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Hype Economy: A insustentável superficialidade da fumaça colorida

15 de dezembro de 2017

O termo hype tem sido associado a coisas legais, novidades ou modernidades que deveríamos prestar atenção. No dicionário Merriam-Webster, o termo, como adjetivo, é definido como algo excelente ou bacana.  Esta referência ainda cita que esta definição é mais recente, sendo utilizada desde 1989. Hype ainda é algo que é promovido de forma extravagante ou artificial para ganhar notoriedade. Mas curiosamente, a definição principal, utilizada desde 1931, segundo o Merriam-Webster, está relacionada com ilusão, engano ou ainda fingimento, simulação.

Neste contexto, hype talvez seja um termo ideal que realmente representa diversos temas, negócios, eventos, treinamentos, especialistas e novas fontes de conhecimento, que, de repente se tornaram… hype, criando uma economia própria.

Hype como algo importante ou legal deve sempre ser estudado, analisado e, se for útil, planejado, implementado e avaliado. A Quarta Revolução Industrial apresenta uma enxurrada de novas tecnologias que estão inquietando muitos C-Levels das empresas. Toda semana aparece um cavaleiro do apocalipse amaldiçoando a sua empresa que ainda não iniciou sua transformação digital. Se não bastasse ter que pensar no futuro disruptivo do seu negócio com base em big data, internet das coisas, automação ou inteligência artificial, ainda precisa fazê-lo com o custo e velocidade de uma startup e com a perspectiva do design thinking na experiência do usuário, tudo isso, com analytics em todas as frentes. Dos fabricantes de cimento e trading de grãos às startups unicórnios mais valorizadas ao redor do mundo, quem não precisa considerar estas novas regras de negócio?

É aqui que entra o hype promovido de forma extravagante ou mesmo, maliciosamente, artificial. Diante das drásticas mudanças de comunicação e comportamento das pessoas e empresas e velocidade e teor das destas alterações, boa parte das empresas precisa inovar. Mas o “analfabetismo” digital de muitos executivos os tornam vulneráveis a vendedores de soluções milagrosas. Isto já havia acontecido no passado com soluções de Knowledge Management (KM) e depois Business Intelligence (BI), mas agora os desafios são mais numerosos, complexos e exponenciais. Uma decisão errada de plataforma de inbound marketing pode sangrar seriamente o caixa de muitos negócios. Some-se a isto o design centrado no usuário, a jornada do consumidor, a Geração Y e a valorização do propósito de vida de cada colaborador. A roupa nova do rei é sempre o hype da semana até que alguém mais lúcido aparecer e questionar: O conceito de Retorno sobre o Investimento (ROI) também (ainda) é algo hype?

Por isso, antes de embarcar em qualquer hype, estude para não ser traído pelo desejo de também ser isto de forma superficial e insustentável. O número de “especialistas” em temas hype disparou na última década. Dizem conhecer profundamente bitcoin, big data, design thinking, cloud, mas quando se entra em questões mais profundas, a nuvem se torna fumaça colorida de fogos de artificio. Assim, antes de entrar em um embate com sua rede de contatos a respeito do valor do bitcoin, estude profundamente blockchain e a evolução do seu uso. Antes de alardear os benefícios do Big Data, analise a qualidade das bases de dados da sua empresa e tire o pó dos seus livros de estatística. Se possível, pesquise como Sam Walton, fundador do Walmart já acreditava e aplicava estes conceitos ainda na década de 1970. E antes de colar post-its coloridos e dizer que isto é a última tendência em Design Thinking, apaixone-se pela antropologia e, especial a etnografia. Neste campo, deleite-se com sua aplicação ainda em 1870, quando Jacob Davis criou a calça jeans considerando a experiência de uso pelos mineiros de ouro na Califórnia para depois patenteá-la junto com Levi Strauss.

A história da Levi´s ainda é intrigante, pois é a própria metáfora de qualquer onda hype. Muito mais pessoas perderam dinheiro no hype da Grande Corrida ao Ouro no Velho Oeste Americano no Século XIX. Quem ganhou foram os vendedores de ferramentas como calças jeans e picaretas.

Agora, na corrida ao ouro digital do Século XXI, é preciso tomar cuidado justamente com os… picaretas que tentam vender fumaça colorida a preço de ouro.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

Você tem fome de quê? O empreendedorismo de impacto e as oportunidades no setor da alimentação

14 de dezembro de 2017

David Hertz, grande impulsionador do movimento da gastronomia social no Brasil e no mundo, transformou as experiências profissionais em um poderoso insight. Se a gastronomia é tão rica – movimenta 9,3% do PIB brasileiro, sendo um dos maiores empregadores nos grandes centros urbanos do país –, ela pode ter um propósito maior do que apenas alimentação; pode ser um agente poderoso de transformação e inclusão social. Dessa forma, em 2006, surgiu a Gastromotiva, uma iniciativa que atua com a capacitação de jovens e apoio a microempreendedores na área de gastronomia.

Uma década depois, Hertz transformou o sonho em instrumento para promover educação, empregabilidade e geração de renda. De 2007 até hoje, a Gastromotiva já formou mais de 2 mil pessoas – com idades entre 17 anos e 35 anos – em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba e Cidade do México, atingindo um índice de 80% de empregabilidade, após o término do curso; e já apoiou mais de 200 microempreendedores.

Em 2017, a Artemisia teve uma nova oportunidade para refletir e estudar o poder da alimentação e da gastronomia dentro da lógica dos negócios e da transformação social. Em parceria com a Fundação Cargill, conduzimos a Tese de Impacto Social em Alimentação – um estudo que reúne informações relevantes sobre os desafios enfrentados na temática pela população brasileira de baixa renda e pelo setor; e aponta quais são as oportunidades para o desenvolvimento de negócios de impacto social que possam contribuir de forma positiva com a sociedade.

Acesso ao mercado; produtos e serviços financeiros adequados; ampliação da conectividade; insumos, ferramentas e maquinários adequados e de baixo custo; apoio e capacitação para melhor gestão e produtividade; acesso a frutas, verduras e legumes; produção próxima ao consumidor; acesso a refeições saudáveis; armazenamento de alimentos; prevenção & nutrição; e educação nutricional são as oportunidades para empreender detectadas pelo estudo. A análise setorial traz, ainda, exemplos de iniciativas e negócios de impacto social que representam as principais inovações no setor – alguns deles, inclusive, acelerados pela Artemisia, como a Gastromotiva.

A íntegra desse estudo inédito está disponível para download gratuito (aqui), porque consideramos fundamental fomentar ações inovadoras para disseminar conhecimento. Podemos afirmar que a construção dessa Tese é uma entrega à sociedade, servindo como ferramenta para desdobramentos múltiplos de um tema relevante para a população brasileira e para toda uma rede de profissionais do setor – incluindo empreendedores, institutos, fundações, incubadoras, outras aceleradoras e fundos de investimento.

E, voltando ao David, o sonho dele não parou por aí. Ano passado concretizou o Refettorio Gastromotiva, um restaurante no Rio de Janeiro localizado na Lapa que serve comida feita com alimentos excedentes, vindos de mercados ou cozinhas profissionais, e não manipulados. No almoço, a casa é aberta a todos e no jantar apenas para a população menos favorecida. Para as receitas, conta com o auxílio de chefs convidados. O Refettorio é um exemplo concreto de como evitar o desperdicio de alimentos, um dos principais desafios – que pode virar uma oportunidade – da cadeia de alimentação evidenciados em nossa Tese. Com ela, esperamos que mais empreendedores geniais e conectados com o propósito, como o David Hertz, surjam. Boa leitura!

* Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

Na lanterna do empreendedorismo

11 de dezembro de 2017

Foi sem surpresa – mas com um bocado de decepção – que vi a posição brasileira no ranking mundial de empreendedorismo Global Entrepreneurship Index (GEI), divulgado dias atrás.

O Brasil mais uma vez apareceu na colocação 98, entre os 137 países estudados pela organização The Global Entrepreneurship and Development Institute (Gedi), com sede em Washington (EUA).

Não só estacionamos (a posição é a mesma do ano passado), como ficamos atrás de países como Namíbia (61), Sérvia (74), Jamaica (89), Gana (93), Bósnia e Herzegovina (95). O levantamento avalia 14 variáveis, como capital humano, competitividade, logística, telecomunicações, inovações de produtos, habilidade das startups e internacionalização.

Como bem lembra a Gedi ao apresentar os resultados do estudo anual, o empreendedorismo é um motor crucial para o crescimento econômico. “Sem empresários e empresários, haveria pouca inovação, pouco crescimento de produtividade e poucos empregos novos”. É o  óbvio dos óbvios, né? Mas parece que os nossos governantes ainda não entendem o verdadeiro valor do empreendedor, desperdiçando fortunas em grandes empresas em vez de olhar para os milhares de pequenas empresas que geram 48% dos empregos do Brasil e servem como um excelente e natural distribuidor de renda. O empreendedorismo não existe no vácuo: é preciso um ‘ecossistema’ mínimo, que envolve atitudes, recursos e infra-estrutura onde possamos desenvolver nosso trabalho.

E, neste sentido, não espanta que estejamos estacionados – e, pior, numa posição vergonhosa: confusão trabalhista, pesado sistema tributário, a instabilidade política, a falta de crédito, o excesso de leis e a burocracia, o Brasil não está sendo mesmo um ambiente amigável para empreender.

A consequência está aí: economia com pífio crescimento de 0,1% em um trimestre – como foi o último. E poderia ter sido muito pior. Alguém pode ajudar a mudar isso?

 
Ivan Primo Bornes – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br

Loucura, loucura, loucura: Pequeno guia para empreender em 2018

6 de dezembro de 2017

É difícil projetar como será o ano de 2018. No mundo, a expectativa paira sobre malucos que podem começar uma guerra nuclear. No Brasil, sobre a eleição presidencial e o retorno da nova (e trágica) matriz econômica. Para cada um dos brasileiros empregados, sobre a sua situação de emprego, seja pela crise econômica, pela nova legislação trabalhista, pela questão do propósito de vida. Para os empresários, sobre como continuar sobrevivendo até o país voltar a crescer. E ainda, para uma parcela preocupante de desempregados, sobre como gerar alguma renda e sair do desespero.

Veja também:
• O futuro do empreendedorismo já começa no ensino fundamental
• O Brasil precisa de universidades que formem mais empreendedores
• Em um mundo cada vez mais tecnológico, o futuro do empreendedorismo é ser humano

Mesmo assim, muitos querem (ou terão que) empreender um negócio próprio em 2018. Parece loucura, mas estatisticamente, empreender sempre foi isso, já que parcela majoritária das novas empresas deixa de existir nos primeiros cinco anos. Mesmo assim, ter um negócio próprio é o quarto maior sonho dos brasileiros segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor. Empreender só perde, pela ordem de importância, para viajar pelo Brasil, comprar uma casa própria e adquirir um automóvel.

Neste contexto, se pensa em empreender no ano que vem, algumas atividades podem ajudá-lo(a) a seguir em frente.

1. Leia (agora e sempre). Normalmente, empreendedores leem e muito. Principalmente livros. É a forma mais barata, rápida e conveniente de aprendizado. Bill Gates, aos sete anos, já tinha lido todos os 21 volumes de World Book Encyclopedia (equivalente a Barsa ou Enciclopédia Britânica) e, desde então, nunca mais parou de devorar livros. Há alguns anos, Gates sempre divulga uma lista dos melhores livros que leu no ano. Caso tenha interesse, veja sua lista de 2017. A minha lista, mais humilde, está neste link. Assim, entre em uma livraria (física ou online) e escolha um para ler.

2. Faça cursos. Se é empreendedor de primeira viagem, antes de entrar no mar é preciso aprender a nadar. Considere o curso Empretec do Sebrae que já é bastante consagrado em desenvolver o comportamento empreendedor. Além deste, o Sebrae oferece outros cursos. Também faça uma busca nas principais faculdades de administração. Boa parte delas oferece cursos, inclusive de curta duração e de férias, de empreendedorismo. Além do conhecimento, você cria uma rede de contatos que será muito importante durante todas as suas fases de empreendedor.

3. Conheça e participe a hubs de empreendedorismo. Em várias cidades do país, em especial nas capitais, surgiram locais que concentram empreendedores. São coworkings, aceleradoras ou centros de empreendedorismo de faculdades. Também fique atento aos eventos. Caso não encontre um na sua cidade, vale a pena fazer algumas viagens para conhecer estes espaços. Em São Paulo, é praticamente obrigatório conhecer o Cubo do Itaú, o Google Campus, o Habitat do Bradesco, a Wayra da Telefónica e aceleradoras como ACE, Startup Farm e Oxigênio da Porto Seguro.

4. Tenha mentores. Empreender, em geral, é uma atividade muito solitária e sempre repleta de dúvidas, angustias e decisões a tomar. Poder conversar com outras pessoas, em especial as que entendem muito daquele desafio é fundamental para avançar. Neste momento entra o mentor. Algumas iniciativas oferecem mentores como a Endeavor, Inovativa Brasil, Startup Brasil, programas de startups de grandes empresas e aceleradoras. Mas neste caso é preciso passar por um processo seletivo. Se isto não for o seu caso, mesmo assim, você pode contar com mentores. Para isto, faça uma relação de amigos e conhecidos que poderiam orientá-los e convide-os para serem seus mentores. Muitos gostam de ajudar e se sentem muito bem nesta função. O LinkedIn pode ajudar no contato de profissionais que não estejam na sua rede de contatos diretos.

5. Aprenda a planejar seu novo negócio. Para quem pensa em empreender atualmente, é obrigatório conhecer abordagens como Value Propositon Canvas, Business Model Canvas, Lean Startup, Customer Development, Design Thinking, além de ferramentas tradicionais como plano de negócio e modelagem financeira.

6. Tenha sócios complementares. Vários grandes negócios começaram com dois sócios. Um que tenha muita habilidade em vendas e outro com grande capacidade de execução. Se estiver começando algo e não for a pessoa que vende ou a que entrega, preocupe-se. Já começará algo com um peso morto a bordo. E já deve estar até cansado de bordões, mas quem sabe, faz ao vivo!

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper

Em um mundo cada vez mais tecnológico, o futuro do empreendedorismo é ser humano

4 de dezembro de 2017

Se estiver pensando em empreender ou reinventar seu negócio, pense seriamente, sem hipocrisia, em valorizar as pessoas, sejam parceiros, colaboradores e, principalmente, clientes. Talvez isto não dê retorno no curtíssimo prazo, mas tende a se pagar ao longo do tempo em um futuro dominado pela tecnologia.

De certa forma, percebe-se isto quando é atendido por uma pessoa educada, prestativa, atenciosa e eficaz de um call center. É claro que se você se depara com bestas humanas programadas para se livrar de você no menor tempo possível. Em situações assim, fica até feliz em ser atendido por um robô. Mas quando se depara com alguém que realmente tem a intenção de ajuda-lo, mesmo que sua demanda não seja plenamente atendida, você tende a avaliar bem o atendimento.

E é justamente isto que sempre fez e continuará fazendo a diferença nos negócios. Ser bem atendido é cada vez mais difícil a ponto de notarmos isto quando ocorre. E se deparar com um produto ou serviço UAU é ainda mais raro diante de tanta mesmice dos concorrentes que, já que não podem ser express, são minutos, ou se não são originais, pelo menos são autênticos, genuínos ou ainda, legítimos.

Veja também:
• O futuro do empreendedorismo já começa no ensino fundamental
• O Brasil precisa de universidades que formem mais empreendedores
• Loucura, loucura, loucura: Pequeno guia para empreender em 2018

Em situações assim, serão os colaboradores que farão a diferença. Na semana passada, depois de ter me aborrecido muito com o internet banking do meu banco, e com baixíssimas expectativas de ser bem atendido, liguei para o call center. Não sei se foi sorte, mas o atendente ficou mais de 30 minutos tentando (sinceramente) me ajudar até conseguir encontrar a falha no sistema. Eu, que pensava em trocar de instituição bancária, agora estava feliz em ter sido bem atendido. Muitas empresas contratam seus colaboradores pelo seu potencial, mas se esquecem disso, tratando-os como subalternos incapazes de pensar, e assim, de agir. Os empregados só retribuirão o mesmo atendimento que recebem para clientes e parceiros.

Enquanto muitas empresas tradicionais estão investindo em novas tecnologias para minimizar as dores de cabeça com seus clientes, empregados e fornecedores, novas empresas e empreendedores estão utilizando-as justamente para enriquecer as relações humanas.

Quando Elon Musk (Tesla, SpaceX, SolarCity) não só responde pessoalmente uma mensagem de um cliente como atende rapidamente sua solicitação, muitos o aplaudem nas redes sociais. Mas esta prática é comum em boa parte das startups em que seus fundadores são os responsáveis pelos contatos de reclamações e sugestões.

O Google costuma contratar os colaboradores mais talentosos do mercado e os deixa trabalhar tão livremente que seus escritórios mais parecem um clube do que um local de trabalho. Por trás deste aparente parque de diversões, há um poderoso método chamado OKR (Objectives and Key Results) que integra esforços, incentiva desempenhos superiores e ainda libera a responsabilidade de cada um.

E ainda tem os fornecedores e prestadores de serviços que muitas organizações chamam hipocritamente de parceiros, mas criam relações baseadas na desconfiança e pressão por custos cada vez menores. O Dr. Consulta conseguiu inverter esta relação do médico que passa a ser um real parceiro da clínica em que está associado, ganhando mais do que daquele plano de saúde que o considerava incompetente ou desleal diante de tantos pedidos de exames ou novas consultas.

Todas as empresas querem clientes que divulguem (positivamente) suas marcas, colaboradores que superem seus potenciais e parceiros realmente engajados com o sucesso dos seus negócios. Mas muitas se esquecem (ou não sabem) que enquanto a tecnologia se torna uma commodity, são as pessoas (tratadas como tal) que farão a verdadeira diferença.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper

O Brasil precisa de universidades que formem mais empreendedores

29 de novembro de 2017

Poucos conhecem Ronald Degen e Silvio Aparecido dos Santos. Eles lançaram, solitariamente, ainda no início da década de 1980, os primeiros cursos de empreendedorismo do Brasil na FGV-SP e FEA-USP quando o termo sequer era conhecido no País. Neste momento, o saudoso professor Cleber de Aquino trazia empreendedores como Omar Fontana, Jorge Simeira Jacob, Matias Machline e Yvonne Capuano para conversar com os alunos, mas poucos se interessavam em ouvir suas trajetórias e aprendizados. Não havia nada de útil ali para quem sonhava em seguir o caminho do emprego vitalício em alguma grande empresa.

Mas veio a fase de forte crescimento da inflação associado à queda do PIB brasileiro na década de 1980 e abrir um negócio próprio se tornou um caminho obrigatório para sobreviver como foi o caso do engenheiro que virou suco. Após perder seu emprego em uma metalúrgica em 1982, o engenheiro Odil Garcez Filho tornou-se conhecido no País por abrir uma casa de sucos na Avenida Paulista.

Veja também:
• O futuro do empreendedorismo já começa no ensino fundamental
• Em um mundo cada vez mais tecnológico, o futuro do empreendedorismo é ser humano
• Loucura, loucura, loucura: Pequeno guia para empreender em 2018

Quase 40 anos depois, há diversos novos caminhos, e a situação do empreendedorismo em relação ao emprego inverteu de forma surpreendente. Em 2016, tornar-se dono de um negócio próprio era o quarto sonho mais desejado pelos brasileiros adultos segundo a pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor. Empreender só perde, em prioridade, para comprar uma casa própria, viajar pelo Brasil e comprar um automóvel. Ser empregado (fazer uma carreira em uma empresa) é apenas o 8º sonho, perdendo apenas para casar ou constituir uma nova família e comprar um computador ou smartphone.

Apesar da evolução da importância do empreendedorismo entre os brasileiros, muitas universidades e outras instituições de ensino superior ainda não priorizaram a educação empreendedora nas suas grades curriculares e muitos docentes ainda percorrem um caminho tão solitário como os dos professores Degen e Santos na década de 1980.

Em um momento em que a maior taxa de desemprego está justamente na faixa de idade entre os recém-formados, reitores e dirigentes de instituições de ensino superior deveriam priorizar de forma estratégica, integrada e, principalmente abrangente, diversas iniciativas de empreendedorismo.

Estratégica, incluindo o empreendedorismo como um dos pilares da formação dos seus egressos. O Senac-SP, por exemplo, há muitos anos incluiu a atitude empreendedora como um dos pilares da formação dos seus alunos. A Unicamp vai além e identifica os empreendedores formados pela instituição, mensurando seu impacto em receitas e geração de empregos, seguindo o modelo já adotado pelo MIT e Stanford.

Integrada, associando as diversas disciplinas da grade curricular com suas aplicações inovadoras e empreendedoras. Neste contexto, a FIAP extinguiu o formato tradicional de TCC e introduziu o modelo de startup como trabalho final de todos os cursos de graduação e pós.

E abrangente, permitindo diversas combinações e iniciativas que promovam o comportamento empreendedor de seus alunos, docentes, ex-alunos e outros membros da comunidade. No Insper isto já começa pelos nomes de empreendedores das sala de aula, passa por iniciativas como o Centro de Empreendedorismo e rede de investidores anjos, até permear em diversas iniciativas criadas e geridas pelos próprios alunos.

E em momentos como o atual em que muitos caminhos se fecham para quem perde o emprego e outros que tentam buscar novos caminhos para seguir em frente, os mais empreendedores constroem os seus.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper, Consultor Acadêmico de Empreendedorismo do SENAC/SP e da FIAP

A rede empreendedora sustentável

28 de novembro de 2017

 

 

Uma das grandes satisfações que tenho no dia a dia é o contato direto, no balcão, com as pessoas que frequentam as lojas. Tenho um interesse genuíno pela vida de cada um, que me enriquece, e termina por desenvolver amizades e ótimos encontros. Esses contatos fortuitos com clientes – às vezes são alguns segundos, uma frase; e outras vezes rende vários dias de conversa – seja de receitas, de viagens, e da vida em geral, me trazem grande prazer, sendo um grande bônus do trabalho.

Nesses encontros do acaso, na semana passada conheci a Glória Andrade, empreendedora de sucesso na área de eventos. A Glória me contou que a filha passou a não comer carne em certo momento, e isso aprofundou a curiosidade dela nesse mundo do alimento saudável: de onde vem, como chega até o consumidor, onde está o produto, etc. “A dificuldade de encontrar as informações organizadas é enorme, é tudo na sorte do Google”.

Acompanhando os interesses da filha, Gloria começou a pesquisar, experimentar, conhecer pessoas e projetos criativos, e o lado empreendedora dela começou a formatar uma ideia – vinda da própria necessidade de informações – de conectar pessoas interessadas numa alimentação saudável, como ela e a filha, com as empresas que compartilham os mesmos valores.

Assim surgiu a primeira plataforma digital – em parceria com a Safra Digital – com propósito de reunir empresas que priorizam o uso de recicláveis, orgânicos, não poluentes, naturais, em sintonia com o meio ambiente, chamada Maria Conecta.

Fiquei fascinado no projeto, pois me identifiquei tanto como consumidor quanto como empresa, e achei ótima a iniciativa de poder encontrar mais empresários com as mesmas afinidades – e construir parcerias em busca de custos, de novidades, de informação. Virei fã e apoiador imediato.

Fica o convite a empreendedores e consumidores, de visitar a plataforma, fazer contato, levantar a bandeira abraçar esta causa, que vale a pena.

Ivan Primo Bornes – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br

O futuro do empreendedorismo já começa no ensino fundamental

27 de novembro de 2017

Para muitos pais, agora avós, o futuro funcionou no Século XX. Enviaram seus filhos para as melhores escolas, para que entrassem nas melhores faculdades e daí, conseguissem os melhores empregos nas melhores empresas. Mas os pais nascidos no final do século passado sabem, mesmo que inconscientemente, que este futuro já não existirá para seus filhos.

Olhando para o destino final do futuro antigo, quais serão as melhores empresas onde nossos filhos trabalharão? Pesquisa apresentada por Pierre Nanterme, CEO da Accenture, uma das principais consultorias de negócios do mundo, aponta que metade das maiores empresas que apareciam no ranking Fortune 500 no ano 2000 já não aparecia na lista 15 anos depois.

Veja também:
• O Brasil precisa de universidades que formem mais empreendedores
• Em um mundo cada vez mais tecnológico, o futuro do empreendedorismo é ser humano
• Loucura, loucura, loucura: Pequeno guia para empreender em 2018

E quais serão os melhores empregos? O Século XX consolidou o conceito de emprego de longo prazo. Sonhava-se aposentar trabalhando orgulhosamente na mesma instituição durante toda a vida. Depois, trabalhando em duas ou três empresas. E já no final do século, apenas aposentar-se já era um alívio. Mas a preocupação atual não é apenas manter-se empregado, mas saber o que será um emprego na próxima década. Pesquisa da Manpower, uma das maiores empresas globais de contração de pessoas, aponta que 65% dos empregos da próxima geração será composta de funções que ainda não existem atualmente.

E esta projeção é uma das mais baixas. Outra pesquisa da Dell prevê que 85% dos empregos será ofertado em funções totalmente inéditas atualmente. Se o futuro do emprego será composto de novas funções, o que acontecerá com as antigas? Um recente estudo da Universidade de Oxford prevê que, pelo menos, 47% das funções desaparecerão ou perderão muito da sua importância nas próximas décadas.

Isto já aconteceu com a função caixa das agências bancárias, está impactando agora os atendentes de call center (trocados por chatbots) mas vai avançar em funções muito especializadas como professores, médicos e advogados. Este é o impacto do que vem sendo chamado de 4ª Revolução Industrial, que integra diversas tecnologias disruptivas como inteligência artificial, big data, internet das coisas para não só substituir como realizar com muito mais eficiência e escala funções profissionais cada vez mais complexas.

Neste contexto, as melhores faculdades estão formando profissionais do futuro ou para o futuro do século passado? No Brasil, o desemprego entre os recém-formados é mais que o dobro do que na média da população. A crise econômica, com certeza, tem forte impacto neste indicador, mas a preparação defasada do jovem profissional que chega ao mercado de trabalho é ainda maior. O resultado direto disso é o crescimento de cerca de 25% dos cursos de pós-graduação observado pelo Ministério da Educação nos últimos três anos.

Diante de tantas incertezas e novidades, muitos pais estão aflitos sobre qual é a melhor educação que precisam oferecer para os seus filhos e isto passa também pela escolha da escola.  Mas a melhor opção é aquela que prepara seu filho para o vestibular ou para a vida?

Pais que podem escolher e sabem a resposta desta questão e reconhecem a importância das escolas de ensino fundamental e médio que incluem a formação empreendedora no programa curricular.  E as escolas que realmente entendem o empreendedorismo como uma das principais habilidades pessoais do Século XXI sabem que isto não se resume a ensinar as crianças a abrirem negócios. Empreendedor é um visionário que tem iniciativa, que sabe identificar oportunidades e estabelecer soluções inovadoras. Ser um empreendedor não se limita às pessoas que começam os seus próprios negócios. O comportamento empreendedor existe em todos os setores, em todos os níveis de carreira, em todos os momentos da vida.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper

 

Sejamos como a água, que passa pelas fendas

19 de novembro de 2017

Sempre digo que um empreendedor precisa de um grande capital de informação. Informação é alimento de primeira necessidade. Mas precisa, ainda mais, de largos estoques de inspiração.

Quando falo de inspiração não me refiro apenas a ideias práticas para o negócio em si. E sim de sopros para o estado anímico – porque em negócios, a atitude faz toda a diferença. Motivar equipes, lidar com clientes, negociar com fornecedores, credores ou devedores, gerenciar contratempos mil, tomar decisões no calor do momento… tudo exige espírito preparado e uma certa calma marcial.

Acho importante ler biografias e textos de empresários visionários – atuais ou de outros tempos – mas as melhores fontes para beber inspiração nem sempre são necessariamente ligadas ao mundo dos negócios. Às vezes, os oráculos estão bem longe do universo empresarial.

Por exemplo, eu tenho particular devoção por Bruce Lee. Em alguns momentos de grande tensão, com mil coisas acontecendo e prestes a explodir, posso parar e lembrar de ensinamentos dele, que misturam palavras como “combate”, “força” e “gentileza” na mesma frase. Situações que demandam energia e movimentos precisos com os de um lutador de artes marciais. Inevitável um sorriso nessas horas, com a clássica cena em que ele chama os inimigos ao combate de forma zombeteira e desafiadora, com um gesto de mão (https://youtu.be/9PAW5Cden4U)

Ele também foi um empreendedor, e deixou sua marca e ensinamentos cheios de leveza, sabedoria e força. Uma combinação sensacional. Aqui um pouco de seu jeito de pensar:

1.      Saber não é suficiente. Você precisa aplicar. Vontade não é suficiente. Você precisa agir

2.      Vontade forte cria seus próprios talentos e oportunidades

3.      Se você passar muito tempo pensando sobre uma coisa, nunca vai fazê-la

4.      Não é o trabalho, mas como você o faz

5.      Derrota não é derrota, a menos que você a aceite como uma realidade em sua própria mente

6.      Faça da pedra de tropeço um degrau de subida. Cada fato negativo pode ser transformado em uma experiência positiva

7.      Se você pensa que é impossível, só vai torná-lo impossível

8.      O que você sabe não tem valor; o valor está no que você faz com o que sabe

9.      A confiança nasce do conhecimento

10.   Guardo meus infortúnios passados como um tesouro na memória. Eles acrescentam muito à minha fortaleza interior

11.   Para o inferno as circunstâncias, eu crio oportunidades

12.   Seja como água que passa por entre as fendas

Como Caetano já dizia, no mundo dos negócios, é melhor ser “tranquilo e infalível como Bruce Lee”.

Ivan Primo Bornes – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.brivan.primo@pastificioprimo.com.br

Era uma vez Nokia, Orkut, Second Life, Fotolog, Flickr, Flogão, HpG…

17 de novembro de 2017

Parece ontem…

Todos os dias, 900 milhões de pessoas negociam, fofocam, flertam, riem, gritam e choram em um Nokia. Um dia, nos próximos meses, um Nokia irá chegará às mãos do seu bilionésimo cliente. McDonald´s e Coca-Cola podem alegar que têm mais clientes, mas a experiência que eles oferecem é um pouco mais transitória. Você não sai de casa sem o seu telefone. Se julgar uma marca pela sua influência ou alcance, Nokia pode ser a marca mais bem sucedida na história” – assim começava a reportagem sobre a celebrada empresa finlandesa em uma importante revista norte-americana de negócios.

Naquele momento, o Orkut rumava para alcançar 40 milhões de usuário só no Brasil, colocando o país como o principal no mundo nesta rede social. Sem medo de ser feliz, mais de seis milhões de brasileiros ficavam dormindo no grupo “Eu Odeio Acordar Cedo” e outros mais de três milhões e meio de pessoas se divertiam no grupo “Deus me disse: desce e arrasa!”. O Orkut ainda reunia milhões de brasileiros em grupos como “Eu abro a geladeira para pensar”, “Queria sorvete, mas era feijão”, “Odeio esperar resposta no MSN”, “E INCOMODO?? Que peeena !!!”.

Mas o Orkut era para zoar com os amigos, rede social high tech mesmo era o Second Life e o Brasil era o quarto maior mercado na rede social de realidade virtual. Você criava um avatar e poderia visitar diversos ambientes se o seu processador e sua internet discada ajudasse e participar de eventos como aulas e palestras e além de poder fazer transações comerciais pagando em Linden dólar (L$). O SL era o futuro e muitas grandes empresas, bancos, universidades e até igrejas pagaram para ter suas versões na segunda vida.

O Brasil também era muito importante para o Fotolog. Como o Google limitava a publicação de fotos no Orkut, a rede social de imagens cresceu rapidamente. Neste momento, mais de três milhões de brasileiros, cerca de 26% do total de internautas (sim, utilizava-se este termo) publicavam dezenas de fotos diariamente no Fotolog. Diante do sucesso do Fotolog ao redor do mundo, o Yahoo! decidiu fechar seu Yahoo! Photos para apostar todas as fichas no Flickr, startup que tinha comprado dois anos antes por US$ 25 milhões. Mas para cada startup de sucesso, havia um clone brasileiro e este era o papel do Flogão, que se autodenomiva “O Fotolog do seu jeito”.

Enquanto as redes sociais faziam muito sucesso entre os brasileiros, havia uma ótima concorrência entre os provedores de páginas web grátis. O Brasil representava o quinto maior mercado para o Geocities, que havia sido comprado pelo Yahoo! por inacreditáveis US$ 3,57 bilhões e diante do seu sucesso. Na briga por este espaço, iG havia comprado o HpG, a Globo havia lançado o kit.net e os fundadores do HpG, retornaram com o XpG.

E o MSN reinava absoluto no Brasil. Entre os cerca de 40 milhões de pessoas com acesso à internet, 30,5 milhões utilizavam o MSN para trocar mensagens e economizar nos torpedos, colocando o país na primeira posição mundial.

Mas tudo isto foi em 2007…  ¯\(°_o)/¯

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper