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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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Quem foi a maior empreendedora de todos os tempos?

19 de agosto de 2016

Talvez você tenha a sua resposta, mas a minha filha de seis anos teria uma resposta na ponta da língua. E contaria que ela nasceu muito pobre, que perdeu a mãe muito cedo, que o pai, por falta de condições financeiras, a colocou em um orfanato, que depois de adulta foi morar em uma pensão para moças onde aprendeu a costurar suas próprias roupas, que começou a se indignar sobre como as mulheres eram submissas e como se vestiam de forma desconfortável e como passou a criar roupas práticas e elegantes que chocaram a sociedade da época como as primeiras calças femininas, tailleurs e cardigans. Também contaria que abriu uma loja para vender chapéus, depois roupas e até perfumes. Tudo isto para explicar a importância de ser “Diferente como Chanel” que, na verdade, é o título de um dos seus livros infantis preferidos, escrito por Elizabeth Matthews e publicado no Brasil pela saudosa Editora Cosac Naify.

Há 133 anos, neste mesmo dia 19 de agosto, nascia Gabrielle Bonheur Chanel, que se tornou mais conhecida pelo seu apelido, Coco. Mais que ter criado uma das mais impactantes marcas de moda do mundo, com fortíssimas influências até hoje, Coco Chanel foi uma das precursoras do protagonismo feminino com atitudes e crenças que, surpreendentemente (ou infelizmente), continuam muito atuais.

“Uma menina precisa ser duas coisas: Quem e o que ela quiser ser” é uma das suas frases, mas também é minha quando educo as minhas filhas para serem quem e o que elas quiserem ser. E da mesma forma, quando não mais estiver aqui, espero que os ensinamentos de Chanel sirva de orientação para elas: “Você pode ser linda aos trinta anos, charmosa aos quarenta e irresistível pelo resto da sua vida” mas a “Beleza aparece no momento em que você decide ser você mesma”.

Mas Chanel não foi apenas um dos principais símbolos do empoderamento feminino da história. Foi uma empreendedora com uma sabedoria e conhecimento de negócios que a iguala a outros grandes (e muito mais conhecidos e celebrados). O design de suas criações icônicas coloca Steve Jobs ao seu lado, pois ela veio antes e defendia que “Simplicidade é o principio de toda verdadeira elegância”. Se a Apple defende o “Pense Diferente”, muito antes Chanel acreditava que “Para ser insubstituível, é preciso ser sempre diferente”. E se a empresa da maçã vende produtos sempre muito mais caros do que a concorrência, Chanel também pregava que “As melhores coisas da vida são gratuitas. Mas as segundas melhores são muito caras”. Mas nem mesmo Jobs conseguiu sintetizar de forma tão poderosa e provocativa a proposta de valor da sua empresa como Coco Chanel: “Vista-se como fosse encontrar seu pior inimigo hoje”.

Mas talvez muitos não concordem que Gabrielle “Coco” Chanel tenha sido a maior empreendedora de todos os tempos já que podem ter outras opiniões e que isto não faz sentido em um momento em que se busca a equidade de gêneros. Mas Chanel deixou sua visão de mundo, um legado que está muito além das suas roupas, sapatos e perfumes: “Não é a aparência, é a essência. Não é o dinheiro, é a educação. Não é a roupa, é a classe” – diz.

Por isto fico feliz quando minha filha prefere ler a trajetória da Chanel aos contos de fadas de meninas pobres que se transformam em princesas com a ajuda de fadas madrinhas e príncipes encantados. Por que ser igual quando se pode ser diferente… como Chanel.

Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.

Como conquistar medalhas nos negócios

18 de agosto de 2016

O assunto da hora é a Olimpíada no Rio de Janeiro. E não é à toa que esse monte de gente competindo pelo ouro nos fascina. Humanos que somos, adoramos o espetáculo, o drama, a sorte, o azar, a glória, o sangue e o suor dos que estão jogando o tudo ou nada.

Convido os empreendedores a olhar com atenção o que está em jogo para estes atletas, pois me dou conta do quanto o empreendedorismo é parecido com o esporte. Sobretudo, nas exigências e na trajetória. Aqueles 30 segundos muitas vezes escondem 4 ou 8 anos de preparativos e treinamentos.

Esse assunto me cativa e serve como fonte inesgotável de inspiração para a superação de desafios. O princípio de tudo é uma simples decisão: vou me dedicar a ser atleta, vou me dedicar a ser empreendedor. E, a partir daí, seguem as semelhanças.

Se segura que lá vem mais uma de minhas listas:

1. É preciso se preparar. Treinamento, planejamento, qualificação e muito suor precedem qualquer um dos dois caminhos.

2. É preciso perseverar. Existem percalços, quedas, dores, dificuldades, derrotas em qualquer das trajetórias. E, por conta deles, muitos ficam para trás. Para chegar a uma Olimpíada ou numa empresa bem-sucedida, é necessário ser resiliente (e um tanto teimoso).

3. Há de se contar com um tanto de sorte.

4. É necessário estar acima da média.

5. É preciso desafiar previsões, opiniões, críticas.

6. Quando se está quase lá, tudo ainda pode dar errado.

7. É necessário ter controle emocional.

8. No caso de trabalho em equipe, sintonia é fundamental, direção, coesão.

9. Há de se ter um certo senso de sacrifício, privação e heroísmo.

10. Sempre é bom ter um bom coach, um mestre ou um inspirador.

Quem vence, é olhado com admiração e até inveja  - que nem sempre compreende toda privação para chegar até lá. Quando se consegue chegar ao sucesso/medalha, a comemoração dura pouco. Em seguida, é preciso começar tudo de novo.

Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor. Quer fazer uma pergunta? Receber uma dica? Escreva para  ivan.primo@pastificioprimo.com.br

Curiosidade empreendedoras: Nomes de marcas famosas com origens inusitadas

12 de agosto de 2016

Se estiver passando pelo desafio de escolher um nome para a sua empresa, talvez a Odete ajude!

Em tempos de Luís Augusto (ou Bráulio para os mais antigos), não me esqueço do conselho de um amigo de trabalho quando decidíamos o nome de uma startup que estávamos investindo. A empresa tinha um nome bastante genérico e por esta razão seria impossível diferenciá-la no mercado. Diante do impasse na escolha do nome, que tal chamá-la de Odete enquanto seguimos em frente com outras decisões e ações importantes? – sugeriu.

A Odete nunca chegou a ser utilizada como nome da empresa, mas algo semelhante aconteceu com o nome Daniel. Daniel Fitipaldi era o estagiário responsável por receber todas as sugestões de nome enviadas pelos sócios e outros funcionários da startup que vendia sapatos pela internet.

Todos deveriam enviar suas ideias para o seu endereço de e-mail que começava com Dafiti. Como ninguém conseguia definir o melhor nome, optaram por usar como nome da empresa o e-mail do estagiário. O nome Daniel também foi utilizado em outra solução caseira. Quando Isaac Carasso precisou escolher um nome para a sua fábrica de iogurte fundada por ele em 1919 em Barcelona, optou pelo nome do seu primeiro filho, Daniel, adotando inicialmente seu apelido Danon e depois juntando sabe-lá-como Dan e one (filho número 1), que viria a se tornar apenas Danone.

Enquanto alguns fazem associação com nomes de pessoas próximas, outros empreendedores batizaram seus negócios com os nomes dos seus… cachorros. Mesmo que tenha jogado FarmVille ou Mafia Wars talvez não se lembre da Zynga, a empresa que é dona destes games e tampouco do seu logotipo, um bulldog. Na falta de um nome melhor, Mark Pincus deu o nome do seu animal de estimação para a empresa que atualmente vale cerca de US$ 1,6 bilhão.

Ideia semelhante teve James Jannard ao criar uma empresa, a Oakley, que, inicialmente, fabricava peças para motos, mas que depois ficou famosa por seus óculos.

Outros empreendedores optaram por usar nomes dos seus personagens literários preferidos. Atualmente o nome Starbucks parece sofisticado e vencedor, mas é nome de um dos personagens do livro Moby Dick e foi o melhor da criatividade de Gordon Bowker e Zev Siegl, co-fundadores da rede de cafeterias, que na época eram escritor e professor de inglês, respectivamente. De forma semelhante, Jesse Shwayder, chamou sua empresa de Sansão, pois admirara suas histórias de força. Anos depois, mudou o nome da sua fábrica de malas para Samsonite.

E enquanto alguns empreendedores não gastam muito tempo na escolha do nome das suas empresas, outros ficam horas e horas criando nomes que não significam absolutamente (e propositalmente) nada. Reuben Mattus ficou criando palavras inexistentes até chegar a um termo que, no seu entendimento, soava dinamarquês para a sua sorveteria: Häagen-Dazs.

E George Eastman seguiu o mesmo processo. “Eu inventei o nome sozinho. A letra K era a minha favorita. Parecia um tipo de letra forte, incisiva. E isto se tornou um desafio: tentar um grande número de combinações de letras que começavam e terminavam com K. O resultado foi a palavra Kodak” – explicou, certa vez, o fundador da indústria fotográfica moderna.

Mas estes exemplos são apenas curiosidades quase sem aplicação prática. Os empreendedores, em geral, escolhem os nomes das suas empresas pela análise dos seus sobrenomes como Disney, Ford, Dell; fazendo associações diretas como Oracle (oráculo), FloresOnLine, Salesforce; combinações de termos como Microsoft (Microcomputer Software), Compaq (Compact Quality), Intel (Integrated Electronics); ou mesmo forçando associações distantes como a Nike (Deusa grega da vitória), Sony (som em latim) e Viagra (Vigor e Cataratas do Niágara) – que se tivesse sido criada no Brasil, talvez se chamasse Viguaçu

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Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.

Quero ser um empreendedor, não John Malkovich

11 de agosto de 2016

Algumas pessoas acreditam que se nasce um empreendedor, como se tudo dependesse de ganhar algum tipo de loteria genética, que faz você ser melhor ou mais esperto do que o outro.

Mas eu me nego a aceitar que o DNA seja determinante, pois seria renunciar à liberdade de escolha e à capacidade humana de determinar o próprio destino. E – tirando algumas exceções – eu acho que o empreendedor se forma com muito trabalho duro e aprendizado. A clássica formula de 99% transpiração e 1% de inspiração continua muito válida para mim.

Então, a não ser que você queira ficar esperando uma eventual sorte genética numa próxima encarnação, penso ser importante manter o foco no “sonho grande”, e começar a trabalhar nisso o quanto antes.

E, para os que desejam enfrentar este desafio de empreender e prosperar, existem muitas ferramentas de comportamento interessantes que ajudam a melhorar a eficiência pessoal para atingir objetivos. No inglês se usa a palavra “mindset”. É como uma filosofia, ou uma forma de ver as coisas sob um ponto de vista, uma linha de raciocínio.

E eu acredito que cada um pode – e deve – desenvolver o seu próprio “mindset”. Mas, atenção: a jornada é longa. É preciso ser paciente e persistente. Se o “mindset” for superficial, emprestado de algum livro, ou copiado de um vizinho, não passará pelo teste de stress. A experiência deve ser vivida, tatuada, praticada, gravada no subconsciente.

Tudo começa na construção de hábitos, na constância, nada de novo portanto, todos clássicos já testados e comprovados por mil depoimentos e exemplos de vida, biografias, profetas e sábios de todo tipo.

Eu tenho uma listinha resumida desta sabedoria, pessoalmente coletada aqui e ali, ao longo de muitos anos, que vez por outra releio para me manter no caminho. É minha caixinha de ferramentas, que compartilho com você. Adoraria saber qual é seu “mindset” também. Me escreva.

1. Manter o pensamento nas soluções – e não nos problemas. Em resumo, não adianta ficar lamentando o que poderia ter sido feito, que fulano te deixou na mão, que a culpa foi de algum outro e não sua, e tantos lamentos. Depois de passar o momento de choro – normal, por sinal – procure focar no que deve ser feito para sair da situação. Todos já lemos e ouvimos mil vezes esta frase, certo? É a pura verdade.

2. Acreditar nas suas capacidades, e conhecer suas limitações. Parece uma combinação meio maluca, mas encarar a realidade de frente, por mais que doa, é o caminho mais curto para obter o verdadeiro resultado. Também é chamado de maturidade. Terapia ajuda – e muito.

3. Lidar com o risco. Isso não significa jogar tudo o que você tem na roleta, ok? Tampouco significa que você seja forçado a gostar do risco. Mas, se quiser prosperar, em algum momento é preciso começar a arriscar. Quanto antes se começa, antes se aprende, precisa treinar como um músculo. Começar com pequenos testes, observar o resultado, aprender, e assim ir ganhando confiança nas habilidades e também reconhecer onde precisa de ajuda, as tais limitações faladas na dica 2.

4. Estar aberto a erros. O erro é inerente a todos, inevitável. Não conheço forma de arriscar – e ganhar – sem errar. E admitir os erros o quanto antes permite aprender e avançar mais rápido. Confesso que é uma das coisas mais difíceis de aceitar. Nem todo dia se consegue, é normal, mas com honestidade e um pouco de dica 2: maturidade, fica mais fácil com o passar dos anos. E então se lembre da dica 1: manter o pensamento nas soluções. E depois passe pra dica 3: arrisque de novo, e cada vez melhor.

5. Investir tempo – e dinheiro – em conhecimento. Esta é a parte mais divertida para mim. Por exemplo, eu gosto de observar pessoas fazendo trabalhos excelentes, especialmente artesãos. Aprecio a perfeição, a cultura, a tradição, os detalhes. Muitos insights surgem exatamente nestes momentos de liberdade mental. Conhecimento não é apenas uma faculdade: também significa viajar, visitar museus, falar com pessoas interessantes, participar de debates, conhecer outras culturas. Acredito que assim, além da vida ser mais divertida, também é possível ter uma vantagem qualitativa sobre concorrentes. Criar mais e melhor. Conhecimento é um valor raro no mundo de hoje.

6. Disciplina, horários e rotinas. São ferramentas que ajudam na produtividade. Pessoas como eu, com déficit de atenção e altamente dispersivas, precisam destas rotinas para manter o foco. Invejo quem tem isso naturalmente – e tenho amigos que são assim – mas para mim é um esforço diário e racional. E adoro meu moleskine, já devo ter mais de 30 preenchidos com minhas tarefas diárias. E hoje em dia não faltam apps de celular e programas para ajudar a manter a agenda em dia.

7. Qualidade de vida é muito mais importante que acumular bens materiais. Manter as aparências dá muito trabalho, um desgaste inútil de energia. O mais razoável é viver de forma simples, não perder tempo tentando ser o que não se é. Foco na sua vida, deixa a vida dos outros para lá. Não esquecer de manter uma rotina de exercícios, cuidar da saúde. Mens sana in corpore sano, e vice-versa.

8. Escolher uma atividade profissional com base a suas paixões e fortalezas. Acredito que, para o empreendedor, isso vai acontecendo naturalmente quando se alcança uma certa maturidade, autoconhecimento e confiança, como já dito acima. Tente fazer as coisas que ama, fazer o melhor possível, e muito trabalho duro. O resultado é promissor. Tudo isso é bem distante dos livros de autoajuda que querem fazer você perfeito e rico em 3 semanas. É uma jornada de uma vida inteira. Portanto, desfrute a viagem!

Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor.

Porque os líderes de mercado demoram tanto a reagir às startups

5 de agosto de 2016

Semana passada meu querido Yahoo! foi vendido à empresa de telecomunicações Verizon. Querido porque foi e é minha principal conta de e-mail e porque sua trajetória inicial é um daqueles exemplos de contos de fadas do empreendedorismo, pois nasceu em um dormitório na Universidade de Stanford em 1994, tornou-se referência em startup e inspirou milhares (se não milhões) de pessoas a acreditar que é possível criar coisas incríveis e ficar bilionário com um computador e conhecimento de programação.

E o Yahoo! cresceu e se tornou líder dominante do mercado de buscas. Obscureceu Lycos, Infoseek, Excite, HotBot, AskJeeves, AllTheWeb, WebCrawler e até o venerado Altavista. Da liderança nasceu uma grande corporação mundial com dezenas de escritórios, milhares de funcionários e burocracias complexas. Os fundadores Jerry Yang e David Filo se afastaram do negócio e executivos assumiram de olho no valor de mercado da empresa já que o Yahoo! abriu seu capital na bolsa de valores Nasdaq em 1996, apenas dois anos depois de ter nascido.

Em 1998, quando o Yahoo! já tinha se estabelecido como gigante mundial da internet, dois estudantes de Stanford entraram em contato para vender a tecnologia que estavam desenvolvendo nos seus estudos. Pediam cerca de US$ 1 milhão para repassar a solução e finalizarem o doutorado. Terry Semel, então CEO do Yahoo! na época, não aceitou a oferta de Larry Page e Sergey Brin. Com a negativa, os estudantes decidiram continuar com o seu negócio, o Google, que atualmente vale cerca de meio trilhão de dólares. O Yahoo! viria a declinar outra oferta… a de comprar o Facebook por US$ 1 bilhão. Atualmente, a rede social vale 300 vezes mais.

Agora, o Yahoo! é repassado por US$ 4,8 bilhões, menos da metade do valor do Dropbox, Pinterest e Spotify.
Mas a trajetória do Yahoo! (e tantas outras grandes empresas) serve de alerta para todas as outras líderes de mercado, inclusive as que não são baseadas em tecnologia da informação – muitas startups valem mais do que seus concorrentes “tiozões”, incluindo Uber em relação às locadoras de carros, AirBnB em relação aos hotéis, WeWork em relação às empresas de escritórios.

A letargia das empresas líderes já foi explicada pelo professor Clayton Christensen em seu livro ‘O Dilema do Inovador’, publicado em 1997. Mesmo conhecido, o diagnóstico apresentado na publicação precisa ser lembrado e relembrado de tempos em tempos.

No entendimento do Prof. Christensen, as empresas líderes perdem as grandes inovações:

1. Porque empresas líderes ouvem seus clientes! É fascinante esta constatação, pois é um contrassenso para a maioria das empresas que entendem que as empresas deveriam ouvir sim (e sempre) seus clientes. Isto é uma verdade, mas só traz melhorias incrementais. Nenhum cliente da Avis pediria algo parecido com o Uber, por exemplo.

2. Porque empresas líderes calculam detalhadamente o tamanho do mercado e seu crescimento! Outra contradição, pois faz sentido calcular o tamanho de mercado de uma oportunidade de negócio. Mas o Hotel Hilton e qualquer outro especialista não teria condições de estimar o tamanho de mercado do AirBnB naquela época.

3. Porque empresas líderes investem onde o retorno é mais alto! É mais uma obviedade. Por isso que a Regus continua a investir em escritórios perfeitos, de alto padrão e serviços impecáveis, afinal a margem daqueles escritórios “aquários” oferecidos pelo WeWork são muito baixas.

4. Porque empresas líderes dominam grandes mercados! De todas as constatações do Prof. Christensen, esta é a mais trágica para a empresa líder já que ela se torna alvo não só das concorrentes existentes, mas agora de várias startups que querem derrubá-la.

Mas não é a liderança que faz com que as grandes empresas não percebam as startups como ameaças, é a arrogância.

Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.

A Dieta Mediterrânea é ancestral e ainda imbatível

4 de agosto de 2016

Como empreendedor da gastronomia, procuro estar sempre ligado em tudo o que aparece de novo no mundo da comida.

Nas últimas semanas, por exemplo, bombou na internet a notícia de que o presidente americano Barack Obama come sete amêndoas todas as noites. “Nem seis, nem oito. Sete amêndoas”, disse um chef amigo dos atuais ocupantes da Casa Branca em entrevista ao The New York Times. O detalhe foi publicado no meio de uma grande reportagem sobre a rotina noturna de Obama, mas foi prato cheio para os palpiteiros nutricionais, que saíram a público defendendo as maravilhas realizadas pelas amêndoas.

Este é um caso em que se defende os benefícios de um alimento, algo bem positivo. Mas às vezes os “especialistas” detonam com a mesma facilidade e superficialidade – se lembra do tempo em que o café ou o ovo era o vilão?

Toda vez que leio uma notícia assim, me lembro da nutricionista Sophie Deram, doutora em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP. Ela defende que vivemos hoje um ‘terrorismo nutricional’, que faz com que as pessoas não saibam mais o que comer. “Hoje estamos focando no alimento de um jeito muito simplificado: ou o alimento é bom ou é ruim. Não existe isso’.

Como um operário da comida, por dever de ofício e força da paixão, a cada nova ‘descoberta milagrosa’ eu volto a repetir meu mantra, minhas crenças alimentares que há muito me acompanham – e que são a base do meu negócio desde sempre:

- cada um deve procurar comer o suficiente ao seu estilo de vida, nem mais, nem menos;
- evitar açúcar e sal em excesso, são 2 venenos;
- fugir de alimentos industrializados – esse tem que ser levado muito a sério;
- preferir ingredientes pouco processados, como manteiga, azeite de oliva, massas e pães; e sempre procure a melhor qualidade possível;
- consumir carnes com moderação;
- beba muita água (e porque não um vinho?).

As minhas regrinhas parecem simples? Sim! E também são ancestrais: os mediterrâneos fazem uso dela há séculos.

Embora tenha o nome de dieta mediterrânea, ela se tornou universal. E, mais importante: à prova de modismos alimentares. Nada de novo. Mas sempre vale a pena lembrar de novo.

Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) escreve toda semana no Blog do Empreendedor

 

O que você faz com um problema?

29 de julho de 2016

Eu não sei como isto aconteceu, mas um dia eu tive um problema. Eu não queria isto. Eu não desejei isto. Eu realmente não gostei de ter um problema, mas isto estava ali”.

Este é o começo do novo livro que Kobi Yamada escreveu para suas filhas pequenas Shale e Ever. É um livro infantil, lindamente ilustrado em que um menino tem uma pequena nuvem negra que aparece do nada, bem acima da sua cabeça. O pequeno menino tenta enxotar, fazer caretas e tentar ignorar o problema, mas nada funciona.

A nuvem se transforma em uma pequena tempestade que o segue. E o menino começa a ficar preocupado se aquela tempestade iria levar todas as suas coisas que mais gosta. E quanto mais o menino se preocupava com o problema, maior ficava a tempestade. Ele tentava se esconder, mas a tempestade o encontrava. E o menino não pensava em mais nada, a não ser no problema que tinha. E o menino se deu conta de que era ele quem estava deixando o problema cada vez maior. E decidiu enfrentar o problema.

Aproximou-se do problema e percebeu que aquilo não era tão grande quanto parecia. E o que o surpreendeu é que viu algo interessante no problema: Havia uma oportunidade naquilo. Era uma oportunidade de aprendizado, de crescimento, de se tornar mais corajoso. Era uma oportunidade para fazer algo. E o menino percebe que descobriu o segredo dos problemas. Este é o livro que leio agora para as minhas filhas pequenas Helen e Stella.

O que os pais contam para seus filhos pequenos é o que acreditam. Se contar histórias de príncipes encantados que salvam princesas, acreditarão nisso. Da mesma forma, se contar a história dos três porquinhos, da cigarra e da formiga e da lebre e a tartaruga, também acreditarão na importância do trabalho e da persistência.

Um país se faz com homens e livros já dizia Monteiro Lobato. Homens não no sentido masculino do termo, mas sobre a importância da leitura na formação da humanidade.

Em um momento em que se prolifera leituras de 140 caracteres do Twitter, frases de impacto no Facebook ou mensagens decorativas no Instagram, Kobi Yamada viu nos livros uma oportunidade para empreender e para inspirar pessoas e fundou a Compendium, uma pequena editora baseada em Seattle, engajada em tornar o mundo melhor.

No seu negócio, ele usa o amor pelas suas filhas e pelas pessoas para inspirar, diariamente, outras milhares de crianças de todas as idades.

Se já tem um negócio ou pensa em montar um, busque inspiração (também) no negócio do Kobi. Analise como a sua visão de “Viver Inspirado” e sua missão de “Inspirar, educar, motivar e celebrar o mundo que amamos e vivemos” são tangibilizados em valores da empresa, produtos e serviços.

Em um mundo cheio de problemas, precisamos de empreendedores que não apenas pensam grande, mas que também pensam melhor. Em melhores pessoas, relacionamentos, vidas. Afinal, “todo problema tem uma oportunidade para algo bom. Você só tem que procurar por isto” – é o que fiz com o livro que leio para as minhas filhas.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

 

Anthony Bourdain adia abertura de mega-projeto gastronômico em Nova York

28 de julho de 2016

O carismático chef Anthony Bourdain – um ícone superstar da gastronomia – anunciou em 2015 um megaempreendimento gastronômico no abandonado Pier57 (ainda sem nome definido), em Nova York, com investimento estimado em US$ 350 milhões.

Com 45.000 m², será o maior mercado de alimentos da cidade – e certamente um dos maiores do mundo – funcionando como destino turístico. Ao estilo dos mercados asiáticos, abertos até a madrugada, terá muitos restaurantes étnicos, pequenos produtores orgânicos, açougue, peixaria e vendedores de ingredientes em geral e alimentos de todo o mundo, com estimativa de receber 20 mil visitantes por dia.

A única coisa que não será vista de jeito nenhum, promete Bourdain, são redes de fast food.

Outrora decadente e sem muitos encantos, essa região de Manhattan, na margem do rio Hudson, tem recebido fortes investimentos imobiliários e intensa revitalização urbana, entre as quais se destaca o parque elevado High Line, sobre os antigos trilhos de trem, e o Gotham West Market.

Uma outra parte do Pier57 será ocupada pelo Google e no terraço será feito um parque público. Porém, nada é fácil no mundo dos negócios, nem mesmo para o descolado e midiático Bourdain. No começo deste ano foi anunciado o adiamento da abertura de 2017 para 2019, alegando problemas de projeto e até mesmo a concessão de vistos para os diversos cozinheiros internacionais.

E, na semana passada, mais uma notícia preocupante para todos os que aguardam ansiosamente a abertura: a conceituada revista eletrônica de gastronomia Eater publicou uma investigação sobre rumores de que a equipe de Bourdain ainda não havia assinado o contrato de locação, e que os proprietários do Pier57 estavam procurando outras alternativas para ocupar o lugar.

De minha parte, espero que Anthony Bourdain consiga superar todos estes desafios e realize este projeto maravilhoso. Para um apaixonado por comida como eu, um lugar assim seria literalmente uma filial do paraíso.

Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor.

 

Quer crescer? Eleja, mire um inimigo e tente derrubá-lo

22 de julho de 2016

É paradoxal, mas poucos sentimentos motivam mais do que o ódio. O cantor Renato Russo já dizia que “a diferença do amor e do ódio, é que pelo ódio a gente mata, e pelo amor a gente morre”. E quantos negócios já morreram porque seus líderes empreendiam por amor? O cemitério de novos negócios, principalmente os de negócios sociais e sustentabilidade, está repleto de empreendedores antes apaixonados em resolver os problemas do mundo, mas que se tornaram letárgicos diante das suas próprias bondades.

Mas enquanto que o amor “é um não querer mais que bem querer”, o ódio é um querer muito bem definido, objetivo e por isso direcionador. Este sentimento arregimenta exércitos muito mais motivados, mais ágeis e mais destemidos.
Enquanto a história traz diversos exemplos trágicos de lideranças baseadas no ódio, no mundo dos negócios, vários empreendedores souberam catalisar o ódio a um inimigo como principal motivação para o avanço dos seus negócios.

Alguns como Steve Jobs e John Mackey deram nomes claros aos seus inimigos. No início da Apple, o grande inimigo era a IBM.

No mítico anúncio 1984 Steve Jobs explicou que “agora é 1984. Parece que a IBM quer tudo. A Apple é percebida como a única esperança para ser uma alternativa à IBM pelo seu dinheiro.” Depois que a IBM não teve sucesso no mercado de microcomputadores, o ódio foi direcionado para Microsoft. “O único problema com a Microsoft é que eles não têm nenhum gosto. Absolutamente nenhum gosto. E não digo isto em sentido específico, mas de forma ampla, no sentido de que eles não pensam em ideias originais, não trazem muita cultura em seus produtos” – disse Jobs, quando a empresa de Bill Gates passou a dominar o mercado de softwares.

Um sentimento de ódio semelhante fez com que John Mackey criasse a sua empresa em 1980. Como um natureba convicto, Mackey não se conformava com o nome de uma rede de supermercados que havia na sua cidade chamada Safeway. Como um negócio com este nome poderia vender alimentos tão intoxicados com conservantes, corantes, acidulantes, aromatizantes e gorduras hidrogenadas, entre tantos outros componentes nocivos? Juntou dinheiro de amigos e familiares para criar a Saferway, uma provocação clara ao concorrente, para comercializar produtos naturais e orgânicos. Anos depois, mudou o nome da empresa para Whole Foods Market, hoje a maior cadeia neste segmento nos Estados Unidos.

Mas o ódio também pode ser a um segmento de produto. Também em 1980, três músicos, Greg Steltenpohl, Gerry Percy e Bonnie Bassett, estavam muito incomodados com os sucos que os supermercados estavam vendendo. Aquilo não era suco. Era água, muito, muito açúcar, um pouco de concentrado de fruta, corante, aromatizante e conservante. Resolveram tornar este tipo de falsificação conceitual um inimigo ideológico e criaram a Odwalla para comercializarem bebidas que fossem 100% suco. Este mesmo tipo de ódio motivou a criação de diversas outras empresas. Seth Goldman, por exemplo, estava indignado em como os chás eram comercializados nos pontos de vendas nos Estados Unidos em 1988. Era tudo, menos chá. Resolveu criar um chá que fosse honestamente apenas chá e produzido da forma tradicional, infusão de folhas e/ou flores em água quente. Deu o nome de Honest Tea. Mais recentemente, a atriz Jessica Alba, quando teve sua primeira filha, ficou horrorizada com a quantidade de elementos petroquímicos e artificiais que faziam parte dos produtos para bebês. Procurou uma linha de produtos como xampus, loções, pomadas que fossem mais naturais, mas não encontrou. Decidiu criar sua própria empresa, a The Honest Company, que tenta produzir produtos mais naturais para bebês e crianças.   E o inimigo pode migrar de uma empresa, para um segmento e até para uma causa maior. Anos mais tarde, quando já era uma referência, a Apple passou a eleger como inimigo a mesmice na sua campanha Think Different.

Se sua empresa está em guerra para crescer, ela começa a ser ganha quando se elege o inimigo certo. Pode ser algo infiltrado como os altos custos, a falta de produtividade, a baixa capacidade de inovação? É um inimigo externo como um concorrente desleal? É mercadológico como um tipo de produto ou serviço errado? Ou ainda contextual como alguma coisa errada no mundo?

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

Será que a Geração Y vai morrer na praia?

21 de julho de 2016

Em 2014, nos EUA, a American Express publicou, na sua página de empreendedorismo e liderança, que a Geração do Milênio (Y) era a mais preparada para empreender de todos os tempos. No mesmo ano, um artigo do Huffington Post mostrou uma pesquisa que afirmava que 60% dessa Geração se auto considerava empreendedora, e 90% estava convencida de que tinha “mentalidade empreendedora”.

Crescendo num mundo com menos fronteiras, sem guerra fria, com menos barreiras comerciais entre países, maior nível de educação universitária e MBA de todos os tempos, viajando mais, usando a internet e com aptidão para relações multiculturais e mentalidade aberta – ufa! – os nascidos após 1980 estavam com a bola toda.

Mas, em artigo publicado neste mês, a revista The Atlantic lança uma provocação com o título “O Mito do Empreendedor do Milênio”, e apresenta dados atualizados e consistentes com um dado assustador: o número de pessoas abaixo de 30 anos que é dona do próprio negócio nos EUA diminuiu 65% comparado com 1980.

Então, o que aconteceu no caminho?

Conforme John Lettieri, do Economic Innovation Group, a Geração Y está a caminho de ser a geração menos empreendedora da história recente dos Estados Unidos. Ele apresentou os dados em um relatório ao Senado Americano em 29 de junho último, afirmando que é preciso estar atento para a o perigo do declínio da dinâmica empreendedora. Os grandes vilões são:

- Alto endividamento da Geração Y com o crédito estudantil.

- Concentração cada vez maior de capital de risco em blocos, dificultando acesso direto.

- Perda de poupança das famílias durante a grande crise de 2008.

- Geração Y com menos imóveis próprios, que possam ser usados como capital para investimento.

E finalmente, um dado interessante da pesquisa para aqueles da Geração X (como eu): a idade média comprovada para um empreendedor de sucesso iniciar um negócio é de 40 anos, quando é considerado o pico da formação e a maturidade aumenta de forma substancial a chance de sucesso – este assunto merece todo um novo artigo.

Todas estas pesquisas e relatórios se referem ao mercado dos Estados Unidos, mas acredito que sempre é possível fazer alguns paralelos interessantes com o Brasil e refletir com atenção. Certamente encontraremos muitas semelhanças. É muito provável que a atual crise que estamos vivendo vai fazer diminuir o número de empreendedores nos próximos anos, por motivos muito similares aos citados acima.

Um pouco da nomenclatura das gerações:

Baby Boomer, é a geração que nasceu após o final da Segunda Guerra Mundial, no período de prosperidade, entre 1945 e 1960. Formaram a cultura de consumo moderna e os Beatniks. O crescimento das cidades trouxe a cultura do subúrbio urbano, com a construção do esterótipo da familia perfeita com casa própria, carro, maquina de lavar roupa.

Geração X, considera pessoas nascidas do início de 1960 até o começo dos anos 1980. O termo foi inventado pelo famoso fotografo Robert Capa para um ensaio fotográfico, e depois foi adotado por sociólogos. Aqui surguram os Hippies e os Punks, a contestação e o final da Guerra Fria.

Geração Y, chamada também de geração do milênio, inclui geralmente os nascidos em 1981 até 1991. Foi a primeira geração a crescer num mundo digital, junto com o desenvolvimento e popularização da internet e da telefonia celular.

Geração Z, Gen Z ou iGeneration, considera pessoas nascidas a partir de 1991 até 2010. É a primeira geração “nativa digital”, ou ainda, a “geração google”.

Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor.