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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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Nada para uma grande inovação disruptiva. Nem os vendedores, juízes ou taxistas.

12 de fevereiro de 2016

John Patterson achava que tinha encontrado um produto que seria uma mina de dinheiro quando decidiu comprar o negócio de James Ritty em 1884. Ritty tinha inventado a caixa registradora, mas depois de cinco anos tentando vendê-la para lojas, bares e restaurantes, só algumas poucas unidades tinham sido comercializadas. E mesmo estas poucas davam mais dor de cabeça para Ritty do que lucros, pois quebravam o tempo todo.  Desapontado, vendeu tudo para Patterson e seu irmão.

Os Pattersons sabiam que tinham uma grande inovação nas mãos. Só não contavam que seus concorrentes mais sórdidos estavam justamente dentro das lojas dos seus clientes. Antes da caixa registradora, os vendedores comercializam os itens, recebiam o dinheiro e, esperava-se, que registrassem a venda em um bloco de anotações. O dono do negócio então fechava o movimento do dia que constava no bloco e conferia se o dinheiro que tinha entrado no caixa batia com o resultado que tinha calculado. E, quase sempre, a conta batia. Então por que precisaria de uma caixa registradora? E que ainda quebram o tempo todo.

Mas os Pattersons descobriram a causa de tantas quebras. Alguns vendedores costumavam não registrar algumas vendas no caderno, embolsando o pagamento recebido. Diante da obrigatoriedade de ter que usar a caixa registradora, eles simplesmente sabotavam os equipamentos fazendo com que quebrassem com frequência.

Para mostrar a fragilidade das anotações manuais, a facilidade de embolsar parte das vendas e as técnicas de sabotagem dos vendedores, os Pattersons inauguram um processo de comercialização que é padrão atualmente: Os congressos de vendas realizados em hotéis. Nestes eventos, os próprios donos dos estabelecimentos comerciais encenavam diferentes papéis: Ora como cliente, ora como vendedor esperto e finalmente como ele próprio, um dono de negócio com vários “sócios” ocultos. Só assim, longe dos seus funcionários, é percebiam o real valor daquela inovação.

Por mais que alguns vendedores ainda tentassem danificar as caixas registradoras, o valor daquela inovação do final do Século XIX para os comerciantes já tinha sido demonstrado e mais nada parou sua adoção mundo afora.

Cento e vinte e cinco anos depois, um juiz brasileiro (legalmente amparado, para deixar claro) pediu o bloqueio do Whatsapp, deixando quase 100 milhões de brasileiros e outros milhões ao redor do mundo à beira da loucura social. Como se comunicariam com as outras pessoas? Manda um torpedo! – sugere alguém. Torpedo? O que é isso? – pergunta o outro. Até que alguma pessoa lembra do Telegram. E, de repente, milhões que nunca enviaram um telegrama na vida, estão baixando o aplicativo “tipo Whatsapp” ou criando VPN para ter o acesso ao seu aplicativo preferido de volta. O bloqueio era de 48 horas, mas só durou poucas horas diante de tanta repercussão mundial.

E se um juiz não conseguiu barrar uma grande inovação, por que um grupo de taxistas conseguiria barrar o Uber na base da pancaria? Por mais que tenham a regulamentação do seu lado, nada para o avanço de uma inovação disruptiva desejada por quem usa e paga por isto.

Mas o que poucos percebem é que não são as grandes tecnologias que fazem realmente a diferença. O que tem impacto mesmo é como elas mudam as relações entre as pessoas. A caixa registradora só se tornou realmente eficiente quando um sino soava a cada transação incluída. Este som era o sinal que matinha o dono do negócio sempre alerta. E o som do Whatsapp também tem o mesmo objetivo de manter as pessoas em alerta para alguma demanda da sua rede de contatos mais próxima. E é o sentimento de alerta dos motoristas do Uber que faz realmente a diferença: bem vestidos, veículos novos e limpos, ar condicionado e música de acordo com o gosto do cliente, água (gelada em alguns casos) e outras regalias.

Nenhuma inovação disruptiva pode ser mais parada com sabotagens, canetadas ou pancadaria. Uma inovação só é barrada por outra, ainda melhor.

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper e diretor de Empreendedorismo da FIAP

Bio-makers, emancipação de robôs e aumento da confiança digital são destaques do NetExplo 2016

11 de fevereiro de 2016

Marcelo Pimenta (menta90) é professor de inovação da ESPM e representa o Brasil no Conselho Acadêmico da NetExplo. Para saber mais curta http://facebook.com/menta90


Quais as novidades tecnológicas de maior impacto em todo o mundo no último ano? Responder essa questão é o desafio que o NetExplo (organismo independente, com suporte da Unesco) busca fazer, anualmente, com o apoio de professores e estudantes de 17 países (dentre eles China, Israel, África do Sul, Inglaterra, Chile, Bélgica…).  Desde 2014 tenho a honra de representar o Brasil nesse seleto grupo. Meus alunos da pós-graduação em marketing digital da ESPM são estimulados, junto com alunos desses países, a identificar as tecnologias digitais que tem o maior potencial de mudar o mundo – e afetar a sociedade. No ano passado foram mapeadas 2.175 tecnologias, analisadas por especialistas com diferentes competências. O resultado foi apresentado no Fórum NetExplo, que  aconteceu nessa quarta-feira, 10 de fevereiro, em Paris.

As principais inovações de 2015 foram organizadas em três grupos:

- Iniciativas bio-maker (incluindo todas aquelas que surgem da intersecção da internet das coisas com a biotecnologia);

- Tecnologias que visam o aumento da segurança e confiança digital;

- Projetos que trabalham pela emancipação dos robôs.

Designer colombiano Carlos Torres discursa como vencedor do NetExplo 2016

O grande vencedor do NetExplo 2016 vem do grupo das inovações do movimento bio-maker:  IKO, um sistema protético criado pelo designer colombiano Carlos Torres, que ajuda crianças com os braços malformados ou feridos a recuperarem a autoestima e os movimentos usando uma prótese modular com a qual podem brincar. O projeto usa braços e mãos compatíveis com peças de Lego. As crianças podem personalizá-los escolhendo diferentes formas, cores e acessórios (e fugindo daquele estereótipo de próteses feias, grandes). Um exemplo de como a tecnologia, aliada a criatividade e a imaginação, podem ajudar crianças a superar uma desvantagem. O vídeo (em inglês) está aqui.

Crianças recuperam movimentos e vencem o preconceito brincando

Uma nação, uma conversa  - projeto liderado pela startup Aweza e apoiado por várias instituições sul-africanas – faz parte do grupo de inovações que buscam aumentar a utilidade e a confiabilidade das tecnologias digitais. Como nem sempre é fácil o entendimento entre a população que vive em um pais com 11 línguas oficiais, Aweza é um aplicativo de tradução móvel que torna o diálogo muito mais acessível. Usando crowdsourcing e técnicas de gamificação, o projeto incentiva voluntários a gravar a sua própria pronúncia de palavras e frases. O resultado não é apenas uma ferramenta útil, mas um banco de dados criado por uma multidão de voluntários. E vem mudando a vida de milhões de pessoas, principalmente na saúde e na educação. Veja o vídeo (em inglês)

Aplicativo elimina barreiras entre dialetos na África do Sul

Vem da Noruega o destaque do grupo dos robôs inteligentes. Pesquisadores da Universidade de Oslo desenvolveram um robô que é capaz de aprender com os erros, adaptar-se ao ambiente em que está inserido, assim como reparar ou criar novas peças para ter uma performance melhor. Ele usa uma impressora 3D integrada para produzir seus próprios componentes, de forma autônoma. A ideia é que o robô possa ser útil tanto para ajudar em resgates de humanos em desastres assim como para explorar lugares inacessíveis (no fundo do mar, cavernas profundas ou ainda outros planetas). Veja o vídeo para entender como ele funciona (em inglês)

Robô imprime partes que necessita para melhor performar

Para conhecer as 10 inovações vencedoras do NetExplo 2016 acesse

As semelhanças de esportistas e empreendedores

11 de fevereiro de 2016

Muitos empreendedores – inclusive eu – tem uma ligação profunda com esportes, ao ponto que isso me faz pensar no quanto o esporte influencia o comportamento empresarial. Não estou falando sobre esportes contemplativos ou relaxantes – muito pelo contrário – me refiro a esportes sacrificantes e desafiadores.

Dizem que a semelhança entre esportistas e empreendedores – na prática do jogo ou dos negócios – está em maximizar os pontos fortes e defender os pontos fracos. O entendimento – mesmo que instintivo – dos pontos fortes faz com que o atleta – e o empreendedor – encontre uma posição única no jogo, na qual podem usar todo esse potencial de valor, ao mesmo tempo que tentam identificar as fragilidades e estabelecem estratégias de defesa.

Eu listo aqui sete semelhanças básicas que percebo entre atletas de alta performance e empreendedores de sucesso:

1. Paixão – a maioria dos empreendedores são movidos por uma paixão pelo seu negócio. É essa força que o mantém trabalhando até tarde da noite, longe da família, aos finais de semana, nos feriados. Assim como o atleta que ama o esporte que pratica e acorda de madrugada para treinar.

2. Tenacidade – quando tudo está indo bem, é fácil ser empresário. Já o verdadeiro empreendedor continua insistindo mesmo quando as coisas estão difíceis, muitas vezes se nega a aceitar a derrota em busca de soluções. O bilionário Abilio Diniz é assumidamente um apaixonado por esportes desde a infância, com especial dedicação às corridas de longa distância e várias maratonas internacionais no currículo. Notório por uma fortuna construída em sucessivas brigas com família, sócios e investidores, a garra e determinação (alguns chamam de obstinação) do Abilio nos negócios sem dúvida são características que combinam com a resistência de conseguir correr os 42 km de uma maratona.

3. Autoconfiança –  o empreendedor tem muito mais propensão a assumir riscos justamente pela confiança de que vai conseguir o resultado que visualizou. Uma vez um amigo me falou que a diferença entre o melhor tenista do mundo e o número 100 do ranking era apenas de autoconfiança. E faz todo sentido para mim.

4. Tolerância ao medo – é assustador assumir riscos, começar um negócio novo, apostar tudo o que se tem em um negócio. O empreendedor deve ser capaz de usar este medo como combustível. Para o atleta, por exemplo, pode ser o medo de treinar por 4 anos e fracassar na Olimpíada. Barreiras que devem ser superadas.

5. Visão – enxergar um caminho possível até o sucesso é uma característica indispensável do empreendedor e do atleta, que mentaliza, antes de cada jogo, a imagem da vitória, o resultado do jogo, como vai conseguir colocar a mão na taça.No Brasil, um exemplo indiscutível de liderança empresarial é o Jorge Paulo Lemann. Ele conta no livro Sonho Grande que quase foi tenista profissional, mas afinal o mundo dos negócios foi mais sedutor. Mesmo assim ele nunca abandonou o esporte, e afirma ter aprendido muitas lições com o tênis, a principal delas foi “aprender a perder”. Dizem os boatos que ele, que já é um senhor de setenta e poucos anos de idade, joga tênis com os amigos sempre para valer, lutando cada ponto.

6. Flexibilidade – ser capaz de fazer mudanças, adaptações e assumir mais responsabilidades ou mais trabalho, são características de um empreendedor e de um atleta.

7. Quebrar as regras – muito já foi dito sobre a necessidade de desafiar as convenções, tentar fazer aquilo que foi dito que nunca seria possível de ser feito. Atletas também adoram quebrar recordes e conquistar o inédito.Um cara que sabe quebrar as regras como ninguém é o inglês Richard Branson, um alucinado por adrenalina, e com diversas anotações no livro de recordes Guiness: conseguiu o recorde de velocidade de travessia do Atlântico em barco em 1985, depois de fracassar várias vezes. Depois foi o primeiro a atravessar o Atlântico de balão em 1986 – ele também tentou fazer a volta ao mundo de balão em vôo único por 3 anos seguidos, mas fracassou. E agora, aos 61 anos de idade (em 2014), foi o homem mais velho a cruzar o canal da Mancha num kitesurf, além de mais um bizarro recorde que é o de maior número de pessoas numa prancha de kitesurfing… com 3 lindas modelos.

Provavelmente você, empreendedor que me lê toda semana, também deve ter seu esporte preferido – caso não, talvez pense em mudar de ideia após a leitura.

Atletas e empreendedores podem usar roupas diferentes no trabalho de cada um, mas encaram o desafio da mesma forma. Mesmo porque negócios e esporte são jogos. Em que se ganhou ou se perde. Não existe meio termo.

Ivan Primo Bornes – fundador do Pastifício Primo, masseiro e esportista.

Quer subir? Então pare de ficar apertando o botão “descer”!

5 de fevereiro de 2016

A situação é sempre a mesma. Você pega o elevador rumo ao subsolo onde está seu carro. Mas passando pelo piso térreo, o elevador para e abre as portas.  Um rosto meio sem graça aparece e pergunta: “Ah… tá descendo, né?”.  Você solta um grunhido parecido com o que os seus olhos já tinham respondido.

Por que há tantas pessoas que apertam o botão “descer” quando, na verdade, querem subir? E por que continuam fazendo isso? Como chamar uma pessoa que faz a mesma coisa esperando resultado diferente?

E isso não é valido apenas para os elevadores, mas também para suas trajetórias de vida.

Quantas pessoas querem pegar o elevador do estudo? Quando Thai Nghia chegou ao Brasil em 1979, fugido do seu país, ele tinha ficado a deriva no oceano e havia sido regatado por um navio da Petrobrás. Thai não falava português e ainda não havia dicionário Vietnamita-Português para ele sequer se comunicar.

A primeira coisa que decidiu fazer foi criar o tal dicionário já que talvez outra pessoa precisasse mais do que ele. Aprendeu a língua portuguesa sozinho e cinco anos depois já tinha ingressado na USP e trabalhava em um importante banco brasileiro.

Nesta época, emprestou dinheiro para um amigo fabricar bolsas e ele não conseguiu pagar o dinheiro devido. Para reavê-lo, Thai passou a vender as bolsas durante o dia, trabalhando no banco à noite. Ganhava mais dinheiro com as bolsas e decidiu abrir um negócio. Chamou a empresa de Yepp e depois mudou para Góoc, uma das marcas brasileiras pioneiras a tratar a sustentabilidade com seriedade e convicção.

Quantas pessoas estão esperando o elevador da perda de peso? Em 1961, a dona de casa Jean Nidetch tinha 38 anos, media 1,75 metro e pesava quase 97 quilos. Então, ela notou que não somente ela, mas todos a sua volta estavam obesos. Jean começou um regime e algumas semanas depois reuniu seis amigas “gordas” para anunciar que ela tinha perdido 18 quilos. E as desafiou a seguir seu programa de regime. O grupo começou a se reunir periodicamente para relatar os avanços e em poucos meses todas perderam peso. A própria Jean atingiu 64 quilos um ano depois. Percebendo que tinha uma grande oportunidade de negócio, fundou a Vigilantes do Peso, uma empresa que vale US$ 3,3 bilhões atualmente, com ações negociadas na Bolsa de Nova York.

Quantas pessoas aguardam o elevador do emprego melhor? Após diversas tentativas, Walter Elias, desistiu de encontrar o emprego dos seus sonhos. As empresas achavam que ele não tinha talento suficiente e não tinha potencial para avançar na carreira. Cansado, ele se juntou a um amigo e criou uma empresa para explorar seu dom artístico. Só um detalhe, o sobrenome de Walter era Disney e o resto da história você conhece.

Quantas pessoas ficam apertando o botão “reclamar” para chamar o elevador de um mundo melhor? O alemão Peter Eigen parou de reclamar em 1993, quando co-fundou a ONG Transparência Internacional, que monitora e divulga o nível de corrupção nos países. Agora, outros reclamam por ele. Graças ao ranking da corrupção mundial da Transparência, em 2015, as populações da Dinamarca e Finlândia, países menos corruptos do mundo, podem reclamar das razões de suas nações terem tirado nota 9,1 e 9,0, respectivamente e não 10. E no Brasil, a população nem sabe que a nota do País foi 3,8…

Há outros milhões de botões que estão sendo apertados neste momento. Mas enquanto estas pessoas continuarem apertando o botão “descer”, continuarão onde estão.

Quer subir na vida, mas o elevador está demorando? Vá de escada!

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.

Os impostos contra todos

4 de fevereiro de 2016

É totalmente ingênuo ter que ficar batendo na mesma tecla dia após dia, eu sei. Mas tem um assunto que precisa ser repetido e revisto tantas vezes quanto possível. É claro que estou falando dos impostos.

Os impostos são parte inevitável de nossa vida em sociedade, de nosso papel cívico. São um compromisso ético de contribuir para o bem comum (em tese), a estrutura de gestão pública, a administração desta grande complexidade que é um país. Benjamin Franklin disse uma vez que nada é certo neste mundo, a não ser a morte e os impostos.

Eu acredito que se engana quem pensa que o aumento de impostos penaliza aos ricos (estes são, provavelmente, os menos afetados). As maiores vítimas, na minha opinião, são da classe média para baixo. É simples: é uma relação entre o que entregamos de dinheiro e os serviços públicos que recebemos em troca. Pergunta: você está atualmente satisfeito com essa troca? Acho que todos concordamos com a resposta.

Para relembrar, no meu texto de setembro passado fiz uma provocação, convidando o consumidor a não compactuar com a sonegação, pois isso significa menos arrecadação, menos dinheiro público. Também fiz um convite ao empresário sonegador de parar de “guardar” para si próprio o imposto sonegado – deixar de ser parte do problema, e passasse a fazer parte da solução. E também me atrevi a indicar que a maior responsabilidade, afinal, é do governo – municipal, estadual ou federal – que é o administrador dessa coisa toda, e refletindo se o aumento de impostos confirmaria a tal da curva de Laffer , teoria dos anos 1970 que afirma que elevação de impostos traz menos arrecadação. Claro que ninguém deu bola.

E nesta semana, para indignação geral, o governo mais uma vez escolhe o caminho do bruto: já anunciaram para maio novos tributos sobre o chocolate, sorvete (sorvete!?) e ração de cães e gatos, entre outros. E a CPMF pode voltar com força total. Taxativamente, estamos ferrados, sem trocadilho.

O assunto me voltou na memória ontem, quando li num site argentino uma notícia que afirma que a diminuição radical de tributos do novo governo no país vizinho trouxe o efeito imediato de uma maior arrecadação. Será que os Hermanos estão comprovando os efeitos práticos da redução de impostos da curva de Laffer?

Já no Brasil, a avaliação mais perspicaz que eu vi sobre o aumento de impostos foi do Prof. Leandro Karnal, que lacrou o assunto na TV Cultura. Destaco em especial a genial comparação que fez do governo com um junky “como vou aumentar a mesada de um filho que está usando o dinheiro para drogas?” Significando o óbvio: quanto mais o governo arrecada, mais ele gasta – e não necessariamente melhor. Vamos rir para não chorar.

Para temperar este cenário já trágico, temos a tal da crise que está devastando poupanças e a liquidez de pessoa fisica e jurídica pelo Brasil afora. A crise afeta diretamente milhares de pessoas de cima a baixo: os demitidos deixando de contribuir, e também deixando de consumir; profissionais liberais ganhando menos e contribuindo menos; empresas vendendo menos, ganhando menos e contribuindo menos.

E mesmo assim, o governo quer aumentar os impostos… parece um tanto suicida. Mas quem morre somos nós.

Ivan Primo Bornes – o masseiro do Pastificio Primo fica até tarde fazendo contas de como pagar o aumento da farinha.

 

Passarinho que acorda cedo bebe água limpa

1 de fevereiro de 2016

Quiosque da Amazon na Avenida Paulista propicia a experiência do usuário com e-readers. Ação está alinhada com as principais tendências para o varejo apresentadas pela Cisco na NRF

Marcelo Pimenta (menta90) é professor da ESPM, criador do Laboratorium e escreve às segundas no Blog do Empreendedor do Estadão PME. Para acessar outros conteúdos, curta www.facebook.com/menta90

Semana passada saí de uma reunião na Aceleratech e caminhando em direção a minha casa tive uma surpresa! Um quiosque da Amazon? Ou seria da Kindle?

A foto abaixo mostra o espaço, com destaque para o logotipo de ambas as marcas. Logo pensei: preciso saber mais sobre isso, pois já tínhamos registrado o surgimento da primeira loja física da Amazon no mundo e precisava saber mais sobre o que exatamente estava acontecendo.

Por meio de um cartão que consegui no stand, acessei a assessoria de imprensa e enviei algumas perguntas. Recebi as respostas às minhas dúvidas do gerente-geral para Kindle da Amazon.com.br, Alexandre Munhoz. Ele explicou que o quiosque pretende proporcionar  “a experiência para leitura oferecida pela Amazon.com.br para os clientes brasileiros”, permitindo o manuseio e uso dos diversos modelos de e-readers, além de esclarecer dúvidas e apresentar  serviços como o Kindle Unlimited.

Perguntei sobre o feedback dos usuários e a informação é que “os melhores resultados são os muitos clientes felizes, que tem visitado o quiosque, conhecendo nossos produtos e serviços voltados para leitura”. Logo me veio à cabeça o ditado título desse post:– Passarinho que acorda cedo bebe água limpa.

Esses caras mais uma vez saem na frente, buscando ‘evangelizar’ o consumidor a experimentar as novas tecnologias. Isso tem tudo a ver com o que vi e ouvi sobre as tendências de varejo apresentadas na National Retail Federation – NRF – uma das principais feiras do comércio no mundo, em Nova York: o varejo não é mais comércio, é cada dia mais serviço e entretenimento.

E é isso que a Amazon busca com esse quiosque, oferecer a oportunidade de experimentar uma tecnologia ainda nova para a maioria das pessoas. É ao mesmo tempo serviço e lazer para cativar novos adeptos para os livros eletrônicos.

A NRF se tornou um evento global, uma espécie de “abertura da temporada 2016 para o varejo”, é bom ficar atento para saber do que vem por aí. Muitos brasileiros estiveram por lá (enfrentando o frio) e tiveram a oportunidade de se atualizar sobre as principais previsões para o varejo (como essas, que constam no relatório da Cisco sobre o futuro do comércio):

-> O segmento tem potencial de gerar 506 bilhões de dólares em negócios até 2018. Mas atualmente realiza apenas 15% desse montante;

-> Ao mesmo tempo em que é uma grande oportunidade, a disrupção do setor é também a maior ameaça de quem está hoje no mercado;

-> Os ganhos poderão vir da combinação de iniciativas em diferentes direcionadores do negócio: produtividade dos empregados, inovação, melhoria da experiência do usuário, utilização dos ativos existentes, logística e gestão de estoques e sustentabilidade.

Para quem quiser saber mais para criar estratégias para competir nesse mercado, o  relatório da Cisco está disponível na íntegra (em inglês). Sobre a NRF, quem quiser conhecer a visão de um brasileiro que acompanhou a trilha de engajamento do consumidor, o professor Edson Talarico (de quem sou fã desde 1992, quando ele foi meu professor na ESPM em Porto Alegre) estava por lá e gravou uns vídeos, que disponibilizou no seu Facebook. O primeiro está aqui e a partir dele você encontra os outros. Você vai notar, novamente, que o desafio não é pequeno: além de investimento em tecnologia, o varejo precisa rever seus processos e requalificar sua força de trabalho. Se a carga vai ser pesada, melhor começar logo! Mãos à obra!

Quer ser lembrado? Então, roda, roda, roda baleiro, atenção!

29 de janeiro de 2016

Quando o baleiro parar, põe a mão. Pegue a bala mais gostosa do planeta, não deixe que a sorte se intrometa. Bala de Leite Kids. A melhor bala que há. Bala de Leite Kids. Quando o baleiro parar.

Se tem mais de 40 anos, já entregou sua idade pelo sorriso que deu agora.

Empresas e empreendedores estão investindo fábulas em Google Adwords e Facebook Ads para que suas marcas sejam lembradas e relembradas e se esquecem de que várias fórmulas antigas ainda funcionam, mesmo nesta era ultraconectada, individualizada e mensurada.

Desta forma, o tempo passa, o tempo voa, mas o jingle continua numa boa. E quando acaba? Quando acaba a gente quer de novo. Gostoso. Cremoso. Quando acaba a gente quer de novo. Todo mundo gosta a qualquer hora em todo lugar. Vigor Grego, a gente quer de novo. Talvez não reconheça a música, mas se tiver filhos pequenos, como eu, é bem provável que saiba o impacto desta musiquinha. Pois vende como pipoca…

E quem tem mais de 35 anos sabe que pipoca na panela, começa a arrebentar. Pipoca com sal, que sede que dá. Só eu e você, que sede no ar. Quero ver pipoca pular (pipoca com Guaraná). Quero ver pipoca pular (pipoca com Guaraná). Quero ver pipoca pular, pular. Soy louco por pipoca e Guaraná! Isto foi em 1991, e muitos (ou quase todos) cantam como se fosse hoje.

Por isso, muitos estudos já demonstraram o poder da música na criação e, principalmente, lembrança de uma marca. E Juliano Prado e Marcos Luporini provaram isto na prática, repetidas e repetidas vezes, pois são os empreendedores da Galinha Pintadinha (E do Galo Carijó. A galinha usa saia e o galo, paletó). Se ainda não tiver filhos, mas pretende tê-los, acredite: saberá quem ficou doente e quem nem ligou. Mas os mais “experientes” sabem que de leste a oeste, de norte a sul, a onda é a dança da galinha azul. Bata as asas, dê uma ciscadinha. Bata as asas, dê uma bicadinha. Afinal, este era o caldo nobre da Galinha Azul no final da década de 1980.

E agora, mesmo que muitos hábitos tenham mudado e as pessoas já não apanhem o sabonete, peguem uma canção e cantem sorridente pois o banho de alegria (precisa ser rápido) em um mundo de água quente, outros costumes continuam.

Por exemplo, depois de um sono bom, a gente levanta, toma aquele banho e escova o dentinho. Na hora de tomar café, é o Café Seleto, que a mamãe prepara, com todo carinho. Café Seleto tem sabor delicioso. Cafezinho gostoso, é Café Seleto.

Ou, já que hoje é sexta feira, chega de canseira. Nada de tristeza…

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper e diretor de Empreendedorismo da FIAP

Conexões duradouras

29 de janeiro de 2016

Estou participando de um programa da embaixada britânica que reúne líderes de diferentes segmentos e países. Durante uma semana, temos uma programação intensa de reuniões, palestras e visitas a empresas. Muitas coisas me chamaram a atenção no programa, dentre elas uma ida que fizemos até Manchester para conhecer uma escola de ensino infantil e fundamental chamada St. Mary Primary School.

Particularmente, sou extremamente interessada em empresas que atuam com educação e visitar essa escola foi uma forma de ampliar a visão sobre a maneira como educamos nossas crianças. Além disso, olhando para o lado do negócio, dois pontos me chamaram muita atenção por serem situações que podem ser aplicadas em diversos tipos de negócios a fim de criar um melhor relacionamento com os clientes.

O primeiro é a ‘open door policy’, ou seja, um dos princípios da escola é estar sempre de portas abertas para atender os pais de seus alunos, independentemente do horário. Eles priorizam o atendimento individual e fazem questão de cuidar muito bem dos clientes. Evidentemente, o tipo de negócio – uma escola infantil –, requer cuidado extra no relacionamento com os pais, afinal, é naquele ambiente que os filhos deles ficam. Mas o fato de expor essa política certamente deixa esses pais mais tranquilos e confiantes com o serviço prestado pela instituição. Essa política, inclusive, vale para qualquer tipo de empreendimento e, respeitando as particularidades de cada um, pode ser aplicada em outras empresas que desejam ampliar estrategicamente seu relacionamento com os clientes.

O segundo ponto tem a ver com a maneira como a escola está inserida naquela comunidade. Eles se veem como parte dela, tanto alunos quanto colaboradores moram ali, naquela região, e isso interfere diretamente na forma como o negócio é administrado. Grande parte da equipe da escola mora próxima do local onde trabalha e grande parte dos alunos mora perto de onde estuda.

A escola acredita que o interesse do colaborador é muito maior quando ele atua em uma empresa de sua própria comunidade, que beneficia sua família e amigos. Por isso, o recrutamento leva em consideração quem efetivamente vive na região. Isso é muito poderoso para qualquer tipo de organização. Além disso, alunos e professores se encontram pelo bairro e, se eventualmente ocorrer qualquer problema, será mais fácil encontrar os pais das crianças.

Depois de formados, os alunos continuam próximos da escola já que lá é onde eles habitam. A ideia é que a comunidade vive dentro das pessoas, e investindo em fortalecer esse sentimento, a escola está na verdade investindo também em uma conexão mais profunda com seus colaboradores e alunos.Cada empresa tem suas particularidades e necessidades, mas manter um relacionamento aberto com clientes, estar disposto a recebê-los e valorizar a comunidade que está ao seu redor são fatores capazes de amplificar o impacto da empresa na sociedade.

* Bel Pesce é fundadora da escola FazINOVA e autora dos livros “A Menina do Vale” e “Procuram-se Super-Heróis”. Apaixonada por culturas empresariais, Bel Pesce explora diferentes cases em sua coluna no Estadão PME

A emoção inteligente

28 de janeiro de 2016

Tenho abordado o assunto da Inteligência Emocional diversas vezes e com vários enfoques – na aventura, no Jedi, na montanha e no fracasso, por exemplo.

Hoje quero compartilhar com você o meu entusiasmo por esta habilidade social fundamental, e que sim, a literatura garante que pode ser desenvolvida e melhorada e que muitas vezes é deixada em segundo plano – já que ser empreendedor é lidar com pessoas o tempo todo, não é?

Também chamado de QE (quociente emocional), para mim é obviamente um dos elementos mais importantes para obter sucesso em qualquer empreitada e, sabendo disso, dedico bastante tempo ao aprendizado humilde e demorado destas capacidades – e acredite, não é nada fácil.

Na antiga Grécia, em 400 a.c. Platão diz que todo aprendizado tem uma base emocional. Hoje parece uma ideia óbvia, mas na época isso foi muito revolucionário e influenciou tudo e todos a partir desse ponto.

Nos anos 1930, o psicometrista Edward Lee Thorndike começa a definir o conceito de “inteligência social” como a capacidade de se dar bem com as outras pessoas, com uma função utilitarista.

Se passam 50 anos e, em 1983, um psicólogo chamado Howard Gardner escreve um livro chamado Estruturas da Mente, onde elabora uma teoria que afirma que as pessoas tem 7 tipos de inteligência (inteligência visual/espacial, inteligência musical, inteligência verbal, inteligência lógica/matemática, inteligência interpessoal, inteligência intrapessoal e inteligência corporal/cinestética).

Em 1990 os psicólogos Peter Salovey e John Mayer divulgam uma teoria e usam pela primeira vez a expressão Inteligência Emocional, que definem como “…a capacidade de perceber e exprimir a emoção, assimilá-la ao pensamento, compreender e raciocinar com ela, e saber regulá-la em si próprio e nos outros.

Mas foi o californiano Daniel Goleman que “lacrou” o assunto e ganhou notoriedade com o livro best-seller Inteligência Emocional em 1995, colocando um holofote definitivo sobre a importância da “…capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos.

Para Goleman, a inteligência emocional é a maior responsável pelo sucesso ou insucesso dos indivíduos, inclusive indicando que a maioria das situações de trabalho é envolvida por relacionamentos entre as pessoas. E, desse modo, pessoas com qualidades de relacionamento humano, como afabilidade, compreensão e gentileza, têm mais chances de obter o sucesso.

Parece fácil, não? Mil livros, muitos cientistas pesquisando o assunto, e mesmo assim nenhum resultado é garantido!

Pois é, o QE é muito, mas muito difícil de adquirir, provavelmente a jornada de uma vida. Um bom começo me parece ser praticar todos os dias com as pessoas que estão ao nosso redor – quem sabe um básico bom dia ao vizinho no metrô? Para mim, tudo é válido, e eu não dispenso yoga, aventuras radicais, incenso, viagens, leituras, filmes, novela de TV, gibi, horóscopo, reza e tudo o que me provoque uma transformação emocional positiva – mas isso já é outro assunto.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastificio Primo tenta, diariamente, ser uma pessoa mais inteligente, mas pensa que, ás vezes, os resultados podiam ser melhores!

Para sonhar grande, é preciso parar de agir pequeno

22 de janeiro de 2016

Jim Collins, o maior pensador de negócios atualmente é fã deles. Warren Buffett, o investidor mais idolatrado do mundo é mais que fã, é sócio deles. É fato que o legado de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira sobre como construir grandes empresas será muito maior do que os seus negócios.

O sucesso deste legado é refletido nas vendas do livro best-seller Sonho Grande (Editora Sextante, 2013), que vendeu mais de 300 mil unidades apenas da sua versão em português.

Os ensinamentos do trio agora viraram lugares comuns em artigos, treinamentos de autoajuda corporativa e mantras para executivos e empreendedores.

Por terem sido tão vitoriosos, suas mensagens fazem muito sentido… para eles. Para os demais, que ficam inspirados pela beleza da sabedoria implícita, pode ser apenas sonho grande ou apenas uma realidade pequena.

Diz Jorge Paulo: “Comecei a usar a regra de tentar reduzir todas as disciplinas a cinco pontos essenciais. Eram as coisas básicas que eu tinha de saber bem. Hoje em dia é algo que usamos em nossas empresas”. Pensa o que sonha grande: “Uau! É isso!” Passado um tempo, pergunte quais são seus cinco pontos essenciais e obterá um “hum?” como resposta.

E continua a refletir as sábias palavras: “…descobrimos cedo que, numa sociedade, é bom ter pessoas diferentes. Não pode ser todo mundo igual. Pessoas diferentes têm habilidades diferentes.” Balançando a cabeça, mesmo que mentalmente, o que sonha grande concorda: “Isso, isso, isso!”. Mas depois, só contrata pessoas que pensam como ele(a) já que como são inteligentes as pessoas que pensam como nós. Mais um tempo, a empresa só tem clones do chefe.

Os mais entendidos sabem que Lemann sempre foi um tenista muito competitivo, mas poucos sabem que, além disso, o tênis o ensinou outras lições marcantes. Uma foi o jeito simples, direto e espartano, marcas do seu tipo de gestão. “Sempre tentamos administrar tudo com simplicidade, objetividade. Nada é muito enrolado nas nossas coisas.” – diz. “Tive um professor chileno que me influenciou muito na maneira com que eu vejo as coisas. Ele tinha dois ditados. O primeiro era ‘mucha ropa, poco juego’. Quer dizer, o cara que aparecia todo bem-vestido e com muitas raquetes, em geral, não jogava nada. O segundo: não jogue para a plateia, mas para ganhar o jogo. Até hoje, muito elogio me deixa preocupado.” Mas muitos dos que sonham grande ainda continuam sendo complexos, indiretos e, principalmente, caros para suas organizações. Para estes, a aparência ainda é mais importante do que a essência. E elogios são sempre bem aceitos, claro.

A base da receita do sucesso de Jorge Paulo, Beto e Marcel é sintetizada por algo que se tornou o principal referencial para todos que querem construir grandes negócios: “Estamos sempre tentando escolher gente melhor do que nós” ou “Basicamente queremos encontrar sempre pessoas melhores do que nós” – explicou Lemann em diversas ocasiões. Mas muitos dos que sonham grande, curiosamente, sempre têm as melhores ideias da equipe…

E não há algo mais verdadeiro para os que sonham grande do que a principal atitude de Lemann: “Delego muito: nunca fiz questão de ser o cara que fazia tudo. Gastei mais tempo escolhendo e formando gente muito boa, para eventualmente dar oportunidades a eles e ter mais tempo para mim”. Muitos sonhadores concordam com este ensinamento… desde que tenham a palavra final.

Daí, mais do que por essas razões, mas por essas ações, é preciso refletir se o que é grande mesmo é o sonho ou é o ego.

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper e diretor de Empreendedorismo da FIAP