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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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Viva a sorte! A história da criação do chiclete, do Google, da Microsoft…

31 de janeiro de 2014

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper

Tudo de bom que você se fizer, faz sua rima ficar mais rara. O que você faz te ajuda a cantar, põe um sorriso na sua cara… Meu amor, você se dá sorte…

Mesmo só lendo você já escuta a música. Dali a pouco já está cantando, sorrindo e, quem sabe, tendo mais sorte. Afinal, é claro que o seu amor lhe trará mais sorte. Pelo menos para os apaixonados pela vida.

Canções assim grudam como chiclete. Mas, provavelmente, não entenderia essa frase se o jovem fotógrafo Thomas Adams Junior não tivesse tido tanta sorte na vida. Em 1869, ele morava em Nova Iorque e era vizinho e amigo de Antonio López de Santa Anna, ex-presidente mexicano. Adams notava que Santa Anna costumar mascar uma espécie de borracha que tinha trazido do México chamada tchiclé.

Em uma de suas idas à farmácia, Adams notou um tablete de cera que uma menina acabara de comprar e agora mascava com alegria. A associação com o tchiclé de Santa Anna foi imediata. Ele voltou para casa e a partir de uma amostra obtida com seu vizinho, criou uma versão com sabor e mais macia da tal borracha. Cortou sua versão de tchiclé em tabletes, embrulhou em papel colorido e foi vender sua primeira produção para a mesma farmácia e, desde então, Adams se tornou sinônimo de chicletes.

Se Adams não tivesse sido tão simpático com sua vizinhança, se não tivesse tido a curiosidade de experimentar o tal tchiclé mascado por aquele senhor mexicano, se não tivesse percebido a menina na farmácia e não tivesse tentado criar sua própria fórmula de mascar, não faria sentido a relação entre músicas e chicletes.

Diríamos, quem sabe, que algumas canções são como Super Bonder. Mas, de novo, a frase não teria sentido se o cientista norte-americano Harry Coover não tivesse a sorte de ter descoberto o cianoacrilato duas vezes! Na primeira vez, em 1942, ele chegou a esta formulação, enquanto buscava freneticamente a fórmula para um plástico resistente e transparente que seriam utilizadas em armas para a Segunda Guerra Mundial.  Nem percebeu o potencial da super cola que havia criado, afinal naquele momento ele só buscava fabricar melhores armas.

Nove anos depois, quando a guerra já havia acabado e trabalhando agora para a Kodak, sua equipe desenvolvia um plástico resistente ao calor quando chegaram novamente à mesma fórmula. Mas agora, menos pressionado por resultados e mais relaxado, Coover percebeu os mais diversos usos de uma super cola, que depois viria a ser licenciada e comercializada como Super Bonder pela Loctite.

Grandes descobertas, quase sempre, têm como pano de fundo, inesperados golpes de sorte. Será que Larry Page e Sergey Brin teriam criado o Google se não tivesse a sorte de terem o mesmo orientador de doutorado em Stanford? Foi ele quem os apresentou e ainda sugeriu um tema para suas teses.

Será que a Microsoft teria existido se Bill Gates e Paul Allen não tivessem visto a reportagem do computador pessoal na revista Popular Electronics?  Ou se a IBM não tivessem ido falar com Bill Gates sobre seus projetos com sistemas operacionais? Mas será que não contou o fato da sorte da sua mãe ter sido amiga do presidente da gigante de tecnologia e ter falado inúmeras vezes da genialidade do filho em computação?

A sorte sempre intrigou as pessoas e há muito tempo os pesquisadores tentam entender como este fenômeno ocorre. Peter Bernstein, um financista e pesquisador que ficou muito tempo associado à Universidade de Harvard, conta em seu livro Desafio aos Deuses – a Fascinante Historia do Risco, como as pessoas, do ponto de vista histórico, tentam dominar sua própria sorte. Mas é no campo da psicologia que a pesquisa sobre a sorte tem trazido reflexões mais instigantes para os empreendedores.

Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire (Reino Unido), tem sido uma das principais referências na pesquisa da sorte. Em dos seus testes mais conhecidos, ele pede para pessoas que se consideram “sortudas” e “não sortudas” para contar as figuras que estão em um jornal. Em média, as pessoas “não sortudas” demoram cerca de dois minutos para finalizar a tarefa enquanto que as “sortudas” levam apenas alguns segundos. Qual o motivo? Logo na segunda página há uma figura que diz: “Pare de contar! Há 43 figuras neste jornal”.

Em outro grupo, Wiseman trocou o anúncio por outro que dizia: “Pare de contar! Avise o avaliador que viu este anúncio e receba 250 libras (algo como mil reais)”. Novamente, a maioria das pessoas que se consideram “não sortudas” continuavam a contagem. De certa forma, foi isto que aconteceu com Harry Coover quando ele ficou bravo com aquela coisa grudenta que tinha criado em 1942. Estava muito concentrado no que estava fazendo.

Intrigado com as pessoas que se consideram mais sortudas, Wiseman passou a estudar seus comportamentos, hábitos e atitudes. E descobriu alguns fatos curiosos.

As pessoas que se consideravam “sortudas” eram cerca de duas vezes mais autoconfiantes do que as “não sortudas”, mesmo quando as chances estatísticas de receber algo bom como o prêmio de uma loteria eram as mesmas. As pessoas “sortudas” estavam muito mais satisfeitas com suas vidas familiar, pessoal, financeira, saudável e profissional.

As pessoas “sortudas” eram muito mais extrovertidas como Thomas Adams. E por esta razão, encontravam um número muito maior de pessoas, se tornavam uma espécie de imã social e gostavam de manter o contato com as pessoas. Wiseman observou que pessoas “sortudas” sorriam duas vezes mais, sempre mantinham contato visual com as pessoas e ainda tinham níveis de ansiedade 50% menores do que as “não sortudas”.

E por estarem mais relaxadas, conseguiam prestar atenção em mais coisas secundárias como o conteúdo das fotos do jornal ou as possíveis aplicações da super cola redescoberta por Coover no período pós-guerra. Além disso, as pessoas “sortudas” eram mais abertas a novas experiências, tendiam a não se limitar por convenções ou dogmas e eram mais simpáticas às questões imprevisíveis. No levantamento de Wiseman, as pessoas “sortudas” iam muito mais a eventos, conheciam mais novas pessoas e gostavam de experiências inéditas. Mesmo quando a experiência não é boa, tendiam a ver o lado positivo no ocorrido.

Será que você se encaixa neste perfil de pessoa “sortuda”? Se vivencia as frases que abrem este texto, sim, você deve ter sorte. E sim, as estrofes foram alteradas seguindo a lógica de Wiseman :)

De cego, surdo e louco…todo empreendedor tem um pouco

29 de janeiro de 2014

 

LEO SPIGARIOL, ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA

Jamais contrarie um louco. Em 2010, quando voltamos de nossa viagem ao Chile, arregaçamos as mangas e começamos a pesquisar sobre o universo das pimentas no Brasil. Compramos e testamos diversas variedades ‘gringas’ para entender as diferenças e quais seriam as mais indicadas para iniciar nossa produção aqui no Brasil. Acho que nesse instante nosso maior desafio não era germinar uma muda – mesmo que a única que germinei foi aquele feijão no algodão nas aulas de ciência da segunda série – e sim convencer as pessoas de que nossa idéia valeria a pena.
Lembro-me do olhar descrente de quem resolvia escutar nossa história. ‘Ow my God!’

Por incrível que pareça, até minha esposa dizia que estávamos delirando, ou sonhando acordados, e que o mercado já estava cheio de outros molhos.

Esqueça isso, amor.

Mas não desistimos de nossa loucura. Iniciamos com pouco dinheiro e muita coragem, nadando contra a correnteza em busca de materializar esse projeto. Muitos disseram para começarmos com uma cozinha modesta, de azulejo branco e tela na janela para ver se daria certo.

Que insegurança né?

Mas a loucura nos levou além e demos o pontapé inicial já bem estruturados, com tudo o que uma fábrica precisa para funcionar: belo produto, algumas máquinas, uma boa equipe de produção, sistema administrativo e muito tesão. Muitas noites sem dormir, contas brotando igual gremlins e, claro, decisões importantes que precisam ser tomadas num piscar de olhos são situações a que você precisa se acostumar. Aliás existem outras três palavras que ainda não mencionei: reinvestir, reinvestir e reinvestir.

De 2012 pra cá, nosso projeto foi reconhecido e elogiado por muitos, alcançando espaço na vida das pessoas e despertando paixões. Aliás, esse é um tema que gostaria de dividir com vocês em alguma próxima publicação: o quanto é importante você conquistar um espaço na vida das pessoas e como isso ajuda a cortar uma caminho enorme para alcançar o horizonte.

Ser ousado e acreditar em nossa loucura foi fundamental nesse processo todo pois conseguimos aglutinar pessoas talentosas ao nosso redor. Na segunda-feira, recebemos a visita do pessoal do e-commerce iBacana para fazer um vídeo nosso com objetivo de levar mais conteúdo para as pessoas que buscam a compra online. Fiquei muito feliz pela iniciativa deles. Primeiro porque enfrentar 350 quilômetros de São Paulo até aqui (Santa Cruz do Rio Pardo) não é tarefa fácil; segundo por terem nos escolhido entre uma enorme quantidade de fornecedores bacanas. Essa proatividade com certeza germinará muitos frutos.

Acho sempre importante refletir sobre o seguinte: um projeto medíocre fatalmente irá atrair pessoas medíocres. Então, não tenha medo de ousar. De verdade. Um profissional talentoso consegue sentir o cheiro da oportunidade a quilômetros de distância. E fique atento pois os loucos podem estar certos.

É possível! O empreendedor que vendia felicidade

24 de janeiro de 2014

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper

O que te faz feliz? Ler um bom livro está na minha lista de felicidades. Você sabe que isso o torna mais feliz quando sai da experiência com um pensamento mais positivo e com uma atitude mais construtiva. E o livro do Tony Hsieh cumpriu, pelo menos comigo, o que o título original em inglês promete: ‘Entregando felicidade: Um caminho para os lucros, paixão e propósito’.

Mais do que sua trajetória como empreendedor de sucesso, ele conta como encontrou a felicidade no empreendedorismo. Durante a faculdade, enquanto cursava ciência da computação em Harvard, ele abriu uma pizzaria para atender a demanda dos colegas de dormitório. Uma vez formado, foi trabalhar em uma grande corporação.

Não aguentou nem seis meses de vida corporativa. Em março de 1996, quando tinha 23 anos, fundou a LinkExchange, uma plataforma de propaganda online. Dois anos depois, ele vendeu a empresa para a Microsoft por incríveis US$ 265 milhões. E neste momento veio uma crise existencial. Era milionário e nunca mais iria precisar trabalhar. Mas isso o tornava realmente feliz? E em suas próprias palavras: “E agora? E depois? O que é sucesso? O que é felicidade? Estou em busca de quê?”. Enquanto vários empreendedores que se tornaram milionários passaram a querer ficar ainda mais ricos, Tony passou a refletir sobre o que realmente as pessoas querem e por que querem o que querem. E dos seus devaneios, ele rascunhou o quadro abaixo que aponta para o que achou que seria o objetivo principal de vida de todas as pessoas.

 

Mesmo as pessoas que querem ficar ainda mais ricas, perseguem esse objetivo porque acreditam que sendo mais ricas terão mais prazer e, por esta razão, serão mais felizes. Mas a busca incessante pelo prazer cria uma armadilha intrínseca de se tornar um círculo fechado e daí, um vício autodestrutivo. Percebendo isso, Tony passou a estudar a ciência da felicidade e descobriu que o prazer era apenas o primeiro estágio da felicidade. Havia ainda o estágio da felicidade associada com a paixão que é fluxo, algo mais duradouro. Muitas pessoas estão felizes pois são apaixonadas por aquilo que estão fazendo naquele momento. E ainda existia um estágio máximo associado a um propósito que é fazer parte de algo maior do que si próprio. É neste momento que a pessoa se encontra pois entende seu verdadeiro significado de vida.

Só por estas passagens, a leitura do seu livro já teria me feito mais feliz. Mas Tony foi além, ele relata de forma muito íntima, sem esconder suas dúvidas, dilemas e desafios mais elementares, como construiu sua segunda empresa, a Zappos, que se tornou uma das maiores do varejo do comércio eletrônico dos Estados Unidos até ser comprada pela Amazon (venda forçada pelos investidores) – trata-se de uma das empresas mais admiradas e está entre as melhores empresas para se trabalhar daquele país. E como o objetivo da empresa passou de ser a “maior seleção de sapatos” em 1999 para a “entregando felicidade” em 2009.

Alguns que enxergam o meio copo vazio, poderão ver hipocrisia em suas palavras que pregam a felicidade dos clientes e dos seus colaboradores. Mas os empreendedores que acreditam no meio copo cheio, encontrarão alentos para suas dúvidas existenciais e dicas criativas de gestão baseada na felicidade.

O que Tony validou na prática, o pesquisador Shawn Achor, atualmente na Wharton Business School, demonstrou cientificamente. Suas pesquisas apontam para resultados que podem ser muito relevantes para os empreendedores. Mas suas constatações defendem que a fórmula da felicidade pode e deve ser invertida. A fórmula tradicional implica em trabalhar duro para atingir uma meta e, ao chegar neste ponto, a pessoa ficaria mais feliz. Mas sua pesquisa explica que o cérebro entende que ao atingir uma meta, será necessário uma meta maior para que a felicidade seja percebida novamente.  E assim, a felicidade será sempre momentânea e sempre seguida da aflição de algo ainda maior. Neste caso, a felicidade e o sucesso tendem a se distanciar com o passar do tempo, o que pode deprimir a pessoa. Ele constatou que a felicidade deve estar sempre presente e não apenas após um determinado fato.

Não é de hoje que se sabe que clientes felizes influenciam outras pessoas. Talvez hoje, pela internet, a influência positiva seja ainda maior. E com certeza, o impacto de clientes infelizes é exponencialmente maior. Mas o que Achor constatou é que colaboradores mais felizes, em média, vendem 37% a mais e são 31% mais produtivos. Também têm menores índices de turnover, realmente lidam muito melhor com situações de stress e implicam em gastos muito menores em planos de saúde. Se para as grandes empresas, esses indicadores são incontestavelmente atraentes, para as menores é a diferença entre a vida e a morte do negócio.

O que Achor defende é que “treinar seu cérebro para ser mais feliz não é tão diferente quanto treinar seu músculo em uma academia de ginástica”. Em suas pesquisas científicas e projetos com empresas, ele usa uma técnica simples. Pede para que as pessoas, durante 21 dias ininterruptos, façam uma das seguintes opções:

Anote três coisas pelas quais elas são gratas;
Escreva uma mensagem positiva para alguém nas redes sociais;
Pare, conscientemente, para meditar em sua mesa durante dois minutos;
Faça exercícios por 10 minutos;
Separe dois minutos do seu dia para escrever em um diário a experiência mais significativa que teve nas últimas 24 horas.

O pesquisador explica que as pessoas que seguiram essa “dieta da felicidade” passaram a ter uma postura mais positiva e se acharam mais felizes nos seis meses seguintes.

É natural acreditar que pessoas mais otimistas tendem a ter mais sucesso. Mas para Achor, a verdadeira explicação ocorre porque quando as pessoas estão mais felizes, seus cérebros estão mais flexíveis e ativos, permitindo muito mais interações e por esta razão, mais propensos a encontrar mais e melhores soluções. A “felicidade é fácil em tempos bons, mas é uma vantagem competitiva enorme durante os períodos difíceis” – afirma.

Portanto, empreendedor, seja feliz! E não veja o meio copo vazio. Ele estará sempre cheio. Metade líquido, metade ar!

Quer ser bom empreendedor? Tenha uma Anita (não a cantora) dentro de você e coma mais cebolas

22 de janeiro de 2014

Por Leo Spigariol, fundador da empresa De Cabrón

Faz pouco mais de três anos que sou obrigado a me desconectar e pensar sobre mim. Desde que comecei o novo projeto DE CABRÓN, com a fábrica e meu casamento em Santa Cruz do Rio Pardo, mudei-me da capital para o interior sem medo de ser feliz.

Além de poder ver o horizonte verde fundir-se ao azul do céu, ganhei 8 horas de terapia comigo mesmo, em silêncio, dirigindo daqui pra lá e vice-versa. E de lá pra cá, quando tenho que ir e voltar de São Paulo.

Na semana passada, ouvia no rádio uma entrevista em que um excelente psicoterapeuta – e de quem, por sinal, sou fã – falava sobre estarmos na “era do outro eu”. Em seu consultório, uma grande quantidade de pacientes sofre de um problema comportamental de querer ser outra pessoa. E isso os afeta profundamente em sua própria identificação como indivíduo.

Ser amigo de todos, seguido por todos e amado por todos virou quase que um mantra pós-internet. Como é possível ser amigo de todos e agradar a todos? As pessoas adotam uma postura de, muitas vezes, se anularem – e isso inclui abdicar de seus sonhos e princípios – em busca de aceitação coletiva.

Comportamento que acaba se refletindo no comportamento das empresas – pois empresas são resultado do que as pessoas pensam. Quem são seus clientes? Todo mundo?

Para mim, foi como passar um filme diante de meus olhos, enquanto escutava o programa. Lembro-me de várias situações em que participei de reuniões nas quais gestores, ou até mesmo o próprio dono, usavam referências de outras instituições para expressarem uma necessidade ou até mesmo solicitarem um projeto.

Pesquisar concorrentes, entender metodologias e estratégias de outros mercados são preceitos fundamentais. Benchmark é pra lá de necessário! Mas trabalhar a própria essência, enquanto marca ou produto, é vital. A identificação do consumidor com sua marca é feita a partir de algo que somente você pode oferecer ou manifesta. Pode ser a forma de pensar, escrever, entregar, defender, ou tudo isso junto.

No entanto, precisa ser seu, do seu jeito, autêntico. Lembro-me que, quando conheci, em 1999, a história de Anita Roddick, fundadora da rede inglesa The Body Shop, fiquei apaixonado pela sua forma de criar um negócio com princípios claros e bem autênticos. Para ela, defender questões sociais e políticas eram tão importantes quanto entregar um ótimo produto. Tal visão de negócio torna praticamente inviável, se não for impossível, agradar a todos.

Mas certamente fideliza um público muito maior. Outro exemplo é o último post do professor Marcelo Nakagawa, contando um pouco sobre a história do fundador da Patagonia, que também sempre esteve à frente de seu tempo e buscou as coisas que acreditava, mesmo que pudessem parecer loucura.

Quando iniciamos o processo de criação da DE CABRÓN, a busca da essência de cada um de nós, sócios, foi fundamental. Representar no produto os valores que acreditamos foi uma longa imersão e não foi tarefa simples.

Levamos quase um ano para materializar o que queríamos, nos mínimos detalhes. Perdi a conta de pessoas que achavam que éramos loucos, alegando que molho de pimenta não era um bom negócio. Aliás, outro dia, conversando com um rapaz simples, ele me disse: “Qualquer coisa pode ser um bom negócio ou um mal negócio. Você já viu alguém ganhar dinheiro com cebola? Então, tenho um tio que ganha muito dinheiro plantando a bendita. Só que ele faz a coisa direitinho.”

Então cuide-se. Tenha tempo para você refletir e lembre-se do quanto é importante ter uma Anita dentro de você. E coma mais cebolas.

Maluco ou visionário? Nova pesquisa ajuda a entender o cérebro do empreendedor

17 de janeiro de 2014

 


Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper

Milhares de norte-americanos faziam filas na frente de várias lojas ao redor do país. Muitos nem tinham dormido. Era o Black Friday. Mas o que chamou atenção naquele dia foi um anúncio de página dupla no The New York Times. Em letras maiúsculas enormes, a mensagem: NÃO COMPRE ESTA JAQUETA. Abaixo, uma foto da jaqueta em que se via claramente a marca do fabricante.

Mais abaixo, os avisos: REDUZA. Nós fazemos produtos que duram muito tempo, assim, não compre aquilo que não precisa. RECUPERE. Nós o ajudamos a recuperar seu produto Patagonia, se prometer que irá consertá-lo quando estiver danificado. REUSE. Nós o ajudamos a encontrar um novo lar para o seu produto Patagonia que não mais precise caso tenha interesse em vendê-lo ou passá-lo adiante. RECICLE. Nós buscaremos seu produto Patagonia que está inutilizado se prometer que irá deixá-lo longe de um aterro sanitário ou incinerador.

Desde que vi este anúncio, passei a estudar a empresa e o cérebro por trás dela. Quem era o maluco que corria na direção contrária, justamente no dia em  que milhões de consumidores corriam em direção das lojas? Ou era só uma jogada de marketing arriscada?

E desde então, Yvon Chouinard, hoje com 74 anos, passou para a minha lista de empreendedores mais bem-sucedidos. Aos 14 anos, ele começou a escalar as montanhas da Costa Oeste dos Estados Unidos. Três anos depois, aprendeu a fabricar seus próprios ganchos e se tornou algo que sempre pretendia ser: ferreiro.

Aos 26 anos, ele criou a Chouinard Equipament – cinco anos mais tarde ela já era a maior empresa de equipamentos de alpinismo dos Estados Unidos. Mesmo diante do sucesso, algo o incomodava. Naquela época, os alpinistas precisavam deixar os pinos para trás em suas escaladas e isto estava destruindo as encostas. Mesmo representando quase 80% das suas vendas, ele decidiu parar de vender ganchos antigos e criou um reutilizável (mosquetão) de alumínio.

Para recuperar as vendas, começou a comercializar roupas e trocou o nome da empresa para Patagonia, em homenagem a região que tinha visitado na Argentina. Mas as vendas de roupas só decolaram a partir de 1980, quando inspirado nas vestimentas coloridas de pescadores do Atlântico Norte, lançou roupas de inverno em cores vivas em detrimento às cores pasteis vigentes.

De novo, apesar do sucesso, algo o incomodada. As roupas eram feitas de polipropileno, algo muito nocivo naquele momento.  Em 1985, ele eliminou toda a linha a base de polipropileno e assumiu a sustentabilidade como valor, crença e atitude da empresa – passou a doar 1% da receita bruta para ONGs ambientais. Atualmente, mais de 1,4 mil empresas ao redor do mundo também aderiram ao movimento iniciado pela Patagonia. A empresa também se recusou a transferir sua produção para países asiáticos e passou a usar materiais reciclados ou orgânicos para fabricar seus equipamentos e roupas. E não parou por aí.

Seu primeiro livro tem o curioso título “Deixe meu pessoal surfar”, algo que ele incentiva e é um dos principais praticantes da empresa. Não à toa, a Patagonia passou a figurar entre as melhores empresas para se trabalhar, está entre as melhores empresas para mães e entre as organizações mais sustentáveis dos Estados Unidos.

E surpreende o fato de que Chouinard faz tudo isso sabendo que apenas 10% dos seus clientes levam essas iniciativas em consideração na hora de optar pelos seus produtos. “Clientes compram mesmo porque os produtos são bonitos e funcionais”, diz.

E como resultado, a Patagonia figura entre os empreendimentos  mais inovadores e está entre os que mais crescem no país. E há pouco tempo, a revista Fortune destacou a Patagonia como a empresa mais bacana do planeta.
E depois de conhecer mais sobre este senhor simples que vive na praia, surfando no verão e que ruma para as montanhas para praticar esportes no inverno com o objetivo de desenvolver produtos melhores para a sua empresa, passei a acreditar que aquele anúncio não tinha sido feito por um maluco.

Mas faltava entender um pouco mais sobre o cérebro que tomava decisões contrárias ao que todo mundo estava fazendo.

Será que o cérebro de um empreendedor funciona de maneira diferente dos demais? Os pesquisadores Peter Bryant e Elena Terán acreditam que sim. Em um artigo publicado no mês passado pela Harvard Business School, a dupla apresentou os resultados de um teste que realizaram com amostras de fundadores de empresas e com outras pessoas sem vínculo com a criação de novos negócios.

O teste, conhecido como Stroop, mede a atividade cerebral da pessoa quando esta é apresentada ao nome de uma cor que difere da cor mencionada em si e precisa responder corretamente a cor que está vendo (independentemente do que está lendo) Neste caso, os empreendedores percebem mais rapidamente a ambiguidade e passam a responder corretamente antes dos ‘não empreendedores’.

O que também chamou a atenção dos pesquisadores é o que ocorre depois que os dois grupos passam a responder corretamente as perguntas. A atividade cerebral dos ‘não empreendedores’ cai depois que descobrem o ‘truque’, mas a dos empreendedores aumenta tanto em processamento quanto em velocidade da atividade cerebral. Ou seja, os empreendedores descobrem mais rapidamente a ambiguidade, propõem a solução correta, mas  continuam vasculhando o problema com ainda mais afinco.

A pesquisa de Bryant e Téran ainda é muito inicial e seus resultados estão longe de poderem ser generalizados para todos os empreendedores ou para Yvon Chouinard em específico. Mas intriga o fato de Chouinard conseguir identificar oportunidades nas ambiguidades antecipadamente e continuar atento, mesmo agora, para fazer o que é o certo mesmo que todos o achem maluco.

Mas acho que malucos mesmo foram as pessoas que limparam os estoques da jaqueta anunciada. Eu, inclusive….

O que uma parafusadeira, o Plano Collor e pimentas têm a ver com empreendedorismo? Tudo!

15 de janeiro de 2014

Leo (à direita), com um dos sócios, vai escrever às quarta

Você já percebeu como estamos conectados ininterruptamente uns com os outros? Eu me dei conta disso outro dia, quando um amigo, às sete e meia da manhã, me enviou a seguinte mensagem: ‘Você me empresta sua parafusadeira?’. Pensei comigo: ‘Será que ele pensa que eu dormi com ele? Nem ao menos um bom dia?’

Notei que esse tipo de relação está se tornando cada vez mais frequente entre pessoas que usam as ferramentas digitais para comunicação. Grupos de mensagens instantâneas no celular são como um papo interminável, sem “oi” e sem “tchau”. Estranho, né? Da minha parte, é muito mais uma questão cultural de uma geração que nasceu offline. Talvez, para a geração do meu filho, isso será normal.

Hoje inauguro minha contribuição no Blog do Empreendedor 2014, do Estadão, com a missão de contar, semanalmente, um pouco do que vivo à frente de minhas empresas, com acertos e erros, frustrações e, sobretudo, o desafio de empreender no Brasil. E, para não parecer que dormimos juntos, deixe-me contar um pouco de minha história.

Sou mais um filho que arregaçou as mangas após ver a empresa da mãe definhar com o Plano Collor. Tive de aprender a gostar de trabalhar muito cedo e isso me ajudou a entrar no jogo da vida real. Depois de muito esforço para conseguir terminar o colegial, em 1998 ingressei no curso de desenho industrial, da faculdade FAAP. Em meu primeiro semestre na faculdade, consegui, sem nenhum portfólio em mãos, mas muitas histórias e vontade de aprender, um estágio no estúdio de uma tradicional agência below the line paulistana.

Em dois anos de muita dedicação, alcancei o cargo de diretor de arte jr., acumulando, desde então, alguns importantes prêmios do segmento. Aos 23 anos, eu e um amigo (e também ex-chefe) resolvemos ser donos do nosso próprio negócio e fundamos a Laika Design. Na época, não tínhamos dinheiro e muito menos clientes. Aproveitamos a onda do nascimento das ferramentas online e home office para criar o modelo virtual de trabalho.

Após um ano, fomos obrigados a nos mudar para um espaço físico, por conta do crescimento da demanda de projetos. Desde então, atendemos uma série de clientes em diversos nichos de mercado, o que nos deu uma bela base estratégia para criar e dar oxigênio às marcas. Diante desse rico ambiente, sempre senti a necessidade de ter um produto com o qual pudesse, sem pudor, ser nosso laboratório criativo. Foi aí que, no final de 2009, recém-divorciado, fui viajar ao Chile com meu primo e meus tios em busca de novas ideias e inspirações para minha vida.

Muitas coisas nos chamaram a atenção, porém a mais marcante foi a variedade de pimentas e a qualidade dos molhos encontrados por lá. Isso nos mostrou uma grande oportunidade em empreendermos algo realmente diferente em Santa Cruz do Rio Pardo, interior de São Paulo e cidade na qual meus tios e primos vivem. Foi assim que nasceu a DE CABRÓN – Chillis Gourmet.

Ficamos um ano pesquisando e testando o plantio das variedades, trabalhando o branding até executarmos efetivamente o projeto. Colocamos nossos primeiros produtos timidamente no mercado no segundo trimestre de 2012 e, rapidamente, a DE CABRÓN conquistou espaço no mercado e na vida das pessoas.

Inovamos a categoria: fomos a primeira marca a lançar um molho de pimenta com assinatura de um importante chef e fizemos combinações com sabores, como Chipotle e Goiaba, que até então não existiam. No início de 2013, tivemos uma grande surpresa: fomos um dos três finalistas do II Prêmio PME Estadão, na categoria Negócios Inovadores. Foi bem interessante receber esse reconhecimento, tratando-se de um projeto tão embrionário.

Hoje estamos em mais de 1,2 mil pontos de vendas entre os estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, incluindo importantes redes varejistas. O ano de 2014 está começando com força total e se depender da gente, será muito picante.

Bom dia, boa tarde e boa noite. Muito prazer e até a próxima quarta-feira.

Blog do Empreendedor volta apimentado ao Estadão PME

14 de janeiro de 2014

 

Leo (á direita) e um dos sócios do negócio de pimentas

O projeto do Blog do Empreendedor recomeça em 2014. E a nossa primeira novidade é o empreendedor Leo Spigariol (à direita na foto), que resolveu empreender após uma viagem ao Chile e criar a De Cabrón com o primo e o tio. A marca inovou com molhos de pimenta gourmet e embalagens criativas. Mas o negócio não fica restrito apenas a venda de temperos. Os sócios pretendem montar um hotel com roteiro gastronômico focado nas pimentas, em Santa Cruz do Rio Pardo, no interior de São Paulo.

O primeiro post será publicado nesta quarta-feira, dia 15. Quem também continua com o Estadão PME é Marcelo Nakagawa, professor de empreendedorismo que servirá como um verdadeiro detetive de bons exemplos de empreendedorismo ao retor do mundo – e nos contará a teoria por trás desses negócios.

Relembre os posts da Maria Brigadeiro
Relembre os posts de Adriane Silveira
Relembre os posts de Marcelo Nakagawa
Relembre os posts de Renato Steinberg
Relembre os posts de Pedro Chiamulera

Pimentas. Além de Leo Spigariol, Marcelo Prado e Marcelo Prado Filho vislumbraram uma oportunidade para investir nesse mercado durante uma viagem ao Chile em 2009. “Lá, descobrimos diversas marcas de molhos diferentes e embalados de forma bacana. Achamos a apresentação interessante e vimos que não tinha no Brasil um molho gourmet que divulgasse o produto de forma bem-humorada”, conta Spigariol.

O fato da família Prado ter uma fazenda em Santa Cruz do Rio Pardo, interior de São Paulo, incentivou o cultivo das pimentas. Os testes de plantio, o estudo do processo de produção, o posicionamento da marca e a instalação da fábrica levaram dois anos. Em fevereiro de 2012, a De Cabrón chegou ao mercado. O trio investiu R$ 2 milhões e o dinheiro foi recuperados em menos de um ano.

A produção é de 20 mil itens por mês e a empresa lançou recentemente um molho com a assinatura do chef Henrique Fogaça, do restaurante Sal Gastronomia. É um blend de chipotle (tipo de pimenta seca) e maracujá. O plano é continuar inovando e no ano que vem a fábrica deverá ser transferida para a fazenda no interior. “Queremos montar um hotel com roteiro gastronômico focado em pimentas. O hóspede vai poder acompanhar a colheita”, conta o empreendedor.