam. Como na época o serviço de mensagens instantâneas ICQ estava fazendo muito sucesso, lançaram uma versão em chinês com o nada criativo nome de OICQ (Open ICQ). O clone deu muito certo, mas os jovens foram processados pelo ICQ e mudaram o nome para QQ.com. Atualmente o QQ tem mais de 900 milhões de usuários.

Em uma das suas raríssimas entrevistas, Ma resumiu o jeito chinês de empreender: “Ideias não são importantes na China – mas a execução é!”.

Muitos criticam essa visão de mundo, inclusive os problemas de assédio ou excesso de trabalho, mas esses muitos temem e sabem qual é o seu real impacto do avanço das startups chinesas nos seus negócios. Também por isso, os chineses trabalham pesado e de forma silenciosa. Não há muito espaço para diversão nas empresas. As pessoas estão lá para trabalhar e entregar o resultado esperado delas. E como há muitas pessoas querendo (e precisando) trabalhar na China, o resultado é quase sempre um exército gigantesco de qualquer tipo de profissional (engenheiros, desenvolvedores de software, operários…) que conseguem executar as ideias, sejam elas de quem for. E de todos os lugares do mundo para isto ocorrer, Shenzhen lidera a lista. Por isso, enquanto muitos sonham em criar o seu Vale do Silício, o Vale sonha em ser mais Shenzhen.

E, mesmo assim, muitos ainda desconhecem a Tencent ou mesmo o que está acontecendo na sua área de negócios na China. Estão dormindo enquanto há um chinês (ou um bilhão deles) trabalhando muito.

Para quem quiser saber mais: Documentário Shenzhen: The Silicon Valley of Hardware

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper e trabalhou na Naspers, um dos primeiros investidores da Tencent.

Quer empreender? Aprenda com sua mãe

10 de maio de 2017

O Dia das Mães se aproxima e, além de ser muito esperada pelo varejo, essa data invariavelmente nos faz lembrar de maneira especial da nossa própria mãe. Todo mundo tem uma mãe e, independentemente da relação que mantemos com elas, não dá para negar que se estamos aqui é porque… elas foram empreendedoras. Isso mesmo! Muitas vezes as nuances próprias da relação entre mãe e filho ofuscam essa característica da figura materna, mas se a analisarmos de maneira mais racional fica claro que toda mãe é uma empreendedora.

Mas, então, como aproveitar para aprender com elas aquilo que podemos aplicar também nos negócios? Vou destacar alguns aspectos aqui e te convido a relacioná-los com suas lembranças maternas, ou mesmo observando sua mãe nos dia de hoje – se você for um sortudo de ainda tê-la por perto.

A resiliência é uma das características facilmente percebidas nas mães. A espera pelo nascimento do bebê, o parto, a amamentação, as noites sem dormir… Você certamente não se lembra, mas sua mãe foi bastante resiliente para enfrentar isso tudo. Para um empreendedor, essa também é uma característica muito importante. Não dá para imaginar que você vai deixar um trabalho fixo, com carteira assinada, para empreender e que sua vida continuará sendo a mesma. Você certamente terá que abdicar de algumas coisas em prol de estar na sua empresa e fazê-la crescer.

Ainda pensando em nossas mães, elas também são campeãs na arte de persistir. E nisso muitos pais também são especialistas. Educar exige persistência, afinal aprendemos pela repetição. Do lado do empreendedor, se ele não persistir não chegará a lugar algum, ainda mais em um mercado cada vez mais global e competitivo.

Você está reconhecendo essas características na sua mãe? Pois é, e tem muitas outras: coragem, criatividade, capacidade de improviso e otimismo. Claro que nenhuma mãe, e nem um pai, é assim o tempo todo, afinal, somos humanos. O mesmo acontece com o empreendedor. Não dá para esperar dele otimismo, criatividade, e coragem em 100% do tempo, mas há momentos em que essas características são essenciais para manter um negócio e fazê-lo crescer. Por isso, vale a pena procurar desenvolvê-las. Não é a toa que muitas mães se dão muito bem quando decidem empreender também em suas vidas profissionais. A maternidade já as preparou para várias das situações que têm que enfrentar no dia a dia à frente das empresas. Por isso, nesse Dia das Mães, aproveite para conhecer um pouco mais do lado empreendedor da sua; você vai se surpreender!

Stelleo Tolda é COO (Chief Operating Officer) e co-fundador do Mercado Livre.

O último empreendedor que sair do Brasil, apague a luz

8 de maio de 2017

Casualmente, ouvi isso de duas pessoas diferentes na semana passada. Me fez pensar em quantos não estão avaliando uma saída pelo aeroporto.

Caso um: depois de vários anos batalhando para manter seu negócio de serviços esportivos flutuando, sempre esperando a crise passar, ele decidiu no final do ano passado tomar a decisão de demitir todos e fechar. Agora, trabalha como autônomo, basicamente vivendo de pequenos serviços sob demanda.

Antes dava emprego para 10 pessoas; agora ele é mais um desempregado na estatística. A renda atual não está pagando as contas, então está usando as reservas de poupança.

Caso dois: também pequeno empresário, o negócio não vai mal, pois faz um esforço e sacrifício pessoais para manter o fluxo de caixa no positivo. Mas está passando por momentos de dúvidas e desanimo, mesmo sendo um otimista nato, um batalhador, mas que ao final do mês não sente avanço, apesar de todo o esforço. E ainda por cima está com 3 ações trabalhistas que, se estiverem na estatística, não têm motivo justo a não ser forçar um acordo.

Ambos empreendedores citados acima, dos quais preservo os nomes, estão querendo migrar para começar de novo em outro país. São pessoas com experiência, bons administradores, calejados, com bons produtos e serviços, bons empregadores. Se prepararam por anos para fazerem um negócio saudável, pagam os impostos, pagam todos os encargos, fazem a sua parte. Mas estão chegando no limite.

Uma pena, pois o valor que o Brasil perde quando essas pessoas vão embora, levar seus talentos para outro lugar, é inestimável. E se o Brasil não começar a preservar os empreendedores, vai perder o futuro que eles constroem com seus sonhos e com seu trabalho.

Hoje,  temos um recorde de 13,5 milhões de desempregados. Quando o Brasil estava no auge, em 2013, gerou 1,5 milhões de empregos. Isso significa que, mesmo que o País volte a bombar AGORA, ainda vamos precisar de 9 anos para recuperar o tempo perdido e recontratar toda essa gente.

Faça as contas. Precisamos que os empreendedores fiquem.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo – escreve no Blog do Empreendedor. ivan.primo@pastificioprimo.com.br

Empreendedores do bem: não façam mal a si mesmos!

5 de maio de 2017

Eu realmente acredito, defendo e, na medida do possível, pratico o lema da Artemísia Negócios Sociais: Entre ganhar dinheiro e mudar o mundo, fique com os dois! Há muitos anos, a entidade vem apoiando, de forma pioneira, um tipo de empreendedorismo que ganha força entre as pessoas atendem ao chamado de Mahatma Gandhi: Seja a mudança que você quer ver no mundo.

São pessoas que se incomodam com as desigualdades, preconceitos, ineficiências, malefícios ou outro efeito negativo para o mundo em que vivemos, reagem e criam negócios para resolver, ou pelo menos minimizar, o impacto desses problemas. Mas o resultado final, quase sempre, é um retumbante fracasso, pois esses empreendedores, involuntariamente, desenvolvem seus próprios males, que serão os causadores desse triste destino.

O primeiro mal é o da abdicação. Isso é identificado quando o idealismo inicial do(a) empreendedor(a) começa a ser questionado pelo(a) próprio(a) quando ele(a) se dá conta de que o conceito mais elementar de qualquer negócio não é o propósito pessoal ou a missão do negócio, mas fluxo líquido de caixa da empresa. É neste momento que descobrem que o Powerpoint era uma teoria utópica e o Excel é a mais dura realidade. E que a Pirâmide das Necessidades de Maslow funciona para pessoas físicas e… jurídicas, já que a necessidade mais básica é a fisiológica do fluxo líquido de caixa positivo para a empresa e… para o empreendedor. Sem isso, as outras necessidades não se caracterizam. E lembra daquela necessidade de mudar o mundo? Pois é, está lá no topo, no ponto mais alto da pirâmide. E isso só é descoberto depois, com uma felicidade que, paradoxalmente, gera um pouco de tristeza. Por que isso ocorre? A quase totalidade dos empreendedores do bem admira e muitos se inspiram no trabalho e negócios do economista Muhammad Yunus. Por este motivo, começam a empreender seguindo o seu lema: Ganhar dinheiro é uma felicidade. Mas fazer outras pessoas felizes é uma felicidade maior ainda. E invariavelmente, estes empreendedores conseguem fazer outras pessoas felizes e assim, também se sentem muito felizes… Até analisar o fluxo (negativo) de caixa da sua empresa naquele mês.

Nesse contexto, entre ganhar dinheiro e mudar o mundo, ganhar dinheiro vem na frente em função de uma inevitável questão de matemática (financeira). Não adianta inverter a Pirâmide de Maslow…  Ela cairá com o peso das contas da empresa e dos empreendedores. Idealismo não paga a conta da farmácia quando precisar comprar medicamentos para um simples resfriado. Tampouco aquela reportagem em que foi destaque ou prêmio de empreendedorismo que ganhou pagará seus débitos. Por isso, ganhe dinheiro e não se sinta mal por isso. Poderia até cobrar menos e impactar mais pessoas? Talvez sim. Mas quanto dessa visão não mina, criando armadilhas para você e o seu negócio? Neste momento, analise a visão de Yvon Chouinard, fundador da Patagonia, uma das empresas que, quase sempre, se posiciona entre as mais sustentáveis, admiradas e melhores para se trabalhar no mundo:  Negócios precisam de lucros para sobreviver. Mas quanto menos lucro tiver, menos terá para distribuir e menor será o número de empresas que acreditarão que tem uma missão que vale ser replicada.

O segundo mal é o do estrabismo estratégico, já que outra frustração dos empreendedores do bem é sobre o crescimento da sua empresa, ou em suas palavras, todo mundo gosta mas ninguém quer comprar ou como é difícil vender… Mais uma vez esse tipo de empreendedor sofre pois percebe que está fazendo o bem para as pessoas mas quase ninguém se importa com isso (pelo menos do ponto de vista comercial). É difícil aceitar ou mesmo até entender, mas os empreendedores do bem, quase sempre, resolvem um “não-problema” dos clientes. Há empreendedores que resolvem o problema da geração de renda para população mais pobre, problemas de preconceitos de gênero, idade, raça, destinação de lixo e resíduos, violência em determinada região, educação de crianças carentes, entre diversos problemas sérios do mundo. Se por um lado, são problemas “da sociedade”, por outro, não são de ninguém em específico. Desta forma, não espere que o cliente compre da sua empresa “apenas” porque você está ajudando o mundo a ser melhor. Os mais atentos já perceberam que precisam ter um olho no problema do mundo e outro na necessidade do cliente. E os mais visionários entendem este mal e já o superaram. Novamente, Yvon Chouinard é muito tranquilo e esclarecido a este respeito: Só 10% das pessoas compram pelas nossas atitudes. Os outros 90% compram porque gostam da cor, do estilo. Se você esperar que o cliente vá pedir para sua empresa ser mais sustentável, espere sentado.

O terceiro mal é o do ativismo depressivo agressivo. Não raro, o empreendedor do bem começa a subir o tom e ampliar o leque das suas críticas a respeito das causas em que acredita. Se defende os “pobres”, começa a atacar os “ricos”. Também podem começar a se isolar ou a interagir apenas com outros que pensam da mesma forma. Isso não apenas o(a) afasta de amigos e conhecidos mas, principalmente, de potenciais clientes e parceiros.

E se tudo isto não bastasse, ainda há o mais tóxico de todos os males que o empreendedor do bem pode criar para si próprio: recusar-se ou sentir-se incapacitado em ser gestor, executivo do seu negócio. É nesse momento que muitos desistem. Fazer o bem para os outros pode fazer muito mal a si próprio. E é justamente nesta situação que o apoio da Artemísia se torna ainda mais importante. Assim, entre a Artemísia, ganhar dinheiro e mudar o mundo, fique com os três!

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.

A importância de homenagear o 1º de maio

1 de maio de 2017

Tenho a sorte de escrever neste dia 1 de maio, que celebra o dia internacional do trabalhador. É uma data carregada de simbolismo, de valores cívicos e sociais. Acredito que muitas pessoas desconhecem a origem desta celebração, e pensam apenas em curtir o feriado – nada contra. Atrevido que sou, vou contar o meu ponto de vista de como esta data aconteceu.

Se pensarmos no princípio de que o trabalho é inseparável da história da humanidade, somos de fato todos trabalhadores. Ou seja, sempre trabalhamos, cultivamos, caçamos, pescamos, talhamos, construímos e usamos nosso tempo em todo tipo de atividades para buscar sustento e bem-estar (muitas vezes guerreamos e matamos também, mas essa é outra história).

O fato é que o mundo vem se transformando, nos últimos 500 anos, de forma super rápida e com uma combinação inédita de fatores que afetaram todas as relações humanas – e também o conceito de trabalho. Acho que tudo começou a acelerar depois do Renascimento, graças aos avanços científicos que ousaram contestar a teologia, determinar que a terra era redonda (e navegar), a impressão de livros, a mecanização, o avanço do comércio e serviços com as novas cidades, e o sistema financeiro que começou a dar sustentação a estas novas demandas de soluções “globais”.

Ainda não havia separação de trabalho e descanso, tampouco havia o entendimento de jornada de trabalho. A média de vida da plebe, na Europa, era de 35 anos – não dava tempo pra muita coisa. Crianças e mulheres também trabalhavam. Não havia o entendimento de proteger a infância, e as crianças morriam tanto que em alguns lugares era habito somente batizar crianças após os 9 anos. Qualquer coisa manufaturada (roupas, panelas, pão, sapatos, ferramentas) ainda era muito difícil e caro (pré era industrial). Se precisava de roupas, tinha que fazer. Se precisava de comida, tinha que cozinhar. As pessoas simplesmente trabalhavam todos os dias, não havia sábado nem domingo, seguindo os mesmos hábitos do trabalho no campo e lavoura.

Algum tempo depois, a Revolução Francesa chegou e, pela primeira vez, começamos a contestar seriamente se uma pessoa, por nascer nobre, tinha mais direitos do que quem não nascia nobre. O mundo nunca mais foi o mesmo depois disso.

Dois documentos dessa época são muito importantes para nossa história: a Constituição dos recém independentes Estados Unidos e, na França, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Ambos documentos abordam, organizam e gravam em lei e intenções, pela primeira vez, os valores humanos universais, a liberdade individual, e a igualdade entre todos sem distinção de raça e credo. Mesmo que na época isso fosse muito avançado, demoramos mais 100 anos para libertar os escravos, e mais uns anos para o sufrágio feminino. Mas seja como for, assim a civilização vai, aos trancos e barrancos.

A chamada revolução industrial apareceu depois, e muitos trabalhadores – agora operários – foram se deslocando do campo paras as cidades para trabalhar nas grandes fábricas (aqui em São Paulo tivemos os Matarazzo representando esse momento histórico) onde a remuneração era melhor do que no campo, e o pagamento era diário (não precisava esperar o fim das colheitas para receber). Mais uma vez, a combinação de elementos aleatórios (fome na Europa, guerras) movimenta enormidade de imigrantes para as grandes cidades de novos países.

Ao mesmo tempo, o trabalho começou a ser motivo de interesse de filósofos que tentavam encontrar uma explicação para a nova relação entre capital e trabalho. As filosofias evoluíram para correntes politicas (sim, agora temos partidos políticos e eleições em alguns países) e assim surge o socialismo e o sindicalismo como ponto de organização dos trabalhadores operários.

No dia 1 de maio de 1886 aconteceu na cidade de Chicago, nos Estados Unidos, uma enorme manifestação de trabalhadores pedido uma jornada de trabalho de 8 horas (antes era de 16 horas). Também aconteceu uma greve geral. Combates entre polícia e manifestantes causaram várias mortes de lado a lado. Alguns anos depois, em Paris, também aconteceu uma greve geral, e foi escolhido o 1 de maio, em lembrança e homenagem aos trabalhadores de Chicago.

Aqui no Brasil, em 1917 aconteceu a primeira greve geral. O dia 1 de maio foi declarado feriado em 1925.

Dia 23 de abril de 1919, na França, foi finalmente determinada a jornada de 8 horas por dia, fazendo a divisão definitiva entre trabalho e descanso, que representa um novo entendimento, presente até hoje, em como lidamos e vivemos no mundo. Alguns maldosos dizem que usamos o nosso tempo livre para consumir mais e assim circular dinheiro, girar mais a economia. Mas de fato, a distribuição de bens de consumo e serviços no mundo passa a ser cada vez maior (e mais baratos), e número cada vez maior de pessoas começaram a ter tempo disponível para o ócio – outro conceito novo.

Hoje estamos vivendo num mundo ainda desigual, ainda com guerras, ainda com deuses servindo de ópio e nos desviando da realização pessoal. Mas, por outro lado, o mundo nunca esteve tão interligado e cheio de oportunidades para quem tem uma ideia a realizar. Ainda não sabemos como serão as relações de trabalho do futuro, mas é provável que continuem mudando. Me parece que estamos em outro salto de velocidade, e aquilo que era uma verdade absoluta para nossos pais, hoje não sabemos ao certo se serve de alguma coisa.Ainda estamos longe de muitas coisas que precisamos alcançar, como humanidade, mas sem dúvida que estamos mais perto do que há 500 anos. Que esta data sempre nos faça refletir e homenagear a todos os que sofreram e lutaram para nos fazer chegar até aqui.

Ivan Primo Bornes – fundador do Pastifício Primo: ivan.primo@pastificioprimo.com.br