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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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As perguntas são mais importantes do que as respostas

28 de março de 2014

 

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper e escreve toda sexta-feira

A frase não é minha, mas de ilustres como Voltaire, Peter Drucker e Brian Chesky e Joe Gebbia. Para Voltaire, “um homem deve ser julgado mais pelas suas perguntas do que por suas respostas”. Para Drucker, “o trabalho mais importante e mais difícil não é encontrar a resposta correta, mas fazer a pergunta certa”. Hal Gregersen, professor do Insead explica que as “perguntas são as chaves que abrem portas em nossas vidas e trabalho. O desafio é encontrar a chave certa para a porta correta”.

Há muito tempo concordo com a importância das perguntas. Abro vários dos meus cursos com o emblemático artigo “Qual é o problema?” do consultor Stephen Kanitz. Neste artigo, Kanitz explica que “O maior erro que se pode cometer na vida é procurar soluções certas para os problemas errados.”

Mas se prestou atenção no texto até aqui, ainda pode ter ficado a pergunta: Mas quem são mesmo Brian Chesky e Joe Gebbia? Mais do que perguntar quem são eles, deveríamos prestar atenção nas perguntas que esta dupla se fizeram.

Em 2007, os dois eram jovens designers que moravam em uma boa casa em San Francisco, Califórnia. Mas havia uma pergunta que aparecia todos os meses: “Como vamos pagar o aluguel neste mês?” Ambos eram freelancers e viviam de pequenos trabalhos.

Naquele ano, a cidade iria sediar o International Design Conference e todos os quartos de hotéis da cidade estavam reservados. E os dois começaram a se perguntar: “Por que há tantas pessoas sem conseguir um quarto nos hotéis de San Francisco enquanto há muitas outras que têm espaços livres em suas casas e adorariam ganhar um dinheiro extra? E se nós conectássemos estas duas necessidades?”

Se com estas informações, você “chutou” a resposta e pensou que Chesky e Gebbia fundaram o Airbnb, acertou!

O Airbnb virou uma febre para quem gosta de viajar, se hospedar bem pagando pouco. Todos que usaram o Airbnb têm boas histórias para contar. Ficaram em uma casa frugal na Toscana, em um apartamento aconchegante em Paris ou em espaço minimalista em Tóquio. É claro que outros entraram em furadas, mas estes já escreveram poucas (ou muitas) e boas nas suas revisões sobre o serviço no site do Airbnb.

Mas os que usaram o Airbnb não ficaram sabendo das outras perguntas que seus fundadores se fizeram após a ideia inicial. Algumas dessas perguntas foram: “E se comprássemos três colchões de ar para ampliar nossa capacidade de hospedagem?” “E se preparássemos um café da manhã bem legal para nossos hóspedes?”. E “Por que não chamamos nosso serviço de air bed and breakfast? “.

Como eram designers, se perguntaram: “Por que não criamos nosso próprio site para oferecer o serviço?”. Com o sucesso inicial do serviço, pensaram em montar um negócio já que os turistas em San Francisco enfrentam este problema quase que o ano inteiro. Para o nome da empresa, preferiram reduzir “air bed and breakfast” para apenas Airbnb.

E as perguntas continuaram: “Por que não podemos oferecer este serviço para outros moradores de San Francisco?” , “Por que não oferecer o serviço em outras cidades dos Estados Unidos?”, “O que nos impede de oferecer o serviço em outros países?”.  De pergunta em pergunta a empresa cresceu e atualmente é avaliada em 10 bilhões de dólares.

As perguntas dos fundadores do Airbnb são algumas das centenas apresentadas pelo jornalista Warren Berger em seu livro A More Beautiful Question: The Power of Inquiry to Spark Breakthrough Ideas, lançado neste mês.

Para Berger, todas as pessoas se tornam melhores quando adotam o questionamento como rotina. As principais começam com “por quê?”, seguida de “E se?”. Por fim, vêm as perguntas iniciadas com o “como?”.  Este questionamento é ainda mais poderoso para os empreendedores e líderes de empresas já que influenciam a vida de um número exponencial de outras pessoas, da sociedade e do meio ambiente.

Steve Ballmer foi um dos primeiros funcionários da Microsoft e se tornou um dos principais líderes da empresa ao lado de Bill Gates e Paul Allen. Ele conta que quando contou para seus pais que iria trabalhar em uma empresa fundo-de-quintal, seu pai perguntou “O que era software?”. Mas sua mãe fez uma pergunta poderosíssima que até hoje ele não tem uma resposta definitiva: “Por que alguém precisaria de um computador?”

O poder das perguntas é tão instigador que centenas de empreendedores e executivos vão até as montanhas de Boulder, Colorado, simplesmente para ouvir as perguntas de Jim Collins, autor de vários livros de sucesso como “Feitas para Durar” e “Como as Gigantes Caem”.   Ele mesmo conta que desde começou a ajudar empresas, inicialmente como professor de empreendedorismo na Universidade de Stanford, sabia da importância das perguntas. Como o passar do tempo, ele apenas aprendeu a refinar sua capacidade de questionamento.

As pessoas vão até lá para ouvir perguntas como:

• Por que sua empresa existe?

• E se ela desaparecesse amanhã, o que o mundo perderia?

• Por que você tem as pessoas certas nos lugares certos na sua empresa?

• Como ter as pessoas certas?

• Como exigir o melhor dos seus colaboradores se a empresa não se esforça em ser a melhor do seu segmento?

Termino este artigo assim, com mais perguntas do que respostas. Por quê? Leia o título do artigo : )

O que fazer antes de empreender?

27 de março de 2014

Rafael Mambretti, da Carbono Zero Courier, escreve as quintas

Título vago, não? Mas é proposital, empreender abrange tantas coisas que é extremamente difícil planejar tudo. Hoje, vou escrever sobre um item que aprendi ser deveras importante para fazer antes de empreender.

Semana passada li um artigo na Harvard Business Review, foi sem querer, até então nem fazia ideia que era uma das mais conceituadas revistas de negócios do mundo, como comentou meu sócio ao citar o episódio para ele.

O artigo dizia a importância de se conversar e antes de botar pra fazer, estabelecer “instruções” com relação a participação dos sócios, eventuais entradas de novos, venda de cotas etc. Escrito em cima de dois casos bem interessantes de empresas norte americanas. Li e refleti.

Na Carbono Zero Courier não passamos por situação de discutir participação (ainda), principalmente no começo quando éramos meu irmão e eu, era simples e fácil (50%-50%). A medida que foram surgindo oportunidades de novos entrantes, sentimos a necessidade de se ter conversado e alinhado alguns pontos. Por exemplo: como fica situação dos sócios? O novo entrante participará ativamente ou somente capital? Quanto de tempo dedicará? Responsabilidades de cada um dos sócios a partir das mudanças? Quanto de participação será diluído? Como será a diluição? Vamos oferecer % da empresa para atrair pessoas?

Perde-se muito tempo e, principalmente, energia emocional com esses temas. Tudo que puder ser pré-estabelecido, será economia desses dois importantíssimos itens para nós empreendedores. Vale tudo, desde um email com alguns direcionamentos para quando situações desse tipo surgirem ou até mesmo um acordo mais formal com testemunhas.
Pode não ser tão interessante quanto discutir e planejar ações de marketing, vendas ou desenvolver um produto, mas tá aí um “mal necessário” na vida do empreendedor.

Beleza não se discute. Não? Por que isso mesmo?

26 de março de 2014

Chincho Cabrón, mestre pimenteiro da De Cabrón

Leo Spigariol escreve toda quarta-feira

E por que vivemos em uma sociedade que valoriza tanto algo que parece ser tão indiscutível? A beleza é algo cultural. E isso vem desde que nos conhecemos por gente, lá atrás, quando nossa única preocupação era caçar o que comer. As mulheres buscavam homens que, de alguma forma, trouxessem a segurança para sua futura prole.

Força, agilidade e capacidade de abater um animal mais rapidamente do que o vizinho da caverna ao lado eram atributos importantes para essa sobrevivência genética. Talvez ai nascia a cultura. A cultura do belo, mesmo que, sendo tão primitiva e ingênua as escolhas de nossos antepassados. Estou longe de ser um sociólogo, mas também sou um escravo da beleza.

Olhos claros, cabelos lisos, sorriso perfeito, uau! Estes são atributos que talvez estejam no inconsciente da maioria das pessoas, quando dizemos para descrever o modelo e a materialização ideal de beleza. Ontem por exemplo, vi que a cantora Anitta agora está loira. Agora me pergunto: por que ela não ficou ruiva? Ou deixou os cabelos cacheados e negros?

Por que temos tamanha falta de personalidade, que nos leva de forma tão voraz a esse modelos? Viva a chapinha!Entender isso é importante para saber como direcionar seu produto. Porque, no fim das contas, você precisa vender. E, para vender, é necessário seduzir.Esse processo de encontrar a forma perfeita é um exercício que não cansamos de fazer, ora em seu formato, ora em seu sabor.

O Chincho Cabrón, nosso mestre pimenteiro, constantemente busca novas possibilidades de melhoria. A evolução é constante por aqui. Dias desses, encontrei o primeiro vidro de molho de pimenta que produzimos para comercialização.

Por um instante, em silêncio, lembrei de como foi transgressor lançar nosso molho, mas que de longe a primeira versão, para mim, não era a ideal, como designer. Mas encaramos o desafio e sabíamos que era necessário lançar.Assim como um padrão de beleza pode ser um carrasco a nos cegar e impedir de enxergar inúmeras riquezas a nossa volta, temos de entender que a vida é recheada de opções. E experimentar somente um sabor na vida é, sem dúvida, é a pior prisão.

Curtiu? Então multiplique. Repasse. Trafique. Contra bandeie esse conteúdo. Sem medo de ser feliz. E até a próxima quarta.

O conto de fadas em um pote de iogurte

21 de março de 2014

Marcelo Nakagawa escreve toda sexta-feira

Parece um conto de fadas, mas é uma grande lição de aprendizado para todos os empreendedores que querem oferecer uma fantástica experiência de consumo.

Era uma vez um rapaz chamado Hamdi Ulukaya. Ele, como outros milhões de outros quase norte americanos, imigrou da Turquia para aprender inglês. Acabou ficando na cidade que nunca dorme, fez faculdade e abriu uma pequena fábrica de queijo feta em Nova Iorque, algo que sua família já fazia no seu país.

Até aí, a trajetória de tantos outros empreendedores borralheiros. Mas um dia, uma mensagem mágica pousou em sua mesa. Era um anúncio que uma fábrica antiga de laticínio que estava à venda. Sua dona, uma das gigantes do mercado de bens de consumo, tinha desistido da região e levado a produção para outra com upalupas mais baratos. “Mais uma mala direta” – reclamou Hamdi, amassando o papel e jogando-o no lixo.

Mas alguma fada madrinha veio durante a noite para convencê-lo a pegar o papel amassado no dia seguinte. Foi lá conhecer a tal fábrica.  Era bem antiga, tinha ainda 55 funcionários e estava sendo vendida por cerca de 1 milhão de dólares. Nem em sonho, com fada madrinha e tudo, ele tinha o dinheiro. Nos contos de fadas, ratos viram cavalos e abóboras, carruagens. E Hamdi lembrou do SBA, uma agência do governo que apoiava empreendedores. Quem sabe se não escrevesse uma cartinha, alguém atenderia seu pedido? Escreveu o plano de negócio em uma noite contando o seu sonho de trazer um produto da sua terra que deixavam os estrangeiros que visitavam a Turquia maravilhados.

Dias depois, houve um enorme clarão em sua casa. Era Hamdi radiante com a aprovação do empréstimos a juros subsidiados. Comprou a fábrica e a chamou de Agro-Farma Inc.

O conto de fadas termina aqui. O que vem depois é a história de um empreendedor comprometido em oferecer uma grande experiência de consumo que fez com que a empresa tivesse um dos crescimentos mais rápidos da história.
A trajetória vem sendo construída sob três pilares continuamente melhorados por Hamdi.

A primeira face do primeiro pilar é o produto. Hamdi começou a produzir o que ficou conhecido por iogurte grego. Se você encontra iogurte grego hoje no Brasil, agradeça ao rapaz deste conto de fadas. Até havia uma pequena marca que comercializava iogurtes gregos nos Estados Unidos e há séculos a receita é venerada na Península Balcânica. Tomou duas sábias decisões sobre o produto: Manteve o termo grego e não turco. Queijo Minas é assim mesmo que feito em São Paulo, não é? E renomeou para Chobani, pastor em turco. Era um nome de fácil pronuncia, mesmo fora dos Estados Unidos. A segunda face do mesmo pilar foi pensar nas funções que alguém buscaria em um iogurte. Para muitos, é estranho pensar em funções de um produto que não seja um eletrônico. Mas sim, não compramos apenas o produto em si, mas as funções que ele executa para resolver nossos problemas e necessidades. Um iogurte não tem apenas a função de alimentação. Também poderia executar funções para deixar as pessoas mais felizes e mais saudáveis. Deveria ser algo prático para consumidores urbanos. Além de muito saboroso. Demorou quase um ano e com ajuda de um mestre “iogurteiro” que trouxe da Grécia, chegou a fórmula que considerou ideal.

O segundo pilar trata das dores, dificuldades ou inconveniências do cliente. Todo cliente tem pouco ou até muito disso. Solteiros tem dificuldades em comprar uma melancia inteira, por exemplo. Hamdi pensou em pessoas com limitações de consumo de gorduras, açucares e também naqueles que estavam cansados de consumir produtos de baixa qualidade, coisas que pareciam iogurte e cansados das mesmices dos sabores. Por isto, pensou na outra face deste pilar: Produtos doces naturalmente, matérias primas sem hormônios, fidelidade com os sabores e ao mesmo tempo, opções de novos sabores.

Além de satisfazer as necessidades principais e as dificuldades acessórias, Hamdi pensou em vantagens adicionais que o cliente não estava esperando, que resume o terceiro pilar.  Desde o início das atividades, a empresa doa 10% dos lucros para entidades de caridade. Caprichou tanto na embalagem que passou a ser um símbolo de status, sensação semelhante aos dos produtos da Apple. Depois, lançou uma loja conceito em Nova Iorque que testa novos sabores e conceitos de iogurte.

O primeiro pilar torna os clientes satisfeitos. O segundo, fortalece a lealdade. Por fim, o terceiro cria clientes entusiasmados que divulgará a experiência. Foram estes últimos que fizeram com que a empresa atingisse um faturamento de mais de um bilhão de dólares sete anos depois da sua criação.

O que Hamdi fez na prática, Alexander Ostervalder explica na teoria ao conceber o que chamou de Canvas da Proposta de Valor. Mesmo tendo feito muito sucesso, sua primeira ferramenta, o Canvas do Modelo de Negócio, ainda não conseguia contribuir para a criação de negócios realmente inovadores. Daí surgiu a necessidade de dar um passo para trás e pensar apenas na melhoria da proposta de valor. O Canvas da Proposta de Valor orienta o empreendedor a pensar nas relações produto e tarefas do produto, dores do cliente e solucionadores destas dores e ganhos adicionais e geradores destes ganhos.

Acesse o modelo do Canvas da Proposta de Valor aqui

Talvez não consiga repetir o sucesso da Chobani, mas pensar a respeito dos pilares que ajudaram a empresa a se desenvolver por meio da nova ferramenta do Alex Osterwalder, pode trazer a magia de atrair mais clientes para o seu negócio.

 

Vá além do básico

20 de março de 2014

Rafael Mambretti é sócio da Carbono Zero Courier

Semana passada, escrevi um pouco sobre as pessoas, como criar soluções que são estratégicas para o seu negócio e, ainda, contribuir com a sociedade. Hoje, vou falar de como criamos algo que vai além do básico.

A Pedalada Para o Bem nasceu em 2012 e, no mesmo ano, no dia 22 de novembro, fizemos a primeira edição do evento. O que é a Pedalada Para o Bem? Um dia onde, todo o valor arrecadado com as nossas entregas, é doado. Até aí, sem muita novidade. Mas a diferença é que nesse dia convidamos voluntários para pedalarem como ciclistas entregadores. Esses voluntários não só vão conhecer um pouco da rotina de um bike courier, mas também ajudar. O suor deles é o que gera a alegria da doação.

Vejam, ir além, vender algo, isso é básico, é trivial, é algo que é feito desde os primórdios. Precisamos (r)evolucionar, repensar alguns conceitos. Precisamos que as empresas assumam de vez o manto da responsabilidade perante a mudança. Não se pode depender somente do poder público. Empresas, marcas, exercem forte influência nas pessoas – e que isso seja utilizado para algo positivo.

É muito legal o exemplo da Tom Shoes. Eles criaram o “One Day Without Shoes” (procurem no Google), que se traduz como um dia sem sapatos. Plantam o conceito da mudança, do fazer diferente. Imaginem, anos atrás, uma empresa que faz sapatos, promover um dia sem usá-los? Outra empresa, com bons exemplos na mesma linha, é a Patagonia.

Pensem, em seus negócios, como vocês podem fazer diferente, como podem ir além do trivial. Reflitam: o que vocês fazem? Qual o produto que vocês vendem? A forma, etc. Tudo isso é do mesmo jeito do que os últimos 5, 10, 15 anos? O que pode ser feito de diferente? Como o seu negócio pode ajudar a mudar o mundo?

 

Olhe mais para seu interior

19 de março de 2014

Leo Spigariol (direita) escreve toda quarta-feira.

Sair de São Paulo e montar a empresa no interior, acho que, no fundo, é o sonho de muitos empreendedores, que estão cansados da impessoalidade dos grandes centros e procura conciliar vida tranquila e negócios. Mas quem disse que empreendedor vive uma vida tranquila?

Empreender, no Brasil, é literalmente um negócio à parte. E, se a atividade for longe das capitais, nem se fale.
Coisas básicas, como fornecimento de energia e internet rápida, são luxo longe dos grandes centros urbanos. E quando você sente isso na pele, sente saudades da eficiência da capital – ainda que no Brasil, isso seja uma meia-verdade.

Outro dia, conversando com uma amiga e proprietária de uma grande empresa em Bauru (repito: em Bauru, uma cidade que, segundo a pesquisa do IBGE, em 2009, possuía aproximadamente 360 mil habitantes), era necessário ter, em sua fábrica, um gerador à gás, pois o fornecimento de energia não era constante.

E sabe o que é mais assustador? É que 95% da produção dessa empresa é para exportação. Então, imagine que, além de gerar emprego, agregar valor ao produto e trazer divisas ao país, ela precisa constantemente gerar sua própria energia.
Mas não estou aqui para lamentar sobre infraestrutura e sim falar das vantagens do chamado “interior” – ou aquele lugar supostamente idílico que todos nós esperamos encontrar um dia.

Sobre a vida nesse ‘interior’, você pode ter certeza: nada melhor do que poder almoçar em casa, sem stress, ou sair de casa para trabalhar e não sofrer com locomoção precária e desgastante. Poder ir a pé para o trabalho? E o melhor de tudo é que esse conforto é acessível a todos, como ocorre em nossa fábrica, e não somente restrito à gerência ou diretoria.

Se tivesse que definir, de uma única forma, a diferença entre empreender na capital e no interior, eu diria: menos stress. E isso ajuda muito. Por aqui, as pessoas são menos hiperestimuladas e há uma sensação de uma coletividade mais integrada.

Estando as pessoas então mais próximas, há também uma menor insatisfação com a comunidade. Vejo que hoje a descentralização econômica e política nas grandes capitais é pra lá de necessária. Principalmente para levarmos o desenvolvimento constante ao interior, gerando novas oportunidades para nosso país.

Enfim, não sou o primeiro e nem o último a dizer isso. Tomando carona nesse tema, ressalto que a capacitação e melhoria técnica, para melhorarmos produtividade, é o grande desafio para o chamado “interior”, pois, mesmo conectados e sem fronteiras da era digital, por aqui isso ainda faz falta e é um divisor entre capital e interior. Mas mesmo assim, vale a pena. Pode acreditar.

Para onde vão os empreendedores depois que morrem?

14 de março de 2014

Marcelo Nakagawa escreve toda sexta-feira

Tínhamos marcado um café! Desses sem data marcada. Há muito tempo não o via, mas sempre fui muito grato pela chance que me deu para ser professor de empreendedorismo. Na época, mesmo tendo uma década de experiência analisando empresas e ajudando empreendedores como investidor, eu, de longe era o mais novo da classe.

Ele já era um executivo consagrado, presidente de várias empresas, reconhecido no setor como um dos melhores e era um dos coordenadores do curso. Depois, fiquei feliz quando colocou tudo o que sabia em um livro sobre como colaboradores de uma empresa podem e devem agir como empreendedores. Era o que fazia na prática. Também fiquei feliz quando vi meu nome nos agradecimentos no livro.

Por tudo isto, poderíamos marcar um café sem data. Mas não agora pois ele faleceu no último domingo. Ao me despedir, fiquei pensando no que levamos da vida? A lembrança de nossa família, um item de estimação, a paixão pelo nosso time? E caía nas perguntas mais elementares: Por que vivemos? Por que acordei hoje mesmo?

“Mas para quê se preocupar?” – dizia Walt Disney. “Se você fizer o melhor que puder, preocupar-se não fará disto algo ainda melhor”.  E o próprio Disney faleceu tentando fazer o seu melhor, mas mesmo assim, morreu preocupado. No final de 1965, já muito enfraquecido pela doença e internado, ele trabalhava naquilo que achava que seria o seu melhor legado: o parque Experimental Prototype of Community of Tomorrow, mais conhecido pela sua sigla EPCOT.

Seria uma celebração da ciência, da tecnologia e da paz entre as nações. “Imagine ser lembrado em todo o mundo só pela invenção de um rato!” – disse, minimizando o símbolo de tudo aquilo que havia construído. Por esta razão, ele implorava para que continuassem EPCOT após sua morte.

Na manhã de 15 de dezembro daquele ano, a família de Disney estava toda reunida a sua volta. Sua filha mais nova, Sharon, colocou as mãos sobre as do pai e sussurrou: “Agora papai você não sentirá mais dor…”. Mas Disney ainda se mostrou em vida minutos depois quando a enfermeira que havia cuidado dele disse aos familiares: “Só que queria que soubessem como este pobre homem estava temeroso que o seu projeto não fosse terminado.”

Lembro disso todas as vezes que paro, em silêncio, para admirar o enorme globo prateado na entrada de EPCOT. É minha forma de agradecer e reverenciar alguém que nunca morreu.

Mas muitos ainda são assombrados pela sua própria morte. Não pela partida mas por causa daquilo que deixamos de fazer.

Bronnie Ware, enfermeira australiana, cuidou de muitos pacientes terminais e escreveu o livro Antes de Partir (Ed. Jardim dos Livros, 2012) em que conta quais são os cinco principais arrependimentos que temos ao final da nossa vida.

1. Gostaria de ter tido a coragem de ter vivido verdadeiramente a minha vida e não aquela que os outros esperavam de mim! Muitas pessoas, ao final da vida, se arrependem de coisas que fizeram ou não só para atender aquilo que era esperado delas.  Steve Jobs costumava dizer que “A vida é tão curta. Não a perca tempo tentando viver a vida de outra pessoa”. Por isto, uma das frases da Luiza Trajano, empreendedora do Magazine Luiza, que sempre vai e volta na minha mente é: Você quer ser feliz ou ter razão?

2. Gostaria de não ter trabalhado tanto! Ela explica que este arrependimento é que quase 100% dos homens que atendeu. Arrependem-se de não ter ficado tanto com a família ou de fazer outras coisas que o(a) fariam mais feliz.  Aqui, vale a reflexão proposta pelo Comandante Rolim, empreendedor da TAM: Só trabalha duro no sentido da palavra quem não gosta do que faz. Por isto, eu, graças à Deus, nunca precisei trabalhar!

3. Gostaria de tido a coragem de expressar mais os meus sentimentos! Ware explica que muitas pessoas não falam o que sentem para não perder a amizade, mas ficam sentimentos que vão corroendo-as por dentro. Também fica o peso delas não terem sido verdadeiras.

4. Gostaria de ter estado mais em contato com meus amigos! O café sem data marcada com meu amigo já ilustra este ressentimento. Estamos sempre ocupados e ficamos com peso na consciência quando não temos nada para fazer. Boa parte de viver bem a vida é feita entre amigos. Sabemos disso, mas sempre achamos que amanhã vai dar tempo.

5. Gostaria de ter me deixado ser mais feliz! A autora explica que este ressentimento é o mais comum. Só no final da vida, as pessoas se dão conta que a felicidade é uma questão de escolha. Ficam ressentidos pois ficaram presas a velhos padrões e hábitos, ficaram em suas zonas de conforto e tiveram medo da mudança. Quando estão na curva final de suas vidas se dão conta de que pouco importa o que as pessoas pensam de você. O que importa é a vida que viveu. “Quase tudo, todas as expectativas externas, todo o orgulho, todos os medos de passar vergonha ou falhar, todas estas coisas vão embora quando a morte é encarada de frente, sobrando apenas aquilo que é verdadeiramente importante”.  – Dizia Steve Jobs.

Talvez nenhum outro empreendedor tenha refletido tanto sobre a morte quanto Steve Jobs e por esta razão a reflexão que ele propõe é uma das mais poderosas:

“Quando tinha 17 anos, li uma mensagem que dizia mais ou menos o seguinte: Se você viver cada dia como se fosse o último, algum dia desses você acertará. Isto me impressionou e desde então, nos últimos 33 anos, eu me olho no espelho todas as manhãs e me pergunto: Se hoje fosse o meu último dia de vida, eu gostaria de ter feito as coisas que farei hoje? Se a resposta fosse não por muitos dias seguidos, eu sabia que era necessário mudar alguma coisa.”

Empreendedores assim nunca morrerão. Continuarão existindo por meio das crias e criações.

Para os demais, o mais importante é decidir se você será lembrado como um homem ou como um rato.
Por tudo isto agradeço ao amigo que abriu o mundo do empreendedorismo para mim e ainda vamos tomar o café combinado em algum lugar! Eba!!!

Uma bicicleta não pedala sozinha

13 de março de 2014

Rafael Mambretti é sócio da Carbono Zero Courier

Hoje a pauta é sobre pessoas! Sempre quando damos entrevistas, apresentamos nossa empresa para potenciais clientes ou para investidores, deixamos claro uma coisa: nossa empresa é feita por gente. Afinal, a bicicleta não pedala sozinha, é preciso uma pessoa para movimentá-la.

Desde o dia da concepção da Carbono Zero Courier (explicado no primeiro post), sabíamos que surgiriam seguidores, ou seja, novas empresas com a mesma ideia e, sim, copiaram o que havíamos criado. Tudo bem, normal, isso pode ser usado a favor do mundo. Como? A medida que vamos ganhando notoriedade, mais somos vistos como referência. Se tivermos uma filosofia que valoriza o humano e o planeta, outras empresas também terão.

Foi assim que concebemos, junto com o Instituto Aromeiazero, a Oficina Para Formação de Ciclistas Entregadores, a OFCE. A primeira empresa no Brasil, no segmento de entregas expressas, a criar uma escola para formar mão de obra. Isso não só atende nossas necessidades, como cria toda uma nova forma de contribuir com o todo. Por exemplo, por que não formar jovens de periferia para que tenham oportunidade de um primeiro emprego fazendo algo que – com certeza – gostam?

As possibilidades são enormes! Um dos primeiros frutos dessa oficina confirmou o que escrevi no terceiro parágrafo: uma empresa que surgiu depois da gente e presta o mesmo tipo de serviço também “criou” algo similar.

Entender o que é estratégico para o seu negócio, criar soluções para suprir suas necessidades e, de quebra, contribuir ainda mais com a nossa sociedade, parece uma boa combinação, não?

Bons exemplos! Esses, sim, devem ser compartilhados, copiados e utilizados.

Até a próxima!

 

O não, tu já tens. Agora conquiste o sim

12 de março de 2014

Leo Spigariol (direita) escreve toda quarta-feira.

O não, tu já tens. Agora conquiste o sim. Você já escutou essa frase? Eu pelo menos nunca havia escutado até que, num belo dia, resolvi arregaçar as mangas e começar a fazer as nossas primeiras vendas, há uns dois anos atrás, em um dos mais belos e imponentes restaurantes da rodovia Pres. Castello Branco, próximo à São Paulo. O gerente me recebeu com seu olhar lusitano desconfiado, olhando para mim e metralhando as sábias e congelantes palavras: “Pois bem, o não, tu já tens. Agora conquiste o sim”.

Após alguns segundos de silêncio e reorganização mental, comecei a falar de forma bem improvisada sobre a ideia, o projeto e os produtos. E, a partir desse dia, tirei muitas lições dessa situação.Se você refletir sobre a questão, o grande segredo do sucesso é conseguir que as pessoas que estão envolvidas em seu projeto digam mais o sim do que o não, ou seja buscar aceitação.

E, para cada situação, a forma de conseguir essa palavra tão mágica é diferente. Os atributos para convencer o comprador do supermercado são diferentes do que você precisa para o consumidor. Assim funciona conseguir bons fornecedores, como uma agência de propaganda bacana, já que é necessário que ela queira sua ideia, diga sim a ela. E manter a sua equipe engajada, conseguir aquele fotógrafo super concorrido pela metade do preço. Reflita sobre esse ponto e encontre a fórmula de receber o sim nas diversas situações de seu dia a dia.

Sim, o restaurante da Castello Branco é A Quinta do Marquês e faço questão fazer as vendas até hoje, pessoalmente, para sempre lembrar a lição do sr. Antônio.

Curtiu? Então multiplique. Repasse. Trafique. Contra bandeie esse conteúdo. Sem medo de ser feliz. E até a próxima quarta.

Pais para um país melhor

7 de março de 2014

Marcelo Nakagawa é professor do Insper

Acabei de dar uma bronca em minha filha de quatro anos. Ela tinha vindo me pedir para ajudar a colar os adesivos no livro que compramos ontem. Ela sabe colar os adesivos e conhece a história do livro, daí não há dificuldades em colá-los, mesmo porque depois é possível descolá-los. Mas me arrependi quase que imediatamente da bronca. Na verdade, ela tinha vindo pedir outra coisa.

Há uma crescente preocupação com a educação das crianças no Brasil e em outros países. Todos acreditam que a educação cria um país melhor. Mas deixe o discurso dos políticos e preste atenção no empreendedorismo em educação.

Quem acompanha esse mercado não consegue enumerar a quantidade de iniciativas. São incontáveis. Nos Estados Unidos, por exemplo, alguns dos mais brilhantes investidores de capital de risco como John Doerr (KPCB) e Rob Stavis (Bessemer) criaram a New Schools (www.newschools.org) que aplica técnicas de capital de risco em startups de educação sem exigências draconianas de retorno financeiro, mas cobra impacto social. Teach for America, Khan Academy e a Better Lesson são algumas das iniciativas que receberam apoio da New Schools. No Brasil, Fundação Lemann, Artemisia e Porvir também têm apoiado negócios incríveis em educação.

Mas quando falamos em empreendedorismo em educação, sempre me vem à cabeça o dinamarquês Ole Kirk Christiansen, seu filho Godtfred e o filho do seu filho, Kjeld. Não porque eles criaram e empreenderam a Lego, mas porque foram um exemplo da importância da relação entre pais e filhos.

Em 1932, no ano em que a Lego nasceu, Ole perdeu sua esposa. Sua empresa ainda era uma carpintaria que começava a fazer brinquedos de madeira, mas o negócio não dava muito dinheiro e ainda tinha que tomar conta dos seus quatro filhos. Ole era um excelente marceneiro mas péssimo gestor e vendedor. Coube ao seu filho, Godtfred, que acompanhava o trabalho do pai desde os 12 anos, começar a cuidar da gestão do negócio depois que voltava da escola, já que gostava muito desta responsabilidade. E os outros filhos ajudavam em outra parte importante do negócio: testar os produtos que para eles significava brincar com o pai e seus irmãos.

E o que Ole fazia na empresa era o que tentava vender no mercado: pais mais presentes nas vidas de seus filhos. David Robertson, professor de inovação e gestão da tecnologia do IMD, explica em seu livro “Peça por peça” (Campus, 2013) que Ole sabia que quanto mais difíceis forem os tempos, maior será o desejo dos pais de alegrar seus filhos. E isso o ajudou não somente a se reerguer quando seu primeiro grande cliente faliu e não pagou o pedido, quando sua primeira fábrica pegou fogo, mas também durante a grande Depressão Mundial e a Segunda Guerra Mundial.

Até 1946, a Lego só fazia brinquedos de madeira. Foi neste ano que a empresa adquiriu a primeira máquina de moldagem plástica. Foi uma decisão difícil para um carpinteiro, mas seu filho acreditava que o futuro estava naquela máquina. Em uma viagem, em 1954, Godtfred conheceu um especialista em brinquedos que reclavama que os brinquedos eram independentes. Não havia uma lógica ou sistema que os unisse. Com isto na cabeça, Godtfred começou a pensar em brinquedos que pudessem atuar em conjunto e depois criou peças para que as crianças pudessem montar seus próprios brinquedos com a ajuda dos pais. Era uma forma de tê-los mais presente na vida dos filhos, assim como ele adorava brincar com aquelas peças com Kjeld.

Foi em uma das atividades que seu filho reclamou que as peças de montar não se encaixavam e o brinquedo se desmontava com facilidade. Com isto na cabeça, Godtfred começou a estudar sistemas de encaixe que pudessem manter as peças Lego unidas.

O sistema Lego como o conhecemos hoje só foi lançado em 1958, mas Ole, o pai, nunca chegou a ver o sucesso da criação do seu filho e neto. Ele faleceu neste mesmo ano. Godtfred enfrentou desafios parecidos com os do pai quando a fábrica também pegou fogo e, da mesma forma, também manteve seu filho sempre por perto, transmitindo os valores, dando atenção, responsabilidades e autonomia para ajudá-lo na empresa até que Kjeld assumiu o comando do negócio em 1979.

Foi nessa história que pensei quando chamei minha filha de volta depois da bronca. Pedi desculpas e a convidei para assistir o desenho que conta a história de Ole, Godtfred e Kjeld. Agora vamos brincar adivinha com o quê?
Por mais que inúmeros empreendedores estejam criando soluções inovadoras em educação no Brasil e no mundo, a boa educação, literalmente vem do berço. Thomas Friedman, autor do best-seller “O Mundo é Plano” (Objetiva, 2007) explica que as pesquisas da OCDE apontam que o sucesso da educação em um país não depende apenas de melhores soluções educacionais, escolas ou professores. Também dependem de termos melhores pais. E uma das formas de sermos melhores pais é lermos mais para nossos filhos.

Por isto, vou ler e colar os adesivos no livro com a minha filha! Os legos ficam para depois.