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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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Quer crescer? Eleja, mire um inimigo e tente derrubá-lo

22 de julho de 2016

É paradoxal, mas poucos sentimentos motivam mais do que o ódio. O cantor Renato Russo já dizia que “a diferença do amor e do ódio, é que pelo ódio a gente mata, e pelo amor a gente morre”. E quantos negócios já morreram porque seus líderes empreendiam por amor? O cemitério de novos negócios, principalmente os de negócios sociais e sustentabilidade, está repleto de empreendedores antes apaixonados em resolver os problemas do mundo, mas que se tornaram letárgicos diante das suas próprias bondades.

Mas enquanto que o amor “é um não querer mais que bem querer”, o ódio é um querer muito bem definido, objetivo e por isso direcionador. Este sentimento arregimenta exércitos muito mais motivados, mais ágeis e mais destemidos.
Enquanto a história traz diversos exemplos trágicos de lideranças baseadas no ódio, no mundo dos negócios, vários empreendedores souberam catalisar o ódio a um inimigo como principal motivação para o avanço dos seus negócios.

Alguns como Steve Jobs e John Mackey deram nomes claros aos seus inimigos. No início da Apple, o grande inimigo era a IBM.

No mítico anúncio 1984 Steve Jobs explicou que “agora é 1984. Parece que a IBM quer tudo. A Apple é percebida como a única esperança para ser uma alternativa à IBM pelo seu dinheiro.” Depois que a IBM não teve sucesso no mercado de microcomputadores, o ódio foi direcionado para Microsoft. “O único problema com a Microsoft é que eles não têm nenhum gosto. Absolutamente nenhum gosto. E não digo isto em sentido específico, mas de forma ampla, no sentido de que eles não pensam em ideias originais, não trazem muita cultura em seus produtos” – disse Jobs, quando a empresa de Bill Gates passou a dominar o mercado de softwares.

Um sentimento de ódio semelhante fez com que John Mackey criasse a sua empresa em 1980. Como um natureba convicto, Mackey não se conformava com o nome de uma rede de supermercados que havia na sua cidade chamada Safeway. Como um negócio com este nome poderia vender alimentos tão intoxicados com conservantes, corantes, acidulantes, aromatizantes e gorduras hidrogenadas, entre tantos outros componentes nocivos? Juntou dinheiro de amigos e familiares para criar a Saferway, uma provocação clara ao concorrente, para comercializar produtos naturais e orgânicos. Anos depois, mudou o nome da empresa para Whole Foods Market, hoje a maior cadeia neste segmento nos Estados Unidos.

Mas o ódio também pode ser a um segmento de produto. Também em 1980, três músicos, Greg Steltenpohl, Gerry Percy e Bonnie Bassett, estavam muito incomodados com os sucos que os supermercados estavam vendendo. Aquilo não era suco. Era água, muito, muito açúcar, um pouco de concentrado de fruta, corante, aromatizante e conservante. Resolveram tornar este tipo de falsificação conceitual um inimigo ideológico e criaram a Odwalla para comercializarem bebidas que fossem 100% suco. Este mesmo tipo de ódio motivou a criação de diversas outras empresas. Seth Goldman, por exemplo, estava indignado em como os chás eram comercializados nos pontos de vendas nos Estados Unidos em 1988. Era tudo, menos chá. Resolveu criar um chá que fosse honestamente apenas chá e produzido da forma tradicional, infusão de folhas e/ou flores em água quente. Deu o nome de Honest Tea. Mais recentemente, a atriz Jessica Alba, quando teve sua primeira filha, ficou horrorizada com a quantidade de elementos petroquímicos e artificiais que faziam parte dos produtos para bebês. Procurou uma linha de produtos como xampus, loções, pomadas que fossem mais naturais, mas não encontrou. Decidiu criar sua própria empresa, a The Honest Company, que tenta produzir produtos mais naturais para bebês e crianças.   E o inimigo pode migrar de uma empresa, para um segmento e até para uma causa maior. Anos mais tarde, quando já era uma referência, a Apple passou a eleger como inimigo a mesmice na sua campanha Think Different.

Se sua empresa está em guerra para crescer, ela começa a ser ganha quando se elege o inimigo certo. Pode ser algo infiltrado como os altos custos, a falta de produtividade, a baixa capacidade de inovação? É um inimigo externo como um concorrente desleal? É mercadológico como um tipo de produto ou serviço errado? Ou ainda contextual como alguma coisa errada no mundo?

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

Será que a Geração Y vai morrer na praia?

21 de julho de 2016

Em 2014, nos EUA, a American Express publicou, na sua página de empreendedorismo e liderança, que a Geração do Milênio (Y) era a mais preparada para empreender de todos os tempos. No mesmo ano, um artigo do Huffington Post mostrou uma pesquisa que afirmava que 60% dessa Geração se auto considerava empreendedora, e 90% estava convencida de que tinha “mentalidade empreendedora”.

Crescendo num mundo com menos fronteiras, sem guerra fria, com menos barreiras comerciais entre países, maior nível de educação universitária e MBA de todos os tempos, viajando mais, usando a internet e com aptidão para relações multiculturais e mentalidade aberta – ufa! – os nascidos após 1980 estavam com a bola toda.

Mas, em artigo publicado neste mês, a revista The Atlantic lança uma provocação com o título “O Mito do Empreendedor do Milênio”, e apresenta dados atualizados e consistentes com um dado assustador: o número de pessoas abaixo de 30 anos que é dona do próprio negócio nos EUA diminuiu 65% comparado com 1980.

Então, o que aconteceu no caminho?

Conforme John Lettieri, do Economic Innovation Group, a Geração Y está a caminho de ser a geração menos empreendedora da história recente dos Estados Unidos. Ele apresentou os dados em um relatório ao Senado Americano em 29 de junho último, afirmando que é preciso estar atento para a o perigo do declínio da dinâmica empreendedora. Os grandes vilões são:

- Alto endividamento da Geração Y com o crédito estudantil.

- Concentração cada vez maior de capital de risco em blocos, dificultando acesso direto.

- Perda de poupança das famílias durante a grande crise de 2008.

- Geração Y com menos imóveis próprios, que possam ser usados como capital para investimento.

E finalmente, um dado interessante da pesquisa para aqueles da Geração X (como eu): a idade média comprovada para um empreendedor de sucesso iniciar um negócio é de 40 anos, quando é considerado o pico da formação e a maturidade aumenta de forma substancial a chance de sucesso – este assunto merece todo um novo artigo.

Todas estas pesquisas e relatórios se referem ao mercado dos Estados Unidos, mas acredito que sempre é possível fazer alguns paralelos interessantes com o Brasil e refletir com atenção. Certamente encontraremos muitas semelhanças. É muito provável que a atual crise que estamos vivendo vai fazer diminuir o número de empreendedores nos próximos anos, por motivos muito similares aos citados acima.

Um pouco da nomenclatura das gerações:

Baby Boomer, é a geração que nasceu após o final da Segunda Guerra Mundial, no período de prosperidade, entre 1945 e 1960. Formaram a cultura de consumo moderna e os Beatniks. O crescimento das cidades trouxe a cultura do subúrbio urbano, com a construção do esterótipo da familia perfeita com casa própria, carro, maquina de lavar roupa.

Geração X, considera pessoas nascidas do início de 1960 até o começo dos anos 1980. O termo foi inventado pelo famoso fotografo Robert Capa para um ensaio fotográfico, e depois foi adotado por sociólogos. Aqui surguram os Hippies e os Punks, a contestação e o final da Guerra Fria.

Geração Y, chamada também de geração do milênio, inclui geralmente os nascidos em 1981 até 1991. Foi a primeira geração a crescer num mundo digital, junto com o desenvolvimento e popularização da internet e da telefonia celular.

Geração Z, Gen Z ou iGeneration, considera pessoas nascidas a partir de 1991 até 2010. É a primeira geração “nativa digital”, ou ainda, a “geração google”.

Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor.

Uso um G-Shock, mas isso só marca o tempo que passou

15 de julho de 2016

Qual foi a minha surpresa quando notei que o diretor de inovação de uma grande empresa de tecnologia usava um relógio Casio G-Shock igualzinho ao meu. A reação foi reciproca e simultânea. Então começamos a conversar sobre as maravilhas do relógio que nunca quebra, suporta os mais duros choques, tem uma bateria que parece infinita e você não tem dó de usar, seja na praia, na piscina ou na rua – afinal acho que nenhum ladrão vai ficar de olho no seu aparato do século passado.

Depois falamos do incentivo que as empresas de tecnologias vestíveis mais conhecidas pelo seu termo em inglês, wearables, têm criado para aumentarem suas vendas, mais baseadas na moda do que em resolver, de fato, as necessidades dos clientes. Como éramos criaturas do Século XX, lembrando que isto tinha sido válido inclusive para o relógio de pulso. Santos Dumont tinha imaginado um para resolver uma demanda pessoal que tinha: Não poderia pilotar um avião e ficar olhando um relógio de bolso para medir o tempo de duração dos seus vôos. Mas o que o seu fabricante, Louis Cartier, e outros concorrentes prévios como Patek Philippe, notaram é que aquela tecnologia vestível tinha mais apelo como um acessório de moda do que como um moderno e conveniente instrumento de monitoramento e controle pessoal do tempo. E o relógio de pulso se tornou um objeto de desejo entre os mais ricos da época que tinham pouca preocupação com o tempo.

E tempo passou, e as tecnologias vestíveis continuaram a se vender mais como algo da moda. Falei da grana que tinha investido nos meus três relógios de corrida, todos parcialmente encostados agora. Tecnologicamente, o próximo relógio era sempre superior ao anterior. O primeiro marcava o tempo e batimentos cardíacos, o segundo também a distância e a velocidade e o terceiro também se integrava ao computador.

Mas sinceramente, só tinha comprado o modelo mais avançado pois era mais bonito e até mais ostentador do que o anterior. Você até se sentia um Tony Stark, o Homem de Ferro, quando usava um. Mas quando surgiu o modelo que tinha um aplicativo e que poderia ser conectado às redes sociais, cheguei à conclusão de que o meu verdadeiro problema era só monitorar os batimentos cardíacos e o tempo de corrida. Não precisa correr para ficar me mostrando. Daí voltei a usar meus relógios de corrida quando corro (já que a bateria não dura tanto assim) e um G-Shock (apesar de ter a mania de ficar olhando o relógio de celular).

Assim como ocorreu com o relógio de pulso, há marcas de wearables que o(a) ajudam a se sentir melhor com a sua tecnologia e outros que te fazem se sentir pior por não ter o modelo mais atual e “da moda”.

Um exemplo interessante é a Lumo Bodytech. Criada no modelo mais tradicional do Vale do Silício, baseada inclusive em Palo Alto, epicentro da região, a Lumo criou o Lift, uma tecnologia vestível conectada a um aplicativo que corrige a postura da sua coluna. Mas como sabem que muitos usam wearables pela moda, fizeram uma parceria com a Swarovski.  Já receberam mais de US$ 16 milhões de investidores.

Outra startup que tem uma solução útil é Withings Aura. Eles desenvolveram um conjunto de tecnologias para quem precisa dormir melhor, mas não sabe como. Além de monitorar as condições do corpo durante o sono, também controla fatores externos como luminosidade e até a melhor música para dormir e acordar. Criada em Paris em 2009, recebeu mais de US$ 30 milhões de investidores até ser adquirida pela Nokia neste ano. A Withings é um exemplo que é possível empreender em wearables fora do Vale do Silício.

Mas de todas as startups de wearables, a Pavlok é uma das mais intrigantes pois ela literalmente te faz se sentir pior para com isto, se sentir melhor. Formado em Stanford, Maneesh Sethi é especialista em marketing, psicologia e tecnologia da informação e desenvolveu uma pulseira que te dá um choque todas as vezes em que você faz algo que acha que não deveria. Quer perder peso, mas não resiste a uma sobremesa? O dispositivo te dá um choque! Quer parar de fumar? Acendeu um cigarro, toma um choque! A startup já ganhou competições importantes e até chamou a atenção de um dos investidores do Shark Tank (veja o vídeo). Mas o empreendedor não aceitou a proposta (vídeo), chocando a audiência. Alegou que buscava um investidor que não apenas quisesse ganhar dinheiro, mas que estivesse realmente comprometido em melhorar a vida das pessoas.

Este é o verdadeiro choque que todos precisamos ter para melhorar o futuro!

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

Meias verdades: o chocolate caseiro que, na verdade, é industrializado

14 de julho de 2016

Não tinha como não gostar, quando li uma matéria numa revista gringa, em 2008, sobre a fantástica fábrica de chocolate artesanal de dois irmãos jovens, tatuados, barbudos, que se divertiam fazendo chocolate e velejando o mundo em busca do cacau perfeito. Os Mast Brothers começaram no apartamento no Brooklyn em 2007 e rapidamente se transformaram em celebridades do trabalho artesanal em Nova York e uma referência da nova gastronomia “feita a mão”.

Eu era fã declarado e divulgador pro bono, ao ponto de que, quando viajava a NY trazia as barras de chocolate deles como lembrança de viagem aos amigos. A embalagem também é, de fato, belíssima.

No final do ano passado uma notícia no jornal The New York  Times derreteu o respeito e a admiração que eu tinha pelos irmãos descolados e sua marca.Em resumo, foi descoberto que alguns dos chocolates vendidos pelos brothers eram, na verdade, produto industrializado, reprocessado, embalado e vendido por US$ 10 a barra (aproximaadamente R$ 37,00), um preço apenas justificável pelo suposto trabalho artesanal, e principalmente pela garantia de origem do cacau. Até a barba, que conferia um ar “lenhador hipster” aos irmãos, foi uma criação de marketing.

O storytelling – seja de um produto, uma marca ou de uma pessoa – quando honesto, é algo positivo e serve para contextualizar, ambientar e nos fazer perceber o valor de tudo o que está em jogo. Mas, se a história é boa demais, é bom tomar cuidado, pois pode ser criação de um marqueteiro – do tipo que conta as histórias de nossos políticos em campanha.

Aqui no Brasil tivemos também dois péssimos exemplos recentes – e mais uma vez, eu acreditei em tudo e era consumidor de ambas marcas – que foi o sorvete da Diletto e o suco da Do Bem.

A Diletto contava a história de um vovô italiano que criou as receitas dos sorvetes com frutas e neve, mas foi obrigado a vir ao Brasil por causa da segunda guerra mundial. Chegava ao detalhe de mostrar fotos de um carro antigo que era usado para vender sorvete pelo tal vovô. Eu me identifiquei de imediato com a história contada pela marca, que foi inclusive divulgada em jornais e revistas como verdadeira, e esta empatia me fazia pagar feliz por um produto caro. Em 2014 o assunto veio a tona e o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) obrigou a empresa a explicitar que o personagem não existe.

Já a suco Do Bem afirmava nas embalagens que as laranjas eram da fazendo do Seu Francisco, colhidas fresquinhas, e feito por jovens cansados da mesmice. Uma história matadora, sem dúvida que isso merece apoio do consumidor. Só que depois foi descoberto que a laranja era mais do mesmo, fornecida por uma multinacional.

Já deu para perceber que sou bem ingênuo, não é? Me emociono fácil e acredito numa boa história. Ou talvez eu apenas queira de fato consumir produtos que tenham valores que eu defendo como cidadão e, portanto, como consumidor.

Procuro levar essa mesma crença a sério como empreendedor. Por isso, um dos ingredientes que eu levo em conta no meu negócio é a autenticidade: tudo o que está envolvido no Pastifício Primo – da matéria-prima dos nossos alimentos à decoração de nossas lojas, passando pela linha de comunicação e pelas referências que fazem o estilo de nossa empresa -, tudo está genuinamente relacionado ao que eu gosto, uso e acredito.

Porque storytelling, para se perpetuar, precisa que a “story” seja verdadeira. O “telling” é consequência.

Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor.

O empreendedorismo corporativo se tornou imprescindível para o crescimento das grandes empresas

8 de julho de 2016

A grande empresa, como a conhecemos hoje, é um dos maiores legados do Século XX. Quem estudou administração vai se lembrar do impacto das abordagens de Frederick Taylor, Henry Fayol e Henry Ford, entre outros, que provaram o papel dos tempos e métodos, da burocracia, da ordem e previsibilidade das operações no aumento da eficiência das organizações. A partir destas abordagens, uma pessoa com pouco conhecimento pode participar da produção de itens complexos como carros, eletrodomésticos e medicamentos.

O mecanicismo das operações começou a sufocar, de certa forma, os operários e funcionários, que assim eram chamados, pois (simplesmente) operavam as máquinas e tinham uma função. Mas antes de operários, eram pessoas que tinham necessidades e motivações. Os que não faltaram às aulas de Teoria Geral da Administração irão fazer alguma associação ao papel de Elton Mayo e o desafio de lidar com os aspectos psicológicos das pessoas na linha de produção e também de outros pensadores como Abraham Maslow e sua Pirâmide das Necessidades Humanas e Frederick Herzberg e sua Teoria dos Dois Fatores (Higiênicos e Motivacionais). O fator humano começou a influenciar na produtividade e os empresários perceberam que isto também era importante para aumentar suas margens de lucro.

A obsessão pela eficiência e lucratividade foi, depois, tangibilizada pela gestão da qualidade. William Deming, Joseph Juran, Kaoru Ishikawa e Shigeo Shingo e tantos outros pais da qualidade permitiram que qualquer organização do mundo que realmente quisesse, pudesse ser eficiente em custos e em qualidade. Organizações japonesas, norte-americanas, europeias, depois sul-coreanas, chinesas, indianas, taiwanesas e agora filipinas, vietnamitas e cambojanas se tornaram verdadeiramente globais por terem preço e qualidade.

Mas na edição de julho/agosto de 1960, o professor Theodore Levitt publicou um artigo com uma questão que intrigou o mundo dos negócios: Por que as maiores empresas do Século XIX não se mantiveram na mesma posição no século seguinte? A resposta era tão óbvia que muitas empresas não se atentaram a isto até hoje. As empresas acreditavam que estavam no mercado do seu produto (ou serviço) e não no do benefício do produto. Desta forma, empresas ferroviárias acreditam que estavam no mercado de ferrovias e não no de transporte. E continuaram a investir no aumento da eficiência e qualidade no transporte de trilhos. Muitas empresas, inclusive grandes corporações ainda sofrem desta Miopia de Marketing, título do artigo do Prof. Levitt.

Mas curiosamente, a história é formada de ciclos que se repetem e novamente muitos se questionam como as maiores empresas do Século XX conseguirão manter sua posição neste século? Esta questão já é clara às empresas de aluguel de carros e ao Uber, às redes hoteleiras e ao AirBnB e às varejistas tradicionais e à Amazon, entre outros exemplos. Mas todas as grandes empresas mais visionárias também estão buscando as suas respostas.

E para lidar com as startups que questionam seus modelos de negócios vitoriosos até então, as algumas grandes empresas também passaram a investir não apenas em startups mas também no empreendedorismo dos seus antigos operários, depois funcionários, colaboradores e agora empreendedores corporativos.

É a visão de dono da empresa que torna os membros do seu time mais empreendedores. E são os empreendedores que vislumbram oportunidades, reagem rápido e transforam ideias em resultados. E que organização, startup ou grande empresa que não quer um profissional assim?

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

 

 

O que vai ser tendência na gastronomia mundial

7 de julho de 2016

Acabo de voltar da 62º Summer Fancy Food, que levou a Nova York 3670 expositores de todo o mundo, mostrando 180 mil produtos, as novidades na gastronomia, sabores, tendências, ingredientes, temperos, matéria prima e tudo o é relacionado com comida.

Neste ano, o evento teve 46 mil visitantes, de praticamente todos os países do mundo. O Brasil esteve representado por poucos expositores, e poucos participantes – bastante compreensível pelo momento atual de retração.

A sensação boa que eu tive é que a gastronomia de vanguarda no Brasil está bem sintonizada na busca de alimentos mais saudáveis, de origem não industrial, produtos feitos por pessoas com história e comprometimento, que é o que esteve mais em evidência na feira. Ou seja, acredito que não existe mais um abismo entre o Brasil e os EUA no que se refere à busca de uma melhor alimentação.

Mas percebi, sim, algumas diferenças brutais no acesso que pessoas comuns tem a todas estas novidades saudáveis. Fica evidente que o consumidor estadunidense consegue bancar uma grande quantidade e diversidade de pequenos produtores através do poder aquisitivo, do consumo, fazendo possível que tendências se consolidem e não sejam apenas modas passageiras, ou para poucos, como acontece no Brasil.

A nota curiosa e de minha total alegria é que o produto que ganhou o prêmio de inovação foi… massa!

O que mais se destacou, na minha opinião:

PLANT BASED
São os alimentos de origem vegetal (legumes, cereais, vegetais, frutas, flores e tudo o que se possa imaginar) e – muito importante – orgânicos e não modificados geneticamente. É como se os veganos estivessem com todos os desejos realizados, com lanches, sorvetes, leites, doces e uma infinidade de alimentos destacando que são 100% de origem vegetal e não-transgênicos – o grande inimigo da vez são os transgênicos. Ou seja, não adianta ser de origem vegetal, tem que ser orgânico e não-transgênico. Foto: Leite de macadâmia, da Austrália, da Nova Zelândia ou Havaí. Sabor excepcional, cremosidade, perfeitamente capaz de converter um fã de leite de vaca em vegano em instantes.

CANNABIS
Sim, a maconha na gastronomia não chega a ser novidade, mas agora está chegando com força total e numa diversidade enorme de produtos.E a cannabis está presente em tudo: leite vegetal com cannabis (orgânica e não-transgênica), nos flocos, nos iogurtes, nos biscoitos, no óleo de cozinha. Importante ressaltar que é uma variedade de Sativa sem o THC, que é o componente “chapante”. Fazer receitas com cannabis deixou de ser coisa de maluco beleza para se transformar num ingrediente com alto índice de proteínas, e além de ter o sabor e aroma valorizado.

SUPER LOCAL
Estamos falando das hortas em cima dos prédios de grandes cidades, como Nova Iorque e Chicago, e estufas de cultivo em áreas urbanas. A filosofia é usar áreas de baixo custo em grandes cidades (os telhados de edifícios ou fábricas), e assim evitar o transporte de alimentos em grandes distâncias, principalmente alimentos que contém muita agua, como a batata e o tomate, com 95% de agua. Hoje a plantação nos telhados dos prédios é um negócio não apenas rentável, como promove muitas pesquisas de cultivo sem o uso de agrotóxicos, usando insetos de controle, por exemplo. O “superlocal” é um conceito muito querido por nós, e que tem muito a ver com o trabalho que fazemos em todas as unidades do Pastifício Primo produzindo massas localmente.

O pensamento mais bacana que escutei do William Rosenzweig, da Food Business School: a produção de alimentos vai ser – se é que já não é – a mais importante ferramenta para a paz mundial. A humanidade precisa de alimento em primeiro lugar. Amém.

Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor

MeuSucesso completa dois anos inspirando 150 mil empreendedores

5 de julho de 2016

No próximo mês, agosto, a escola de insights MeuSucesso.com, “NetFlix do empreendedorismo brasileiro”, completa dois anos. Nesse tempo, produziu mais de 340 programas educacionais que foram vistos por mais de 150 mil alunos (que assistiram pelo menos uma aula).

“O balanço é positivo. Nosso crescimento é consistente e o nível de satisfação de nossos alunos é muito satisfatório (monitoramos essa satisfação por meio de diversos indicadores como pesquisas, análise de rotatividade etc.)” comemora Sandro Magaldi, CEO do projeto criado pelo midas Flávio Augusto da Silva (que comanda também ao Instituto Geração de Valor,  o fundo de investimento T-BDH Capital, o time de futebol Orlando City e recentemente recomprou a escola de idiomas WiseUp – fonte de sua fortuna).

A satisfação é comprovada pelo assinante Tiago Hungria, de Campinas, um dos primeiros a aderir à plataforma. “Assinei na madrugada do lançamento. O MeuSucesso abriu as portas do mundo empreendedor, mostrou mega empreendedores e como construíram suas empresas de sucesso mostrando para todos que é possível sim.  O reflexo de tudo isso veio em dezembro do ano passado, quando ganhamos o prêmio Great Place to Work na categoria até 30 colaboradores, que nomeou a WeAudit como uma das 3 melhores empresas, com até 30 colaboraodres, para se trabalhar”. Outro aluno que está satisfeito é Jivago Siqueira, de Osasco: “Desde que fiz minha assinatura assisti praticamente todos os estudos de caso e algumas aulas extras. Uma das principais evoluções que tive foi a capacidade enfrentar o medo e arriscar de forma consciente. Afinal o NÃO já está garantido,  agora é fazer de tudo para conquistar o SIM” conta o jovem empreendedor.

O modelo da escola de insights é único no mundo. O aluno paga uma mensalidade (R$ 75,00 ao mês) e tem acesso a todo o conteúdo. A cada seis semanas, são contadas histórias de empreendedores que venceram as mais diferentes adversidades, em vários segmentos, que passam por Alair Martins (do grupo Martins), Ozires Silva (e a saga de construção da Embraer), Deusmar Queirós (fundador da farmácia Pague Menos, maior rede de varejo farmacêutico do Brasil), Arri Coser (fundador da Fogo de Chão), entre outros.  Os documentários, feitos em linguagem de cinema, são acompanhados de material complementar e aulas em outros formatos, como o Live Class e o Ask, além de encontros sobre temas específicos, ministradas por professores que são especialistas no assunto.

Mais recentemente os assinantes tem acesso a pré-estreias exclusivas, onde os protagonistas estão ao vivo, respondendo dúvidas e interagindo com a plateia do Cinépolis, no shopping JK em São Paulo (o próximo evento desses acontece em 1º de agosto, com a presença do empresário mineiro Luiz Alberto Garcia, da Algar, personagem do próximo estudo de caso da escola). Outra novidade são as séries, que tratam de temas específicos. Já foram produzidas três: sobre endomarketing, sobre franquias e sobre a cultura de inovação no vale do Silício.

Magaldi não revela quanto o MeuSucesso faturou nesses dois anos, mas diz que já foram investidos mais de R$ 10 milhões no projeto. Mas o maior retorno, garante ele, é o impacto que o projeto vem gerando. “Até hoje me surpreendo positivamente com o impacto que nosso projeto causa junto a nossos alunos. Estamos ocupando esse espaço junto àqueles que têm tido a experiência com nosso projeto. Ao tomar contato com histórias reais de empreendedores que trilharam o mesmo caminho que qualquer empreendedor ou líder está trilhando, humanizamos essas relações e construímos referências, mostrando que é possível para qualquer um, a partir de suas escolhas, concretizar seus projetos pessoais” acredita o CEO da escola. Essa crença é compartilhada pelo assinante Lucivaldo da Silva, tecnólogo de radiologia e empresário de São Paulo: “o conteúdo oferecido é capaz de mudar o mindset de uma pessoa. E a energia positiva que corre na veia do MeuSucesso me motiva , me injeta ânimo e não me deixa desistir , pelo contrário faz acreditar que sim, é possível” acredita ele.

Marcelo Pimenta (menta90) é jornalista, professor da Pós-Graduação da ESPM, fundador do Laboratorium e criador do site Mentalidades.

O futuro da inovação: Menos high tech, mais high touch

1 de julho de 2016

Sempre houve uma admiração pela alta tecnologia… Mas agora, as empresas estão ainda mais fascinadas por isto

A alta tecnologia está cada vez mais acessível

Esta manhã eu li mais de quatro mil artigos de leucemia em menos de um segundo. Milhares de leis foram publicadas ontem e eu já conheço todas elas. Eu sei todos os detalhes de todos os relatórios financeiros públicos dos últimos 20 anos”. Isto é parte da propaganda atual da tecnologia cognitiva de uma grande empresa de tecnologia que promete entender tudo sobre todos. E não é promessa, é realidade. Análise de volume inimaginável de dados processado na nuvem por linguagem artificial e distribuídos em dispositivos móveis ou mesmo por internet das coisas e melhorados constantemente por máquinas que aprendem e se auto evoluem automaticamente.

 

Este fascínio e muitas vezes obsessão pela alta tecnologia é uma visão míope de quem inova olhando para o passado.

A alta tecnologia está cada vez mais disponível para as empresas que têm dinheiro para comprá-la e para empreendedores inovadores que são capazes de recriá-las de formas ainda mais disputativas. Quanto custa a tecnologia mostrada na propaganda? Dez milhões de reais? Um milhão de reais? Cem mil reais? 10 mil reais? Não… R$ 130,79 por mês. Pelo valor de dez ou onze quilos de feijão, você tem o mais avançado de tudo o que é considerado disrupção tecnológica: Big data, machine learning, AI, cloud, mobile…

E para que serve tudo isso? Para criar novos serviços muito mais eficientes. Por exemplo, para não ficar pagando multas mal intencionadas. O DoNotPay é um site que ajuda motoristas a recorrerem das multas de trânsito que levaram e funciona em Londres e Nova Iorque. Desde o seu lançamento no final do ano passado, só em Londres, já ajudou em mais de 160 mil processos. Basta o interessado “conversar” com robô do DoNotPay e deste bate-papo online sai o pedido para recorrer da multa.  E o que mais impressiona neste serviço não é porque é gratuito ou mesmo seu índice de acerto que supera os 60%. O DoNotPay foi criado por um estudante de apenas 18 anos e que não utilizou a tecnologia da propaganda. Ele a recriou!

Assim, neste momento em que a inovação se tornou obsessão para muitas organizações, poucos se dão conta que o acesso a mais alta tecnologia já deixou de ser uma vantagem competitiva há muitos anos. A tecnologia sempre deve ser vista como um meio para a criação de algo percebido como melhor.

Muitos querem copiar o Uber ou mesmo uberizar um negócio de outro segmento. Mas poucos realmente percebem que não é a tecnologia que torna o Uber inovador, mas a preocupação de cada motorista associado em atender bem seu cliente. A inovação está em saber o preço antes da corrida, no carro limpo, no bom ar condicionado, na água oferecida juntamente com as balas, na não preocupação em pagamento em dinheiro e troco e na avaliação do serviço pelo cliente e do cliente pelo motorista.

Da mesma forma, muitas redes hoteleiras não conseguem entender como uma tecnologia tão banal quanto a do AirBnB pode valor US$ 30 bilhões, quase o mesmo valor da rede Hilton com seus mais de 4.600 hotéis e 758 mil quartos.

E de todas as novas startups, uma das que mais chamam a atenção é o WeWork. Fundada em 2010, é uma rede de 54 escritórios compartilhados (coworkings) espalhados pelos Estados Unidos, Europa e Israel. Poucos realmente entendem porque um negócio imobiliário de pequeno porte vale cerca de US$ 16 bilhões, valor quase quatro vezes superior ao da tradicional Regus com sua rede de mais de 2.300 prédios em mais de 120 países.

Entre as tecnologias utilizadas pelo Uber, AirBnB e WeWork há pessoas ajudando mutualmente outras pessoas. No Uber você não apenas se desloca melhor nas grandes cidades, mas também ajuda o motorista a gerar a sua própria renda. No AirBnB você é recebido na casas das pessoas como alguém próximo e com todos os mimos de alguém muito querido. E o WeWork não é apenas um lugar de trabalho. Também é um ambiente de cooperação, do fortalecimento de amizades pessoais (e não apenas profissionais), de aprendizado e de celebração nas inúmeras festas e happy hours.

O futuro da inovação não está na tecnologia que afasta as pessoas, mas naquelas que as aproximam e as tornam ainda melhores.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

Rebel Rebel

30 de junho de 2016

Passando uns dias em Nova York para participar da Summer Fancy Food – considerada a maior feira da gastronomia e tendências de alimentos do mundo -, tirei um tempo para um programa que me era sempre obrigatório na maior metrópole do mundo: visitar a loja de vinis usados Rebel Rebel, na Bleecker St. esquina com a Bank St., no West Village, ao sul de Manhattan.

E eis que, para minha surpresa, me deparo com uma singela placa na porta, comunicando o fechamento da loja, apenas três dias antes.

Confesso que fiquei chocado, e por um bom tempo permaneci por ali, dando voltas para cima e para baixo, com aquela cara de meme do John Travolta, tentando olhar por entre os jornais que tapam a vitrine. E encontrei solidariedade em outros dois desavisados que, assim como eu, não sabiam da notícia, e ficamos de conversa na calçada, lamentando e lembrando algumas histórias vividas na loja.

Dei um Google e descobri que o motivo oficial do fechamento, após 28 anos de funcionamento, foi o aumento do aluguel, porque a região está cada vez mais visada por marcas de roupa descoladas. Parece que o aluguel de US$ 16 mil foi para US$ 42 mil por mês, e a loja ao lado – de roupa descolada – já está de olho no lugar.

Mas fiquei pensando também em outros elementos para a Rebel Rebel não conseguir sobreviver, mesmo aceitando pagar o aumento de aluguel ou migrando para outro endereço.

Por exemplo, o atendimento do dono, David Shebiro – e de sua pequena equipe – sempre foi, no mínimo, pouco amigável e muito elitista. Só depois de algumas visitas e de fazer várias compras é que se estabelecia uma relação minimamente cordial e, aí sim, era como estar no Nirvana VIP da loja, recebendo alguma atenção.

Os novos clientes, que ainda não tinham passado por este caminho de pedras, ficavam às moscas, certamente desejando um dia também fazer alguma pergunta e ser atendido com educação. Mas eu achava divertido, e que tudo fazia parte desse encanto que a loja tinha, quase que um ritual, uma conquista sair de lá com um disco. Um reduto de pessoas verdadeiras, geniosas e pitorescas – tudo bastante bagunçado, diga-se de passagem.

Mas agora que a loja fechou, é obrigatório pensar o quanto esta atitude “não tô nem ai” não foi decisiva para o que aconteceu. Tipo, agora não adianta o David lamentar, devia ter pensado nisso antes. Imagino que com todas as ferramentas novas da internet, e com a facilidade de pessoas de todo o mundo terem acesso a arquivos de músicas raras sem custo, muitos clientes deixaram de ir. E isso somado ao fato de que o atendimento era essa “preciosidade”, não fizeram uma previsão correta da futuro do negócio.

É interessante pensar que, no revival do vinil que o mundo está vivendo, uma loja como esta, com um super estoque de raridades – e uma marca reconhecida – tenha que fechar, justamente quando deveria estar ganhando mais dinheiro. Imagino facilmente agora o David, xingando a todos e, inconformado, culpando o selvagem mercado imobiliário, em vez de olhar o quanto a loja perdeu a sintonia com os novos tempos, qual dinossauro. E quando digo isso não me refiro ao fato da Rebel Rebel trabalhar com um produto que foi atropelado pela tecnologia, mas sim porque desafinou em uma exigência elementar do mercado desses tempos de hoje, que é a qualidade no atendimento e a sintonia com o cliente.

O nome da loja Rebel Rebel é uma homenagem explicita à música do David Bowie que, como prenúncio destes tristes tempos, faleceu há alguns meses.

E sim, fica a lição, nem os rebeldes podem se dar ao luxo de ignorar a gentileza se quiserem sobreviver nos negócios.

Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor.

Por que todos os empresários deveriam (re)conhecer Yvon Chouinard

24 de junho de 2016

Talvez “Lições de um empresário rebelde” não seja a melhor tradução de “Let my people go surfing”, livro em que Yvon Chouinard narra como criou a Patagonia, uma das marcas de roupas esportivas mais prestigiadas do mundo e os pilares filosóficos e práticos que a mantém entre as empresas mais admiradas, melhores para trabalhar, mais inovadoras, melhores empresas para mamães trabalharem, que mais crescem, mais rentáveis e mais sustentáveis dos Estados Unidos, mas é o que justamente encontramos: lições de um empresário rebelde, mas rebelde às práticas vigentes.

Em um momento que estamos discutindo a corrupção corporativa, o impacto ambiental da produção, o lixo gerado do uso e pós-uso dos produtos, a ‘financeirização’ dos negócios, a instantaneidade das relações, a coisificação dos clientes e a bestialização das pessoas, as lições deste pequeno empreendedor que tem feito companhias gigantes se curvarem são, no mínimo, provocações para o desenvolvimento de uma nova geração de bons negócios realmente bons.

O livro está repleto de reflexões que invocam o equilíbrio (muitas vezes Zen) já que isto, inclusive, faz parte da própria missão da Patagonia. E a primeira lição é a passagem que abre o texto: “Sou um empresário há quase 50 anos. Mas para mim é tão difícil de dizer isto como é para alguns admitir que são alcoólatras… Nunca respeitei esta profissão. As empresas são as maiores responsáveis pelos atentados contra a natureza… No entanto, as empresas podem produzir comida, encontrar a cura de doenças, controlar o aumento da população, empregar pessoas e, de modo geral, enriquecer nossas vidas. E podem fazer essas coisas boas e lucrar sem vender suas almas.”

A segunda reflexão se concentra em ser a melhor com crescimento sustentável. “Não queremos ser uma grande empresa. Queremos ser a melhor empresa, e é mais fácil tentar ser a melhor pequena empresa que a melhor grande empresa… Quando nossos clientes se dizem frustrados por não conseguirem comprar nossos produtos porque estão o tempo todo fora de estoque, então precisamos fabricar mais, o que nos leva a um crescimento natural. Não criamos demanda artificial por nossa mercadoria fazendo anúncios… Queremos clientes que precisem de nossas roupas, não clientes que simplesmente a desejem”.

Se por um lado Chouinard não quer atrair clientes que queiram comprar uma vida que não vivenciam, também não quer clientes que desvalorizem seus produtos pagando um preço baixo: “…qualidade e não preço tem uma maior relação com o sucesso de um negócio… empresas que têm uma boa reputação pela qualidade de seus produtos e serviços conseguem, em média, taxas de retorno de investimentos 12 vezes mais altas que seus concorrentes de qualidade inferior e mais baratos.” – diz.

Mas mesmo se negando a vender produtos “baratos”, lucros crescentes não deveria ser o propósito de um negócio em sua visão. “Na Patagonia, gerar lucros não é o objetivo, porque o mestre Zen diria que os lucros chegam quando todo o resto vai bem… Mas nenhuma empresa nos respeitará… se não formos lucrativos. Tudo bem ser excêntrico, desde que seja rico, caso contrário, você simplesmente está louco” – afirma.

O resumo do enorme sucesso deste “anti-empresário” é feito pelo próprio: “Estudo a filosofia Zen há muitos anos. No tiro com arco Zen, por exemplo, deve-se esquecer do objetivo – atingir o alvo – e se focar em todos os movimentos isolados que envolvem disparar uma flecha… Se todos os movimentos forem realizados com perfeição, não se pode evitar que a flecha atinja o centro do alvo. A mesma filosofia funciona para escalar montanhas. Se você foca no processo de escalar, terminará chegando ao cume”.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP