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O maior show da terra vai acabar e ninguém se importa com isso

20 de janeiro de 2017

Era janeiro de 2010 e lá estava eu tendo uma das experiências da minha lista de pequenas coisas que gostaria de fazer na vida. A luz se apaga, os tambores rufam e os holofotes miram um senhor com fraque colorido no centro do palco que anuncia:
“Senhoras e senhores, meninos e meninas, crianças de todas as idades, preparem-se para o Maior Show da Terra…”.

E em seguida entram elefantes, palhaços, motoqueiros, caubóis, tigres, malabaristas, cavalos, equilibristas. Estava feliz ali, pois estava vendo a história. Mesmo depois de tanto tempo, hoje, ainda lembro do Sr. Silva, anunciado como o homem mais forte do mundo. Enquanto ele levantava vários pesos, eu ficava me perguntando se ele era brasileiro com este sobrenome. Depois vieram os elefantes que dançavam, os tigres eu ficavam sentados e ainda tinha os leões. Não me lembro do domador colocando sua cabeça na boca do felino, mas me recordo dele dando um beijo no nariz do rei da floreta. De repente as luzes se apagam e roncos de motores são ouvidos.

É o grande momento do Globo da Morte e dos motoqueiros que arriscavam suas vidas girando um contra o outro naquela gaiola. Um, dois, três, quatro motoqueiros. Eu olhava aquilo e dizia para mim mesmo: Nossa, como isto é… igual… Já tinha visto aquilo, pelo menos, umas quatro vezes em circos brasileiros. Tudo aquilo era o verdadeiro circo e ao mesmo tempo “um” circo: pejorativo, banal, caricata, monótono.

Mas tinha feito questão de ir ao show do Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus porque eles criaram o circo como o conhecemos. Tudo o que veio depois foram suas cópias. Mas a estória do Maior Show da Terra é fantástica. Ainda no final do Século XIX, não havia muitas opções de diversão nas cidades norte-americanas, e em 1875, Phineas Taylor Barnum e amigos reuniram atrações que viajavam pelos Estados Unidos. Isto incluía pessoas que dominavam algum truque com mágica, animais, principalmente africanos como leões e elefantes e até curiosidades bizarras como a mítica Sereia de Fiji, um mórbido dorso de macaco costurado a um corpo de peixe. Com o sucesso do show de Barnum, novos clones surgiram, repetindo sua receita e incluindo novas atrações. Mas em vez de competir, Barnum optou por se juntar a outro concorrente e assim surgiu a Barnum & Bailey Circus em 1882, que depois foi comprada pelos irmãos Ringling em 1919, surgindo a Ringling Bros. and Barnum & Bailey Combined Shows. Surgia aí o Maior Show da Terra que virou referência mundial do que era o circo.

Mas a arrogância de acreditar ser o maior show da Terra fez com que o Ringling Bros parasse no em 1919. Boa parte do show que vi em 2010, de certa forma, era o mesmo daquele de quase um século atrás. Conhecer pessoalmente o circo fazia parte da minha lista de desejos porque sabia que aquilo era um museu. Era a representação de um tipo de entretenimento míope que iria deixar de existir em algum momento. Aquele circo não percebeu que não estava no negócio de circo, mas de entretenimento de famílias. Por isso, passou a ter concorrência de filmes logo no início do século XX, depois de parques de diversões, televisão, internet e agora smartphones. Mas insistiu e se manteve no negócio de circo, com seus leões, tigres, macacos e o famigerado globo da morte.

Nesta semana, o Ringling Bros anunciou que o Maior Show da Terra vai deixar de existir. Queda vertiginosa nas receitas e custos crescentes impedem que a tenda fique de pé, mesmo com toda a força do Sr. Silva. É uma pena. Mesmo com os absurdos dos animais utilizados nos shows, muitos irão se lembrar dos momentos de alegria que tiveram com seus pais, comendo pipoca e rindo do medo que tinham dos palhaços quando ia a um circo, qualquer circo, na infância.

Mas a notícia do fechamento do Ringling Bros não pegou de surpresa a maioria das pessoas que entendem que o circo tradicional é algo do passado, do século passado. Fazer os mesmos truques durante tanto tempo já virou, no sentido figurado, um circo. Ninguém mais aguenta isto.

Mas o que impressiona é quantidade de negócios atuais que continuam achando que fazem “o maior show da Terra” nos segmentos em que atuam e não percebem seus clientes bocejando do outro lado. Estes negócios se desaparecessem, ninguém sentiria falta…

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper

Surpresa! Achei um unicórnio

18 de janeiro de 2017

Muito se fala hoje sobre startups que atingem US$ 1 bilhão de valor de mercado e, por isso, passam a ser chamadas de unicórnios. Mas a proposta aqui é mostrar que o conceito de unicórnio vai muito além disso. Startups são empresas, principalmente de tecnologia, que se encontram em fase inicial de operação e que, por isso, têm de usar toda sua capacidade criativa para manterem os negócios, serem inovadoras e se destacarem no mercado.

E é nesse ambiente desafiador, nessa corrida por um lugar ao sol, que despontam os verdadeiros unicórnios. Muito mais do que aquela que atinge o bilhão, um unicórnio é a empresa que surpreende pela capacidade de resolver, de maneira simples, problemas complexos, geralmente utilizando-se de recursos da tecnologia. A referência ao personagem mitológico indica que, assim como ele, essas empresas são diferenciadas e raras.

Segundo o escritor Tim O’Reilly, editor do site What’s the Future? (O que é o Futuro?), em seu artigo “We’ve Got This Whole Unicorn Thing All Wrong!” (em uma tradução livre: “Entendemos mal o conceito de unicórnio!”) são três os aspectos que caracterizam um unicórnio: o serviço/produto que oferece parece inacreditável para o usuário em um primeiro momento; esse produto/serviço muda a forma como as coisas funcionam e oferece um impacto econômico positivo não apenas a seus criadores, mas também aos seus usuários e à sociedade como um todo.

O escritor e inventor britânico, Arthur C.Clarke afirmou que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinta de magia”. É isso! Um unicórnio nos deixa boquiabertos, surpresos, como ficamos diante de um truque de mágica bem executado.

Mas, então, diante desses critérios tão exigentes, quais são de fato os unicórnios presentes hoje no mercado? O Uber, Airbnb e Spotify são alguns exemplos. Criaram formas totalmente novas e surpreendentes de ter acesso a serviços de transporte, hospedagem e entretenimento. A revista Fortune faz uma lista dos unicórnios, atualizada com frequência e que traz vários outros exemplos.

Enfim, há sim diversos unicórnios por aí e há também potencial tecnológico para se criar outros, inclusive no Brasil. O que vale ter em mente é que não basta correr atrás das cifras numéricas; o valor de mercado é consequência da inovação, da capacidade de surpreender o cliente/usuário e de tornar a empresa perene. Só assim é possível atingir, e até superar, a marca do tão desejado bilhão.

Stelleo Tolda é COO (Chief Operating Officer) e co-fundador do Mercado Livre.

Finalmente empreendendo pelos motivos certos

16 de janeiro de 2017

Nos Estados Unidos, um número cada vez maior de pessoas se define como empreendedores. Conforme pesquisa publicada no final de 2016 pelo Global Entrepreneurship Monitor  - GEM, 14% de toda a força de trabalho americana se considera empreendedora, e 25% da geração Y pretende abrir o próprio negócio. São números impressionantes.

A pesquisa anual do GEM iniciou em 1999 através de uma parceria do Babson College com a London Business School abrangendo 10 países, e hoje em dia conta com a adesão de mais de 100 países – inclusive o Brasil. É o maior estudo constante de empreendedorismo do mundo.

Aqui no Brasil, apesar dos três anos seguidos de crise e da retração na abertura de novos negócios em 2016, nosso futuro imediato deve seguir os mesmos passos internacionais. De acordo com uma pesquisa divulgada na última semana pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, dois a cada três brasileiros entre 25 e 35 anos pretendem ser donos do próprio negócio.

A pesquisa traz muitas informações interessantes. Porém, um detalhe eu considerei da suma importância: por trás desta intenção, na maioria dos casos, está a motivação correta.

Isso é muito importante quando lembrarmos que, até bem pouco tempo atrás, uma grande parcela dos empreendedores o era por não ter outra opção. Prefeririam um emprego dito seguro e estável, mas se viam forçados a empreender quando ficavam desempregados.

Agora vemos esta mudança radical: a grande maioria dos empreendedores o é por escolha, opção e por acreditar em seu potencial realizador. Segundo a pesquisa, as principais motivações são: a realização de um sonho, com 76%, a busca da qualidade de vida, com 75% e a busca ganho financeiro, com 70%.

E mesmo com a crise atual, que continua obrigando muitas pessoas a serem empreendedores forçados, o futuro pós crise vai mostrar uma quantidade enorme de pessoas querendo ser donas do próprio negócio pelos motivos certos.

Mais um detalhe curioso da pesquisa: dentre os jovens brasileiros não empreendedores, 73% citaram a segurança e estabilidade financeira, e 69% indicam a busca pela qualidade de vida como principais motivos para não abrir o próprio negócio. Casualmente os mesmos argumentos de quem procura empreender, não é?

É bom ficar esperto. Thomas Friedman já disse em 2005 que no futuro próximo não vai existir oferta de emprego, e as pessoas terão que inventar o próprio emprego. Acredito que cada um deve ir atrás do que acredita. E se você acredita em empreender e ser dono de tua própria vida, a história vai estar do teu lado. Vamos em frente!

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo escreve toda semana. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

 

Quer ter filhos mais inteligentes? Leia para eles

13 de janeiro de 2017

Stella tem quatro anos, mas ainda adora seu livrinho de opostos. Na verdade, ela já decorou há muito tempo todas as páginas que mostra palavras e desenhos de claro e escuro, dentro e fora, alto e baixo, dia e noite, um e vários, entre alguns exemplos de opostos. Ela deve ter mais de cem livros, gosta de vários, mas quase todas as noites pede para que eu leia o livro dos opostos.

Ela e eu sabemos que o que queremos mesmos é brincar. O livro é só um pretexto para apagar a luz do quarto quando estamos na página de escuro e ligá-la quando passamos para a página do claro. É a oportunidade dela sair do seu quarto quando estamos na página do fora, e voltar, quando vamos para a página do dentro. E depois ela sobe no meu pescoço e vamos investigar o que há nas prateleiras de cima do seu guarda-roupa quando estamos na página alto, e, de repente, vai para um voo rasante ao chão para olhar embaixo da cama quando a página fala do baixo.

De todas as páginas, a que mais gosta é a da noite em que há uma lua impressa na página. E o momento em que deixamos o quarto e vamos para a sacada do apartamento ver como e onde está a lua naquela noite. Olhando o céu escuro, lembro-a que Stella é estrela. Nossa estrela. Minha esposa fica brava dizendo que era para ter escolhido um livro com uma estorinha calma para ela dormir e não para acendê-la ainda mais. Mas ela só faz de conta que fica brava, pois a bronca já é dada há mais de dois anos, quando a Stella ganhou este livro.

Em casa, sempre tivemos muitos livros e eles estão espalhados por quase todos os cômodos. Assim, a extensão desse gosto para as nossas filhas foi algo natural. As duas têm estantes absolutamente abarrotadas de livros e já decoraram todas as estórias. A vantagem é que adoram relê-los.

O que não sabíamos é que a Academia de Pediatria dos Estados Unidos criou uma política em 2014 orientando todos os pediatras do país a e explicar e sempre reforçar a importância dos pais lerem para os seus filhos desde bebês. Esse movimento foi replicado no Brasil pela Sociedade Brasileira de Pediatria, que reforçou que os pediatras deveriam comunicar os grandes benefícios da leitura de livros infantis para bebês e crianças.

Diversas pesquisas conduzidas ao redor do mundo indicam que a leitura para crianças, em especial no período de zero a 6 anos tem impactos profundos no desenvolvimento pessoal, em especial na linguagem, aprendizagem e habilidades sócio-emocionais. A presença dos livros infantis nesse momento da vida é vital porque há uma intensa formação de sinapses nos cérebros das crianças.

Essa contribuição pode ser obtida tanto por livros digitais como os tradicionais em papel apontam alguns estudos. Mas as obras em papel são ainda mais benéficas porque criam um momento único entre a criança e seus pais já que é possível modificar diversos aspectos do livro permitindo muitas situações criativas e, por isso, as crianças passam a associar a leitura a um momento especial com seus pais. Isso cria uma aproximação e carinho que nenhum tablet ou aplicativo substitui. Depois, com o tempo, tornam-se mais curiosas e muito mais interessadas pela leitura. Por fim, tornam-se adultos mais bem informados e inteligentes.

Esse contexto tem criado diversas oportunidades para empreender em livros infantis. É um mercado que já responde por mais de 25% de todos os livros vendidos no Brasil e que cresce, apesar da crise. A Taba, Booxs e Leiturinha são algumas das startups que atuam nos serviços de assinatura de livros infantis. Além disso, em diversas cidades brasileiras, novas livrarias e espaços infantis especializadas em livros para crianças estão sendo abertas, inclusive por meio de franquias, como é o caso da ZasTras ou anexas às megastores como Livraria Saraiva, Livraria da Vila e Cultura. Novos selos voltados para público infantil estão sendo lançados e se juntam a vários outros pioneiros como a Companhia das Letrinhas, Salamandra ou mesmo Ciranda Cultural e Girassol.

Entre as novas editoras, destaque para a Vooinho, fundada pela Cláudia Mussi, consegue sintetizar o verdadeiro papel de um livro infantil, que não é tornar uma criança mais ou menos inteligente, mas “enquanto houver livros para sonhar, liberdade para criar e amor para acolher, haverá nas crianças o olhar para um mundo melhor.” – diz.

Marcelo Nakagawa é pai da Helen e da Stella e Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper.

Benchmarking: aprenda com o vizinho

11 de janeiro de 2017

Há um ditado que diz: “a grama do vizinho é sempre mais verde”. E, de fato, muitas vezes é. Nos negócios, reconhecer que há pontos que podem, e que precisam, ser melhorados é o primeiro passo na busca da excelência e, consequentemente, do sucesso. Dar uma espiada no quintal do vizinho e procurar aprender com ele pode ser uma ótima saída para conhecer novas – e melhores – formas de lidar com o próprio negócio.

Benchmarking é uma palavra em inglês, já bastante conhecida, usada para se referir à ação de comparar práticas empresariais, produtos, serviços e metodologias usadas por empresas concorrentes, por companhias consideradas referência em seus setores e até mesmo entre departamentos dentro de uma mesma empresa. O processo de fazer benchmarking começa com a identificação das empresas/áreas consideradas referência e segue com um estudo minucioso de como elas atuam.

Quando se trata da concorrência, fazer essa análise nem sempre é tarefa fácil, considerando que as empresas costumam guardar seus segredos a sete chaves frente aos rivais. Neste caso, uma alternativa é contratar um consultor especializado em inteligência de mercado para ajudar na pesquisa e levantamento de informações. Mas, dependendo do objetivo do benchmarking, algo muito mais simples também pode funcionar. Se você é proprietário de um varejo, por exemplo, ouviu dizer que seu concorrente está sendo muito elogiado no atendimento ao cliente e quer conhecer os diferenciais dele nesse quesito, faça uma visita à loja, física ou online; compre um produto dele e viva a experiência de ser seu cliente. Isso certamente lhe dará diversos insights sobre melhorias que podem ser aplicadas em sua própria loja.

Não se trata de copiar ou imitar o outro; é preciso identificar os diferenciais que estão levando o concorrente a ter sucesso em determinado aspecto e adequar essas melhores práticas às peculiaridades de seu próprio negócio. Nem sempre o que dá certo para um dará certo para o outro – questões culturais, financeiras, entre outras, precisam ser avaliadas.

No Mercado Livre, desde sempre fazemos benchmarking. Quando iniciamos o negócio, em 1999, isso era algo muito simples e envolvia, por exemplo, a prática de visitar os sites concorrentes e monitorar suas ofertas. Hoje em dia, contamos com práticas mais sofisticadas que envolvem o levantamento de dados sobre pagamentos, logística, precificação de produtos, tarifas e comissões, qualidade do atendimento entre outros aspectos.

Algo que sempre foi muito útil para o nosso negócio e que também pode ser aplicado a qualquer segmento é o benchmarking internacional. Ficar atento ao que está sendo feito lá fora por empresas do seu segmento de atuação pode revelar tendências e dar dicas de como se diferenciar por aqui. Essa é uma prática importante principalmente para aqueles que almejam ser “world class”, isto é, estar entre os melhores do mundo no negócio que se propõem a fazer.

Vale considerar ainda que o benchmarking pode ser de cooperação. Isso ocorre quando, de comum acordo, empresas – geralmente as que não concorrem entre si – compartilham informações sobre seus processos. Há aquelas que são consideradas referências para todo o mercado em alguns aspectos, como é o caso das companhias aéreas no que diz respeito a planejamento e gestão de crise. A complexidade do negócio que administram exige que sejam excelentes nesses quesitos. Nesse sentido, abrir as portas para que outras empresas conheçam seus processos dá a essas companhias prestígio e notoriedade.

Stelleo Tolda é COO (Chief Operating Officer) e co-fundador do Mercado Livre.

O governo, um sócio ingrato

9 de janeiro de 2017

Na última semana fui entrevistado pelo Jornal da TV CULTURA e tive oportunidade de falar sobre a situação dramática que nós, micro e pequenos empresários, estamos enfrentando sem nenhuma perspectiva de ajuda ou de melhora no curto e médio prazo.

Assista à reportagem aqui.

O centro da matéria jornalística foi o corte de subsídios que o governo federal quer levar a cabo neste ano, logicamente com muita resistência dos atuais beneficiados, as grandes corporações de sempre.

Conforme o economista da USP Paulo Feldmann – também entrevistado na matéria – ao longo das últimas décadas os benefícios têm sido focados nas grandes empresas, com resultados fracassados na preservação de emprego e no desenvolvimento sustentável.

Para se ter uma ideia do volume de dinheiro que o governo abre mão, apenas de janeiro a outubro de 2016 as isenções foram de 75 bilhões de reais. Lógico que esse dinheiro faz uma falta danada nas contas públicas, nos setores sociais e na estrutura básica do país. Foi comprovado que houve um uso predatório dos benefícios, e não ocorreu um fortalecimento real da base da economia.

Na minha participação na entrevista, citei números da “realidade real” do pequeno empreendedor: ao longo de 2016 cortamos 20% das vagas de trabalho em nossa empresa, devido à erosão da rentabilidade. Adivinhe qual é nossa maior despesa? Os impostos que nosso “sócio” ingrato – o governo – leva todo mês. Um “sócio” privilegiado que não compartilha nenhum risco e retira 30% de nossa venda bruta todo mês – muitas vezes antes mesmo de nós recebermos o depósito do cartão de crédito do cliente. Um “sócio” não quer saber de crise, não quer saber da saúde financeira de empresa, não quer saber da preservação de trabalho, nem tampouco se está faltando dinheiro para os salários.

As micro e pequenas empresas continuamos recebendo tratamento de terceira classe. Eu digo que podemos ser “micro e pequenas”, porém somos muito importantes. Paulo Feldmann aponta que geramos 45% dos empregos do Brasil. E conforme dados do SEBRAE de 2014, o nosso faturamento representa 27% do PIB.

Fazendo uma conta simples de masseiro, vejo claramente que contribuímos com muito mais empregos (45%) em proporção ao valor vendido (27%). Ou seja, nós distribuímos muito mais renda e proporcionamos mais vagas de trabalho com muito menos dinheiro. Temos menos margem de rentabilidade e somos a porta de entrada de muitas pessoas no mercado de trabalho e na formalidade.

E nada disso é feito com ajuda do governo – muito pelo contrário.

A realidade é cruel: mais de 50% das micro e pequenas empresas fecham em 5 anos. A principal causa, na minha opinião, é o financiamento extremamente difícil e caro para os pequenos. E o que já era pouco, através do BNDES, agora desapareceu totalmente – de um ano para cá cortaram totalmente os limites. O empreendedor cai nas garras dos bancos privados com taxas 5 vezes mais caras do que uma poupança – e vira escravo do banco. Ou precisa recorrer a garantias pessoas, comprometendo o patrimônio familiar ou simplesmente desistindo do negócio e fechando a empresa. As multas por atrasos de impostos são impagáveis, criando uma bola de neve. Também se agregam questões jurídicas, como o fato de que uma empresa em dívida contamina o crédito de todos os sócios de forma ilimitada – bem diferente de países como os EUA, onde a divisão entre empresa e pessoa física é sagrada, e permite ao empreendedor recomeçar do zero.

Em tempos de prosperidade, esse “sócio” ingrato que tudo quer e nada entrega já é um atraso para qualquer empresa. Mas períodos de crise como agora, é catástrofe: perdemos todos – inclusive o governo. Isso me parece bem pior do que ingratidão. No meu vocabulário, é burrice.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) escreve toda semana. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Receber uma dica? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

 

Mais uma vez: rosa não é cor de menina e azul não é cor de menino

6 de janeiro de 2017

“Papai, uma coisa que eu percebi nas propagandas é que as coisas de menina são rosa e as coisas de menino são azuis…” – comenta minha filha Helen, de 7 anos, enquanto olha, despretensiosamente, para a televisão. “E você acha que existe cor de menino e cor de menina?” – pergunto, também sem muito interesse para não influenciar na resposta. “Acho que não…” – Helen responde. “Menina pode usar azul?” – pergunto. “Sim…” – responde rápido.  “E menino, pode usar rosa?” – continuo o nosso bate-papo.   “Sim.” – Helen responde tranquilamente. “Todos podem gostar da cor que quiser…” – complementa, voltando a prestar atenção na TV.

Depois que me tornei pai de duas filhas, a questão do empoderamento feminino se tornou muito mais importante e presente na minha vida. Assim, choca como as meninas ainda são tratadas pelas empresas que vendem o mundo “cor-de-rosa” para as pequenas que antigamente queriam Barbies e agora estão viciadas em Shopkins. E pelos pais que aceitam isto e alguns (muitos) que até incentivam, mesmo que inconscientemente, o estilo de vida consumista (e fútil) de Barbie (e agora Shopkins).

Por isso, a comparação das capas das revistas Girl´s Life e Boy´s Life de setembro do ano passado, mais uma vez, esquentou a discussão sobre como educamos meninos e meninas. Na revista dos meninos, a chamada: “Explore seu futuro. Astronauta, artista, bombeiro, chef? Veja aqui como ser o que quiser ser”. E fotos de satélite, avião, computador, microscópio, caminhões, chapéu de bombeiro para ilustrar a chamada.

E os atrativos da capa da revista das garotas? A atriz e cantora de séries da Disney, Olivia Holt, também muito conhecida por fazer propaganda dos brinquedos de “meninas” como Bratz e Littlest Pet Shop (pais de garotas sabem quem são) e chamadas como: A moda outono que irá amar. Acorde bonita. O cabelo dos seus sonhos. Uma lista de coisas para as pessoas amarem o seu jeans.

Se cada uma das capas forem mostradas individualmente e separadamente para diferentes públicos, poucos se incomodarão pois o “mundo é assim”. Há coisas de “meninos” e de “meninas”… O choque vem quando as capas são colocadas lado a lado e percebemos que a diferença vai muito além dos brinquedos (carrinhos x bonecas), brincadeiras (que sujam x que não sujam), direitos e deveres em casa (ficar jogando videogame x ajudar na limpeza, não tomar banho x banho + lavar cabelo + secar + pentear) ou cores (azul x rosa). O choque mais incomodo é sobre o futuro das meninas ou sobre o presente das mulheres que vemos atualmente: submissão, violência, funções domésticas, diferença de salários, posições de liderança nas empresas, presença reduzida em áreas que produzem ou utilizam satélites, aviões, computadores, microscópios, caminhões, chapéu de bombeiro (lembra-se da capa da Boy´s Life?), entre tantas frentes de batalhas das iniciativas de empoderamento feminino que tentam agora igualar séculos de princesas indefesas e ingênuas sendo salvas por príncipes encantados.

Mas este empoderamento não precisa ser feito apenas por negócios inclusivos como a Impulso Beta, que faz isto em empresas, Mulheres na Computação ou Rede Mulher Empreendedora. Muitas organizações e empreendedores já perceberam a demanda de pais como eu e estão criando negócios que também empoderam meninas e as libertam deste viciante mundo pink.

Mas as oportunidades só estão no início para os que acreditam que é preciso parar de generalizar o mundo em vida de “menino” ou de “menina” e começar a preparar pessoas melhores para um mundo melhor, independente se tudo será azul ou rosa na vida delas.

Enquanto os meus pensamentos estão no futuro da minha filha, ela desliga a televisão e vem me perguntar sobre o novo filme de Star Wars. Falo que é sobre uma moça com nome difícil, Jyn Erso, que lidera um movimento contra o Darth Vader. Helen fica curiosa e pergunta quando iremos assistir…

“Que a força esteja com você, filha” – penso enquanto respondo que iremos ver Rogue One semana que vem…

Marcelo Nakagawa é pai da Helen e da Stella e também Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper, Vanzolini, FIA, Instituto Butantan.

Tendências no e-commerce para apostar em 2017

4 de janeiro de 2017

O Ano Novo está só começando e as expectativas dos empreendedores já são muitas: retomada da economia, reaquecimento do mercado de trabalho, ampliação do consumo… Enfim, o que mais se deseja é que o País volte a crescer. Mas, o que esperar, de fato, de 2017?

Claro que essa pergunta pode ser respondida a partir de diferentes óticas; do ponto de vista do comércio eletrônico é possível afirmar que esse ano continuará sendo de crescimento. O setor vem há vários anos em uma curva ascendente, mesmo diante de cenários adversos, e deverá se manter assim em 2017.  Para seguir surfando essa onda é importante estar atento aos aspectos que continuarão impulsionando o e-commerce. Confira alguns deles:

Acesso mais fácil à internet
Um dos entraves da infraestrutura brasileira para o avanço do e-commerce é o acesso limitado à internet – pouco mais de 50% da população no país navegam na rede. Uma das maneiras encontradas pelas empresas online para se aproximarem desse público ainda desconectado é, por meio de parcerias com as empresas de telecomunicações, oferecer acesso grátis à internet para a navegação em seus aplicativos. No ano passado isso foi utilizado por muitas empresas como uma ferramenta de Marketing, principalmente em datas sazonais – Dia das Mães, Black Friday etc. Os resultados mostraram que é uma estratégia válida – aprovada pelos clientes e pelas empresas -, o que deve tornar essa prática cada vez mais comum.

O mundo online é multiplataforma
Os dispositivos móveis – principalmente o celular – já são os mais utilizados para pesquisas de preços e de disponibilidade de produtos na internet, porém, a maior parte das vendas ainda é concretizada no desktop. Para um empreendedor online, é essencial estar preparado para atender o cliente nessas e nas diversas outras plataformas que podem levar o consumidor até o seu negócio. A tendência nesse caso é que os acessos se concentrem cada vez mais nos dispositivos móveis – celular, tablet, smartwatch.

O cliente no centro das decisões
Na internet, o produto e/ou serviço do concorrente está a um click do seu. Para o consumidor mudar de ideia e comprar em outro e-commerce é uma questão de segundos. Por isso é tão importante garantir que a experiência de quem entrar em sua loja online seja excelente e ele se torne um cliente fiel. Para alcançar esse patamar é essencial colocar o cliente no centro de todas as suas decisões. Da escolha dos produtos do portfólio da loja até à decisão sobre qual sistema de ERP será utilizado no back office da operação. Tudo, sem exceção, impacta o cliente de alguma maneira.
A geolocalização como ferramenta de marketing
Outra tendência é a ampliação do uso da geolocalização como ferramenta de Marketing. Conhecer a rotina de seu cliente, ou ao menos identificar os consumidores mais próximos de sua área de atuação, gera possibilidades de se diferenciar da concorrência – inclusive de grandes marcas. Cada vez mais o consumidor preza pelo atendimento de qualidade, o que inclui a personalização. Quem não gosta de se sentir especial e único ao entrar em uma loja? Isso não é diferente com o consumidor online. Porém, é preciso ter bom senso para usar essa ferramenta. A linha que separa uma ação de marketing online personalizada de uma ação invasiva pode ser muito tênue. Fique atento para aproveitar as vantagens tecnológicas da melhor maneira para o seu negócio e para o seu cliente.

Stelleo Tolda é COO (Chief Operating Officer) e co-fundador do Mercado Livre.

De volta para o futuro

2 de janeiro de 2017

Impressiona a quantidade de micro tendências que estão voltando. São tantas, acontecendo simultaneamente, que procurei no google como este movimento poderia ser definido numa única expressão. Não encontrei nada, por isso vou usar a expressão inovação-retrô.

Não é o vintage e não é o antigo. Na inovação-retrô as pessoas resgatam hábitos, produtos e serviços do passado, porém bem adaptados aos novos tempos, ao novo momento tecnológico, ao novo usuário e consumidor. Eu sou do século passado, portanto já vi muita coisa desaparecer. Algumas delas achei que nunca veria de novo, mas aqui estão – e ainda bem – melhores do que antes.

Por exemplo: para quem é mais jovem, pode ser que seja novidade ir ao barbeiro. Mas, acreditem ou não, era uma profissão bastante comum no século passado e retrasado. O advento das máquinas de cortar cabelo e das lâminas de barbear descartáveis quase fez esta atividade desaparecer no final dos anos 90. Quase. Agora os novos barbeiros se aliaram a tatuadores, esteticistas e baristas, oferecendo drinks, rock, café, moto, bikes, comics e uma miríade de coisas bacanas para atrair novos – e antigos – clientes.

Outro exemplo: as pessoas estão fazendo a própria cerveja na cozinha do apartamento ou na garagem da casa dos pais. Mais exemplos: aprender a usar ferramentas, consertar a própria moto, construir um móvel, preparar o próprio alimento, fazer costura, etc.

Neste cenário, é difícil saber se primeiro apareceu o cliente ou o comerciante. Provavelmente os dois ao mesmo tempo. Ou seja, o consumidor, não encontrando quem atendesse a esta demanda, abriu o próprio negócio – foi exatamente assim que nasceu a ideia do Pastifício Primo.

Na mesma lista de negócios inovadores-retrô posso colocar os novos açougues, os não-restaurantes do Mercado Municipal de Pinheiros, as lojas de reparo de bicicletas. Nos brinquedos, adoro o cubo mágico, o Lego, o Genius e os brinquedos de madeira. Na gastronomia, o artesanal, a comida orgânica e direto do produtor. Na moda, os tênis All Star e a Doc Marten’s. Na decoração, voltaram os ladrilhos hidráulicos e os móveis no estilo dos anos 60. Sobre rodas, a Harley e a Vespa. E tenho certeza de que você já está acrescentando itens nesta lista.

Por trás dessa tendência, acredito estar uma combinação de nostalgia com um inevitável reconhecimento da qualidade destes produtos/serviços – temporariamente massacrada pela tecnologia e as novas modas que, por alguns anos, decretaram o seu sumiço. É como se tivéssemos que voltar ao passado para redescobrir nosso futuro.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo escreve toda semana. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Receber uma dica? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

Use sua chance!

27 de dezembro de 2016

Vai começar um novo ano, uma nova etapa, uma nova contagem, uma nova chance. Uma de minhas principais crenças sobre negócios é a de que, antes de mais nada, precisamos de pensamento positivo para fazer qualquer coisa dar certo. Isso se manifesta particularmente nesta época do ano, em que, depois de contabilizar ganhos e lamber as feridas do ano que passou, tomamos fôlego para as batalhas que estão por vir.

Por isso, compartilho uma canção do Lenine que me serve como mantra – alimento para a alma –  que me faz ferver o sangue, arrepiar, me faz sentir o valor de FAZER – em vez de esperar – ou lamentar. Grite bem alto, vista a música como uma armadura contra os medos e a paralisia. Vamos em frente!

Do It / Lenine

Tá cansado, senta
Se acredita, tenta
Se tá frio, esquenta
Se tá fora, entra
Se pediu, aguenta
Se pediu, aguenta

Se sujou, cai fora
Se dá pé, namora
Tá doendo, chora
Tá caindo, escora
Não tá bom, melhora
Não tá bom, melhora

Se aperta, grite
Se tá chato, agite
Se não tem, credite
Se foi falta, apite
Se não é, imite

Se é do mato, amanse
Trabalhou, descanse
Se tem festa, dance
Se tá longe, alcance
Use sua chance
Use sua chance

Se tá puto, quebre
Tá feliz, requebre
Se venceu, celebre
Se tá velho, alquebre
Corra atrás da lebre
Corra atrás da lebre

Se perdeu, procure
Se é seu, segure
Se tá mal, se cure
Se é verdade, jure
Quer saber, apure
Quer saber, apure

Se sobrou, congele
Se não vai, cancele
Se é inocente, apele
Escravo, se rebele
Nunca se atropele

Se escreveu, remeta
Engrossou, se meta
E quer dever, prometa
Pra moldar, derreta
Não se submeta
Não se submeta

Tá cansada, senta
Se acredita, tenta
E se ta frio, esquenta
Se ta fora, entra
Se pediu, aguenta
Se pediu, aguenta

E quer dever, prometa
Pra moldar, derreta
Não se submeta…

E se ta mal, se cure
Se é verdade, jure
Quer saber, apure

Tá doendo, chora
Tá caindo, escora
Não tá bom melhora

E se frio, esquenta
Se ta fora, entra
Se pediu aguenta
Se pediu aguenta

Confere o vídeo aqui e um 2017 cheio de coisas boas!

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo escreve toda semana. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Receber uma dica? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br