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Uma tragédia tributária – como o simples ficou complicado

31 de outubro de 2016

Depois de muitas modificações, idas, vindas e voltas, na última sexta-feira foi publicada a lei complementar que muda as regras do sistema tributário chamado Simples Nacional.Foram meses de expectativa para essas mudanças, e o resultado foi “simplesmente”… decepcionante.

Já se passaram 10 anos desde o Simples foi criado e, como acontece com muitos assuntos que ficam defasados, o resultado de todo esse trabalho de nossos representantes legislativos ficou abaixo da expectativa. Fica aquela impressão de que a classe política desperdiçou mais uma oportunidade de fazer um bom trabalho. Ou pior: atirou fogo amigo.

Tudo começou com a melhor das intenções na Lei Complementar 123 de 2006, que instituiu o Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, e era louvável:  simplificar a vida dos micro e pequenos empreendedores, através da unificação de tributos municipais, estaduais e federais, incluir mais contribuintes no sistema e combater a sonegação.

Mas as atuais mudanças – ou atualizações, como alguns especialistas estão chamando – não apenas ficaram longe das demandas dos empreendedores, como embutiram algumas “surpresas” desagradáveis.

Novo limite a partir de 2018

Fazendo um breve histórico, quando começou o Simples em 2006 o faturamento bruto máximo para a empresa ser enquadrada no regime tributário era 2,4 milhões. Em 2012 houve uma atualização nos valores e passaram a 3,6 milhões, vigentes hoje. E a partir de 2018 – na nova lei – o limite de faturamento bruto será de 4,8 milhões por ano.

O problema: numa conta simples, os aumentos do limite de faturamento mal cobrem a inflação acumulada nestes anos. Ou seja, não houve aumento real do limite, houve perda, quando descontada a inflação. Então, se por acaso a empresa está prosperando, e consegue faturar mais do que o limite, vai perder o Simples e tem que optar por outros regimes tributários que são mais caros e complicados. Muitas empresas optam por não crescer ou – o pior do pior para o país – sonegar.

Não foi por falta de aviso da sociedade e dos pequenos empreendedores: em 2015 foi entregue o documento do Brasil + Empreendedor aos governantes, sugerindo a evolução gradual tributária até 30 milhões, estimulando a evolução dos micro e pequenos empreendedores para serem médias empresas. Pelo visto, ninguém lá em Brasília deu importância a esse documento.

Novo sistema de cálculo

Hoje, para saber a alíquota de tributos, é fácil. Basta googlear e conferir a tabela de faturamento acumulado no ano e o percentual de contribuição. Na medida que a empresa fatura mais, a tributação também vai aumentando de forma gradual. Já na versão de 2018, voltam os cálculos complicados, com alíquotas de aumento ou desconto variáveis de acordo com o faturamento do ano anterior.

O problema: era pra ser “simples” mas agora tem que ficar com uma calculadora na mão todo mês. O contador, já sobrecarregado, vai precisar dedicar mais tempo a fazer contas, em vez de cuidar de assuntos próprios da profissão, como inventários e balancetes, que demonstram a saúde financeira da empresa. Nossos políticos poderiam de fato ter pensado em fazer vale o nome “simples”.

Tributos

Na tabela atual do Simples Nacional, a tributação na faixa máxima, de R$ 3,6 milhões, é de 11,61%. Na nova tabela, que entra em vigor em 2018, a empresa que estiver na faixa de faturamento máximo, de R$ 4,8 milhões, vai ter que tributar em 19%. Sim, de-ze-nove porcento.

O problema: considerando o que falamos acima, de que os aumentos dos limites já estão defasados com a inflação, somado ao aumento de impostos de 11,61 a 19% eu realmente não entendo como qualquer negócio será sustentável sem fazer uma das 3 coisas:

1. Aumentar os preços e repassar tudo ao contribuinte

2. Sonegar

3. Fechar as portas

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastificio Primo – escreve toda semana no Blog do Empreendedor. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Receber uma dica? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

Sempre aposte na criatividade dos seus funcionários (porque não é despesa, é investimento)

28 de outubro de 2016

Quer ter mais retorno com funcionários do seu negócio? Comece com perguntas e não com as suas respostas.

Será que o seu cliente não está utilizando o seu produto de outro jeito ou com outra finalidade? Se isso estiver acontecendo, talvez encontre aí uma grande oportunidade. Muitos irão lembrar-se do ano de 1994 como o início do Plano Real. Mas na Alpargatas esse ano é celebrado como o ano da virada. Até então, a empresa só vendia produtos baratos como o jeans US Top, a chuteira Kichute ou o tênis Bamba ou Conga. Foi quando alguém da empresa notou algo que muita gente fazia. Muitos compravam um par de sandálias Havaianas, tiravam as tiras, viravam o solado para cima e encaixavam as tiras de volta. Assim, a sandália ficava de uma cor só já que a parte branca tradicional ficava em contato com o solo. Além de ficarem diferentes, as sandálias poderiam combinar com a cor da roupa, tornando-se assim, um acessório de moda. Nascia aí as Havaianas Top, com preço de item de moda e não de produto popular.

Será que o produto da sua empresa não está sendo utilizado por alguém que está muito distante do mercado-alvo? Em uma dessas viagens pelo interior do Brasil, um dos funcionários do UOL teve o pneu do carro furado. Parou em uma dessas borracharias de beira de estrada. Na hora de pagar pelo conserto, não tinha dinheiro e o borracheiro não aceitava cartões. Mas, para a sua surpresa, o sujeito de mãos calejadas disse que ele poderia pagar via PagSeguro, mesmo sem saber onde trabalhava o incrédulo cliente, que imaginava que o meio de pagamento da sua empresa só era aceito em sites da internet. Disso veio a ideia da Moderninha, a maquininha de pagamentos off-line que só existia no mundo online.

Que tal experimentar ideias inventivas com seus colegas de trabalho que não custam nada para serem implementadas?  Na Porto Seguro, um dos funcionários sugeriu experimentar tirar os lixos individuais dos colaboradores para incentivar a coleta seletiva já que haveria apenas três lixeiras por andar: Uma para lixo orgânico, outra para lixo reciclável e ainda outra só para papel. Se desse errado, era só devolver as lixeiras. Mas a importância da sustentabilidade prevaleceu e ainda a empresa passou a economizar papel e toner já que os funcionários reduziram drasticamente a necessidade de impressão de documentos.

E se ao invés de pedir ajuda aos universitários, pedir sugestões aos colaboradores? Repintar de azul o botijão de gás sempre tinha sido um desafio para uma das principais empresas do setor. O processo utilizava uma pistola de pintura que sempre gerava sobra de tinta que ficava pairando no ar para depois grudar nas paredes ou piso. Depois de milhares de repinturas, a tinta acumulada já tirava alguns centímetros da sala de pintura. E chama técnico, consultor, pesquisador e até cientista em nanotecnologia aplicada a pinturas para criar um processo ou tinta que só aderisse ao botijão. Foi quando um dos operários pensou em criar paredes e piso com uma fina camada de água escorrendo que depois passava por um filtro Melitta de café sendo depois reutilizada.

Que tal levar seus funcionários para interagirem com seus clientes? Quantas empresas não deixam seus colaboradores restritos aos escritórios? É sempre casa, trabalho e trabalho casa. Muitos só fazem planilha, documentos e apresentações e não sabem o que está acontecendo com os produtos que estão naqueles materiais que preparam em seus computadores. A partir de 2008, a subsidiária brasileira da Kimberly-Clark passou a incentivar que seus funcionários interagissem com seus clientes, não só conversando, mas visitando-os e criando laços de amizade. Dentre as várias ideias dos funcionários que surgiram desta interação, a do papel higiênico compactado é uma das mais comemoradas diante da sua simplicidade. Mesmo parecendo estranho no inicio, o funcionário que deu a ideia percebeu que o cliente final sabia intuitivamente que precisava “desamassar” o rolo que facilmente “voltava” a forma tradicional. O cliente também percebia que era mais fácil comprar o pacote já que ocupava menos espaço. Para empresa, ganho de 18% no transporte e 13% no plástico utilizado na embalagem.

Agindo assim, funcionário não só dá despesa, dor de cabeça e problema. Dá lucro, retorno e crescimento quando é criativo.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.

A Black Friday está chegando; você está pronto?

26 de outubro de 2016

As datas sazonais sempre são muito aguardadas pelo comércio e, com o passar dos anos, o calendário ganhou várias novas oportunidades para o varejo dar aquele empurrãozinho no consumidor, mesmo no mais indeciso, e levá-lo às compras.

Estamos a menos de um mês da Black Friday, atualmente a data mais esperada pelos varejistas brasileiros. Esse dia de superdescontos, criado nos Estados Unidos, será comemorado este ano no Brasil em 25 de novembro. Uma recente pesquisa realizada pela Ebit identificou que 84% dos consumidores online ativos pretendem aproveitar a data para comprar. Ainda segundo a pesquisa, a expectativa é que o faturamento, somente na sexta-feira, chegue a R$2,1 bilhões, um crescimento nominal próximo de 30% em relação à edição de 2015, quando as vendas alcançaram R$ 1,6 bilhão.

Diante desses números, se você tem um varejo, online ou offline, não dá para ficar de fora. Porém, é preciso se preparar: estoque, tecnologia aplicada à operação, gestão logística e a oferta de diversas opções de pagamentos são alguns dos pontos essenciais. Nesses anos de experiência, vi muitos e-commerces investirem em marketing para Black Friday – o que também é importante – mas escorregarem na hora de atender à alta demanda. Além de criar problemas com o consumidor e prejuízo para o negócio, uma promoção que não cumpre o que promete arranha a confiança do cliente e compromete futuras compras.

A essa altura do campeonato, alguns aspectos como reposição do estoque e a tecnologia para garantir a agilidade da operação já deveriam estar prontos. Mas, ainda é tempo de revisar alguns pontos para garantir o bom atendimento e, consequentemente, o bom faturamento na data.

Primeira coisa: avalie o perfil do seu cliente – o que ele mais busca em sua loja – e, se você participou da Black Friday do ano passado, analise quais foram os produtos mais vendidos. Esses produtos não podem faltar em seu estoque. Revise os custos e as despesas para ter certeza de que a margem de desconto que oferecerá ao cliente não gerará prejuízo; parece óbvio, mas, na ânsia de oferecer o melhor preço e ganhar o cliente, o varejista pode escorregar e tomar prejuízo.

Outro ponto importante: tenha certeza de que a operação de separação e despacho de pedidos fluirá bem, mesmo diante de um aumento de demanda. O consumidor quer comprar e receber o quanto antes, independentemente se há aumento no volume de pedidos.

E, claro, conte para seus clientes, e para o maior número de pessoas possível, que você está preparando promoções especiais para a Black Friday. As alternativas vão desde divulgações nas redes sociais, banners em portais e blogs com boa audiência, até links patrocinados em sites de busca. Neste último caso, recomenda-se ampliar o número de palavras e ser criativo na escolha dos termos que mais podem atrair cliques para a loja. O e-mail Marketing, se bem utilizado, também é uma ferramenta muito eficaz.

E, para garantir que a Black Friday seja uma data realmente positiva para o seu negócio mesmo depois do dia 25 de novembro, não descuide do pós-venda. O aumento na demanda também costuma ampliar o volume de devoluções. É isso; esteja preparado e aproveite essa Black Friday.

Stelleo Tolda é COO (Chief Operating Officer) e co-fundador do Mercado Livre.

Sorte ou azar? O imponderável nos negócios

24 de outubro de 2016

Uma estrada interditada fez com que um crítico renomado conhecesse o restaurante de Massimo Bottura, eleito neste ano o melhor chef do mundo

Eu me considero um cara bastante prático e objetivo, principalmente no que diz respeito ao mundo dos negócios. Por isso, demorei a admitir que existe um fator que pode ser decisivo no sucesso (ou insucesso) de um empreendimento: o que chamo de componente imponderável.

Ao longo dos últimos anos, várias situações me levaram a reconhecer que esta variável deve sempre ser levada em conta na hora de empreender, e com um certo “fair play”. Afinal, ganhar e perder fazem parte do jogo.  Sorte ou azar, diriam alguns.Já vi empresas que tinham tudo pra dar certo: uma ótima ideia, capital à vontade, plano de negócios impecável com missão e visão, e lideres talentosos em suas áreas de expertise… Mas, mesmo assim, não deram certo.

Na contramão, me deparei com negócios em que tudo apontaria para o fracasso e, no entanto, acabaram bombando – contrariando, às vezes, regras básicas dos negócios.É um fator angustiante, admito. Porque o imponderável pode se manifestar de várias formas: pode ser uma ideia genial que chega cedo demais – e encontra um mercado imaturo para entende-la – se chegasse um pouco depois, talvez fosse outra história. Ou pode ser a escolha do ponto equivocado, ou ainda, a cidade equivocada, para implementar o negócio. Ou uma campanha publicitária que é mal interpretada. Ou uma mega crise econômica, como a que estamos passando agora no Brasil. Pequenos detalhes.

Do lado oposto, pode-se dar a sorte de acidentalmente cair no gosto de uma celebridade, e isso fazer toda a diferença no marketing. Ou estar em um endereço que cai nas graças de uma tribo de clientes que passam a ser seus embaixadores espontâneos.

O mundo empresarial – e gastronômico – está cheio de histórias deste tipo, em que o acaso foi fator decisivo. Como a Osteria Francescana, do chef Massimo Bottura, eleito o melhor do mundo neste ano. O próprio Bottura costuma contar essa história: depois de anos de dificuldades e críticas negativas no início do seu negócio, o chef estava prestes a fechar o restaurante na cidadezinha de Modena, quando uma avaria na estrada fez com que um renomado crítico de gastronomia parasse para jantar em seu endereço, totalmente por acaso. E o resto é história.

As vezes a boa sorte brilha. É estar no lugar certo, na hora certa. Como diz aquela célebre frase: quando a sorte aparecer, quero que ela me encontre trabalhando.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastificio Primo – escreve toda semana no Blog do Empreendedor. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Receber uma dica? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

Quantas empresas verdadeiramente honestas com seus clientes você conhece?

21 de outubro de 2016

Jessica Alba criou uma startup de produtos naturais para higiene de bebês

Leio, intrigado, o enorme cartaz de uma lanchonete de uma grande rede de fast food que anuncia: “Hambúrguer, agora, com 100% carne”. Passei todos estes anos comendo o quê então? Penso em optar pelos nuggets de frango, mas daí lembro o quê um amigo, que trabalhou em uma das fornecedoras desta rede, (não) disse sobre os tais bolinhos supostamente de carne de frango. Ele apenas disse que não comia mais nuggets e que tinha saído desta empresa para se juntar a uma outra, muito menor, que comercializava frutas, legumes e verduras orgânicas. Desta conversa, lembro que conversamos dos sucos de frutas que são “néctares”, dos iogurtes que são “produtos lácteos” e dos chocolates granulados que nem cacau tem na fórmula. Mas no país da Lei de Gerson, muitos acreditam que ser honesto é ser ingênuo, e, por isso, boa parte dos consumidores veem vantagens nestes “tipo” sucos, iogurtes e chocolates.

Mas algo tem chamado a atenção no mundo destes ingênuos. Na contramão do mercado, um número crescente de empreendedores vem obtendo sucesso oferendo justamente produtos verdadeiramente honestos que vão além de hambúrgueres caseiros, sucos integrais, iogurtes naturais e chocolates com alto teor de cacau. E por coragem (ou mesmo ingenuidade) chamaram suas empresas de, literalmente, honestas.

Uma delas foi fundada por Seth Goldman em 1998. Durante seu curso de MBA na Universidade de Yale, ele percebeu como ficava indignado com os chás prontos vendidos nos Estados Unidos. Era basicamente água, corante, aromatizante e muito, muito, mas muito açúcar. Por que ninguém vendia chá que fosse verdadeira e honestamente chá, apenas isto e mais nada? Ficava se perguntando. Como não encontrou uma resposta Goldman se juntou a um dos seus professores para criar um negócio que vendesse apenas chás naturais, sem nenhum tipo de adoçante, corante, aromatizante ou conservante. Um produto que fosse orgânico e que respeitasse as regras do comércio justo. Chamou a empresa de Honest Tea, mas teve que trocar o nome depois, pois a sonoridade do nome remetia justamente à líder do mercado de chás.

Os empreendedores então deram a cara a bater e chamaram a empresa (e os produtos) de apenas e tão somente Honest. Atualmente a marca é encontrada em todos os Estados Unidos e ganhou ainda mais fama, pois descobriram que é a bebida favorita do Presidente Barack Obama.

A outra empresa honesta tem uma empreendedora literalmente fantástica. Paz era tudo o que a Jessica Alba queria quando teve sua primeira filha em 2008. Famosa por diversos filmes, Jessica já tinha entrado no imaginário popular como a Mulher Invisível no filme Quarteto Fantástico. Mas ainda quando estava grávida, ela estava preocupada com a toxidade e artificialidade dos produtos que entravam em contato, direta ou indiretamente com os bebês. Preocupada com esta questão, descobriu que outras mães também tinham a mesma preocupação e não encontravam nada desenvolvido para esta fase em que as mães se tornam muito preocupadas com a segurança das suas crias. Depois da chegada da sua filha, Honor, Jessica poderia muito bem ter continuado a viver só da sua fama, mas sua obsessão com a toxidade dos produtos continuava e decidiu criar seu próprio negócio, a Honest & Co. “Gastei meu próprio dinheiro durante três anos, tentando descobrir onde fabricar, que produtos poderiam ser feitos e quais apelos a marca deveria ter. Fiz muitas pesquisas. Todos diziam que eu estava ficando maluca. Não era muito sexy fabricar produtos de limpeza” – diz, explicando como iniciou sua startup em 2011. Três anos depois, sua empresa já esta avaliada em cerca de um US$ 1 bilhão.

Mas as Honests parecem que duram pouco nas mãos dos empreendedores. A empresa de chá foi vendida e de produtos para bebês está sendo negociada agora.

Penso nisso enquanto entro em uma padaria para comer um pão com manteiga na chapa. E quando olho o que o chapeiro está passando no pão, noto que é margarina…

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

A experiência do cliente em primeiro lugar

19 de outubro de 2016

Já parou para pensar que você, como consumidor, tem se tornado cada vez  mais exigente na hora de adquirir um produto ou serviço? Claro que o nível de exigência varia muito de pessoa para pessoa, mas, uma coisa é fato: como clientes queremos viver experiências cada vez mais completas e diferenciadas.

Essa postura do consumidor é muito bem-vinda para os negócios. Um empreendedor precisa estar atento à jornada que o cliente realiza ao entrar em contato com a sua empresa, desde a pesquisa por informações, aquisição do produto/serviço, até o pós-venda. Identificar as fricções que podem estar ocorrendo nessa relação é um caminho para melhorar a oferta e ampliar os negócios.

Quando o Mercado Livre começou suas atividades, em 1999, o objetivo de nosso  marketplace era tão somente aproximar vendedores e compradores. A plataforma tecnológica que oferecíamos estava muito bem preparada para isso e atingiu esse objetivo rapidamente – em 2000 já eram milhares de vendedores anunciando seus produtos e de compradores encontrando boas ofertas.

Mas, em alguns anos, isso deixou de ser suficiente. Ao acompanhar a experiência dos clientes – compradores e vendedores – começamos a perceber que havia fricções na jornada de ambos. A mais evidente era a forma de pagar, que era realizada diretamente entre as partes e nem sempre oferecia a segurança esperada por todos. O envio do produto também gerava incertezas, devido à ausência de sistemas integrados que pudessem informar a qualquer momento a localização de uma encomenda.

Identificamos esses pontos ao avaliar o feedback dos clientes em nossos canais de atendimento e também acompanhando a experiência diária de alguns dos principais vendedores da plataforma. Entendemos então que era necessário lançar novos serviços para dar suporte e enriquecer a experiência de nossos clientes.

Assim, em 2004 nasceu o Mercado Pago, como gestor de pagamentos que garante a transação entre as partes. Mais tarde, em 2013, atuamos para solucionar as dificuldades no envio de produtos e lançamos o Mercado Envios. A integração com parceiros logísticos, fornecendo soluções para vendedores individuais e empresas, assegurou a entrega aos nossos clientes compradores.

Hoje, contamos com um ecossistema de serviços composto por seis unidades de negócios, as quais dão suporte para as transações realizadas no Marketplace do Mercado Livre e também para lojas online fora dele.

Mas, nem por isso deixamos de ouvir os apontamentos que nossos clientes têm a fazer. As sugestões e críticas continuam sendo, e sempre serão, muito bem-vindas. Como empreendedores, queremos ver nosso negócio se desenvolver sempre mais e isso está diretamente ligado a oferecer uma experiência cada vez melhor para nossos clientes.

Temos visto agora que a expectativa do consumidor para melhorar e ampliar sua experiência está relacionada à ampliação de categorias de produtos sendo ofertadas no comércio eletrônico e também a novas formas de comprar – como o canal de voz, por exemplo. Não demora, a tecnologia de voz já presente em muitos smartphones, deverá se expandir e permitir que uma compra online seja feita 100% via comandos de voz. Além disso, o consumidor online quer que serviços considerados básicos, como o de pagamentos e de entrega, sejam cada vez mais “transparentes” isto é, funcionem de forma tão redonda que nem sejam percebidos na hora da compra. Estamos trabalhando para isso!

E você, o que tem ouvido do seu cliente? Se quer ver o seu negócio expandir e ganhar mercado, não deixe de ouvi-lo e entender onde ocorrem os pontos de fricção do seu negócio. Tenha a certeza, seu cliente vai te ajudar a encontrar o caminho.

Stelleo Tolda é COO (Chief Operating Officer) e co-fundador do Mercado Livre.

 

Você trabalharia 18 horas por dia?

18 de outubro de 2016

Eu sempre fui um fã da Marissa Mayer, atual CEO do Yahoo e funcionária número 20 do Google, onde era responsável pelos produtos de busca. Se minha memória não falha, a primeira vez que ouvi falar dela foi em meados de 2006, quando li um artigo no qual ela falava sobre 9 princípios de inovação. Gostei tanto dos princípios, que comecei a acompanhar de perto tudo que ela escrevia, as entrevistas que dava, e fiquei bastante feliz com o anúncio de que Marissa seria a nova CEO do Yahoo. Era uma grande aposta. Mas, na minha opinião, ela era uma das poucas pessoas capazes de salvar o destino daquela empresa que fora uma das gigantes da indústria.

Em entrevista recente, Marissa Mayer falou sobre seus primeiros anos no Google e explicou que era possível, sim, trabalhar 130 horas por semana, desde que você tivesse um planejamento estratégico que incluísse quando iria dormir, quando tomaria banho e, mesmo, quando iria ao banheiro. Você leu certo: 130 horas por semana! Para deixar mais fácil de entender, isso significa 18 horas e 34 minutos por dia, 7 vezes por semana! Desde que li essa entrevista, não consegui parar de pensar sobre a quantidade de tempo que passo no trabalho.

Eu sempre trabalhei muitas horas, em todos os empregos que tive. Os motivos variavam. Às vezes, por causa de uma entrega com data marcada, outras vezes porque havia tanta coisa a ser feita que eu não conseguia pensar em ir para casa. E algumas vezes porque eu gostava tanto do que estava fazendo que simplesmente queria continuar trabalhando. Porém, uma coisa foi constante ao longo de minha carreira: quanto mais responsabilidades eu tinha, mais trabalhava. No Colab, empresa que fundei e onde trabalho hoje, chuto que devo trabalhar entre 60 e 80 horas por semana, mas isso varia de semana a semana.

O artigo 58 da nossa querida Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) diz: “A duração normal do trabalho, para os empregados em qualquer atividade privada, não excederá de 8 (oito) horas diárias, desde que não seja fixado expressamente outro limite”. Quando comparamos minha jornada com a definida pela CLT, realmente parece que trabalho bastante. Porém, ao compararmos com o Google da Marissa, sinto que estive trabalhando meio-expediente minha vida inteira.

Não me entendam mal, não estou sugerindo mudar a CLT para que todos trabalhem o dobro de horas por semana. Eu também acredito na importância do equilíbrio entre o trabalho e o lazer. Mas saber que algumas pessoas bem-sucedidas, e que considero fora da curva, trabalham tanto assim (Elon Musk já falou que trabalhava cerca de 100 horas por semana), isso me fez repensar o quanto minha noção de trabalhar muito realmente significa trabalhar muito.

E você, trabalha muito?

Josemando Sobral – sócio fundador do Colab, apaixonado por tecnologia e nas horas vagas, baixa apps. Quer falar comigo? Me procure no Twitter @josemando.

4 lições que os grandes empresários têm a ensinar aos pequenos

17 de outubro de 2016

Lendo biografias de grandes empreendedores, os grandes mesmo – Jorge Lemann, Richard Branson, Arianna Huffington, Steve Jobs, Henry Ford, Anita Roddick, por exemplo -, consegui pinçar algumas características em comum em todos eles, principalmente no começo da empresa, antes de se tornarem supergrandes.

E, o mais importante, acredito que estes grandes empresários e empresárias reforçam alguns ensinamentos simples, do tipo que não importa o tamanho de negócio que você tem ou quer ter, algumas coisas são sempre úteis e podem ser colocadas em prática com facilidade – e o mais provável é que você já saiba da importância delas.

Por via de dúvidas, sempre é bom reforçar estes 4 pontos fundamentais a grandes e pequenos:

1. Curiosidade. Uma coisa é certa, todo empreendedor desenvolve uma certa curiosidade sobre o mundo, o mercado, o produto, a indústria ou o consumidor. O empreendedor sempre está pensando sobre as coisas acontecendo, analisa, e realmente se diverte com o processo de entender como as coisas funcionam.

Todo empreendedor é um grande questionador, e faz perguntas o tempo todo, não apenas aos outros, mas principalmente pergunta a si mesmo como as coisas realmente deveriam ser feitas, melhoradas, e se tem uma forma nova, melhor, de fazer, apenas esperando para ser descoberta.

Curiosidade é algo que inspira o aprendizado. Os grandes empreendedores conseguiram entender o consumidor de formas que nem o próprio consumidor sabia.

2. Pensar grande. Mesmo que seja pequeno – se comparado com a gigante Google – um bom empreendedor sempre está pensando grande. Muito mais do que sua capacidade. Portanto nunca devemos subestimar o tamanho do pensamento, pois esteja certo de que é sempre algo além do normal, e isso é uma força fantástica.

Agora, se você pensa que a motivação é o dinheiro, está enganado. A ambição geralmente está em deixar uma marca no mundo, na família, na comunidade. Existe um desejo meio louco, dentro de cada empreendedor, de mudar o mundo através da empresa, do que a empresa faz, das pessoas que trabalham na empresa e de como se relacionam com o consumidor.

3. Disciplina. Nos negócios, disciplina pode significar muitas coisas – desde execução rigorosa de metas a estar focado nos custos. Disciplina também significa uma capacidade de permanecer no rumo traçado mesmo quando o mercado não está positivo – como na atual crise que vivemos, por exemplo. Em momentos de dificuldade, os bons empreendedores ficam na linha e tentam fazer o trabalho o melhor possível, até a tempestade passar.

Antes de alcançarem o sucesso, os grandes empreendedores desenvolveram hábitos disciplinados no seu dia a dia – sim, eles aprenderam isso. Inúmeros estudos mostram que pessoas que tem a força de vontade de acordar cedo – o estudo aponta especificamente o horário das 5 da manhã – tem mais sucesso em todos os aspectos de sua vida. Algo do tipo: menos procrastinação e mais ação.

4. Malucos. Todo empreendedor mostra alguns traços marcantes de personalidade que os demais podem considerar loucura. Grandes decisões tomadas da noite para o dia, assumir grandes riscos sem aparente necessidade, e uma dedicação obstinada nos objetivos desejados realmente podem ser catalizadores para uma vida realmente louca, porém de muito sucesso.

A verdade é que a maioria dos empreendedores de megassucesso o alcançaram por se recusarem a se encaixar em um padrão predefinido, e tiveram como ponto de partida uma perspectiva diferente, divergente.

Com tudo isso, acredito que, se não der pra ser um grande bilionário, ao menos se possa ser um pequeno empreendedor bem-sucedido.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastificio Primo – escreve toda semana no Blog do Empreendedor. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Receber uma dica? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

 

É preciso que as faculdades parem de formar desempregados

14 de outubro de 2016

“Professor, estou buscando empreendedores. Conhece algum aluno ou ex-aluno que está empreendendo?” Ele desviou sua atenção do computador, encarou-me como se fosse um ET e com um olhar oblíquo e desinteressado perguntou quem eu era e se poderia ser mais claro. Disse que trabalhava com venture capital e que estava em busca de startups para investir. Ele voltou-se para o monitor e balbuciou algo que entendi que ele não poderia ajudar. Agradeci a atenção e saí da sua sala com a dúvida se ele tinha entendido alguma coisa do que tinha falado ou se tinha ficado bravo por tê-lo abordado sem um agendamento prévio. Mas a cena se repetiu inúmeras vezes naquele ano de 1999 em outras faculdades e universidades e a quase totalidade dos professores não tinha nenhuma compreensão ou referência de empreendedorismo.

Dezessete anos depois e esta universidade que tinha visitado inicialmente, a UNICAMP, é a principal referência acadêmica nacional de empreendedorismo. É a que mais gera patentes no país, tem uma das principais incubadoras e parques tecnológicos do Brasil, a mais atuante agência de inovação e seus dirigentes não se cansam de falar das “filhas da UNICAMP”, um conjunto monitorado de 286 empresas que foram criadas por egressos da instituição e que juntas faturaram algo próximo a R$ 3 bilhões e geraram 20 mil empregos altamente qualificados em 2015.

Mas enquanto a UNICAMP não só incluiu o tema empreendedorismo, principalmente a partir de 2002, quando o Professor Carlos Henrique Brito Cruz assumiu a reitoria, mas também criou as bases de um ecossistema condizente com a sua estrutura e papel social, muitas faculdades e universidades do país ainda não perceberam o papel cada vez mais relevante em formar alunos empreendedores e inovadores.

Se os temas empreendedorismo e inovação já se tornaram rotina nas faculdades de negócios, engenharias e computação, em outras são solenemente ignoradas e, em certos casos são até execradas como símbolo maldito do capitalismo.
Em cursos como Medicina, Odontologia, Fisioterapia, Educação Física, Pedagogia, Direito, Contabilidade, Psicologia, Nutrição, Design, Arquitetura, Moda ou Gastronomia, entre tantos, a opção de atuar por conta própria será considerada pelo(a) aluno(a) em algum momento da sua carreira profissional e este momento tem sido cada vez mais cedo. Desta forma, conhecimentos, habilidades e atitudes empreendedoras só o(a) tornará um(a) melhor profissional, trabalhando para si ou para os outros.

Mas há outros cursos que muitos não enxergam uma relação direta com o empreendedorismo e inovação. Filosofia e Biblioteconomia são dois exemplos emblemáticos. Estes não entendem o real motivo de Mario Sergio Cortella, Luiz Felipe Pondé ou Clovis de Barros Filho fazerem tanto sucesso empreendendo algo que tende a ser cada vez mais, o maior problema do ser humano: a sua própria existência. Também desconhecem como o Google surgiu justamente a partir de um problema de pesquisa bibliográfica e a relevância de uma determinada referência em um mundo inundado de informações inúteis ou desconexas.

Mas o principal motivo de incluirmos empreendedorismo e inovação na grade curricular de todos os cursos superiores não está no fato de darmos mais alternativas de carreiras para os nossos alunos, mas porque ensinamos olhando para o passado, com exemplos, técnicas e abordagens de anos ou décadas atrás, que, em várias situações já não são mais utilizados pelo mercado.

Isto tem criado um desemprego sistêmico e funcional em que uma massa crescente de jovens não consegue encontrar uma vaga para aplicar o que aprendeu. Por outro lado, o aluno empreendedor é um visionário que tem iniciativa, sabe identificar oportunidades e estabelecer soluções inovadoras. Ser um empreendedor não se limita às pessoas que criam iniciativas muito rentáveis, negócios sociais ou mesmo empresas sem fins lucrativos. O comportamento empreendedor existe em todos os setores, em todos os níveis de carreira, em todos os momentos da vida. E, curiosamente, é o perfil mais demandado pelas principais empresas que precisam contratar talentos que querem empreender e inovar dentro das organizações. O empreendedor pode querer ou não ser empregado, mas nunca ficará desempregado.

Mas voltando ao professor… Ele tinha vários alunos e ex-alunos empreendendo. Anos depois, acabamos investindo na startup criada pelo Fabricio Bloisi e outros colegas da faculdade. Fabrício co-fundou a Compera, atual Movile, a maior empresa de aplicativos móveis da América Latina, com soluções como a PlayKids, iFood e TruckPad, tornando-se um dos principais empreendedores brasileiros da atualidade.  Um golaço da UNICAMP…

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.

 

Inspire-se e empreenda

13 de outubro de 2016

Há diversas maneiras de se iniciar um negócio; se olharmos para o mercado, facilmente encontramos centenas de diferentes histórias bem sucedidas. Entre elas, uma coisa é fato: empreender e ter sucesso não depende de uma ideia inédita. É claro que o ineditismo tem sua força e seu valor, mas, na prática, basta olhar para as empresas que lideram alguns dos principais segmentos de mercado e constatar que a maioria não dependeu do ineditismo para chegar lá. Um bom exemplo é o Facebook, que apesar de ser a mais bem sucedida rede social, não foi a primeira.

O termo copycat em tradução literal significa imitador. No empreendedorismo esse termo é usado para se referir à prática de se inspirar em um modelo de negócio que deu certo e implantá-lo em outro ambiente, moldando-o às características da cultura e do público consumidor local. Não se trata de roubar uma ideia ou tampouco agir de maneira que fira as regras éticas e as melhores práticas de mercado – esse tipo de atitude ilícita fica submetida às leis de direitos autorais e registros de marcas e patentes e deve ser julgada como tal.

O copycat no empreendedorismo é uma prática saudável que, para dar certo, depende da criatividade do empreendedor e do seu conhecimento sobre o mercado em que pretende atuar. Com base em uma ideia já aplicada, ele cria sua própria empresa.

Enquanto cursava o MBA na Universidade de Stanford há 17 anos, Marcos Galperin se inspirou no modelo de negócios do eBay para criar o Mercado Livre. Foi assim que começamos nossas atividades na Argentina e quase simultaneamente no Brasil, como um site de leilões – modelo adotado pelo eBay – e fomos nos moldando às características do público latino. Em pouco tempo, percebemos que o consumidor dessa região tinha preferência pelo preço fixo, e por isso lançamos essa funcionalidade antes mesmo do eBay.

Ter essa percepção e agir rapidamente para atender à expectativa desse consumidor foi fundamental para a consolidação e o crescimento do negócio. Se tivéssemos optado por apenas criar um “eBay latino”, isto é , se tivéssemos insistido no formato de leilão apenas porque era um modelo já bem sucedido nos Estados Unidos, provavelmente o Mercado Livre não teria evoluído com a mesma velocidade.

Assim como acontece com qualquer empreendedor no início de seus negócios, o recurso financeiro era escasso e foi preciso tempo até comprovarmos que o modelo que adotamos tinha potencial. Por isso, mais do que do investimento, o sucesso do negócio foi fruto de contar com uma equipe de profissionais competentes e comprometidos. Isso sim é essencial para executar uma boa ideia.

Ao longo do tempo, o modelo de negócio do Mercado Livre se tornou cada vez mais particular e característico, criando soluções para desafios reais que encontramos em nossos mercados. O segredo foi e sempre será atender às necessidades dos clientes que utilizam nossos serviços.

Você que está pensando em empreender mantenha  um olhar atento ao redor, sem medo de buscar inspiração em ideias lançadas em outros países. Mas, tenha em mente que o sucesso de seu negócio vai depender de como essa ideia será implementada por sua equipe em benefício de seus clientes.

Stelleo Tolda é COO (Chief Operating Officer) e co-fundador do Mercado Livre.