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Blog do Empreendedor
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A China se prepara para liderar o empreendedorismo no mundo

30 de janeiro de 2017

Desde a reforma que a abriu ao mundo, há 30 anos, a China não para de surpreender. Em setembro de 2014 o Premier Li Kequiang falou na abertura do Summer Davos (Davos de Verão) e, no seu discurso, ele mencionou pela primeira vez o conceito de “Empreendedorismo de Massa”. E este pessoal não brincou em serviço. Em apenas 2 anos, e apesar da crise mundial, o Empreendedorismo de Massa chinês se transformou de tendência, em uma força econômica que está mobilizando a desburocratização da administração pública, passando pela eficiência do sistema de financiamento de pequenos empreendedores, e chegando na logística e infraestrutura.

Verdade seja dita, a China tem muitas questões, no mínimo, polêmicas  - e assustadoras – para a maioria de nós, que prezamos o livre arbítrio. Mas, aspectos políticos à parte, é inspirador como, em pouquíssimo tempo, a China foi hábil em reconhecer que o Empreendedorismo de Massa acelera o emprego, gera riqueza e suaviza pressões financeiras. E graças a isso, se tornou a segunda maior potência econômica mundial.

Apenas em 2016 este setor criou mais de 10 milhões de empregos urbanos, ajudando a manter a média de desemprego abaixo de 5%. Além disso, as patentes cresceram 44% (apenas em 2016!!!) indicando um momento de intensa inovação no país.
E mais: estão se preparando para uma nova escalada de crescimento. No final de 2016 foram divulgadas novas políticas públicas com objetivo de dar suporte a esta nova onda de empreendedorismo que estão fomentando.

- Isenções de tributos a empresas que criem novas tecnologias ou novos produtos, com objetivo de estimular desenvolvimento e pesquisa. Isso inclui custos de produção de novos equipamentos e até mesmo custos de horas extras usadas na pesquisa, que passam a contar com suporte oficial do governo.

- O Ministério de Ciência e Tecnologia publicou novas regras para eliminar barreiras na compra e venda de tecnologia. Até o ano de 2015, qualquer transação de tecnologia acima de USD 765 mil precisava de autorização de 2 ministérios diferentes.

- O turbinamento de empreendedorismo não é apenas para tecnologia. O varejo e setores off-line também receberam enormes investimentos em estrutura, logística e apoio ao emprego.

- Em todo o pais a implementação de internet para que empreendedores estejam conectados com o mundo.
Quem dera que aqui tivéssemos um pouquinho desta visão – e deste apoio. Em vez disso, o Brasil tem optado por dar estímulo (tributário e financeiro) aos grandes grupos econômicos, e relegando a segundo plano os pequenos empreendedores, que somos responsáveis por 44% dos empregos do Brasil.

Poderíamos gerar muito mais empregos e riqueza se tivéssemos um pouco da filosofia econômica da China e sua sabedoria em reconhecer que é o pequeno que faz um país grande.

A propósito do Ano Novo chinês que começou no último dia 28 de janeiro.(Feliz Ano Novo!) Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) escreve toda semana. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

Celebre seus fracassos! É a melhor forma de vencer a si mesmo

27 de janeiro de 2017

Phil Knight lutou 18 anos para não fechar a Nike

Este é um bom momento para você escrever um currículo só com seus fracassos! Não aprendemos isto na faculdade, a não ser que tenha sido aluno da Professora Tina Seelig da Universidade de Stanford. Ela, comumente, começa suas aulas falando de fracasso.

Celebrar fracassos aumenta nossas chances de conseguir um novo emprego ou construir um negócio melhor. Todo headhunter vai questioná-lo(a) a respeito dos seus fracassos. Ele ou ela não quer que você se humilhe, mas que mostre a sabedoria desenvolvida a partir destes eventos.  Se você tem ou pretende abrir um negócio, o fracasso é algo mais presente na trajetória de todos os empreendedores do que o sucesso. Mas alguns sabem lidar com isto, outros não. Thomas Edison costumava dizer que nunca tinha fracassado na vida. “Eu só encontrei 10 mil alternativas que não funcionaram” – dizia. Edison era tão obcecado em criar, testar, descartar ou produzir uma invenção que costumava dormir no laboratório. Com isto, fundou a GE, uma empresa que hoje fatura US$ 150 bilhões e provocaria o caos na Terra se deixasse de existir.

Thomas Edison tinha um grande amigo que também foi muito bom em fracassos. Sua primeira empresa, a Detroit Automobile Company faliu depois de 3 anos de aberta. Não satisfeito, colocou seu nome na próxima empresa e a chamou de Henry Ford Company. Esta fracassou ainda mais rapidamente. Em menos de dois anos já tinha falido. E seguindo a lógica do provérbio japonês, se cair duas vezes, levante três, no ano seguinte, fundou a Ford Motor Company. Se você acha que o resto é história, lembre-se que foi o modelo T que fez de Ford uma lenda. Mas o modelo T não foi seu primeiro modelo. Se o T não foi o primeiro, qual letra você imaginaria que Ford escolheu para seu primeiro veículo nesta fase? Pois é, com seu primeiro modelo A, Henry Ford vendeu 1.750 carros. Seu modelo seguinte, o B, vendeu 500 unidades.  Não satisfeito, Ford lançou o Ford C e vendeu 800 veículos. O alfabeto evoluiu de 1903 (A) até 1908, ano de lançamento do Ford T, que se tornou lendário com seus 15 milhões de unidades produzidas. Fracasso é somente uma oportunidade para começar novamente de forma mais inteligente – acreditava Henry Ford.

Poucos anos depois, quando Edison e Ford já estavam consolidados como exemplos de empreendedores de sucesso, outro empreendedor também passou a celebrar o fracasso. Ao assumir o comando da empresa que viria a ser a IBM, Thomas Watson espalhou diversos cartazes na empresa. Um deles dizia: “Perdoamos fracassos que tragam aprendizados”. Quando também se tornou um empreendedor de sucesso e questionado como conseguiu tal proeza, Watson explicou: “Isto é muito simples, mesmo. Dobre a sua taxa de fracasso. Você pode imaginar que o fracasso é o inimigo do sucesso. Mas não é.  Você pode ficar desencorajado pelo fracasso ou você pode aprender com ele”.

E desde então, saber celebrar fracassos se tornou um dos pilares de resiliência dos melhores empreendedores e executivos. No ano passado, o recatado empreendedor Phil Knight, co-fundador da Nike, surpreendeu o mercado ao lançar sua sincera autobiografia. Das 382 páginas do livro, nas primeiras 342, ele só fala, sem rodeios ou enfeites, sobre suas dificuldades, fracassos e como a Nike esteve prestes a quebrar, desde quando começou a pensar o negócio em 1962 a 1980, quando abre o capital em bolsa. Mas nestes 18 anos de dificuldades, Knight manteve sua mente de corredor persistente sintetizada na mensagem da primeira propaganda que sua empresa conseguiu pagar: “Não há linha de chegada. Vencer a competição é relativamente fácil. Vencer a si mesmo é um compromisso sem fim.”

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper

Uma ação sempre vale mais que mil palavras

23 de janeiro de 2017

Cal Newport é um jovem professor de ciência da computação da universidade de Georgetown, nos EUA, que escreve livros sobre alta performance nos estudos e na vida profissional, e que funcionam como manuais práticos de “como fazer”. E antes que perguntem: não, não é autoajuda. Seus livros ainda não estão editados no Brasil, mas recomendo todos a leitura, e podem ser comprados e baixados em inglês na Amazon.

O professor Newport choca a muitos com uma visão totalmente antirromântica da vida pessoal e profissional para atingir objetivos.

Ele afirma, por exemplo, que devemos evitar seguir nossas paixões profissionais – pois as paixões, conforme o professor, passam e nem sempre são boas conselheiras. Devemos, isso sim, procurar descobrir e nos agarrar às nossas habilidades naturais, aquilo no qual somos bons de verdade: ser bom – em alguma coisa – nos faz felizes.

E como descobrimos como somos bons? Tentativa e erro. Fazendo muitas coisas diferentes, testando, trabalhando, percebendo o impacto de nossas ações no entorno, e assim focando naquelas que nos saímos melhor. Não importa o trabalho que se faz – humilde, mal remunerado, voluntário, ou bem remunerado –  isso é secundário, sempre que você sente que há um aprendizado

Ou seja, não é sobre fazer o que se gosta, e sim fazer do jeito que se gosta.

Mesmo antes de conhecer os ensinamentos de Newport, aposto que muitos que estão lendo já praticam de forma natural alguns dos seus principiais ensinamentos:

1. Descubra quais habilidades você pode se diferenciar acima da média, e entenda o porquê
2. Melhore e seja muito bom naquilo que escolheu fazer (estude, treine, etc.)
3. Não espere prêmios dos outros, pois é uma jornada longa e individual
4. Dê passos pequenos, e construa coisas grandes, deixe o talento guiar e o resultado aparecer

Para mim sempre fez todo o sentido do mundo, já que eu demorei bastante tempo para me descobrir e amadurecer como empreendedor. E na longa jornada tive muitos trabalhos e aprendizados, muitos fracassos que me possibilitaram, em determinado momento, juntar os pontos para fazer acontecer o Pastifício Primo.

A todas as pessoas que trabalham comigo, sempre procuro orientar na mesma direção de auto-descoberta: se sentem que estão aprendendo, se estão se sentido desafiadas, se gostam dos resultados que percebem do seu trabalho. Estar satisfeito consigo mesmo é muito importante como parte do caminho.

Uma das lições mais fortes – e óbvias – de Newport, em seu último livro Deep Work: as diferenças entre trabalho intenso e trabalho superficial.O trabalho intenso é muito raro, de alto valor e muito difícil de replicar, de copiar. É um valor que a pessoa cultivou ao longo de sua jornada, nos ensinamentos acima. É um valor que não pertence à empresa, pertence à pessoa, e traz ótimas remunerações e coloca a pessoa de frente as melhores oportunidades. Já o trabalho superficial é comum, de baixo valor, e altamente replicável, pode ser copiado por qualquer um, e geralmente é qualquer um que faz mesmo (se o chapéu serviu, cuidado!). É a antítese do trabalho intenso. Se falar é superficial, qualquer um pode falar e falar e não fazer nada. Por outro lado, trabalho intenso é escasso, é feito por pessoas que estão focadas e trabalhando enquanto todos os demais estão falando.

Se você quer se separar da média, pratique o trabalho intenso, sendo tão bom que seja impossível de ser ignorado. O valor é todo seu. O momento é agora, o Brasil precisa.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo escreve toda semana. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

O maior show da terra vai acabar e ninguém se importa com isso

20 de janeiro de 2017

Era janeiro de 2010 e lá estava eu tendo uma das experiências da minha lista de pequenas coisas que gostaria de fazer na vida. A luz se apaga, os tambores rufam e os holofotes miram um senhor com fraque colorido no centro do palco que anuncia:
“Senhoras e senhores, meninos e meninas, crianças de todas as idades, preparem-se para o Maior Show da Terra…”.

E em seguida entram elefantes, palhaços, motoqueiros, caubóis, tigres, malabaristas, cavalos, equilibristas. Estava feliz ali, pois estava vendo a história. Mesmo depois de tanto tempo, hoje, ainda lembro do Sr. Silva, anunciado como o homem mais forte do mundo. Enquanto ele levantava vários pesos, eu ficava me perguntando se ele era brasileiro com este sobrenome. Depois vieram os elefantes que dançavam, os tigres eu ficavam sentados e ainda tinha os leões. Não me lembro do domador colocando sua cabeça na boca do felino, mas me recordo dele dando um beijo no nariz do rei da floreta. De repente as luzes se apagam e roncos de motores são ouvidos.

É o grande momento do Globo da Morte e dos motoqueiros que arriscavam suas vidas girando um contra o outro naquela gaiola. Um, dois, três, quatro motoqueiros. Eu olhava aquilo e dizia para mim mesmo: Nossa, como isto é… igual… Já tinha visto aquilo, pelo menos, umas quatro vezes em circos brasileiros. Tudo aquilo era o verdadeiro circo e ao mesmo tempo “um” circo: pejorativo, banal, caricata, monótono.

Mas tinha feito questão de ir ao show do Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus porque eles criaram o circo como o conhecemos. Tudo o que veio depois foram suas cópias. Mas a estória do Maior Show da Terra é fantástica. Ainda no final do Século XIX, não havia muitas opções de diversão nas cidades norte-americanas, e em 1875, Phineas Taylor Barnum e amigos reuniram atrações que viajavam pelos Estados Unidos. Isto incluía pessoas que dominavam algum truque com mágica, animais, principalmente africanos como leões e elefantes e até curiosidades bizarras como a mítica Sereia de Fiji, um mórbido dorso de macaco costurado a um corpo de peixe. Com o sucesso do show de Barnum, novos clones surgiram, repetindo sua receita e incluindo novas atrações. Mas em vez de competir, Barnum optou por se juntar a outro concorrente e assim surgiu a Barnum & Bailey Circus em 1882, que depois foi comprada pelos irmãos Ringling em 1919, surgindo a Ringling Bros. and Barnum & Bailey Combined Shows. Surgia aí o Maior Show da Terra que virou referência mundial do que era o circo.

Mas a arrogância de acreditar ser o maior show da Terra fez com que o Ringling Bros parasse no em 1919. Boa parte do show que vi em 2010, de certa forma, era o mesmo daquele de quase um século atrás. Conhecer pessoalmente o circo fazia parte da minha lista de desejos porque sabia que aquilo era um museu. Era a representação de um tipo de entretenimento míope que iria deixar de existir em algum momento. Aquele circo não percebeu que não estava no negócio de circo, mas de entretenimento de famílias. Por isso, passou a ter concorrência de filmes logo no início do século XX, depois de parques de diversões, televisão, internet e agora smartphones. Mas insistiu e se manteve no negócio de circo, com seus leões, tigres, macacos e o famigerado globo da morte.

Nesta semana, o Ringling Bros anunciou que o Maior Show da Terra vai deixar de existir. Queda vertiginosa nas receitas e custos crescentes impedem que a tenda fique de pé, mesmo com toda a força do Sr. Silva. É uma pena. Mesmo com os absurdos dos animais utilizados nos shows, muitos irão se lembrar dos momentos de alegria que tiveram com seus pais, comendo pipoca e rindo do medo que tinham dos palhaços quando ia a um circo, qualquer circo, na infância.

Mas a notícia do fechamento do Ringling Bros não pegou de surpresa a maioria das pessoas que entendem que o circo tradicional é algo do passado, do século passado. Fazer os mesmos truques durante tanto tempo já virou, no sentido figurado, um circo. Ninguém mais aguenta isto.

Mas o que impressiona é quantidade de negócios atuais que continuam achando que fazem “o maior show da Terra” nos segmentos em que atuam e não percebem seus clientes bocejando do outro lado. Estes negócios se desaparecessem, ninguém sentiria falta…

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper

Surpresa! Achei um unicórnio

18 de janeiro de 2017

Muito se fala hoje sobre startups que atingem US$ 1 bilhão de valor de mercado e, por isso, passam a ser chamadas de unicórnios. Mas a proposta aqui é mostrar que o conceito de unicórnio vai muito além disso. Startups são empresas, principalmente de tecnologia, que se encontram em fase inicial de operação e que, por isso, têm de usar toda sua capacidade criativa para manterem os negócios, serem inovadoras e se destacarem no mercado.

E é nesse ambiente desafiador, nessa corrida por um lugar ao sol, que despontam os verdadeiros unicórnios. Muito mais do que aquela que atinge o bilhão, um unicórnio é a empresa que surpreende pela capacidade de resolver, de maneira simples, problemas complexos, geralmente utilizando-se de recursos da tecnologia. A referência ao personagem mitológico indica que, assim como ele, essas empresas são diferenciadas e raras.

Segundo o escritor Tim O’Reilly, editor do site What’s the Future? (O que é o Futuro?), em seu artigo “We’ve Got This Whole Unicorn Thing All Wrong!” (em uma tradução livre: “Entendemos mal o conceito de unicórnio!”) são três os aspectos que caracterizam um unicórnio: o serviço/produto que oferece parece inacreditável para o usuário em um primeiro momento; esse produto/serviço muda a forma como as coisas funcionam e oferece um impacto econômico positivo não apenas a seus criadores, mas também aos seus usuários e à sociedade como um todo.

O escritor e inventor britânico, Arthur C.Clarke afirmou que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinta de magia”. É isso! Um unicórnio nos deixa boquiabertos, surpresos, como ficamos diante de um truque de mágica bem executado.

Mas, então, diante desses critérios tão exigentes, quais são de fato os unicórnios presentes hoje no mercado? O Uber, Airbnb e Spotify são alguns exemplos. Criaram formas totalmente novas e surpreendentes de ter acesso a serviços de transporte, hospedagem e entretenimento. A revista Fortune faz uma lista dos unicórnios, atualizada com frequência e que traz vários outros exemplos.

Enfim, há sim diversos unicórnios por aí e há também potencial tecnológico para se criar outros, inclusive no Brasil. O que vale ter em mente é que não basta correr atrás das cifras numéricas; o valor de mercado é consequência da inovação, da capacidade de surpreender o cliente/usuário e de tornar a empresa perene. Só assim é possível atingir, e até superar, a marca do tão desejado bilhão.

Stelleo Tolda é COO (Chief Operating Officer) e co-fundador do Mercado Livre.

Finalmente empreendendo pelos motivos certos

16 de janeiro de 2017

Nos Estados Unidos, um número cada vez maior de pessoas se define como empreendedores. Conforme pesquisa publicada no final de 2016 pelo Global Entrepreneurship Monitor  - GEM, 14% de toda a força de trabalho americana se considera empreendedora, e 25% da geração Y pretende abrir o próprio negócio. São números impressionantes.

A pesquisa anual do GEM iniciou em 1999 através de uma parceria do Babson College com a London Business School abrangendo 10 países, e hoje em dia conta com a adesão de mais de 100 países – inclusive o Brasil. É o maior estudo constante de empreendedorismo do mundo.

Aqui no Brasil, apesar dos três anos seguidos de crise e da retração na abertura de novos negócios em 2016, nosso futuro imediato deve seguir os mesmos passos internacionais. De acordo com uma pesquisa divulgada na última semana pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, dois a cada três brasileiros entre 25 e 35 anos pretendem ser donos do próprio negócio.

A pesquisa traz muitas informações interessantes. Porém, um detalhe eu considerei da suma importância: por trás desta intenção, na maioria dos casos, está a motivação correta.

Isso é muito importante quando lembrarmos que, até bem pouco tempo atrás, uma grande parcela dos empreendedores o era por não ter outra opção. Prefeririam um emprego dito seguro e estável, mas se viam forçados a empreender quando ficavam desempregados.

Agora vemos esta mudança radical: a grande maioria dos empreendedores o é por escolha, opção e por acreditar em seu potencial realizador. Segundo a pesquisa, as principais motivações são: a realização de um sonho, com 76%, a busca da qualidade de vida, com 75% e a busca ganho financeiro, com 70%.

E mesmo com a crise atual, que continua obrigando muitas pessoas a serem empreendedores forçados, o futuro pós crise vai mostrar uma quantidade enorme de pessoas querendo ser donas do próprio negócio pelos motivos certos.

Mais um detalhe curioso da pesquisa: dentre os jovens brasileiros não empreendedores, 73% citaram a segurança e estabilidade financeira, e 69% indicam a busca pela qualidade de vida como principais motivos para não abrir o próprio negócio. Casualmente os mesmos argumentos de quem procura empreender, não é?

É bom ficar esperto. Thomas Friedman já disse em 2005 que no futuro próximo não vai existir oferta de emprego, e as pessoas terão que inventar o próprio emprego. Acredito que cada um deve ir atrás do que acredita. E se você acredita em empreender e ser dono de tua própria vida, a história vai estar do teu lado. Vamos em frente!

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo escreve toda semana. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

 

Quer ter filhos mais inteligentes? Leia para eles

13 de janeiro de 2017

Stella tem quatro anos, mas ainda adora seu livrinho de opostos. Na verdade, ela já decorou há muito tempo todas as páginas que mostra palavras e desenhos de claro e escuro, dentro e fora, alto e baixo, dia e noite, um e vários, entre alguns exemplos de opostos. Ela deve ter mais de cem livros, gosta de vários, mas quase todas as noites pede para que eu leia o livro dos opostos.

Ela e eu sabemos que o que queremos mesmos é brincar. O livro é só um pretexto para apagar a luz do quarto quando estamos na página de escuro e ligá-la quando passamos para a página do claro. É a oportunidade dela sair do seu quarto quando estamos na página do fora, e voltar, quando vamos para a página do dentro. E depois ela sobe no meu pescoço e vamos investigar o que há nas prateleiras de cima do seu guarda-roupa quando estamos na página alto, e, de repente, vai para um voo rasante ao chão para olhar embaixo da cama quando a página fala do baixo.

De todas as páginas, a que mais gosta é a da noite em que há uma lua impressa na página. E o momento em que deixamos o quarto e vamos para a sacada do apartamento ver como e onde está a lua naquela noite. Olhando o céu escuro, lembro-a que Stella é estrela. Nossa estrela. Minha esposa fica brava dizendo que era para ter escolhido um livro com uma estorinha calma para ela dormir e não para acendê-la ainda mais. Mas ela só faz de conta que fica brava, pois a bronca já é dada há mais de dois anos, quando a Stella ganhou este livro.

Em casa, sempre tivemos muitos livros e eles estão espalhados por quase todos os cômodos. Assim, a extensão desse gosto para as nossas filhas foi algo natural. As duas têm estantes absolutamente abarrotadas de livros e já decoraram todas as estórias. A vantagem é que adoram relê-los.

O que não sabíamos é que a Academia de Pediatria dos Estados Unidos criou uma política em 2014 orientando todos os pediatras do país a e explicar e sempre reforçar a importância dos pais lerem para os seus filhos desde bebês. Esse movimento foi replicado no Brasil pela Sociedade Brasileira de Pediatria, que reforçou que os pediatras deveriam comunicar os grandes benefícios da leitura de livros infantis para bebês e crianças.

Diversas pesquisas conduzidas ao redor do mundo indicam que a leitura para crianças, em especial no período de zero a 6 anos tem impactos profundos no desenvolvimento pessoal, em especial na linguagem, aprendizagem e habilidades sócio-emocionais. A presença dos livros infantis nesse momento da vida é vital porque há uma intensa formação de sinapses nos cérebros das crianças.

Essa contribuição pode ser obtida tanto por livros digitais como os tradicionais em papel apontam alguns estudos. Mas as obras em papel são ainda mais benéficas porque criam um momento único entre a criança e seus pais já que é possível modificar diversos aspectos do livro permitindo muitas situações criativas e, por isso, as crianças passam a associar a leitura a um momento especial com seus pais. Isso cria uma aproximação e carinho que nenhum tablet ou aplicativo substitui. Depois, com o tempo, tornam-se mais curiosas e muito mais interessadas pela leitura. Por fim, tornam-se adultos mais bem informados e inteligentes.

Esse contexto tem criado diversas oportunidades para empreender em livros infantis. É um mercado que já responde por mais de 25% de todos os livros vendidos no Brasil e que cresce, apesar da crise. A Taba, Booxs e Leiturinha são algumas das startups que atuam nos serviços de assinatura de livros infantis. Além disso, em diversas cidades brasileiras, novas livrarias e espaços infantis especializadas em livros para crianças estão sendo abertas, inclusive por meio de franquias, como é o caso da ZasTras ou anexas às megastores como Livraria Saraiva, Livraria da Vila e Cultura. Novos selos voltados para público infantil estão sendo lançados e se juntam a vários outros pioneiros como a Companhia das Letrinhas, Salamandra ou mesmo Ciranda Cultural e Girassol.

Entre as novas editoras, destaque para a Vooinho, fundada pela Cláudia Mussi, consegue sintetizar o verdadeiro papel de um livro infantil, que não é tornar uma criança mais ou menos inteligente, mas “enquanto houver livros para sonhar, liberdade para criar e amor para acolher, haverá nas crianças o olhar para um mundo melhor.” – diz.

Marcelo Nakagawa é pai da Helen e da Stella e Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper.

Benchmarking: aprenda com o vizinho

11 de janeiro de 2017

Há um ditado que diz: “a grama do vizinho é sempre mais verde”. E, de fato, muitas vezes é. Nos negócios, reconhecer que há pontos que podem, e que precisam, ser melhorados é o primeiro passo na busca da excelência e, consequentemente, do sucesso. Dar uma espiada no quintal do vizinho e procurar aprender com ele pode ser uma ótima saída para conhecer novas – e melhores – formas de lidar com o próprio negócio.

Benchmarking é uma palavra em inglês, já bastante conhecida, usada para se referir à ação de comparar práticas empresariais, produtos, serviços e metodologias usadas por empresas concorrentes, por companhias consideradas referência em seus setores e até mesmo entre departamentos dentro de uma mesma empresa. O processo de fazer benchmarking começa com a identificação das empresas/áreas consideradas referência e segue com um estudo minucioso de como elas atuam.

Quando se trata da concorrência, fazer essa análise nem sempre é tarefa fácil, considerando que as empresas costumam guardar seus segredos a sete chaves frente aos rivais. Neste caso, uma alternativa é contratar um consultor especializado em inteligência de mercado para ajudar na pesquisa e levantamento de informações. Mas, dependendo do objetivo do benchmarking, algo muito mais simples também pode funcionar. Se você é proprietário de um varejo, por exemplo, ouviu dizer que seu concorrente está sendo muito elogiado no atendimento ao cliente e quer conhecer os diferenciais dele nesse quesito, faça uma visita à loja, física ou online; compre um produto dele e viva a experiência de ser seu cliente. Isso certamente lhe dará diversos insights sobre melhorias que podem ser aplicadas em sua própria loja.

Não se trata de copiar ou imitar o outro; é preciso identificar os diferenciais que estão levando o concorrente a ter sucesso em determinado aspecto e adequar essas melhores práticas às peculiaridades de seu próprio negócio. Nem sempre o que dá certo para um dará certo para o outro – questões culturais, financeiras, entre outras, precisam ser avaliadas.

No Mercado Livre, desde sempre fazemos benchmarking. Quando iniciamos o negócio, em 1999, isso era algo muito simples e envolvia, por exemplo, a prática de visitar os sites concorrentes e monitorar suas ofertas. Hoje em dia, contamos com práticas mais sofisticadas que envolvem o levantamento de dados sobre pagamentos, logística, precificação de produtos, tarifas e comissões, qualidade do atendimento entre outros aspectos.

Algo que sempre foi muito útil para o nosso negócio e que também pode ser aplicado a qualquer segmento é o benchmarking internacional. Ficar atento ao que está sendo feito lá fora por empresas do seu segmento de atuação pode revelar tendências e dar dicas de como se diferenciar por aqui. Essa é uma prática importante principalmente para aqueles que almejam ser “world class”, isto é, estar entre os melhores do mundo no negócio que se propõem a fazer.

Vale considerar ainda que o benchmarking pode ser de cooperação. Isso ocorre quando, de comum acordo, empresas – geralmente as que não concorrem entre si – compartilham informações sobre seus processos. Há aquelas que são consideradas referências para todo o mercado em alguns aspectos, como é o caso das companhias aéreas no que diz respeito a planejamento e gestão de crise. A complexidade do negócio que administram exige que sejam excelentes nesses quesitos. Nesse sentido, abrir as portas para que outras empresas conheçam seus processos dá a essas companhias prestígio e notoriedade.

Stelleo Tolda é COO (Chief Operating Officer) e co-fundador do Mercado Livre.

O governo, um sócio ingrato

9 de janeiro de 2017

Na última semana fui entrevistado pelo Jornal da TV CULTURA e tive oportunidade de falar sobre a situação dramática que nós, micro e pequenos empresários, estamos enfrentando sem nenhuma perspectiva de ajuda ou de melhora no curto e médio prazo.

Assista à reportagem aqui.

O centro da matéria jornalística foi o corte de subsídios que o governo federal quer levar a cabo neste ano, logicamente com muita resistência dos atuais beneficiados, as grandes corporações de sempre.

Conforme o economista da USP Paulo Feldmann – também entrevistado na matéria – ao longo das últimas décadas os benefícios têm sido focados nas grandes empresas, com resultados fracassados na preservação de emprego e no desenvolvimento sustentável.

Para se ter uma ideia do volume de dinheiro que o governo abre mão, apenas de janeiro a outubro de 2016 as isenções foram de 75 bilhões de reais. Lógico que esse dinheiro faz uma falta danada nas contas públicas, nos setores sociais e na estrutura básica do país. Foi comprovado que houve um uso predatório dos benefícios, e não ocorreu um fortalecimento real da base da economia.

Na minha participação na entrevista, citei números da “realidade real” do pequeno empreendedor: ao longo de 2016 cortamos 20% das vagas de trabalho em nossa empresa, devido à erosão da rentabilidade. Adivinhe qual é nossa maior despesa? Os impostos que nosso “sócio” ingrato – o governo – leva todo mês. Um “sócio” privilegiado que não compartilha nenhum risco e retira 30% de nossa venda bruta todo mês – muitas vezes antes mesmo de nós recebermos o depósito do cartão de crédito do cliente. Um “sócio” não quer saber de crise, não quer saber da saúde financeira de empresa, não quer saber da preservação de trabalho, nem tampouco se está faltando dinheiro para os salários.

As micro e pequenas empresas continuamos recebendo tratamento de terceira classe. Eu digo que podemos ser “micro e pequenas”, porém somos muito importantes. Paulo Feldmann aponta que geramos 45% dos empregos do Brasil. E conforme dados do SEBRAE de 2014, o nosso faturamento representa 27% do PIB.

Fazendo uma conta simples de masseiro, vejo claramente que contribuímos com muito mais empregos (45%) em proporção ao valor vendido (27%). Ou seja, nós distribuímos muito mais renda e proporcionamos mais vagas de trabalho com muito menos dinheiro. Temos menos margem de rentabilidade e somos a porta de entrada de muitas pessoas no mercado de trabalho e na formalidade.

E nada disso é feito com ajuda do governo – muito pelo contrário.

A realidade é cruel: mais de 50% das micro e pequenas empresas fecham em 5 anos. A principal causa, na minha opinião, é o financiamento extremamente difícil e caro para os pequenos. E o que já era pouco, através do BNDES, agora desapareceu totalmente – de um ano para cá cortaram totalmente os limites. O empreendedor cai nas garras dos bancos privados com taxas 5 vezes mais caras do que uma poupança – e vira escravo do banco. Ou precisa recorrer a garantias pessoas, comprometendo o patrimônio familiar ou simplesmente desistindo do negócio e fechando a empresa. As multas por atrasos de impostos são impagáveis, criando uma bola de neve. Também se agregam questões jurídicas, como o fato de que uma empresa em dívida contamina o crédito de todos os sócios de forma ilimitada – bem diferente de países como os EUA, onde a divisão entre empresa e pessoa física é sagrada, e permite ao empreendedor recomeçar do zero.

Em tempos de prosperidade, esse “sócio” ingrato que tudo quer e nada entrega já é um atraso para qualquer empresa. Mas períodos de crise como agora, é catástrofe: perdemos todos – inclusive o governo. Isso me parece bem pior do que ingratidão. No meu vocabulário, é burrice.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) escreve toda semana. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Receber uma dica? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

 

Mais uma vez: rosa não é cor de menina e azul não é cor de menino

6 de janeiro de 2017

“Papai, uma coisa que eu percebi nas propagandas é que as coisas de menina são rosa e as coisas de menino são azuis…” – comenta minha filha Helen, de 7 anos, enquanto olha, despretensiosamente, para a televisão. “E você acha que existe cor de menino e cor de menina?” – pergunto, também sem muito interesse para não influenciar na resposta. “Acho que não…” – Helen responde. “Menina pode usar azul?” – pergunto. “Sim…” – responde rápido.  “E menino, pode usar rosa?” – continuo o nosso bate-papo.   “Sim.” – Helen responde tranquilamente. “Todos podem gostar da cor que quiser…” – complementa, voltando a prestar atenção na TV.

Depois que me tornei pai de duas filhas, a questão do empoderamento feminino se tornou muito mais importante e presente na minha vida. Assim, choca como as meninas ainda são tratadas pelas empresas que vendem o mundo “cor-de-rosa” para as pequenas que antigamente queriam Barbies e agora estão viciadas em Shopkins. E pelos pais que aceitam isto e alguns (muitos) que até incentivam, mesmo que inconscientemente, o estilo de vida consumista (e fútil) de Barbie (e agora Shopkins).

Por isso, a comparação das capas das revistas Girl´s Life e Boy´s Life de setembro do ano passado, mais uma vez, esquentou a discussão sobre como educamos meninos e meninas. Na revista dos meninos, a chamada: “Explore seu futuro. Astronauta, artista, bombeiro, chef? Veja aqui como ser o que quiser ser”. E fotos de satélite, avião, computador, microscópio, caminhões, chapéu de bombeiro para ilustrar a chamada.

E os atrativos da capa da revista das garotas? A atriz e cantora de séries da Disney, Olivia Holt, também muito conhecida por fazer propaganda dos brinquedos de “meninas” como Bratz e Littlest Pet Shop (pais de garotas sabem quem são) e chamadas como: A moda outono que irá amar. Acorde bonita. O cabelo dos seus sonhos. Uma lista de coisas para as pessoas amarem o seu jeans.

Se cada uma das capas forem mostradas individualmente e separadamente para diferentes públicos, poucos se incomodarão pois o “mundo é assim”. Há coisas de “meninos” e de “meninas”… O choque vem quando as capas são colocadas lado a lado e percebemos que a diferença vai muito além dos brinquedos (carrinhos x bonecas), brincadeiras (que sujam x que não sujam), direitos e deveres em casa (ficar jogando videogame x ajudar na limpeza, não tomar banho x banho + lavar cabelo + secar + pentear) ou cores (azul x rosa). O choque mais incomodo é sobre o futuro das meninas ou sobre o presente das mulheres que vemos atualmente: submissão, violência, funções domésticas, diferença de salários, posições de liderança nas empresas, presença reduzida em áreas que produzem ou utilizam satélites, aviões, computadores, microscópios, caminhões, chapéu de bombeiro (lembra-se da capa da Boy´s Life?), entre tantas frentes de batalhas das iniciativas de empoderamento feminino que tentam agora igualar séculos de princesas indefesas e ingênuas sendo salvas por príncipes encantados.

Mas este empoderamento não precisa ser feito apenas por negócios inclusivos como a Impulso Beta, que faz isto em empresas, Mulheres na Computação ou Rede Mulher Empreendedora. Muitas organizações e empreendedores já perceberam a demanda de pais como eu e estão criando negócios que também empoderam meninas e as libertam deste viciante mundo pink.

Mas as oportunidades só estão no início para os que acreditam que é preciso parar de generalizar o mundo em vida de “menino” ou de “menina” e começar a preparar pessoas melhores para um mundo melhor, independente se tudo será azul ou rosa na vida delas.

Enquanto os meus pensamentos estão no futuro da minha filha, ela desliga a televisão e vem me perguntar sobre o novo filme de Star Wars. Falo que é sobre uma moça com nome difícil, Jyn Erso, que lidera um movimento contra o Darth Vader. Helen fica curiosa e pergunta quando iremos assistir…

“Que a força esteja com você, filha” – penso enquanto respondo que iremos ver Rogue One semana que vem…

Marcelo Nakagawa é pai da Helen e da Stella e também Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper, Vanzolini, FIA, Instituto Butantan.