Blog


Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
Twitter Facebook Orkut
Aumentar texto Diminuir texto

Comércio eletrônico exige MUITO conhecimento e dedicação

29 de fevereiro de 2016

Abrir uma loja virtual parece fácil, mas não é. Requer múltiplas competências e gestão de todos os detalhes.

Esta semana recebi contato de uma leitora querendo minha opinião sobre abrir uma loja online para vender artigos de decoração “descolados”.  Ela atua como arquiteta num escritório, mas para enfrentar a crise, quer “diversificar” as fontes de renda e pensa em abrir seu próprio negócio. Perguntei se ela tinha conhecimento prévio no mercado de varejo de decoração – a resposta foi não, nem varejo, nem decoração. Perguntei se tinha conhecimento de tecnologia web, marketing digital, se estava por dentro do segmento, quais os principais players,  a resposta foi: não. Perguntei se ela tinha alguma credibilidade além da tradicional nesse segmento, tipo: lançou um livro, tem um blog, dá cursos, ganhou algum prêmio, a resposta também foi negativa.

Meu conselho, no rápido telefonema: comece buscando criar reputação digital e/ou a vender para seus vizinhos, amigos e familiares, de forma física. Crie uma página no Facebook bem simples para mostrar seus produtos (veja esse exemplo). Experimente “ter uma loja” grátis no mercado livre ou no OLX para “brincar”. Se você gostar mesmo, encare um período de estudo, dedicação: comece a ler os sites do assunto, faça cursos, comece a participar de eventos (nesse ponto a primeira referência é E-Commerce Brasil que reúne o melhor time de empresas e profissionais comprometidos em fazer o comércio eletrônico dar certo no país).

Depois fiquei pensando se não fui pessimista ou “negativo” demais. Refleti e cheguei à conclusão de que não, afinal, e-commerce tem uma “imagem” de ser algo simples, mas ter um e-commerce que consiga fechar as contas no final do mês é complexo e exige múltiplas competências.

- Negócio – Se você tem um e-commerce de peças de automóveis, precisa entender desse mercado. Se for de mel, precisa saber de alimentação saudável. Se for de roupas, deve entender de moda. Se for de máquinas pesadas, deve entender de engenharia, mercado de construção. Enfim, é preciso conhecer e acompanhar as tendências do segmento que pretende atuar.

- Varejo – Comércio eletrônico é uma atividade de compra e venda. O dono da loja precisa saber escolher o que oferecer, o que comprar, encontrar e qualificar seus fornecedores, definir seu catálogo de produtos, como eles estarão descritos, como serão exibidos. Definir como vai gerenciar o estoque, a entrega, toda a retaguarda do negócio atrás do balcão: o lado da cozinha que ninguém ver.  Do lado de fora (no computador ou smartphone) há um cliente. Para encantar e satisfazer esse cliente cada vez mais exigente é preciso entender de vendas, de atendimento, relacionamento, fidelização, suporte, legislação, tendências, canais, parcerias.  Antes de tudo, quem quer ter e-commerce precisa saber de vendas e varejo.

- Tecnologia – O relacionamento com o cliente, a experiência de compra, o pagamento, o acompanhamento da entrega, o SAC, tudo no e-commerce, necessariamente, é software. Que roda em plataformas de hardware. Por mais que os fornecedores venham cada vez mais tentando fazer lojas amigáveis, que qualquer um possa editar, você vai precisar escolher, decidir, estar permanentemente atualizado. E estar disposto a saber que tudo está em contínua evolução – nesse caso, mais uma vez, não apenas aprender e pronto –  é preciso atualizar-se constantemente.

- Marketing digital – não basta saber de tecnologia. O marketing digital exige todos os conhecimentos do marketing tradicional: branding, quatro pês, campanhas, canais, embalagem, relações públicas, assessoria de imprensa  e incorpora todo um vocabulário e conhecimento do mundo digital: métricas, conversão, SEO, ambientes responsivos, conciliação, design…. Conhecer plataformas e redes – Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat, LinkedIn, YouTube, Vimeo … – e saber quais priorizar, porque e como – e manter essas redes vivas, gerando engajamento constante.

- Logística – Não existe frete grátis. Essa é uma ilusão do consumidor, as questões de logística no comércio eletrônico são muito complexas e vão além da gestão de estoque. Existem os custos de armazenamento e transporte – que podem ser muito complexos pois podemos estar falando de perecíveis, de congelados, de joias, de obras de arte, de geladeiras. Existem os problemas de endereçamento – que se agravam quando o e-commerce começa a atingir as áreas rurais. Sem falar na logística reversa (pelo código do consumidor todo cliente pode devolver um produto comprado – e o custo de devolução desse produto é obrigação do lojista).

- Finanças – vender por meios digitais exige um acompanhamento constante dos preços. E gestão e fluxo de caixa (na maioria das vezes, o prazo entre a compra da mercadoria e o efetivo recebimento da receita é de 60 a 90 dias). Além de que o custo com publicidade e aquisição de clientes no e-commerce é muito alto. E os gigantes são experts nesse tema, acompanham em tempo real as ofertas, o custo dos links patrocinados, fraudes, taxa do cartão, custo de entrega, cashback, remarketing.

- Fiscal – mais recentemente a burocracia estatal vem exigindo do empreendedor uma especialização fiscal, pois a medida do Confaz (o chamado convênio ICMS 93/2015), que divide a tributação de compras pela internet entre os Estados de origem e destino da mercadoria, na prática inviabiliza a venda de produtos entre diferentes estados. A polêmica é grande e a luta contra esse absurdo vem sendo liderada pelo E-CommerceBrasil, ABComm e Sebrae (atualmente uma liminar vem suspendendo a cláusula 9 do Convênio).

- Gestão – conseguir equilibrar todos esses fatores, no tempo que o cliente digital espera exige do empreendedor do comércio eletrônico muita resiliência, dedicação, atenção e força de vontade (maior do que em outros segmentos menos complexos).

Sim, o e-commerce é um segmento que mais cresce no mercado (o aumento foi de 24% em 2015, numa época que outros setores amargaram retração)– e vai continuar crescendo – os principais números estão no infográfico abaixo.

Porém, comércio eletrônico é um terreno para quem está disposto a encontrar um modelo inovador. Não há espaço para mais do mesmo. Feito isso é encarar o desafio de buscar equilibrar essas múltiplas competências, formando um time. E preparar-se para ralar muito. Já tinha escrito sobre isso em 2014, e volto a repetir: e-commerce não é fácil. Não se iluda achando que é mais é mais barato ter uma loja virtual do que física (dê uma olhada nessas estimativas de custos atualizadas para criação e manutenção de uma loja online). Mesmo que seja um caminho sem volta (os consumidores querem cada vez mais comprar online), ter uma loja online lucrativa exige do empreendedor muito mais que boas intenções – é preciso identificar um modelo que seja realmente inovador e persegui-lo com muita dedicação.

Menta90 (Marcelo Pimenta) é jornalista, professor de inovação da pós-graduação da ESPM e fundador do Laboratorium. Escreve às segundas no Blog do Empreendedor. Para acessar outros conteúdos, acesse www.mentalidades.com.br

Pensando em empreender para mudar o mundo? Deveria conhecer o PIPE da FAPESP.

26 de fevereiro de 2016

Um milhão e duzentos mil reais (ou até um pouco mais) é o valor que você pode conseguir da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo para transformar sua ideia de inovação em um negócio bem sucedido. E este dinheiro não é empréstimo. É uma subvenção, ou seja, um recurso não reembolsável. Ou de forma mais simples: É dado! Não precisa devolver. Não precisa deixar nada em garantia. E não há nenhuma pegadinha… Tem interesse?

Se sim, deveria conhecer a história da Danielle Brants. Nascida em 1984, se formou em administração de empresas aos 22 anos e foi trabalhar no mercado financeiro. Ficou cerca de seis anos na área trabalhando em banco, empresa de investimentos e consultoria financeira. Mas aquilo ali não a realizava pessoalmente. Trabalhar com dinheiro para simplesmente gerar mais dinheiro era algo que passou a questionar com o tempo. Carreira não era simplesmente ralar pelo salário no final do mês e promoção de vez em quando, ainda por algo tão abstrato quando o setor financeiro. Já aos 27 anos, queria ir para a economia real e se tornou diretora de novos negócios de uma empresa bem real, a General Electric. Buscava novos negócios em energias renováveis e transportes em toda a América Latina. Agora conseguia ver resultados bem tangíveis do seu trabalho, afinal só uma única torre de energia eólica tem quase 100 metros de altura e mais de 800 toneladas. Era tão grande que qualquer pessoa sumia em um parque eólico. Mas a enormidade de tudo também a incomoda. Só no Brasil, sua empresa tinha mais de 10 mil funcionários e passava boa parte do seu trabalho fazendo relatórios, planilhas e apresentação. É preciso ser muito alienado para se sentir realizado só fazendo isso. A vida é bem mais do que só word, powerpoint e excel. Havia um mundo lá fora e isto a incomodava cada vez mais. Aos 30 anos, mesmo tendo um cargo tão alto, pediu demissão para tentar encontrar seu verdadeiro lugar no mundo. Seus amigos se preocupavam e perguntavam para onde ela ia, e a Danielle simplesmente dizia que não ia para lugar algum. Mas ela colocou uma meta para si mesma: Iria conversar com uma pessoa nova todos os dias que estivesse fazendo algo novo.

Entre um bate-papo e outro, conheceu jovens empreendedores que estavam lidando com um dos mais nobres desafios: a educação de crianças e adolescentes. E passou a se questionar por que as crianças do Século XXI estão fazendo em escolas do Século XIX?

Para entender quais são os novos caminhos da educação, procurou a melhor escola do mundo e se inscreveu na Escola de Educação de Harvard. Na volta, fundou a Guten News: inicialmente um jornal eletrônico para crianças. Ela queria incentivar a leitura e ao mesmo tempo incluir a criança no mundo atual. Em vez de ficar evitando fatos “que não eram para crianças”, ela se propunha a mostrar o fato, mas com uma linguagem mais adequada. Escolas que realmente formavam pessoas para o mundo em que vivemos e pais que não queriam criar seus filhos em bolhas fictícias de proteção adoraram a solução e o negócio evoluiu.

Apesar da boa aceitação do seu produto, ela queria mais porque sabia que as crianças aprendiam de formas e ritmos diferentes. Lendo um artigo científico, descobriu um grupo de pesquisadores de Linguística Computacional da USP de São Carlos e se mandou para lá para entender como poderiam trabalhar juntos em um projeto de aprendizagem adaptativa de leitura para crianças. Da reunião nasceu uma amizade com os pesquisadores, da amizade veio a parceria e da parceria surgiu o projeto “Personalização da leitura por meio de ferramentas de classificação automática de complexidade e adaptação textual: leitura em níveis crescentes de dificuldade para alunos do ensino fundamental” que tem recebido apoio financeiro da FAPESP por meio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE).

No PIPE é possível solicitar o recurso mesmo que ainda não tenha uma empresa formada. Se já tiver uma, empresas sediadas no Estado de São Paulo com até 250 funcionários podem se candidatar. A ideia do negócio precisa ter estar associado a um problema científico ou tecnológico, mas não é preciso ter mestrado ou doutorado para pedir o apoio. Basta mostrar competência técnica por meio da constatação da realização de projetos similares anteriores. Na primeira fase, que dura até nove meses, é possível solicitar até R$ 200 mil para realizar o que a FAPESP chama de viabilidade técnico-científica, reforçando que sempre haverá riscos no projeto. Neste caso, é preciso desenvolver, pelo menos, um protótipo funcional demonstrando sua eficácia. Após isto ou caso já tenha algo demonstrado, é possível solicitar o recurso para a segunda fase cujo aporte pode chegar a até R$ 1 milhão e durar até 24 meses.

Visite a página do PIPE na FAPESP caso tenha interesse. Procure conhecer os projetos aprovados na sua área de conhecimento. E participe do próximo encontro com a FAPESP que ocorrerá no dia 28 de março para tirar suas dúvidas.

Quanto a Danielle… Bom, ela recebeu o prêmio Inovadores abaixo dos 35 anos do MIT, está na lista dos 10 empreendedores para serem observados em 2016, foi selecionada pela Artemísia Negócios Sociais e vem sendo apoiada Omidyar Network, criada pelo Pierre Omidyar, fundador do eBay.

Banco para ela, agora só de conhecimento. Usinas, só de talentos. 10 mil, só se for de crianças lendo mais e melhor.  E para realmente mudar o mundo, vale o conselho que ela própria recebeu e seguiu: Rume para o futuro que deseja construir e queime a ponte com o seu passado. Não olhe pra trás!

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper, Diretor de Empreendedorismo da FIAP e Coordenador Adjunto de Pesquisa para Inovação da FAPESP.

O pequeno e o grande empreendedor podem compartilhar a mesma cultura

25 de fevereiro de 2016

 

Diariamente nos deparamos com toneladas (literalmente) de desafios na vida empreendedora. Os imprevistos e contratempos são uma constante tão intensa que, se não tivermos um objetivo bem definido (pessoal e empresarial), corremos o risco de nos afogar numa poça de água antes de conseguir avistar a saída.

O que quero dizer é que uma visão bem clara e simples de futuro – ou “sonho grande” – é fundamental para ir além do próprio nariz e nos ajuda a colocar os problemas diários na devida perspectiva e significância. E assim resolver o que quer que seja, com a menor perda de tempo e energia possível.

Acredito que a qualidade da equipe, das pessoas e, em definitivo, da empresa, é nada mais do que a média de quem faz parte. Sócios, funcionários, fornecedores, vizinhos e clientes. Todos contribuímos para que a média de vida da empresa suba ou desça. Por isso a necessidade de sempre melhorar, aprender e rapidamente se adaptar. Queremos ser os melhores sócios, os melhores lideres, os melhores funcionários, os melhores clientes. Procuramos sempre a melhor matéria prima, a melhor máquina, a melhor solução, o melhor produto. E o resultado visível, depois de tantos pequenos esforços de tantas pessoas, é o que nós chamamos finalmente de “nossa empresa”.

Assisti há alguns anos a uma palestra do Carlos Brito, CEO da ABInBev que me marcou muito na época. Foi importante para fortalecer e unificar minhas crenças de gestão e me ajudou a organizar melhor o sistema de trabalho que hoje praticamos. Revisando minhas anotações feitas na ocasião, percebo que passaram os anos e esses conceitos não apenas tiveram uma influência profunda, como a cada dia fazem mais sentido para todos nós no Pastificio PRIMO, e assim construímos uma cultura de trabalho que busca “o sonho”.

Não leia se você não gosta de trabalho duro.

Foco. Foco! Manter poucos objetivos, mas com grande intensidade. Estar focado é realmente importante para não se perder no caminho, das tantas tentações e pressões. Escolher poucos objetivos, não dá para tomar conta de muitos. O foco dá uma clareza na empresa toda, todos se alinham e a sinergia acontece. Foco no resultado, caso contrário a empresa morre.

Senso de urgência. É agora, é hoje, já. A cada segundo tem consumidores tomando decisões de compra, escolhendo este ou aquele produto. Seja nossa empresa ou a concorrência, melhor que seja nossa empresa! Não deixa para amanhã o que pode ser feito hoje! Como disse Mestre Yoda: Faça, ou não. Tentativa não há.

Capacidade de se indignar. Nunca ficar conformado com o resultado ruim. Isso não é normal. Precisamos sentir que o resultado ruim incomoda, que ninguém seja indiferente ao que está errado, que ações sejam geradas para contra-atacar os resultados ruins e gerar resultados melhores.

Gostar do trabalho. Procurar fazer aquilo que se gosta, pois a vida profissional e pessoal estão cada vez mais ligadas, e são necessárias muitas horas de dedicação ao trabalho para realmente fazer algo de destaque, algo que seja relevante na vida, no mercado e no futuro. De novo, precisa haver um sonho para “chegar lá”. Cada um tem suas metas e objetivos pessoais a alcançar. Quanto mais claro estiver o sonho da pessoa, mais rápido ela compreende o que é necessário para alcança-lo e mais fácil trabalhar com satisfação.

Ser o dono da empresa. Cada pessoa que trabalha na empresa é, ao final das contas, um dono. Em especial os líderes, que são fonte de inspiração propagando nas equopes o senso de cuidado e propriedade, de responsabilidades. Não são todos que entendem a sutileza, mas queremos justamente esses poucos trabalhando conosco. É um estilo de vida de maior comprometimento para aqueles que percebem que a empresa é um forte canal para realizar sonhos, sejam pessoais ou profissionais. A empresa não é o destino, e sim o trem que nos leva mais perto de nosso sonho.

A execução é fundamental. Às vezes temos uma ideia brilhante e uma execução pobre. É terrível. Muito melhor o contrário: uma ideia não tão boa, mas uma execução brilhante. Pronto. A execução muitas vezes é relegada a segundo plano, o que é um grande erro, e geralmente um grande desperdício de dinheiro. Quem fez o plano tem que estar na linha de frente defendendo a execução, nunca de uma sala fechada através de relatórios de terceiros. Simples assim.

Justiça. Tratar todos da mesma forma é injusto. É importante tratar diferente às pessoas que são diferentes. Isso inclui premiação e novas oportunidades. As pessoas são remuneradas de acordo com a sua contribuição. Todos têm a mesma oportunidade, mas alguns que se dedicaram e entregaram mais, logicamente merecem ser melhor remunerados.

Gastar a sola do sapato. Vale a pena estar em campo, estar na fábrica, estar na rua, junto com a equipe. Em vez de ficar lendo relatório de uma pessoa que gastou tempo enorme para ver e relatar, melhor é você ir direto na fonte e economiza um intermediário. O olho do dono interpreta coisas de forma diferente, com foco no grande plano. O empreendedor precisa evitar os filtros de outras pessoas falando, tem que ver e ouvir por pessoalmente.

Ter as melhores pessoas. Tudo no mercado é facilmente copiável. Um produto novo em 2 meses o concorrente pode estar fazendo igual. Uma embalagem diferente em pouco tempo todos fazem igual. Quase tudo é altamente temporário. A única coisa que é realmente um valor de longo prazo é ter pessoas talentosas dentro da empresa. E pessoas talentosas somente ficam na empresa se encontrarem um ambiente específico:

1 – Meritocracia: uma cultura que valorize e remunere o resultado, a contribuição. Está muito ligado a ser justo com as pessoas. Aqueles que trazem resultados maiores para a empresa, tenham melhor premiação.

2 – Informalidade: poder dizer o que pensa, ter acesso fácil a todos os que estão acima ou abaixo na hierarquia, poder dar opiniões num ambiente de confiança e respeito, Sentir-se seguro para desenvolver o trabalho e arriscar, ser relevante.

3 – Simplicidade: pessoas inteligentes e talentosas gostam da simplicidade, porque sabem onde querem chegar, com objetividade, sem muita firula, sem desperdício de energia. E, por outro lado, fica o alerta: pessoas que fazem as coisas de um jeito que só elas entendem, complicado, terminam por esconder uma ineficiência e uma falta de talento para o jogo. Um verdadeiro talento numa organização, numa empreitada ou numa empresa é transformar uma coisa muito complicada em algo simples a que todos tenham acesso.

Sonhar grande, como sempre diz Jorge Paulo Lemann. Dá o mesmo trabalho sonhar grande do que pequeno. Claro que o sonho precisa ser baseado em algum planejamento, em conhecimento, em talento. Dá pra imaginar uns 60% de como chegar lá e os demais 40% vai ser descoberto na medida que vai andando e ajustado com os diversos tropeços e aprendizados. Mãos na massa!

Afinal, poucas pessoas gostam de trabalhar assim, mas os que gostam, são dos nossos. E são essas pessoas que nos interessam como colegas de trabalho. E é por elas que dedicamos nosso esforço de criar u ambiente de crescimento e desafios, de remuneração crescente, que é o que atrai e mantém os talentos na casa. É um sistema que não é bom nem ruim, apenas funciona para esse grupo de pessoas que tem sonhos a realizar.

Ivan Primo Bornes – fundador do Pastificio Primo
“Faço questão de homenagear a equipe que iniciou comigo o Pastificio Primo em 2010.Época de tantas incertezas e dificuldades. O que esta escrito aqui é tudo o que aprendemos juntos. Trabalho firme, foco, objetividade, qualidade.Joy, Kelly, Naldo, Michelle, Iracy, Claudete, Lurdete e eu começamos nosso “sonho grande” em janeiro de 2010. Desta equipe inicial, 6 seguem firmes junto comigo na construção do sonho de cada um.A empresa é o trem que nos leva em direção as nossas realizações pessoais e profissionais.

 

Florença nos inspira para o novo Renascimento

23 de fevereiro de 2016

Menta90 (Marcelo Pimenta) é jornalista, professor de inovação da pós-graduação da ESPM e fundador do Laboratorium. Escreve às segundas no Blog do Empreendedor. Para acessar outros conteúdos, curta aqui.

A primeira vez que fui a Florença faz uns 10 anos. Fui como ‘turista de 1ª viagem’, sem saber muito o que encontrar.  Encantei-me com a cidade e comecei a pesquisar mais sobre sua arquitetura, sobre a história de seus moradores ilustres – buscando entender sua contribuição para a humanidade.

Talvez seja importante contextualizar que o apogeu de Florença como cidade mais importante do mundo ocidental (título que já tinha sido de Atenas, Roma, Istambul …) acontece entre 1400 e 1500, logo após a peste negra, como ficou conhecido o surto de peste bubônica que invadiu a Europa, através dos ratos que vieram infectados do Oriente, e acabou dizimando mais da metade dos seus habitantes.

A grande diferença dessa, em comparação com as demais doenças, foi o fato dela não distinguir ricos e pobres, assim como pela rapidez com que infectava e matava os doentes (vem daí a frase que diz que os atingidos “almoçavam com seus amigos e jantavam com seus ancestrais no paraíso”). Para além das causas científicas, a igreja aproveitou a peste para dar ainda mais força à inquisição e justificar que a doença era, de fato, um castigo.Nesse período, acontecia uma enorme transformação nas artes, nas ciências, na arquitetura, na política e nos negócios, que agitava a capital da Toscana e viria a repercutir para sempre, com o surgimento do humanismo, filosofia que trouxe o homem para o centro do conhecimento.

Atravessar a Ponte Vecchio e cruzar o Rio Arno – um ato de coragem daqueles que tiveram a garra de empreender o Renascimento das artes, da ciência e do pensamento ocidental

 

Quem ajuda a entender os motivos de tanta efervescência no pensamento ocidental na Florença desse período – e sua contribuição para a inovação nos negócios – é o americano Frans Johansson, no livro  “O Efeito Medici: Como realizar descobertas revolucionárias na intersecção de ideias, conceitos e culturas”. O Autor destaca a importância dos Medici como financiadores e patrocinadores dessas inovações (esse livro faz parte da lista que elaborei dos dez livros mais importantes para entender o novo contexto dos negócios). Ele evidencia como o poder da combinação entre diferentes formas de ver o mundo propiciou uma das mais importantes explosões de arte, cultura e ciência na história da humanidade – o Renascimento.  Johansson mostra que combinar elementos é uma das melhores maneiras de gerar ideias notáveis, surpreendentes e revolucionárias.

Detalhe do teto do Salão dos Quinhentos, no Palazzo Vecchio

Programei uma nova visita à cidade, dessa vez para rever,  conferir de perto, “com olhar empreendedor”,  alguns marcos da nossa sociedade “contemporânea”. Dentre eles o Palazzo Vecchio, que recebeu grande parte das obras mais importantes do período, incluindo aí o Salão dos 500, onde Giorgio Vasari coordenou o trabalho de vários artistas para criar um dos ambientes mais incríveis do mundo, formado por 42 painéis ricamente ilustrados de forma “inovadora” – dando as pistas do estilo que mais tarde ficou conhecido como Renascentista. O salão volta a ser de extrema importância por volta do ano de 1865, quando as diferentes cidades italianas decidem realizar nele a assembleia que unifica o país e cria o Reino da Itália (tendo Florença como sua capital) e mais recentemente é palco do thriller de ficção “Inferno”, best-seller do americano Dan Brown. Outro local que visitei foi a Galleria dell’Academia, que abriga a escultura mais famosa do mundo: Davi, de Michelangelo. Mostra também suas obras inacabadas – que são um espetáculo à parte pois, por ficarem incompletas (Michelangelo desistiu do serviço que tinha sido contratado pelo Papa Júlio II),  servem como comprovação da genialidade deste artista florentino que consegue dar “vida” a blocos de pedra (como é possível conferir na foto abaixo).

Um dos blocos de concreto com escultura inacabada de Michelangelo, onde os corpos parecem “saltar” do mármore. O Renascimento tem um legado que é único na história da humanidade

Para finalizar, quero destacar uma das construções desse período, símbolo do empreendedorismo da cidade nesse período: o Duomo – a cúpula da catedral Santa Maria del Fiore. A construção da igreja vinha recebendo diferentes obras de expansão e o salão principal precisava de um teto que demonstrasse toda a vanguarda de Florença na engenharia. O encarregado da tarefa, Filippo Brunelleschi, venceu uma espécie de concurso propondo uma grande inovação – construir a estrutura sem as tradicionais vigas de apoio. Não havia tecnologia disponível, por isso Brunelleschi dedicou mais de 30 anos entre pesquisa e desenvolvimento de uma forma revolucionária de construir com uma técnica usada até hoje – conhecida como espinha de peixe – onde os tijolos são dispostos lado a lado, um na horizontal e outro na vertical, fazendo com que a tensão causada pelo peso da estrutura seja responsável pela sua sustentação. Brunelleschi venceu inúmeros outros desafios como a construção de guindastes – tanto horizontais quanto verticais – que permitiram não só que o material pudesse chegar no alto da igreja, como as pesadas vigas pudessem ser precisamente posicionadas na primeira cúpula octogonal da história. Ele também é reconhecido por ter colocado em prática o conceito de “ponto de fuga” uma grande contribuição à arquitetura – permitindo que se projetasse em perspectiva o que se iria construir, algo até então inédito.

O Duomo da catedral de Florença revolucionou a engenharia com técnicas de construção que são usadas até hoje

Soma-se a ambição e o desejo de superar o fantasma da peste com a visão estratégica dos detentores do capital e a tolerância ao “erro” e a pesquisa. Mais a competência de Leonardo da Vinci, Michelangelo, Dante Aleghieri, Burlleneschi, que tiveram, além de talento,  MUITO ESFORÇO E DEDICAÇÃO. Ouviram muitos nãos. Tiveram que construir novos argumentos, melhorar suas propostas, dedicarem-se mais que os outros artistas do mesmo atelier. Na escola de artes de Florença cada mestre tinha cerca de 20 aprendizes. Quantos ficaram para a história?  O Davi levou três anos para ser esculpido. A Capela Sistina (que fica no Vaticano) outros três anos. A Monalisa levou quatro anos do seu início até sua exposição pública.Como nos inspirar em Florença e provocarmos também um Novo Renascimento? Como sair das trevas da intolerância? Perceber que a crise é resultado de transformações que são incontroláveis. A economia colaborativa coloca em cheque os modelos tradicionais. Os bancos estão assustados tentando entender a revolução Fintech, um mercado em ebulição, incluindo o Brasil, onde em 22-02-2016 a Moip, empresa brasileira de meios de pagamento digitais, é comprada pela alemã Wirecard (maior emissora de cartões Mastercard a Europa). Em fevereiro, no dia do Forum NetExplo 2016, em Paris, estava sendo distribuído o jornal de economia Les Echos. A capa do dia 10 de fevereiro (foto abaixo) fala do retorno da crise financeira às bolsas. E anuncia que o valor dos bancos europeus perderam 27% de valor desde a virada do ano.

A robótica, os aplicativos, o poder das redes, a realidade virtual, a inteligência artificial, a internet são as novas tintas, pigmentos, mármores, engrenagens, cordas, roldanas, enfim, instrumentos e matéria-prima que a sociedade Florentina usou para Renascer. A crise do capitalismo e dos valores são a nova peste. Precisamos usar nossa criatividade, nos permitir um novo olhar sobre o que existe,  combinar diferentes conhecimentos existentes, criar novas tecnologias, soluções – esse é o caminho favorável à inovação. E as ruas de Florença apinhadas de turistas comprovam que essa receita pode gerar resultados que duram por séculos. Aqueles que tiveram a coragem de atravessar o rio Arno e empreender o espírito revolucionário do Renascimento deixaram sua marca na história. Podemos “aproveitar” a crise e fazer o mesmo: combinar ideias, experimentar o novo, contribuindo para o renascimento da prosperidade dos negócios.

 

 

Decorar e prova: O que crianças do Século XXI estão fazendo em escolas do Século XIX?

19 de fevereiro de 2016

“Não deveríamos ensinar nada que o aluno pudesse aprender com o Google”- diz Eric Mazur, professor de Harvard. Vishal Sikka, CEO da Infosys, umas das maiores empresas de tecnologia do mundo foi além, durante sua participação no World Economic Forum: “A sala de aula atual, frequentemente, opera da mesma forma de quando os agricultores compunham a maioria da sociedade, quando memorizar era mais valorizado do que a curiosidade e a experimentação, quando apresentar a resposta certa tinha mais peso do que aprender por meio de fracassos e erros”. E complementa: “Muitos dos nossos sistemas evoluíram além daquilo que tínhamos imaginado, mesmo há dez anos. E ainda insistimos em um sistema educacional construído há 300 anos.” Mazur complementa: “Na sala de aula, existe uma pessoa falando em frente aos alunos, que anotam tudo o que ele diz… e os professores estão satisfeitos em ser o centro das atenções na sala de aula, principalmente porque a maioria deles não se dá conta de quão pouco seus alunos aprendem”.

Para lidar com esta criança e adolescente já nascido no Século XXI, Sikka defende que a escola abandone o conceito de educação, no sentido de apenas adquirir conhecimentos (quase sempre organizados para passar no vestibular), para adotar o que chamou de “learnability”, algo como capacidade de aprender a aprender. Mazur defende uma abordagem ainda mais interessante, o ensino ativo, em que cada aluno se torna proativo na construção do seu conhecimento, a partir de aprendizagem por pares. Isto, de certa forma, vai de encontro a crescente demanda de autonomia, mas também pela nova mentalidade líquida destes jovens. Na mentalidade líquida para que decorar se você pode acessar rapidamente a informação?

Daí, o constante desafio encontrar o que não pode ser aprendido com o Google? No World Economic Forum também foram discutidas quais são as habilidades que serão cada vez mais demandadas no futuro e capacidade de resolução de problemas complexos lidera a lista, seguido de pensamento crítico, criatividade, e de outras como inteligência emocional e flexibilidade cognitiva, em resumo, habilidades e capacidades típicas dos empreendedores.

Estas novas demandas representam novos desafios para as escolas, porque a partir da capacidade de resolver problemas complexos, por exemplo, ficaria mais interessante discutir a crise hídrica em São Paulo em uma aula de soluções para os desafios atuais e não parcializada (e decorada) nas provas de biologia, química e geografia. E o debate sobre Tiradentes e sua incrível semelhança com Jesus Cristo ficaria mais curioso a partir do desenvolvimento do pensamento crítico junto com as aulas de história e o impacto da comunicação nas pessoas.

Formar crianças e jovens mais empreendedores não deve estar associado (como algumas escolas estão fazendo) a criação de novos negócios, mas ao entendimento dos novos desafios do mundo e ao desenvolvimento de soluções inovadoras, pois é assim que se prepara alguém para um amanhã que ainda será construído. Afinal, não dá para decorar o que vai cair na prova do futuro de cada pessoa!

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper e diretor de Empreendedorismo da FIAP

Sobre restaurantes e seus donos

18 de fevereiro de 2016

Acabei de ler o livro de Joe Bastianich – notório empreendedor de restaurantes estrelados nos Estados Unidos – chamado Restaurant Man.  Ele é um dos donos do Eataly, além de alguns dos restaurantes mais elogiados do mundo, como o Babbo, Del Posto e outros.  Como meu negócio é gastronomia, confesso que encontrei no livro muitas situações nas quais me identifiquei, que já passei em algum momento e outras tantas que espero não passar jamais.

Também foi uma oportunidade de conhecer um pouco mais desse sujeito polêmico – um terço italiano, um terço americano e um terço prepotente. Pois o livro é uma sequência verborrágica de palavrões e autopromoção no qual ele conta a sua jornada e de como “conquistou o mundo”. O cara fala mal de mulheres, de ex-sócios, de judeus, de fornecedores, dos garçons, de concorrentes e clientes.Nem a família escapa de sua metralhadora giratória.

Mesmo no meio de tanto ego, como tudo nessa vida, sempre podemos tirar algumas lições do livro.

A primeira delas, pra mim, seria algo do tipo: jamais me comportar igual a esse falastrão arrogante chamado Joe Bastianich, que “se acha”. Eu sempre desconfio que casos assim devem ser algum problema de auto estima mal resolvida, né?

A segunda lição, evidente pelos empreendimentos badalados de Joe, é que o sucesso de um negócio não depende de você ser uma pessoa bacana: o importante é ser eficiente, conseguir vencer os desafios que aparecem todos os dias e de todo lado. Ponto para o canalha.

A terceira lição, que aparece ao longo de todo o livro, é uma verdade sempre presente em todo empreendedor: a arrogância de acreditar nos instintos, na visão de negócio, insistir até dar certo, contra tudo e contra todos. Remar contra a corrente, ser diferente, ser excelente. Sem dúvida que apenas poucos chegam ao sucesso nos negócios e apenas pouquíssimos entre os poucos é que se destacam na gastronomia de sucesso e qualidade. Mais um ponto.

As demais lições presentes no livro de Joe também podem ser úteis a qualquer pessoa interessada em empreender – e não apenas na gastronomia. Em diversos momentos aparecem exemplos práticos de problemas com o fluxo de caixa nos empreendimentos, na gestão de pessoas, nos problemas societários. Problemas recorrentes a qualquer empreendedor, em qualquer negócio, em qualquer época. A coragem com que ele conta as dificuldades faz surgir uma leve empatia.

Alguns trechos:

“A maioria das pessoas que abre um restaurante falha porque não tem o conhecimento básico da matemática. Ou pensam que são chefs celebridades ou acham que são anfitriões maravilhosos.”

“Se pretende contar com seus amigos para abrir um restaurante, você estará ferrado.”

“As habilidades de um maître são as mesmas de uma prostituta: estão ali para agradar os clientes, fazê-los entrar, fazê-los se sentir como se fossem únicos e tirar deles o máximo de dinheiro que puderem.”

“Fashionistas são uma droga. A maioria das pessoas do mundo da moda não estão nem aí para o que fazemos, elas praticamente não comem mesmo.”

“As pessoas mais velhas tendem a achar que restaurantes estão ali para servi-las e que qualquer funcionário de lá está abaixo delas. Essas pessoas são babacas.”

Depois da leitura fiquei com a impressão de que todos os caminhos de empreender levam a Roma, mas o bom é que podemos escolher a companhia. Ivan

Primo Bornes – fundador do Pastificio Primo, leva a vida vivendo e aprendendo.

 

Três inspirações para inovar (direto de Milão)

15 de fevereiro de 2016

Menta90 (Marcelo Pimenta) é jornalista, professor de inovação da pós-graduação da ESPM e fundador do Laboratorium. Escreve às segundas no Blog do Empreendedor. Para acessar outros conteúdos, curta aqui.

Depois de participar do NetExplo, em Paris, tirei uns dias de férias e meu primeiro destino foi Milão. De lá trago três ideias que podem lhe inspirar para inovar.

1. Techno Souq

Como criar um novo espaço de interação usando criatividade, arte e um apelo ecológico? Foi isso que o escritório de design Cibicworkshop fez por ocasião da EXPO 2015 no centro de Milão. A obra, criada por encomenda da loja “Il Renascente”, buscava melhor ocupar a via Santa Radegonda, no centro de Milão. A proposta foi criar um grande lounge a partir de uma instalação artística gigante.  Além de embelezar a cidade, a intervenção urbana criou um novo espaço público que abriga eventos, manifestações culturais, bate papos educativos e o que mais a imaginação permitir. E o mais bacana: as tendas foram construídas em formato de funil, fazendo com que a água da chuva seja captada para irrigar as plantas do local. E você, que espaços desocupados poderia ocupar para incrementar seu negócio e deixar a cidade mais humana e bonita?

2. PolentOne

Em tempos de food-truck e de gourmetização de tudo, descobri a PolentOne, primeira loja especializada em polenta do mundo. Uma franquia que nasceu a partir de um antigo negócio familiar, em Bergamo, e que hoje cresce não só na Itália, mas também em outros países (já tem loja até na Rússia).

Provei e aprovei! E fiquei pensando: com tanta diversidade de ingredientes e receitas que essa miscigenação brasileira nos proporciona, quantos produtos além das já manjadas lojas de brigadeiros e paletas poderemos criar?

3. Fillico La Bella Vita Pegaso

Como é possível agregar valor a um produto tão comum como, por exemplo, água? A resposta que a “Aqcua di Lusso” encontrou foi incrementar o design das embalagens. Mas, não apenas “dar uma melhoradinha” e sim criar objetos que são verdadeiras obras de arte (e de desejo dos consumidores), como esta que você vê na foto abaixo.

Sabe quanto custa? 280,00 Euros! Isso mesmo, em câmbio de hoje, cerca de R$ 1.260,00 por menos de um litro (são exatamente 720 mililitros) não de uísque, perfume ou qualquer líquido “nobre”, mas sim de água (no caso, a água que corre no sopé do Monte Rokko, na província de Kobe, no Japão – muito famosa porque é utilizada para a produção da melhor Saquê Japonês). Caso você esteja interessado em comprar essa “obra de arte” está disponível online aqui.  Como essa ideia pode lhe inspirar a criar embalagens que pudessem ser colecionáveis ou que se tornassem objeto de desejo dos clientes?

Nada para uma grande inovação disruptiva. Nem os vendedores, juízes ou taxistas.

12 de fevereiro de 2016

John Patterson achava que tinha encontrado um produto que seria uma mina de dinheiro quando decidiu comprar o negócio de James Ritty em 1884. Ritty tinha inventado a caixa registradora, mas depois de cinco anos tentando vendê-la para lojas, bares e restaurantes, só algumas poucas unidades tinham sido comercializadas. E mesmo estas poucas davam mais dor de cabeça para Ritty do que lucros, pois quebravam o tempo todo.  Desapontado, vendeu tudo para Patterson e seu irmão.

Os Pattersons sabiam que tinham uma grande inovação nas mãos. Só não contavam que seus concorrentes mais sórdidos estavam justamente dentro das lojas dos seus clientes. Antes da caixa registradora, os vendedores comercializam os itens, recebiam o dinheiro e, esperava-se, que registrassem a venda em um bloco de anotações. O dono do negócio então fechava o movimento do dia que constava no bloco e conferia se o dinheiro que tinha entrado no caixa batia com o resultado que tinha calculado. E, quase sempre, a conta batia. Então por que precisaria de uma caixa registradora? E que ainda quebram o tempo todo.

Mas os Pattersons descobriram a causa de tantas quebras. Alguns vendedores costumavam não registrar algumas vendas no caderno, embolsando o pagamento recebido. Diante da obrigatoriedade de ter que usar a caixa registradora, eles simplesmente sabotavam os equipamentos fazendo com que quebrassem com frequência.

Para mostrar a fragilidade das anotações manuais, a facilidade de embolsar parte das vendas e as técnicas de sabotagem dos vendedores, os Pattersons inauguram um processo de comercialização que é padrão atualmente: Os congressos de vendas realizados em hotéis. Nestes eventos, os próprios donos dos estabelecimentos comerciais encenavam diferentes papéis: Ora como cliente, ora como vendedor esperto e finalmente como ele próprio, um dono de negócio com vários “sócios” ocultos. Só assim, longe dos seus funcionários, é percebiam o real valor daquela inovação.

Por mais que alguns vendedores ainda tentassem danificar as caixas registradoras, o valor daquela inovação do final do Século XIX para os comerciantes já tinha sido demonstrado e mais nada parou sua adoção mundo afora.

Cento e vinte e cinco anos depois, um juiz brasileiro (legalmente amparado, para deixar claro) pediu o bloqueio do Whatsapp, deixando quase 100 milhões de brasileiros e outros milhões ao redor do mundo à beira da loucura social. Como se comunicariam com as outras pessoas? Manda um torpedo! – sugere alguém. Torpedo? O que é isso? – pergunta o outro. Até que alguma pessoa lembra do Telegram. E, de repente, milhões que nunca enviaram um telegrama na vida, estão baixando o aplicativo “tipo Whatsapp” ou criando VPN para ter o acesso ao seu aplicativo preferido de volta. O bloqueio era de 48 horas, mas só durou poucas horas diante de tanta repercussão mundial.

E se um juiz não conseguiu barrar uma grande inovação, por que um grupo de taxistas conseguiria barrar o Uber na base da pancaria? Por mais que tenham a regulamentação do seu lado, nada para o avanço de uma inovação disruptiva desejada por quem usa e paga por isto.

Mas o que poucos percebem é que não são as grandes tecnologias que fazem realmente a diferença. O que tem impacto mesmo é como elas mudam as relações entre as pessoas. A caixa registradora só se tornou realmente eficiente quando um sino soava a cada transação incluída. Este som era o sinal que matinha o dono do negócio sempre alerta. E o som do Whatsapp também tem o mesmo objetivo de manter as pessoas em alerta para alguma demanda da sua rede de contatos mais próxima. E é o sentimento de alerta dos motoristas do Uber que faz realmente a diferença: bem vestidos, veículos novos e limpos, ar condicionado e música de acordo com o gosto do cliente, água (gelada em alguns casos) e outras regalias.

Nenhuma inovação disruptiva pode ser mais parada com sabotagens, canetadas ou pancadaria. Uma inovação só é barrada por outra, ainda melhor.

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper e diretor de Empreendedorismo da FIAP

Bio-makers, emancipação de robôs e aumento da confiança digital são destaques do NetExplo 2016

11 de fevereiro de 2016

Marcelo Pimenta (menta90) é professor de inovação da ESPM e representa o Brasil no Conselho Acadêmico da NetExplo. Para saber mais curta http://facebook.com/menta90


Quais as novidades tecnológicas de maior impacto em todo o mundo no último ano? Responder essa questão é o desafio que o NetExplo (organismo independente, com suporte da Unesco) busca fazer, anualmente, com o apoio de professores e estudantes de 17 países (dentre eles China, Israel, África do Sul, Inglaterra, Chile, Bélgica…).  Desde 2014 tenho a honra de representar o Brasil nesse seleto grupo. Meus alunos da pós-graduação em marketing digital da ESPM são estimulados, junto com alunos desses países, a identificar as tecnologias digitais que tem o maior potencial de mudar o mundo – e afetar a sociedade. No ano passado foram mapeadas 2.175 tecnologias, analisadas por especialistas com diferentes competências. O resultado foi apresentado no Fórum NetExplo, que  aconteceu nessa quarta-feira, 10 de fevereiro, em Paris.

As principais inovações de 2015 foram organizadas em três grupos:

- Iniciativas bio-maker (incluindo todas aquelas que surgem da intersecção da internet das coisas com a biotecnologia);

- Tecnologias que visam o aumento da segurança e confiança digital;

- Projetos que trabalham pela emancipação dos robôs.

Designer colombiano Carlos Torres discursa como vencedor do NetExplo 2016

O grande vencedor do NetExplo 2016 vem do grupo das inovações do movimento bio-maker:  IKO, um sistema protético criado pelo designer colombiano Carlos Torres, que ajuda crianças com os braços malformados ou feridos a recuperarem a autoestima e os movimentos usando uma prótese modular com a qual podem brincar. O projeto usa braços e mãos compatíveis com peças de Lego. As crianças podem personalizá-los escolhendo diferentes formas, cores e acessórios (e fugindo daquele estereótipo de próteses feias, grandes). Um exemplo de como a tecnologia, aliada a criatividade e a imaginação, podem ajudar crianças a superar uma desvantagem. O vídeo (em inglês) está aqui.

Crianças recuperam movimentos e vencem o preconceito brincando

Uma nação, uma conversa  - projeto liderado pela startup Aweza e apoiado por várias instituições sul-africanas – faz parte do grupo de inovações que buscam aumentar a utilidade e a confiabilidade das tecnologias digitais. Como nem sempre é fácil o entendimento entre a população que vive em um pais com 11 línguas oficiais, Aweza é um aplicativo de tradução móvel que torna o diálogo muito mais acessível. Usando crowdsourcing e técnicas de gamificação, o projeto incentiva voluntários a gravar a sua própria pronúncia de palavras e frases. O resultado não é apenas uma ferramenta útil, mas um banco de dados criado por uma multidão de voluntários. E vem mudando a vida de milhões de pessoas, principalmente na saúde e na educação. Veja o vídeo (em inglês)

Aplicativo elimina barreiras entre dialetos na África do Sul

Vem da Noruega o destaque do grupo dos robôs inteligentes. Pesquisadores da Universidade de Oslo desenvolveram um robô que é capaz de aprender com os erros, adaptar-se ao ambiente em que está inserido, assim como reparar ou criar novas peças para ter uma performance melhor. Ele usa uma impressora 3D integrada para produzir seus próprios componentes, de forma autônoma. A ideia é que o robô possa ser útil tanto para ajudar em resgates de humanos em desastres assim como para explorar lugares inacessíveis (no fundo do mar, cavernas profundas ou ainda outros planetas). Veja o vídeo para entender como ele funciona (em inglês)

Robô imprime partes que necessita para melhor performar

Para conhecer as 10 inovações vencedoras do NetExplo 2016 acesse

As semelhanças de esportistas e empreendedores

11 de fevereiro de 2016

Muitos empreendedores – inclusive eu – tem uma ligação profunda com esportes, ao ponto que isso me faz pensar no quanto o esporte influencia o comportamento empresarial. Não estou falando sobre esportes contemplativos ou relaxantes – muito pelo contrário – me refiro a esportes sacrificantes e desafiadores.

Dizem que a semelhança entre esportistas e empreendedores – na prática do jogo ou dos negócios – está em maximizar os pontos fortes e defender os pontos fracos. O entendimento – mesmo que instintivo – dos pontos fortes faz com que o atleta – e o empreendedor – encontre uma posição única no jogo, na qual podem usar todo esse potencial de valor, ao mesmo tempo que tentam identificar as fragilidades e estabelecem estratégias de defesa.

Eu listo aqui sete semelhanças básicas que percebo entre atletas de alta performance e empreendedores de sucesso:

1. Paixão – a maioria dos empreendedores são movidos por uma paixão pelo seu negócio. É essa força que o mantém trabalhando até tarde da noite, longe da família, aos finais de semana, nos feriados. Assim como o atleta que ama o esporte que pratica e acorda de madrugada para treinar.

2. Tenacidade – quando tudo está indo bem, é fácil ser empresário. Já o verdadeiro empreendedor continua insistindo mesmo quando as coisas estão difíceis, muitas vezes se nega a aceitar a derrota em busca de soluções. O bilionário Abilio Diniz é assumidamente um apaixonado por esportes desde a infância, com especial dedicação às corridas de longa distância e várias maratonas internacionais no currículo. Notório por uma fortuna construída em sucessivas brigas com família, sócios e investidores, a garra e determinação (alguns chamam de obstinação) do Abilio nos negócios sem dúvida são características que combinam com a resistência de conseguir correr os 42 km de uma maratona.

3. Autoconfiança –  o empreendedor tem muito mais propensão a assumir riscos justamente pela confiança de que vai conseguir o resultado que visualizou. Uma vez um amigo me falou que a diferença entre o melhor tenista do mundo e o número 100 do ranking era apenas de autoconfiança. E faz todo sentido para mim.

4. Tolerância ao medo – é assustador assumir riscos, começar um negócio novo, apostar tudo o que se tem em um negócio. O empreendedor deve ser capaz de usar este medo como combustível. Para o atleta, por exemplo, pode ser o medo de treinar por 4 anos e fracassar na Olimpíada. Barreiras que devem ser superadas.

5. Visão – enxergar um caminho possível até o sucesso é uma característica indispensável do empreendedor e do atleta, que mentaliza, antes de cada jogo, a imagem da vitória, o resultado do jogo, como vai conseguir colocar a mão na taça.No Brasil, um exemplo indiscutível de liderança empresarial é o Jorge Paulo Lemann. Ele conta no livro Sonho Grande que quase foi tenista profissional, mas afinal o mundo dos negócios foi mais sedutor. Mesmo assim ele nunca abandonou o esporte, e afirma ter aprendido muitas lições com o tênis, a principal delas foi “aprender a perder”. Dizem os boatos que ele, que já é um senhor de setenta e poucos anos de idade, joga tênis com os amigos sempre para valer, lutando cada ponto.

6. Flexibilidade – ser capaz de fazer mudanças, adaptações e assumir mais responsabilidades ou mais trabalho, são características de um empreendedor e de um atleta.

7. Quebrar as regras – muito já foi dito sobre a necessidade de desafiar as convenções, tentar fazer aquilo que foi dito que nunca seria possível de ser feito. Atletas também adoram quebrar recordes e conquistar o inédito.Um cara que sabe quebrar as regras como ninguém é o inglês Richard Branson, um alucinado por adrenalina, e com diversas anotações no livro de recordes Guiness: conseguiu o recorde de velocidade de travessia do Atlântico em barco em 1985, depois de fracassar várias vezes. Depois foi o primeiro a atravessar o Atlântico de balão em 1986 – ele também tentou fazer a volta ao mundo de balão em vôo único por 3 anos seguidos, mas fracassou. E agora, aos 61 anos de idade (em 2014), foi o homem mais velho a cruzar o canal da Mancha num kitesurf, além de mais um bizarro recorde que é o de maior número de pessoas numa prancha de kitesurfing… com 3 lindas modelos.

Provavelmente você, empreendedor que me lê toda semana, também deve ter seu esporte preferido – caso não, talvez pense em mudar de ideia após a leitura.

Atletas e empreendedores podem usar roupas diferentes no trabalho de cada um, mas encaram o desafio da mesma forma. Mesmo porque negócios e esporte são jogos. Em que se ganhou ou se perde. Não existe meio termo.

Ivan Primo Bornes – fundador do Pastifício Primo, masseiro e esportista.