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Blog do Empreendedor
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Livros (agora e ainda por muito tempo) forjam os melhores empreendedores

16 de novembro de 2018

Se há algo que une os empreendedores mais bem sucedidos ao redor do mundo é a paixão pelos livros. Não como bibliófilos ou bibliomaníacos, mas como pessoas que querem e buscam aprender continuamente e encontram nos livros uma forma organizada, conveniente, eficiente e, muitas vezes, inspiradora de estudar algumas horas em uma agenda atribulada aquilo que demoraria semanas, anos ou mesmo uma vida inteira.

Por isso, a sugestão de um livro de um empreendedor bem sucedido implica em um resumo de sua sabedoria aprendida, muitas vezes, à custa de muitos fracassos e erros, e também de vitórias e acertos, que quase sempre não conhecidos pelo grande público. Mas, por outro lado, a sugestão diz respeito a questões específicas que podem não ter valor imediato. Quando Bill Gates publica sua lista de livros (www.gatesnotes.com/books), as vendas disparam nas livrarias. Mas o que Bill sugere nem sempre é útil para os mortais usuários de word, excel e powerpoint. Afinal, Bill Gates, aos sete anos, já tinha lido todos os 21 volumes de World Book Encyclopedia (equivalente a Barsa ou Enciclopédia Britânica) e, desde então, nunca mais parou de devorar livros. O mesmo vale para Elon Musk, o celebrado empreendedor da Tesla, SpaceX e SolarCity. Ele demorou “bem mais tempo” que Gates, pois só terminou de ler a coleção completa da Enciclopédia Britânica aos 10 anos, passando a ler cerca de 10 horas por dia durante toda a sua adolescência.

Mas não é a quantidade mas a qualidade da leitura que importa. E isto será sempre uma percepção pessoal, sendo sua compreensão e aplicação algo intrínseco àquele momento do indivíduo em particular.  Por isso, encare as listas de sugestões de livros exatamente como é: uma lista de sugestões.

A nova geração de startupeiros mais bem sucedida ao redor do mundo sempre coloca dois livros na lista entre os mais recomendados. De Zero a Um, de Peter Thiel e O Lado Difícil das Situações Difíceis de Ben Horowitz. Para quem vai empreender em qualquer negócio, mas principalmente uma startup inovadora e de base tecnológica, tanto Thiel como Horowitz mostram o lado real e nada romântico do empreendedorismo. E o resumo dos dois livros é o mesmo: eu avisei!

Entre os empreendedores mais famosos e lendários, a lista de livros que mais impactaram suas vidas se divide em obras filosóficas, que guiaram o seu modo de pensar ao longo do tempo e publicações instrucionais, que orientaram a sua forma de agir.

Entre as obras filosóficas, a primeira e mais importante influência em Steve Jobs foi o livro Autobiografia de Um Iogue escrito pelo guru indiano Paramahansa Yogananda. Jobs conheceu a obra aos 17 anos e passou a lê-lo anualmente até falecer. Dizem que era o único livro no seu iPad e os convidados para o seu funeral receberam a publicação como seu último presente. Yogananda pregava a simplicidade fortemente observada nas criações da Apple.

Outra obra também filosófica é Enéadas escrita pelo filósofo Plotino e publicada por volta de 270 d.C. Plotino é quase desconhecido no Brasil se não fosse pela constante referência que Luiz Antônio Seabra, co-fundador da Natura, dá quando explica como surgiu o conceito da Natura no momento em que a fundou em 1969. A visão holística, integrada e sustentável que consolidou na empresa, explica Seabra, é o resultado direto da inspiração que Plotino trouxe para a sua vida como um todo.

Neste contexto de influências filosóficas na gestão de empresas também entra o livro A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, escrito pelo filósofo alemão Eugen Herrigel, que foi ao Japão aprender a técnica milenar do arco e flecha. Durante meses aprendeu a respirar, ouvir o ambiente, escutar o coração sem atirar nenhuma flecha sequer. Para um ocidental que buscava praticidade e objetividade, aquilo foi uma tortura insana. Só depois que aprendeu a se conhecer, ouvir o ambiente e se comprometer, literalmente, de corpo e alma, começou a atirar. Esse é um livro constantemente indicado por Meyer Nigri, o fundador da Tecnisa.

A lista poderia ser enorme, mas termino com um livro de ciência exata que, para Elon Musk, também é filosófico.  Vários livros o influenciaram como o Guia do Mochileiro das Galáxias, mas foi em Estruturas: Ou porque as coisas não caem, do professor de ciência dos materiais e biomecânica J. E. Gordon, que Elon Musk passou a utilizar os conhecimentos de física nos negócios.

A lista de publicações instrucionais que influenciaram fortemente grandes empreendedores é ainda maior. Bill Gates explica que mesmo depois de mais de 20 anos de ter recebido a sugestão do seu amigo Warren Buffet, o livro Aventuras Empresariais, escrito por John Brooks, continua sendo o mais importante que leu em sua vida pois narra diversas situações empresariais de empresas reais que são grandes lições para qualquer tipo de negócio. Se este livro fala de erros, o livro preferido de Jeff Bezos, Made in America, escrito por Sam Walton, fundador do Walmart, fala de acertos e da importância da austeridade e também da inovação no desenvolvimento de grandes negócios. O livro de Sam Walton também marcou fortemente o início da vida empresarial de Jorge Paulo Lemann e Beto Sicupira, que escreveram o primeiro prefácio da edição em português.

Para finalizar, dois livros bastante úteis para o momento atual das empresas. O primeiro lida com a formação de equipes integradas e alto desempenho. Os 5 Desafios das Equipes, escrito pelo consultor Patrick Lencioni, é a ótima sugestão de Edgard Corona, o fundador da SmartFit para este desafio. E em momentos em que muitas organizações precisam reduzir custos e aumentar receitas, o livro Dobre seus Lucros, do consultor Bob Fiffer, é sempre lembrado como o único livro que Marcel Herman Telles, empreendedor da AB-Inbev, enviou para todos os diretores das empresas do Grupo 3G mais de uma vez.

Por mais que as tecnologias de inteligência artificial avancem e as comunicações digitais proliferem, os (bons) livros, agora e por muito tempo, ainda forjarão os melhores empreendedores.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

Corporações e startups: os dez erros iniciais (e fatais) que os empreendedores mais cometem

12 de novembro de 2018

Por mais que pareça uma grande novidade, o interesse de grandes corporações por startups está em sua quinta onda mundial e na terceira no Brasil. Em outros momentos, as grandes empresas já tinham percebido as oportunidades em interagir, fechar parcerias e investir em startups. E, como nas ondas anteriores, executivos e empreendedores retornam ao início da jornada e precisam desenvolver conhecimentos para aumentar a eficácia neste tipo de relação.

Muitos erros são cometidos e, desta forma, há inúmeras oportunidades de melhorias pelas duas partes. Entre algumas das falhas críticas que muitos empreendedores cometem logo no início da relação estão:

Não estudar (previamente) a corporação. Mas o que a empresa de vocês faz mesmo? Pergunta o empreendedor para a banca de executivos que iria ver a sua apresentação. Nem todos os empreendedores são tão estúpidos assim, mas boa parte não faz seu dever de casa prévia e adequadamente. Estudar o histórico da empresa, sua atuação, concorrentes, estratégia e, principalmente, seus desafios (lembre-se de que ela não tem problemas… tem desafios ou objetivos estratégicos!) é o mínimo que se espera de alguém que se propõe a ser um parceiro estratégico da companhia.

Não pesquisar e identificar quem são os executivos que participarão da reunião. Estamos só esperando o CEO da empresa para começar? Questiona o empreendedor ao rapaz de camisa polo, jeans e sapatênis que está ao seu lado na mesa de reunião. Se essa é a sua preocupação, já podemos começar. – Responde o rapaz ao empreendedor que ainda não entende o sarcasmo. Nas corporações mais modernas, que aderiram à informalidade nas relações, é impossível para um forasteiro saber quem é quem na hierarquia organizacional, mesmo porque, o CEO se mistura ao seu time, não apenas fisicamente, mas em opiniões e discussões. Custa pouco pedir antecipadamente a lista de quem estará presente e pesquisar no Linkedin. Mas sai muito caro não saber com quem está falando na firma.

Não identificar qual é o desafio da corporação que sua startup resolve. Nem tinha me tocado que minha startup poderia resolver o problema dessa corporação desse jeito… – Relata o empreendedor. Muitos empreendedores se cegam fascinados pela inovação que estão desenvolvendo e não conseguem vislumbrar que sua solução seria muito útil em outros desafios empresariais aparentemente desconexos.

Não identificar rapidamente qual executivo irá ajudar a bater a meta. Não existe relação grande empresa e startup. O que há são executivos se relacionando com empreendedores. Se nenhum executivo entender que a startup o(a) ajuda a bater meta, a relação não irá adiante.

Portar-se arrogantemente como empreendedores e não executivos. É um paradoxo. A corporação diz querer inovar com startups, mas seus executivos buscam uma solução segura que não arrisquem seus empregos e a empatia é imediata quando o empreendedor também age e se porta como um executivo.

Não contextualizar e caracterizar a (grande) vantagem competitiva que se consolidará pela parceria. Ah, inclusive já atendemos seu principal concorrente! Diz o orgulhoso empreendedor tentando demonstrar que sua solução já foi validada pelo mercado. E depois, na saída reclama: Acho que eles não entenderam a solução…

Chamar mais a atenção do que a solução da sua startup. Roupa amassada, camiseta velha, jeans sujo, saia muito curta, computador com adesivos polêmicos, piadas inoportunas, cheiro de suor e até falta de higiene bucal. Não tudo isso ao mesmo tempo e (ainda bem) são exceções.

Não entender a lógica da PoC. Fechar uma parceria com uma startup é, em boa parte dos casos, um enorme risco não só para a imagem da corporação (que pode chegar a bilhões de reais) mas para o executivo que toma a decisão. Quando se contrata um grande fornecedor e o projeto dá errado, a culpa é do fornecedor. Quando se contrata um pequeno provedor, a culpa é de quem? Por isso, as grandes corporações criam uma fase de prova de conceito (que muitos empreendedores odeiam) em que a startup será validada em diversos aspectos, inclusive o comprometimento e a capacidade de execução dos empreendedores e a escalabilidade da solução.

Não compreender que a corporação é rica, mas o departamento é pobre. As grandes empresas que faturam milhões ou bilhões de reais podem parecer imponentes, mas seus departamentos sobrevivem de orçamentos restritos aprovados no ano anterior. Cada real gasto foi previsto e enxugado até o último centavo possível. Por mais que o contrato seja celebrado com a grande empresa, o recurso sairá de um departamento com orçamento de média ou até pequena empresa.

Não (saber) lidar com o jogo do Fácil-Sim. A negociação entre corporação e startup é finalizada, invariavelmente, com um sim ou um não. Este sim ou não pode ser fácil ou difícil. Não raro, a solução inovadora, escalável, disruptiva vislumbrada pela startup para a corporação será um difícil sim ou, mais provavelmente, um difícil não. A “empresa” até entente o potencial de inovação, mas o “executivo” não arriscará seu bônus do ano e até sua carreira nesta “aposta”. Cabe ao empreendedor levar a negociação para uma proposta simples, barata e com pouco risco para a empresa. Esta é a solução Fácil-Sim que será validada na PoC. Uma vez dentro da corporação, já tendo validado a solução e a capacidade de execução, aí sim, aquela solução inovadora, escalável, disruptiva começará a fazer mais sentido.

Mas de todas as falhas cometidas pelo empreendedor na sua relação com a corporação, as mais graves são as que ocorrem depois: dizem que não aprenderam nada com o processo, reclamam da perda de tempo e ainda não expandem sua rede de relacionamentos.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo.

Um case de sucesso no Terceiro Setor

12 de novembro de 2018


Esta é a história de Marcelo Nonohay, fundador e diretor executivo da MGN, empresa especializada na gestão de projetos para transformação social. Gaúcho, bom contador de histórias e que nas horas vagas faz aula de guitarra, Marcelo é mestre em administração pela conceituada Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e membro Titular do Conselho Nacional do Voluntariado 2018/2019. Ele conta que a jornada empreendedora começou em 2006, apenas formado em Porto Alegre, e em 2010 desembarcou em São Paulo para colocar a MGN em abrangência nacional. Já deu palestras para mais de 15 mil executivos de empresas nacionais e internacionais, tornando-se uma referência nas áreas de voluntariado empresarial e educação.

Quando teve vontade de empreender?

Sempre tive um exemplo empreendedor dentro de casa. Antes mesmo de eu entender o que significa ser empreendedor eu via várias facetas do empreendedorismo. Tanto as coisas boas quanto as não tão boas em ser dono de um negócio próprio: paixão pelo que se faz e o orgulho pelas realizações; longas horas de trabalho e uma preocupação constante com o bem-estar dos funcionários; satisfação de clientes e a perenidade do negócio. Ser empreendedor sempre foi uma opção aberta, mas só virou uma realidade bem mais tarde. Nesta época eu já estava formado em administração e decidi fazer um mestrado. Neste período, além de um grande aprendizado acadêmico, pela primeira vez entendi que conseguiria viver sem ter um emprego formal e que eu poderia fazer um caminho diferente, pagar os custos e colher os frutos de uma vida mais independente. Foi nesse período que nasceu a MGN.

Olhando para atrás, houve uma inspiração especial?

Sim, na escola fiz parte de um programa que desenvolve empreendedorismo entre jovens com o trabalho de voluntários do mercado – a Miniempresa da Junior Achievement. Essa experiência foi transformadora, pois moldou em grande parte o meu negócio atual.

Primeiro apareceu o empreendedor ou a ideia?

No início eu achava que para ser um empreendedor de sucesso eu teria que ter uma ideia genial. É obvio que se você tem uma ideia genial e o mercado aprova, você está muito bem encaminhado. Mas entendo que nem todos os empreendedores terão uma ideia genial para começar. Olhando em retrospectiva, eu comecei fazendo o que sabia, explorando o que gostava e sempre muito aberto a aprender. Não criei a MGN a partir de uma ideia genial, mas hoje tenho certeza que o que ela faz é genial. Se me perguntassem há uns 15 anos se eu achava que uma empresa como a MGN poderia existir, eu diria que não.

Qual o foco de trabalho da MGN?

Nós trabalhamos com a gestão de projetos para a transformação social. Criamos esse guarda-chuva amplo, pois estamos envolvidos em projetos de voluntariado, educação e diversidade. Por isso, entendemos que nosso negócio sempre tem relação com algum tipo de transformação social que queremos ver na sociedade. Nem sempre tivemos esse foco exclusivo, no entanto. O começo de um negócio é sempre muito difícil. Por se tratar de um negócio de consultoria, também fizemos muitos trabalhos de planejamento: planos de negócios, planejamento estratégico e planos de marketing. Aproveitamos até hoje a experiência que adquirimos com esse tipo de trabalho. Muitos temas que desenvolvemos nessa época ainda aplicamos nos nossos projetos, como por exemplo empreendedorismo, sustentabilidade, inovação, gestão estratégica e pesquisa de mercado.

Como é que a família participa (ou não) no empreendimento?

A família do empreendedor sempre participa do seu negócio. No caso da MGN tenho membros da família que se envolvem de forma pontual em alguns trabalhos, de acordo com suas competências. Além disso, todos sofrem um pouco com as noites mal dormidas, assim como vibram com cada conquista.

E como é a rotina diária de uma empresa do Terceiro Setor?

Nosso cotidiano é bastante intenso. Por sermos uma empresa que presta serviço, é esperado que estejamos funcionando no horário comercial, mas como trabalhamos com muitos eventos, em especial de atividades de voluntariado empresarial, trabalhamos muitas noites e fins de semana, horários em que muitos programas de voluntariado corporativo realizam suas atividades. Para dar conta dessa demanda, zelamos por manter um ótimo clima organizacional, valorizamos a diversidade para que todos se sintam acolhidos e temos sistemas de bonificação para as lideranças e para quem trabalha em eventos. Além disso, o resultado do nosso trabalho sempre é carregado de muita satisfação pessoal, pois atuamos no que eu chamo de Economia do Bem. Para mim, esse conceito vai muito além das definições de Terceiro Setor ou Negócios Sociais. Aqui entram todas as formas de produção, trocas, consumo e descarte que propõem uma revisão das maneiras tradicionais.

Quais são os planos de futuro do negócio?

Nossos planos de futuro incluem a expansão concêntrica de negócios. Estamos explorando novos mercados onde podemos aplicar nossa expertise no Brasil e fora.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora no teu setor, qual seria?

Vejo que atuar no setor, seja por meio de uma Organização ou Negócio Social, ou até mesmo com uma consultoria é muito tentador para os jovens. Essa nova geração já chega ao mercado pensando em empreender com propósito. Todos querem fazer o que gostam. Não há mais espaço para ser infeliz no trabalho e fazer o bem nas horas vagas. O ponto é que empreender em qualquer setor, mesmo que seja para fazer o bem, não é fácil e não é para qualquer um. Às vezes me preocupa ver tantas pessoas se jogando no mercado sem nenhuma noção ou preparo. Mesmo em um negócio que é 100% ligado à realização pessoal do empreendedor, as dificuldades e a vontade de desistir baterão à porta. Tudo começa por autoconhecimento: a pessoa tem que estar disposta a viver a vida de empreendedor.

Qual o futuro do Brasil?

Embora seja um clichê, eu acredito que o Brasil tem um enorme potencial, um grande mercado consumidor, uma cultura rica, grande diversidade ambiental e social, algumas ilhas de excelência e um povo criativo. O problema é que para que esse potencial seja realizado, precisamos investir em educação com um pensamento de longo prazo. Vejo que a MGN dá uma contribuição, pois quando desenvolvemos know-how para dar mais efetividade e maior impacto ao investimento social privado, estamos trabalhando para construir um futuro melhor.

Saiba mais:

http://mgnconsultoria.com.br/

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

 

Empreendedorismo jovem: a hora de gerar impacto social é agora

6 de novembro de 2018

Foto: Unsplash

A maior celebração mundial do empreendedorismo chega à 11ª edição com o tema Empreendedorismo Jovem: A Hora é Agora. A Semana Global de Empreendedorismo, SGE 2018, contará com uma série de atividades norteadas pelos subtemas mulheres, inclusão social e inovação, até sexta-feira, dia 9. Na minha percepção, assuntos de muita relevância, sobretudo, quando analisamos o desempenho de jovens que estão liderando empresas com modelos inovadores e de alto impacto social.

Em mais de uma década de atuação, a Artemisia tem apoiado jovens inquietos pela mudança via empreendedorismo. Um deles é Gustavo Fuga que, em 2011, fundou a 4YOU2 com o sonho de transformar a educação, democratizando o acesso ao aprendizado e ao ensino de Inglês. Para isso, o negócio de impacto social oferece cursos por valores populares por meio de escolas localizadas em regiões de periferia ou locais de fácil acesso. Na prática, proporciona experiências transculturais para a população de baixa renda – com preços acessíveis – que ampliam o acesso a informações, possibilidades de estudo e melhores empregos que alavancam o desenvolvimento dos alunos.

A empresa atua com metodologia híbrida, adaptativa e com professores estrangeiros, focados em conversação. Hoje, a rede possui oito unidades, sendo cinco em São Paulo – nos bairros de Santana, Jardim Ângela, Ipiranga, Campo Limpo e Capão Redondo –, duas em Minas Gerais e uma na Paraíba. O negócio conta com 10 mil alunos e 350 professores de todo o mundo. Com a 4YOU2, o estudante da baixa renda tem uma solução acessível que reduz a própria assimetria de informação e a vulnerabilidade social, pois oferece ferramentas para que possa competir por vagas de emprego em condições mais equiparadas aos brasileiros com melhor poder aquisitivo.

Um outro exemplo são os jovens Raphael Mayer e Mathieu Anduze. Juntos, desenvolveram a Simbiose Social, uma plataforma digital que une tecnologia e informação para conectar empresas aptas a doarem parte do pagamento de impostos a projetos aprovados pelas leis de incentivo. A plataforma foi criada a partir do cruzamento de todos os dados públicos referentes a Leis de Incentivo no país. De um lado, o Sistema de Empresas otimiza a gestão do recurso e permite buscar os projetos. Do outro, o Sistema de Projetos empodera projetos sociais ao muni-los com informações referentes ao perfil das empresas. No cerne, a ideia é promover um match entre as empresas que querem – ou costumam doar parte dos recursos para pagamento de impostos – e os projetos que lutam para captar dinheiro. Ao mesmo tempo, otimiza a pesquisa, a avaliação e a gestão dos investimentos sociais.

Os empreendedores da Simbiose Social, que foram potencializados na Aceleradora Estação Hack – iniciativa do Facebook em parceria com a Artemisia – mapearam, em 2018, um potencial de direcionamento de imposto que ultrapassa a marca de R$ 100 milhões. Desde a criação, 56 projetos já foram impactados diretamente pela plataforma, que direcionou R$ 8,5 milhões para iniciativas socioculturais que beneficiaram mais de 100 mil pessoas no país.

A força dos jovens para contribuir com a mudança é gigantesca. No Brasil, a Artemisia se orgulha de ser pioneira na disseminação da inclusão dos jovens no ecossistema de negócios de impacto social. Em 2011, criamos a maior rede de jovens engajados no tema – o Movimento Choice – que em 5 anos formou mais de 800 embaixadores em 23 Estados e mobilizou mais de 97 mil pessoas dentro das universidades. Em 2017, o movimento se tornou independente e passou a ser liderado por embaixadores da própria rede; hoje, segue “contaminando” jovens com o propósito social, além de apoiar o desenvolvimento desse público para que empreendam mudanças positivas no mundo.

Uma forma permanente de levarmos informações sobre o conceito de negócios de impacto social para o maior número de pessoas – inclusive para jovens que queiram saber mais sobre como empreender e gerar impacto positivo ao mesmo tempo – foi a criação do Curso Online de Negócios de Impacto Social. Nesse ambiente online, o aluno encontra informações teóricas e práticas sobre a temática no Brasil e no mundo, e passa a conhecer a história de empreendedores de impacto social. Acreditamos que para realizarmos o nosso sonho – um país com 100% das brasileiras e brasileiros vivendo com dignidade e poder de escolha – o engajamento de jovens empreendedores é essencial.

Mais informações sobre a programação da Semana Global de Empreendedorismo podem ser obtidas no site do movimento: http://www.empreendedorismo.org.br/

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

A maior celebração mundial do empreendedorismo chega à 11ª edição com o tema Empreendedorismo Jovem: A Hora é Agora. A Semana Global de Empreendedorismo, SGE 2018, contará com uma série de atividades norteadas pelos subtemas mulheres, inclusão social e inovação, no período de 5 a 9 de novembro. Na minha percepção, assuntos de muita relevância, sobretudo, quando analisamos o desempenho de jovens que estão liderando empresas com modelos inovadores e de alto impacto social.

 

Em mais de uma década de atuação, a Artemisia tem apoiado jovens inquietos pela mudança via empreendedorismo. Um deles é Gustavo Fuga que, em 2011, fundou a 4YOU2 com o sonho de transformar a educação, democratizando o acesso ao aprendizado e ao ensino de Inglês. Para isso, o negócio de impacto social oferece cursos a valores populares por meio de escolas localizadas em regiões de periferia ou locais de fácil acesso. Na prática, proporciona experiências transculturais para a população de baixa renda – com preços acessíveis – que ampliam o acesso a informações, possibilidades de estudo e melhores empregos que alavancam o desenvolvimento dos alunos.

 

A empresa atua com metodologia híbrida, adaptativa e com professores estrangeiros, focados em conversação. Hoje, a rede possui oito unidades, sendo cinco em São Paulo – nos bairros de Santana, Jardim Ângela, Ipiranga, Campo Limpo e Capão Redondo –; duas em Minas Gerais; e uma na Paraíba. O negócio conta com 10 mil alunos e 350 professores de todo o mundo. Com a 4YOU2, o estudante da baixa renda tem uma solução acessível que reduz a própria assimetria de informação e a vulnerabilidade social, pois oferece ferramentas para que possa competir a vagas de emprego em condições mais equiparadas aos brasileiros com melhor poder aquisitivo.

Um outro exemplo são os jovens Raphael Mayer e Mathieu Anduze. Juntos, desenvolveram a Simbiose Social, uma plataforma digital que une tecnologia e informação para conectar empresas aptas a doarem parte do pagamento de impostos a projetos aprovados pelas leis de incentivo. A plataforma foi criada a partir do cruzamento de todos os dados públicos referentes a Leis de Incentivo no país. De um lado, o Sistema de Empresas otimiza a gestão do recurso e permite buscar os projetos. Do outro, o Sistema de Projetos empodera projetos sociais ao muni-los com informações referentes ao perfil das empresas. No cerne, a ideia é promover um match entre as empresas que querem – ou costumam doar parte dos recursos para pagamento de impostos – e os projetos que lutam para captar dinheiro. Ao mesmo tempo, otimiza a pesquisa, a avaliação e a gestão dos investimentos sociais.

 

Os empreendedores da Simbiose Social, que foram potencializados na Aceleradora Estação Hack – iniciativa do Facebook em parceria com a Artemisia – mapearam, em 2018, um potencial de direcionamento de imposto que ultrapassa a marca de R$ 100 milhões. Desde a criação, 56 projetos já foram impactados diretamente pela plataforma que direcionou R$ 8,5 milhões a iniciativas socioculturais que beneficiaram mais de 100 mil pessoas no país.

 

A força dos jovens para contribuir com a mudança é gigantesca. No Brasil, a Artemisia se orgulha de ser pioneira na disseminação da inclusão dos jovens dentro do ecossistema de negócios de impacto social. Em 2011, criamos a maior rede de jovens engajados no tema – o Movimento Choice – que em 5 anos formou mais de 800 embaixadores em 23 Estados e mobilizou mais de 97 mil pessoas dentro das universidades. Em 2017, o movimento se tornou independente e passou a ser liderado por embaixadores da própria rede; hoje, segue “contaminando” jovens com o propósito social, além de apoiar o desenvolvimento desse público para que empreendam mudanças positivas no mundo.

 

Uma forma permanente de levarmos informações sobre o conceito de negócios de impacto social para o maior número de pessoas – inclusive para jovens que queiram saber mais sobre como empreender e gerar impacto positivo ao mesmo tempo – foi a criação do Curso Online de Negócios de Impacto Social. Nesse ambiente online, o aluno encontra informações teóricas e práticas sobre a temática no Brasil e no mundo, e passa a conhecer a história de empreendedores de impacto social. Acreditamos que para realizarmos o nosso sonho – um país com 100% das brasileiras e brasileiros vivendo com dignidade e poder de escolha – o engajamento de jovens empreendedores é essencial.

 

Mais informações sobre a programação da Semana Global de Empreendedorismo podem ser obtidas no site do movimento: http://www.empreendedorismo.org.br/

 

 

* Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

 

Depois de quebrar e se reerguer, boliviano se firma com a Comedoria Gonzales

5 de novembro de 2018

Checho Gonzales dá uma dica para quem quer empreender: 'Tente ser original'. Foto de Lucas Terribili

Esta é a história de Checho Gonzales, boliviano chegado ao Brasil aos 7 anos, cidadão do mundo, chef revelação em 2001 e 2002 pela Revista Gula, e que quebrou, e se levantou, algumas vezes, e sempre melhor que antes. Em 2012, Checho foi uma das pessoas que revolucionaram a gastronomia de São Paulo, juntamente com Henrique Fogaça e Lira Yuri, realizando um evento mensal chamado O Mercado, que trazia para um formato de feira de rua comidas de qualidade e de chefs renomados a preços razoáveis. O impacto foi tão importante, que mudou para sempre a forma como o paulistano se relaciona com o alimento no dia a dia da cidade, fazendo com que as pessoas perdessem o medo de comer na rua, de pé, e sem frescura. Isso abriu caminho para a vinda dos food trucks e dos restaurantes com serviço mais informal. Depois de alguns anos, Checho decidiu sair das ruas e ancorar num lugar fixo. Escolheu o Mercado Municipal de Pinheiros para abrir a Comedoria Gonzales, em 2014, servindo comidas latino-americanas – em especial os ceviches – e foi, mais uma vez, pioneiro da transformação desse antigo mercadão num ponto de encontro da gastronomia da cidade. Sempre com seu humor peculiar, conversamos sobre a jornada do empreendedor.

Primeiro apareceu uma ideia que forçou você a virar empreendedor? Ou primeiro apareceu o empreendedor que saiu procurando uma ideia?
Bom, eu sempre fui muito roleiro, até hoje consigo vender ou trocar todo tipo de coisa. Interessa um skate híbrido? Também estou com uma barra fixa. Vendo ou troco por instrumentos ou equipamento… Meu primeiro negócio apareceu quando voltei de Barcelona, vivi lá por 2 anos. Era 1993 e não sabia o que queria da vida e fui fazer umas comidinhas no bar de uns amigos. Foi a primeira vez que cozinhei pra ganhar um dinheirinho. Um dos sócios estava insatisfeito e achei uma boa oportunidade, acabei comprando a parte dele. Não foi uma ideia sensacional, mas me deu uma super referência. Era um bar de rock & roll, sexo e muitas drogas. Depois de passar um par de anos nesse clima cheguei à conclusão de que tinha que dar uma direção na minha vida. Podemos, então, dizer que foi o que alavancou tudo.

A sua família trabalha com você na Comedoria?
Agora meu pai cuida do meu financeiro e minha companheira vai responder às redes sociais. Tentei escravizar a minha filha também, mas ela fugiu…

Como é o dia a dia de um empreendedor da gastronomia?
Passei anos sem vida social regular, saía muito de madrugada, vida bem boemia. Depois que mudei de modelo de negócio e fiquei mais velho, tudo se normalizou: trabalho durante o dia e à noite faço coisas normais. Não sei até quando dura, pois isso acompanha o tipo de negócio.

Quais são os seus planos de futuro?
Creio que a Comedoria tem ainda muito tempo de vida, não bombando como foram os últimos anos, algo mais sóbrio, mas é o apoio que necessito para montar um outro restaurante. Ainda não encontrei a ideia correta, o espaço adequado, o formato que me agrada… Continuo na procura, sei que vai aparecer.

Se pudesse dar uma dica a quem está chegando agora na sua área, qual seria?
Pare de fazer cópias de tudo, tente ser original

Qual o futuro do Brasil?
Ave, neste momento não tenho a mínima ideia. A minha contribuição está no meu dia a dia, sei que agrego, que construo. Tento ser correto em tudo, acho que isso já soma

Saiba mais:
Comedoria Gonzales
Mercado Municipal de Pinheiros – boxe 85
Horário de funcionamento: segunda a sábado, 11h às 20h
@comedoriagonzales

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Ah… e tem mais uma coisa: Inovação é meio, se não, será o fim

2 de novembro de 2018



Nas memoráveis apresentações anuais dos lançamentos da Apple conduzidas por Steve Jobs, a plateia aguardava ansiosa pela parte final em que Jobs fazia uma pausa e anunciava: Ah… e tem mais uma coisa! Os presentes no auditório urravam com este aviso. A maior e mais secreta inovação da Apple seria apresentada em alguns segundos. Sigilo, foco no cliente e vendas maiores do que no período anterior eram cuidadosamente orquestrados por todos na empresa e aquele momento não era o fim, mas o meio para se construir mais um ano memorável.

Ser inovador ou algo ainda pior, parecer inovador, tornou-se um mantra entre muitos líderes executivos. Suas organizações lançam iniciativas pomposas, contratam consultores com discursos rasos com teor bombástico e apocalíptico, começam a pregar inovações radicais e exponenciais e divulgam todas as suas intenções, passos e projetos de inovação nas redes sociais pois querem parecer inovadores. Seus concorrentes mais tolos irão correr para lançar iniciativas ainda mais pomposas, com consultores (agora internacionais) ainda mais bombásticos e apocalípticos e a briga por quem cospe mais longe se acirrará. Porém, seus concorrentes mais inteligentes adorarão saber quais são as estratégias de inovação do competidor que publica tudo na internet.

Como inovação se tornou um fetiche de muitas corporações, a primeira questão que, quase sempre, levantam é como inovo? Crio uma aceleradora de startups como meu concorrente ou lanço um laboratório de inovação como o outro fez? Faço um hackathon ou uma sessão de design thinking? Levo a área de inovação da empresa para um coworking ou construo um próprio?

Essas dúvidas são inócuas quando há uma questão anterior que direcionará todas as outras: Por que inovar? Muitas corporações não têm a mínima noção sobre como responder esta pergunta. Nos casos mais grotescos, a resposta implícita é porque meu concorrente está inovando. A melhor resposta deveria estar associada à construção de um futuro mais próspero para a empresa em um ambiente de negócio cada vez mais caótico, incerto e tecnológico. Em casos mais graves e urgentes, a resposta diz respeito a própria sobrevivência da companhia.

 

Muitas corporações não sabem por que querem (ou precisam) inovar pois seus dirigentes enxergam o futuro olhando para o passado e seus executivos concentram-se em garantir o bônus do ano. E estão racionalmente corretos. Em 2007, a Nokia rumava para ser a primeira corporação a atingir um bilhão de clientes com seus telefones celulares inovadores. Sua participação de mercado era maior do que a somatória de todos os demais concorrentes. Ela se preparava para ocupar a China, o maior mercado emergente do mundo. E seu concorrente mais inovador ainda era pequeno e tinha um peculiar nome de fruta. Se fosse executivo da Nokia naquele momento teria certeza de que a empresa estava no caminho correto e saberia qual fruta era essa.

Pouco mais de uma década depois, muitos sabem o que aconteceu com a Nokia e têm certeza absoluta do nome da fruta. Mas em uma década, diversas outras corporações do mundo se tornaram Nokias. Como muitas ainda não sabem disso, acreditam que a inovação é um fim em si mesma, por isso, gostam de alardear publicamente suas iniciativas de inovação. Mas as empresas mais inovadoras do mundo, segundo o ranking publicado pela revista Fast Company, como a Apple, Netflix, Tecent e Amazon não divulgam iniciativas, mas “acabativas” de inovação quando a concorrência já foi deixada nitidamente para trás.

Organizações e executivos que não percebem que a inovação é um meio, encontrarão, invariavelmente, seu fim, pois não entregarão os resultados esperados por qualquer companhia: aumento de vendas, redução de custos, incremento do valor ou fortalecimento do seu propósito de existir.

Ah… e tem mais uma coisa: A fruta que a Nokia achava que era sua concorrente inovadora não era uma maçã, mas uma amora.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

A empreendedora dos azeites

31 de outubro de 2018

Vista interna da Rua do Alecrim, em Moema

Esta é a história de Iris Jönck, publicitária por formação, que decidiu empreender para fazer as coisas acontecerem pelas próprias mãos. Assim surgiu a Rua do Alecrim, uma loja online que oferece produtos de origem de diversos países e regiões diferentes do Brasil, e que virou ponto de encontro dos melhores azeites “de origem” do Brasil e do mundo. A Iris nos conta como foi sua evolução pessoal e profissional, como a ideia de uma loja online se transformou em loja física e os desafios e soluções encontrados nessa jornada.

Como tudo começou?
Sempre fui movida por desafios e sede de aprendizado, mas também sempre me deu muita satisfação ver os projetos acontecendo de verdade, saindo do planejamento e virando algo real. E acho que foram estes fatores que aos poucos foram me fazendo querer me dedicar mais a criar e fazer novas coisas acontecerem com minhas próprias mãos.Um momento importante, que me ajudou nessa guinada para o empreendedorismo, foi ter realizado um curso de pós-gradução em Tendências na Universidad Ramón Llul-Blanquerna, em Barcelona. Ali eu abri muito a cabeça, observando movimentos culturais e de comportamento que me ajudaram a enxergar um mundo com muito mais possibilidades de atuação do que as de um emprego tradicional em uma empresa ou ainda de uma agência de publicidade.A decisão de empreender, é claro, passou por uma conjunção de fatores e foi se desenhando a partir de inspirações e trocas entre mim e meu marido, que é meu sócio na vida e na empresa. O Arnaldo Comin é jornalista por profissão e sempre trabalhou como repórter e editor, sobretudo em jornais de economia e negócios. Nós dois sempre gostamos muito de viajar e sempre tivemos uma conexão muito forte com a cozinha e a gastronomia. Quando passamos nossa lua de mel na Turquia, a caixa de Pandora se abriu. O contato com aquele mundo de temperos e sabores caiu como uma bomba na nossa cabeça. Foi ali que tomou corpo a ideia de criar um negócio que resgatasse os valores gregários da cozinha, da gastronomia como elemento de união entre as pessoas e as culturas.

Primeiro apareceu a ideia ou a empreendedora?
Considerando o contexto, acho que a ideia precedeu a empreendedora. Nós queríamos trabalhar com um negócio que tivesse três elementos em comum: gastronomia, internet e o conteúdo forte para a construção da marca. Foi assim que nasceu a Rua do Alecrim. Alimentos com histórias para contar e um valor intrínseco para todas as pessoas que apreciam o que é especial. Nosso primeiro produto foram kits de presente temáticos por país: França, Itália, Espanha, Oriente Médio, assim por diante. Vinho, tempero e outros ingredientes típicos. Foi quando esbarramos logo de cara naquilo que seria a nossa marca registrada: os azeites. Vimos que era um produto super nobre, com uma riqueza cultural imensa, que não era muito bem trabalhado pelo varejo. Fomos conhecendo e nos apaixonando. Tanto que a nossa assinatura evoluiu para Rua do Alecrim Azeites e Gastronomia. Temos orgulho de oferecer em São Paulo uma das poucas lojas no mundo especializadas em azeites de origem. Mesmo em países produtores, como Espanha, Itália e Portugal, são raríssimas as lojas desse tipo. Do site, acrescemos para uma loja física no bairro de Moema, que se tornou uma “embaixada do azeite”. Fazemos um trabalho especial, e que muito nos orgulha, que é a promoção dos produtores artesanais brasileiros, uma nova geração que está começando a fincar raízes, literalmente, da olivicultura no País.

Iris em meio a oliveiras em Puglia, na Itália

Como é o estilo de vida de vocês, do pessoal ao profissional?
Nossa família é bem pequena. Somos só nós dois e, na verdade, a vida tão intensa do empreendedorismo adiou um pouco nossos planos de filhos. O desafio agora, por sinal, é conciliar as duas coisas: aumentar a família e os negócios ao mesmo tempo!  Depois de seis anos de negócios, a gente vai percebendo na prática um certo “paradoxo” do empreendedor: você fica muito imerso no seu mundo e vê que os seus amigos de sempre, principalmente aqueles que sempre viveram num esquema profissional mais tradicional, não acompanhar muito bem as suas opções de vida. E a agenda sempre tão carregada infelizmente te afasta um pouco da convivência. Por outro lado, ao empreender você agrega um monte de pessoas novas ao seu redor. Ainda mais quando o assunto é gastronomia. A gente trabalha muito, mas há a oportunidade de conhecer gente muito interessante e terminar um dia exaustivo de evento tomando um vinho feliz da vida com um degustador profissional ou um cozinheiro bacana. É a prova de como a boa comida aproxima as pessoas e expõe o nosso lado mais humano.

Quais são os planos de futuro do negócio?
Quem trabalhou com varejo nos últimos quatro ou cinco anos sabe como esse período foi difícil. No nosso caso, que trabalhamos predominantemente com produtores de origem do Mediterrâneo e alguns vinhos e azeites da América do Sul, o câmbio foi especialmente cruel. Isso nos levou a diversificar muito o negócio em busca de rentabilidade. Fomos do ecommerce puro com a ruadoalecrim.com.br para um híbrido com loja física, fora as vendas de brindes corporativos para empresas, que sempre foram muito importantes para o nosso resultado. Com o nosso crescimento muito grande no mercado de produtos italianos para pizzas e panificação, criamos em 2017 um segundo ecommerce, farinhasitalianas.com.br. Paralelamente criamos nossa marca própria de vinagres artesanais, azeite e temperos, além de ter iniciado no ano passado a importação direta de alguns rótulos de azeites de alto nível da Itália e da Espanha. Vale lembrar que sempre fizemos muitos cursos e workshops de azeites, pizzas, pães e vários outros temas de cozinha. É muita coisa!

Ao mesmo tempo, vemos que o nosso negócio precisa de escala para crescer: se trabalharmos com três ou quatro lojas, aumentando a importação direta e o investimento em marca própria, o negócio pode crescer bastante, tanto na revenda para o varejo quanto na comercialização direta ao cliente final. O objetivo para 2019, portanto, é estreitar o foco, priorizar as áreas de negócios com melhor potencial e conversar com gente do mercado que tenha interesse em investir conosco na expansão da empresa. Nosso desafio não difere de tantos bons empreendedores brasileiros: ter acesso a capital para crescer com o apoio de um parceiro estratégico que não aporte apenas dinheiro.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora
no seu setor, qual seria?
Pense leve. No ramo do varejo e da gastronomia é muito tentador ir aumentando o portfólio de produtos e serviços sem se dar conta. Assim como um restaurante que está sempre inventando pratos novos sofre com mais perdas de matéria-prima, tempo e pouco poder de negociação com ingredientes de baixo volume de uso ou de venda, no varejo acontece o mesmo. No caso do ecommerce, não menospreze os custos e o lado operacional. A tecnologia avançou muito desde que abrimos o negócio, há seis anos, mas vender pela internet é muito custoso, há muitos gargalos e pode levá-lo a muita perda, se os processos não estiverem muito bem montados e a equipe não for bem treinada. Além disso, o bom cliente de gastronomia dá valor à qualidade, à origem do produto e ao atendimento. Mas normalmente é bem informado e não abre mão do preço justo. É uma linha tênue. Por isso, a equipe precisa conhecer profundamente o seu produto e saber vender paixão. Comer e beber bem é um ato de indulgência. Com raríssimas exceções, nossos clientes são essencialmente pessoas que querem experimentar algo diferente e ser felizes. É uma compra por alegria e não por necessidade. Isso é o que dá mais prazer em ter um negócio como a Rua do Alecrim.

Qual o futuro do Brasil?
Pensar no futuro do Brasil não anima muito, para falar a verdade. Ao mesmo tempo em que me sinto muito preocupada com uma nova onda conservadora e de coação às nossas liberdades, não está muito claro se o País pretende realmente abraçar a causa do empreendedorismo e adotar uma agenda mais amigável ao investimento privado e ao livre mercado. Como empresária da gastronomia, acho que a melhor contribuição é ajudar no desenvolvimento dos produtores de origem, artesanais e orgânicos. O mundo está passando por uma revisão importante na forma como lida com a agricultura familiar e com a relação da alimentação com a vida em comunidade. O Brasil não pode ficar fora disso.

Conheça mais:
Rua do Alecrim Azeites e Gastronomia
Rua Normandia, 12 – Moema – São Paulo
eCommerce: www.ruadoalecrim.com.br e www.farinhasitalianas.com.br
Insta: @ruadoalecrim e @farinhasitalianas

 

Amazon.com x Livraria Cultura: Quando o sucesso de um não é construído sobre o insucesso da outra

26 de outubro de 2018

Vista da Livraria Cultura no Conjunto Nacional, em São Paulo. Foto: Amanda Perobelli / Estadão

Esta semana, a querida Livraria Cultura entrou com pedido de recuperação judicial. A livraria já havia fechado suas belas unidades de Recife e do Rio de Janeiro, além de todas as unidades da Fnac. Ainda na semana passada, visitei a unidade da Avenida Paulista em busca do livro “Measure What Matters” escrito pelo investidor John Doerr. Tinha visto o livro no site brasileiro da Amazon.com que custava R$ 89,41 e o prazo de entrega prometido era de dois dias.  Mas, como estava perto da Cultura, resolvi passar para tentar a sorte de, talvez, encontrá-lo. Depois de esperar um pouco pelo atendente, ele consulta no sistema e explica: Olha, não temos para pronta entrega, mas podemos encomendar. Vai custar R$ 148,00 e o prazo de entrega é de 6 semanas. Deixei a livraria triste e confuso, como se estivesse saindo da The Shop Around The Corner, a pequena livraria do filme Mensagem para Você (1998) em que a personagem da Meg Ryan, dona do negócio, enfrenta o personagem de Tom Hanks, proprietário da rede Fox Books, que instala uma das suas megastores, semelhante às da Cultura e Fnac, na mesma região.

No filme, apesar da tensão e rivalidade entre a pequena livraria e a grande rede, ambos tinham o mesmo objetivo: atender muito bem seus clientes. A primeira reação da dona da livraria foi desprezo, pois ela acreditava que a grande rede iria dar atendimento impessoal e descompromissado da grande rede, já que ela tinha uma pequena, mas dedicada equipe que conhecia todos os seus clientes há anos. Mas ela se surpreende ao perceber o alto nível de qualidade e atendimento que as crianças também recebiam na megastore quando visita a loja. No filme, ela não consegue competir e fecha as portas do seu negócio, mas seu final é feliz (spolier) com Joe Fox, o personagem de Tom Hanks.

Vinte anos depois do filme ter sido lançado, agora, curiosamente, são as megalojas que se tornam o The Shop Around The Corner em função da onipresença de uma rede maior ainda. Neste caso, a Amazon.com. Por isso, estava triste ao sair da Livraria Cultura, pois sempre fui bem atendido. A loja é ampla, linda e bem planejada. Mas também estava confuso, pois sempre tive um atendimento impecável da Amazon. Mas esta é a minha visão de cliente.

Como negócio, a relação entre a Livraria Cultura e Amazon.com é emblemática e muito didática, porque ilustra os novos e complexos desafios das empresas tradicionais quando lidam com concorrentes digitais que não jogam o mesmo jogo. Para piorar, as empresas tradicionais não apenas querem continuar jogando o mesmo jogo, como nem desconfiam qual é novo jogo do seu concorrente.

Fundada em 1994, a Amazon.com só se posicionou como uma livraria nos primeiros quatro anos, quando saltou de um faturamento de US$ 1 milhão no primeiro ano para US$ 610 milhões em 1998. Depois, se declarou como a loja de tudo e em seguida, como a empresa de tudo. Em 2017, a Amazon ofertava três bilhões de opções de produtos. Isso sem considerar os serviços digitais que empresa também oferece.

Este número parece e é megalomaníaco, por isso, quando iniciou o negócio, muitos riram da missão da empresa que Jeff Bezos, seu fundador, tinha estabelecido: “Ser a empresa mais centrada no cliente da Terra, onde podem encontrar e descobrir qualquer coisa que desejem comprar on-line, e se esforçar para oferecer a seus clientes os preços mais baixos possíveis”. E como se este propósito não fosse grande o bastante, Bezos, em 1998, foi um dos primeiros investidores de outro negócio, o Google, que tinha uma missão ainda mais delirante: “Organizar a informação do mundo e transformá-la em algo acessível e útil”.

Por isso, enquanto muitos entendem a Amazon como competidora das livrarias tradicionais, Bezos construiu sua empresa a partir de uma outra escolha: “Se é focado na competição, sempre precisa esperar que o competidor faça algo. Ser uma empresa focada no cliente permite ser sempre mais pioneiro.” Assim, “seja obcecado pelo cliente, não pela competição” – explica.

Não por acaso, o livro A Loja de Tudo: Jeff Bezos e a Era da Amazon (Ed. Intrínseca, 2014) começa com uma das suas frases mais inspiradoras e provocantes: “Quando você tiver oitenta anos, num momento tranquilo de reflexão e narrando para você mesmo a versão mais particular da sua história de vida, a parte mais compacta e significativa será a série de escolhas que você fez. No fim das contas, nós somos as nossas escolhas”. E complementa: “Trabalhe duro, divirta-se e faça história!

Sobre a querida Livraria Cultura, espero que escolha ser mais cultura! Este é um jogo em que o Brasil não pode continuar perdendo.

Marcelo Nakagawa é professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

De advogado a chef de cozinha e empreendedor

23 de outubro de 2018

Esta é a história de Thiago Benetton Gil, chef de cozinha e idealizador da Burger Happens, no bairro da Vila Mariana, uma hamburgueria que começou minúscula em 2016, na garagem do prédio da família, e que mesmo após uma ampliação, continua pequena – e lotada. O cardápio tem apenas três burgers fixos e um burger inédito a cada semana, o que significa que desde a abertura foram produzidas mais de 100 diferentes receitas. Este ano, o negócio dobrou de tamanho.  “De uma garagem, passamos agora para duas garagens” brinca o Thiago.

O que te levou a deixar a profissão de advogado e empreender na gastronomia?

Desde pequeno me imaginava em uma cozinha, sendo dono de um restaurante, mas sempre soube que seria um sonho muito difícil de realizar. Ninguém na minha família trabalhou em restaurante ou teve um negócio próprio no ramo alimentício e esse fato só contribuiu para dificultar a realização do meu sonho. Me formei em Direito, pós-graduei, passei na OAB e comecei a estudar para prestar concursos, mas sabia que não era aquilo que me faria feliz. Após a frustração com os resultados de alguns concursos, fui morar em Berlim, na Alemanha. Naquele país eu comecei a ver que um negócio pequeno poderia ser mais interessante do que um negócio grande e que algo pequeno funcionaria melhor, pois eu conseguiria ter maior controle administrativo. Porém, continuava sem dinheiro para tanto.

Na Europa, trabalhei em cozinhas e aprendi muito com minhas experiências. Voltei ao Brasil, não consegui me encaixar no ramo gastronômico e voltei às atividades jurídicas. Após um ano de trabalho eu consegui juntar dinheiro para investir em um negócio. Minha avó, de surpresa, me ofereceu uma pequena garagem no prédio construído pelo meu bisavô. Eu pensei muito, fiz muitas contas e decidi abrir minha hamburgueria. Todos me perguntaram por que hambúrguer e a resposta é simples: era o que o espaço me permitia fazer, era o que meu dinheiro podia pagar e era uma das técnicas culinárias que eu mais dominava. Então finalmente consegui realizar meu sonho.

Primeiro apareceu a hamburgueria que forçou você a virar empreendedor? Ou primeiro apareceu o empreendedor que saiu procurando um negócio?

Na verdade as duas coisas. Eu sempre quis empreender, mas não sabia direito como e não tinha condições financeiras. Depois, as oportunidades surgiram, coube no meu orçamento e eu me dediquei de corpo e alma pra fazer o negócio acontecer.

Como é que a família participa do empreendimento?

Minha família tem uma participação muito importante no meu negócio. Minha irmã hoje se tornou minha sócia, meus pais nos apoiam demais e sempre que podem nos ajudam aqui. Na verdade, eu só contei que ia abrir minha hamburgueria 15 dias antes de inaugurar, porque sabia que eles teriam medo por mim. Hoje em dia meus pais sonham meu sonho comigo, sempre me ajudam muito, dão conselhos e criticam quando necessário e sempre ficam muito felizes com nosso sucesso. Tenho certeza de que eles se orgulham demais de mim e, agora, da minha irmã.

Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do “normal” das pessoas. Como você vive isso?

Realmente essa é a parte mais complicada de empreender. Já tive diversos problemas por conta dos meus horários, normalmente as pessoas não entendem que não podemos deixar o negócio. Já deixei de ir a casamentos e aniversários, já deixei de confraternizar com amigos e família, já perdi um relacionamento por conta da falta de tempo, porém hoje em dia estou conseguindo me adaptar e me acostumar com essa vida. Tenho uma namorada maravilhosa que me entende e que me apoia, tenho minha família que sempre me ajuda e me incentiva, tenho amigos e familiares que fazem confraternizações aqui na hamburgueria pra que eu possa participar, enfim, infelizmente acabo abdicando um pouco da minha vida pessoal, mas faço isso porque amo meu trabalho e minha rotina. Mais pra frente, quando meu restaurante estiver andando sozinho, eu vou sentir falta da correria da operação e do calor da cozinha.

Quais são os planos de futuro do negócio?

Eu não abri o Happens pra fechar ou pra colocá-lo nas mãos de outras pessoas. Quero consolidar a base e quero abrir filiais em locais estratégicos, tenho vontade de vender o Happens como minha marca com roupas e acessórios, já pensei em abrir uma barbearia com o mesmo nome, tenho vontade de expandir o negócio com outras frentes como pizza, cozinha vegana, bistrô… Mas também tenho vontade de voltar à Europa… Isso não significa que eu teria que fechar meus empreendimentos, pelo contrário, quero mantê-los funcionando para que tenha condições de viajar pra estudar, pra aprimorar meus conhecimentos e para enobrecer meus cardápios.

Se você pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora no teu setor, qual seria?

Não tenham medo de empreender! Tudo e todos farão e falarão de tudo pra que você não abra seu negócio, mas se é seu sonho e se você tem condições de bancar seu empreendimento, faça! Sem medo! Você só vai saber se valeu a pena se você arriscar!

Qual o futuro do Brasil?

Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Espero que o Brasil se torne um país de menos impostos e mais oportunidades. Espero que diminuam as burocracias e que aumentem o respeito ao empreendedorismo. Espero que eu consiga prosperar mais e mais com meu negócio e com a minha marca. Espero poder empregar mais pessoas e poder fazer com que as pessoas que me visitam saiam sempre satisfeitas e felizes. Minha contribuição será sempre uma cozinha de qualidade pra que as pessoas esqueçam seus problemas na primeira mordida.

Burger Happens
Rua Alcindo Guanabara, 27, Vila Mariana
Fone: (11) 3578-2613
Insta: @burgerhappens
Facebook: /burgerhappens

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

 

Relação grande empresa e startups: 90 anos de modismos, erros e acertos

22 de outubro de 2018

Cresce exponencialmente o número de iniciativas de grandes corporações que buscam parcerias com startups. Nas reuniões de conselhos de administração e encontros informais de executivos de alto escalão, o assunto é tema recorrente. Quando sua empresa não tem algo neste sentido, você se sente meio deslocado – diz um amigo, vice-presidente de uma das maiores empresas brasileiras de commodities.

Anunciada como uma das maiores inovações corporativas dos últimos tempos por futuristas, consultores do apocalipse e oportunistas corporativos, a parceria entre grande empresa e startups já está na sua quinta onda mundial. Ainda em 1928, quando a Ford já era um imenso conglomerado industrial, dois jovens empreendedores, Paul e Joseph Galvin, que tinham fundado a Galvin Manufacturing Corporation, entraram em contato com a empresa para apresentar a inovação que tinham desenvolvido: um auto rádio. Vendo uma enorme oportunidade de se diferenciar, a Ford apoiou o negócio, que passou a crescer vertiginosamente. Percebendo o enorme mercado automobilístico, os irmãos Galvin mudaram o nome da empresa para Motorola.

Mas a excitação atual com a agilidade e capacidade de inovação das empresas de menor porte era a mesma na década de 1960. Cerca de 25% das maiores empresas citadas na Fortune 500 tinham iniciativas assim. Mas a animação de corporações como Boeing, Dow, Exxon, Heinz e Monsanto durou, até 1973, quando as bolsas sentiram a primeira crise do petróleo. O hype com as startups voltou depois na década de 1980, até o novo crash da Bolsa de Nova York em 1987, na década de 1990, com a bolha das startups pontocom e, novamente, na década de 2000, quando 20% da lista da Fortune 500 tinham iniciativas com startups. A paciência da alta direção das companhias com startups sempre durou muito pouco. O tempo médio de vida das iniciativas de grandes empresas com startups tem girado em torno de 12 meses, explica o Professor Josh Lerner da Universidade de Harvard em artigo publicado em 2013.

Agora, vivemos a quinta onda das parcerias entre grandes empresas e startups. Além da euforia que marcou as anteriores, há um novo elemento: o enorme impacto que a Quarta Revolução Industrial tem sobre qualquer tipo de negócio. Muitos executivos, em especial as principais lideranças de muitas organizações, ainda não perceberam que a revolução não é tecnológica, mas de novas dinâmicas organizacionais, novos modelos de negócio e novos hábitos de consumo que são alavancadas por essas novas tecnologias de impacto exponencial.

Assim como no passado, boa parte das iniciativas de grandes empresas com startups desaparecerá anonimamente, muitas serão reformuladas e muita gente ficará frustrada e, provavelmente, sem emprego.

Mas sempre há casos de acertos! De todas as iniciativas de relação grande empresa e startup, talvez a mais emblemática, mas curiosamente pouco conhecida, seja o da Naspers. Fundada em 1915 na África do Sul, a empresa se tornou o maior conglomerado de mídia tradicional do país e reinou absoluta no Século XX. Mas em 2001, a Naspers fez duas apostas em uma, internet e China: investiu U$ 60 milhões para adquirir cerca de 30% de uma pequena startup chinesa chamada Tencent, cujo objetivo inicial era criar um modelo de negócio para ganhar 10 centavos de cada chinês. Pouco menos de 20 anos depois, a Tencent vale US$ 360 bilhões e a participação da Naspers, cerca de US$ 110 bilhões. Mas, curiosamente, o valor da Naspers em si na bolsa sul-africana é de aproximadamente US$ 80 bilhões. Se seus negócios do Século XXI valem tanto, quanto vale os do século passado?

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.